N/a: Olá amoooores, quantas saudades *-* Eu voltei finalmente com um capítulo novinho depois de 5 meses. Eu sei eu estou no erro com vcs, mas quero dizer que a fic voltou com força total. Não sei a frequência que vou postar daqui pra frente, pq o final do ano tá aí, e vcs n tem ideia de quantas coisas eu tenho pra fazer. Mas prometo não negligenciar a fic dessa forma novamente. Eu fiquei mto desmotivada, mas acho que o lançamento de A Esperança no final dessa semana me animou. Espero que gostem do capitulo queridos, espero muuuuitos reviews. Beeeijos e obrigada pelas mensagens de incentivo, prometo respondê-las uma por uma assim que for possível :*


E então, no fim da noite, quando os beijos eventualmente tornaram-se algo incrivelmente poderoso, eu comecei a sentir que precisávamos um do outro cada vez mais, e que eu preciso dele além do que eu pensava ser possível. Beijos tornaram-se lentamente mais novamente e eu não consegui escapar da fome que eu senti pela primeira vez na praia.

Eu preciso dele. Eu preciso dele. Eu preciso dele.

E depois, ao permanecer em seu braços, eu percebo que isso vai muito além da necessidade. Essa terrível proximidade já passou de ser sobrevivência há muito tempo.

Qualquer dúvida persistente ou traço de negação desaparece. Sejam quais forem os sentimentos, que eu ainda possuo, que me empurrem para baixo, são ignorados diante da inundação de felicidade que me consome. E eu sei.

Eu me enrosco ao lado dele e coloco a minha cabeça em seu peito. Se o seu coração pôde voltar a bater, mesmo após tantas mortes, certamente as peças do quebra-cabeça podem voltar a se encaixar. Então eu ouço as batidas do seu coração como se fossem o som mais glorioso do mundo.


Silencioso. É assim que eu descrevo o distrito pelos os próximos dias e semanas. Em todo o país, a reconstrução consome as partes devastadas pela guerra. E por alguns dias, quando uma seção distante dos trilhos precisou ser reparada, o nosso distrito ficou inacessível e aero-deslizadores puderam ser acionados para os fins mais importantes. Felizmente, Plutarch e seu programa de TV não encontraram uma necessidade urgente de nos visitar. Nesses dias felizes, não houve a ameaça de lentes curiosas e estamos alcançáveis apenas por telefone.

"Estamos felizes pela paz," disse Peeta quando os repórteres inevitavelmente ligaram "que o derramamento de sangue acabou. E aliviados que, até mesmo por um breve instante, as pessoas possam ter um momento de alegria."

Nesse silêncio feliz, me sinto mais segura, melhor. Peeta é uma constante de alegria, com suas mãos em volta de mim nas noites de verão, como se formássemos uma bolha em volta de nós e o mundo lá fora apenas não existisse. Em seus braços, eu quase sinto como se eu pudesse derreter. E talvez seja o calor o nosso melhor companheiro, porque a nossa relação parece estar crescendo cada vez mais com o passar do tempo.


"Você sabe o que eu gostaria?" Peeta reflete no fim de uma noite qualquer, em uma voz tão baixa que eu tenho certeza de que eu não deveria estar ouvindo. "Me casar com você."

Pareciam ser os pensamentos ociosos de um menino perdido em devaneios e não uma sugestão séria. Então eu tomo a iniciativa de quebrar as regras pela primeira vez e decido acabar com a calmaria do seu jogo de declarações sussurradas, que sempre acontecem quando ele pensa que eu já peguei no sono.

"Mais uma vez?" Eu respiro.

Peeta fica rígido em volta de mim e prende a respiração. Ele não esperava que eu estivesse ouvindo. Eu viro a minha cabeça, que está em seu peito e olho diretamente pra ele. Acho que nunca vou conseguir me acostumar com o poder que aqueles olhos brilhantes e profundamente azuis passaram a exercer sobre mim. Eu dou um breve beijo em seu maxilar, provando que está tudo bem. Ele parece voltar a respirar aos poucos depois disso.

"Mais uma vez?" ele pergunta em voz alta, em um tom frustrado e um pouco assustado, que ele reserva para quando ele não consegue encontrar uma memória. "Mas, nós..."

"Alguém disse diante de toda a Panem que nos casamos em segredo." Eu corro um dedo lentamente pelo seu braço, querendo que ele se acalme, para que eu possa me enrolar nele e desfrutar da calmaria da noite.

"Oh."

Ele desenrosca as suas pernas das minhas, sentando-se contra a cabeceira da cama de uma maneira pensativa, passando calmamente a mão em meus cabelos, enquanto separa as memórias brilhantes da fosca realidade.

"Mas não casamos." Todas as dicas de incerteza desapareceram. Ele está seguro dessa afirmação.

"Será que isso importa?" Eu me enfio debaixo do lençol amarrotado, apoiando a minha cabeça em suas pernas e apreciando o seu carinho, sinalizando claramente a minha preguiça. Conversar nesse momento é a última opção da minha lista. O a luz do luar que passa pela janela está iluminando os seus lábios. Eu ainda consigo sentir o gosto de Peeta em minha própria boca, um lembrete de uma enxurrada de beijos de tirar o fôlego, que eventualmente se tornaram mais, há alguns instantes atrás.

"Sim." Ele é definitivo em sua resposta.

Não importa para mim. Eu não quero o espetáculo e o aborrecimento que coisa toda poderia ser. "O Edifício de Justiça ainda está destruído", eu o lembro.

Mas assim que as palavras escapam, tudo em que eu posso pensar é na pilha preta de escombros fumegantes que o prédio se tornou, que é exatamente ao que eu tenho reduzido os sonhos de Peeta desde o início.

Eu sei que isso importa para ele. É algo que ele realmente quer: uma memória para preencher o vazio. Haymitch me disse isso quando eu o visitei essa semana. É a razão pela qual eu ainda estou na cama, relativamente imperturbável, não colocando as minhas botas e lutando para não sair pela porta como se minha vida dependesse disso.

Essa ideia vem crescendo mais e mais na minha cabeça, martelando. Passei dias pensando sobre isso. E eu não deveria precisar de dias para refletir sobre o assunto, não realmente.

Ele merece toda a felicidade que ele possa sonhar, mesmo que eu nunca vá merecê-lo.

Eu desejo tão desesperadamente não dizer a coisa errada agora. Eu quero que ele diga alguma coisa, qualquer coisa que me deixe saber o que ele está pensando. Mas ele é mais rápido do que eu esperava que ele fosse. Puxando seu short da cadeira, ele beija a minha testa e diz que vai buscar um copo d'água, mesmo que eu queira que ele fique e continue seus carinhos em minha orelha, enquanto eu divago em pensamentos.

Minha cabeça está muito confusa então eu o sigo ainda meio sonolenta, quando percebo que ele está demorando muito no andar de baixo.

"Volta para a cama", eu chamo descendo as escadas, enquanto as palavras de Haymitch ecoam na minha cabeça.

"O garoto veio me ver mais cedo, enquanto você estava caçando" Haymitch me observa enquanto eu o sirvo com um pedaço de pão que eu trouxe para o seu jantar.

Pelo seu tom, posso dizer que ele não está falando sobre as suas ligações sociais habituais ou checagens de bem-estar.

"Parece que ele quer te fazer uma pergunta"

Obviamente, não se trata de memórias modificadas ou de medicamentos que melhorem a sua dor da cabeça.

"Mais uma vez".

Não é a primeira vez que eu escuto isso. Os tablóides estavam enlouquecendo com os rumores de sua visita à Capital. Como eu poderia ignorar isso, se durante as últimas semanas os vizinhos estavam curiosamente esbarrando em mim com grandes sorrisos. Eles querem saber se é verdade que Peeta me comprou um presente, se ele me fez algum pedido. Eu sorrio e digo-lhes que o chocolate estava maravilhoso e que eu mal posso esperar até uma loja de doces abrir aqui.

Sento-me à mesa com Haymitch, desejando ter lavado a louça do jantar ao invés de me voluntariar para me certificar se ele andava comendo algo sólido. Nossos vizinhos especularem são uma coisa. Agora Haymitch perder seu tempo para conversar comigo sobre isso significa que é tudo muito real.

"Eu pensei que você deveria saber", ele continua. Então você não vai fazer algo estúpido está implícito em sua frase.

Haymitch segura uma faca e começa a cortar o pão ainda fumegante. "Não há como mudar a opinião desse menino." Ele revira os olhos. "Eu não sei com o que você está enchendo a cabeça dele. Dois teimosos" Ele suga para baixo os últimos restos de uma garrafa e a coloca entre nós.

Ele está acumulando uma coleção de garrafas de vidro vazias em cima da mesa. A casa de Haymitch está escura como sempre, mas parece ter sido limpa há alguns dias.

"Ele fez tanto progresso. Eu não quero que ele sofra uma regressão." É uma acusação. "E você?"

Culpa. Ele sempre soube a melhor maneira de chegar até mim. Minhas unhas de repente se tornaram a coisa mais interessante na sala.

Eu dou de ombros, sem saber o que pensar. Eu sei o que Haymitch está me pedindo. Que eu seja capaz de sentir qualquer coisa pelo garoto dedicado que salvou a minha vida tantas vezes, e de tantas formas, que seria impossível enumerá-las.

"Tudo isso já não é o suficiente?" Eu pergunto, de repente atormentada por pensamentos frenéticos de que Haymitch ainda acredite que a partilha de uma vida, uma casa e uma cama com Peeta ainda não seja sincera. Que seja apenas alguma estratagema egoísta minha, que eu estou usando ele para esse fim.

"Não é tão simples como o que é suficiente ou não. É algo sobre a consciência do garoto, uma noção cavalheiresca para fazer as coisas direito", Haymitch explica.

Sua resposta foi auto-explicativa o suficiente. Minhas inquietações e revolta são retiradas diante disso.

"Depois de meses, finalmente eu estou feliz com o nosso acordo. Mas aparentemente, Peeta só faz querer mais. E casamento não é algo que eu tenha certeza que eu possa oferecer no momento."

"Ele se preocupa todos os dias. Que ele irá acordar e alguém tenha te tirado dele, que você irá se machucar caçando, que eles irão levá-la de volta para a Capital, que você irá mudar de ideia, escolher outra pessoa. Você não iria fazer outra escolha, não é?"

Não é como se Haymitch fosse insensível. Ele não quer dizer que, para ser franca, a vergonha me causa remorso, apesar de ser muito pior. Ele apenas quer deixar claro que essa ferida, apesar dos constantes lembretes de amoras e teleguiadas, finalmente foi fechada, mas que pode ser reaberta a qualquer momento.

"Que escolhas?" Eu questiono.

"Poderia ser Peeta, Gale", ele olha para a televisão. "Poderia ser Prim", diz ele sombriamente. Correndo atrás do fantasma da minha irmã é provavelmente o que ele pensou que eu estava fazendo, há algum tempo, sozinha na floresta. "Morfináceo, qualquer outra coisa", ele olha para a garrafa de vidro vazia na mesa mais próxima a ele. "Há sempre escolhas."

Eu deixo as palavras de Haymitch afundarem em meu interior. Nas escolhas de Haymitch. Ele fez suas escolhas, não posso pedir que ele faça as minhas. Escolhas da minha mãe. Peeta é uma escolha. Nem sempre pareceu assim. Ele foi tão forçado a fazer tudo. Às vezes eu acho que estou quase forte o suficiente, apenas para perceber que ainda não é o bastante quando não me vejo sem Peeta ao meu lado em nenhum momento, quando eu penso em um futuro. Ele é o dente de leão na primavera. O amarelo brilhante que significa renascimento ao invés de destruição. A promessa de que a vida pode continuar, não importa o quão ruim sejam as nossas perdas.

E de alguma maneira, a minha visita de entrega de pães à noite se transformou em uma lição de vida.

"Não há tempo", Haymitch me assegura. "Peeta provavelmente poderia te esperar para sempre, mas você realmente quer que ele espere? Depois de tudo o que ele passou?"

Peeta está feliz. O mais feliz que ele tem sido desde que estivemos em casa juntos. Ele cozinha. Ele pinta. Desde aquela noite, nossa primeira noite realmente juntos, ele nunca me deixa sair da sala sem um beijo. Ele merece ser feliz.

Examino a mais nova garrafa vazia para me distrair. Marrom. Não está claro pra mim o que é. Este mês Haymitch está interessado em rum, cervejas pretas e conhaque. Ele ri mais, bebe menos. Ele pode ser considerado praticamente alegre, às vezes. Infelizmente, quando ele está consciente, ele é um pouco língua solta, então seus conselhos tem fluxo livre. O que poderia ter vindo a calhar nos últimos anos, quando seu melhor conselho eram duas palavras: fique vivo.

"E quanto a você, Haymitch?" Pergunto após uma pausa. Tem de haver mais pra ele do que os fantasmas do passado e ser babá de duas crianças de parafuso solto.

"Eu consegui o que queria, não é?" ele bufa. "Uma casa grande. Vizinhos desagradáveis. Um quintal cheio de animais de estimação."

Ele abre um sorriso que mostra um dente descolorido que precisa ser olhado.

E talvez ele tenha conseguido o que queria. Não ter mais que treinar crianças desnutridas para a morte. O fim de Snow e das suas ameaças e veneno. E mais importante ainda, o fim dos pacificadores ou de vitoriosos que restrinjam a sua ingestão de bebida. Dou-lhe um meio sorriso, esperando que ele esteja pelo menos um pouco mais feliz do que ele era.

"Você tem a mim." Dou-lhe um encolher de ombros alegre, digno de Effie. Tenho certeza de que Chefe da Doação de Conselhos Amorosos não era um cargo que ele esperava receber como recompensa por sua dedicação e esforço na guerra.

"Os malditos gansos são menos problemáticos do que você", ele repreende.

Eu saio da cadeira e caminho para a cozinha. Trago um copo de uísque com gelo, o pão recém saído do forno e um prato de carne fatiada coberto com queijo. "Eles não vão te trazer isso."

"Eu sabia que havia uma razão para eu ter escolhido você", ele sorri.

Eu enrolo o lençol branco em volta de mim e vou lá embaixo, onde Peeta está tomando um copo de água gelada.

Ele me vê e, sonolento, o seu sorriso de pálpebras pesadas se direciona para mim. Peeta se senta na cadeira ao lado dele, segurando o copo de vidro. Parte de mim quer enrolar o lençol ao nosso redor e puxá-lo direto para a cama, mas eu me contenho.

É uma noite quente e abafada, o tipo de calor em que a roupa no varal não seca completamente. Eu me ajoelho em frente à lareira e removo a tela de proteção. Ela não tem sido utilizada há meses, então demora a acender. Depois de diversas tentativas falhas, eu a convenço a retornar à vida. Eu posso sentir a chama praticamente lamber meu peito e instantaneamente desejo que eu tivesse bebido um pouco de água antes de vir para cá.

"Katniss?" Peeta usa um tom de voz receoso.

Eu dou um encolher de ombros confuso e sigo em direção à cozinha. Água gelada em primeiro lugar. Então, depois que eu encontro o que estou procurando, eu escondo sob os lençóis e retomo o meu lugar junto à lareira.

"Vem aqui", eu digo, não revelando nada.

Ele suspira, coloca o copo na pia e vem se juntar a mim.

"Vamos voltar para a cama", diz ele, prendendo os lençóis em torno de mim, em um desses gestos excessivamente preocupados que fazem seus olhos faiscarem. Somos só nós dois, por isso a colocação de nossas roupas em casa não deveria importar, mas para ele esse gesto íntimo faz toda a diferença.

"Eu pensei que poderíamos... Você sabe.", e eu lhe mostro o pão.

Ele não fala nada por tanto tempo que eu tenho certeza de que fiz a pior coisa possível. Eu devo ter acionado algum tipo de gatilho e eu olho em volta procurando o seu remédio, o telefone, qualquer coisa que possa ajudar.

Quando estou chegando à beira do pânico, ele finalmente pega a minha mão. "Você tem certeza?"

E eu percebo que ele não está lutando contra um ataque, e sim contra as lágrimas. Ele está tentando, como ele sempre faz, ser forte por mim. Só ele consegue ser forte de um jeito que eu nunca vou ser.

Eu me jogo contra ele e coloco a minha cabeça em seu ombro. "Se você quiser." Foi ideia dele de qualquer maneira: ao contar na frente de toda Panem como se tivesse ocorrido em segredo na entrevista do ano passado, sua declaração há poucos minutos, a mensagem não tão sutil de Haymitch para que eu fizesse o garoto feliz.

Ele deixa escapar um longo suspiro. Ele vai me dizer não. Ele mudou de ideia. Eu recuo de seu abraço e preparo um sorriso compreensivo. Vamos apenas voltar para a cama como se nada tivesse acontecido.

"Isso é sobre mais cedo?" ele sussurra. "Eu não estava dizendo que tínhamos que fazer."

"Está na hora", digo-lhe com uma confiança fingida.

"Eu queria fazer isso direito." Ele beija o topo da minha cabeça. "Eu tinha tudo planejado. Você quer que eu me ajoelhe?"

Eu beijo o seu ombro e balanço a minha cabeça. Ele não precisa fazer isso. Uma vez já foi mais do que suficiente.

"Um piquenique. Algum lugar verde e lá fora. Ao pôr do sol." Ele está perdido em um devaneio, me atraindo. "Eu achei que você iria gostar. Eu tinha tudo pronto na minha cabeça..."

Haymitch me contou o que ele queria fazer para que ele não me pegasse desprevenida e eu reagisse da forma errada. Peeta queria fazer isso direito e aqui estou eu fazendo decisões impulsivas no meio da noite. Deveria ser algo pensado, não feito no calor das emoções. É um momento para se guardar por toda uma vida.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Eu estraguei tudo, eu quero dizer. Acho que eu deveria ter deixado Peeta tomar a iniciativa e não apressar as coisas da forma que eu fiz. Mas esse momento parecia tão certo...

"Não precisa ser agora", eu descarto a minha ideia e me levanto para apagar o fogo ridiculamente sufocante.

Ele pega a minha mão. "Agora é perfeito pra mim."

Peeta não me deixa protestar, mas pede que eu lhe dê alguns minutos. Seu olhar muito esperançoso é o incentivo que eu preciso para continuar.

Ele remexe nos armários da cozinha, sem dúvidas, trazendo algo bem mais perfeito do que a minha tentativa totalmente improvisada. Eu me empoleiro no sofá, longe do calor, assistindo Peeta pegar isso e aquilo. Ele ainda fez uma viagem rápida até sua casa. Eu cochilo, pensando em como as coisas entre nós evoluíram em tão pouco tempo.

Ele me beija, me trazendo de volta dos meus pensamentos, me tentando com fatias de maçã, doces e chocolates. Ele estende uma toalha de piquenique em frente a lareira. É sua tentativa de melhorar a minha proposta de outra maneira gritante, torná-la uma memória mais do que uma reflexão tardia e impulsiva.

Eu me junto a ele no chão. Eu pedi. Ele pediu também. Está acontecendo.

"Eu tinha planejado", ele aponta. E eu posso imaginar isso agora. O pôr do sol. O pedido. A memória que ele queria.

"Deixa eu ir me arrumar", eu digo, de repente ciente do meu cabelo despenteado, da aparência desgrenhada, do tecido branco amarrado em volta de mim em um vestido improvisado. Eu deveria dar a ele uma memória que não fosse um capricho de sangue quente.

Ele se inclina para o meu pescoço. "Você está gloriosa."

Eu tento discutir com ele, mas ele está irredutível.

"Era isso que você queria?" Eu aponto as minhas vestimentas.

"Você é o que eu sempre quis."

Eu nunca vou ser tão perfeita como a menina em seus desenhos e pinturas, mas hoje eu posso dar a ele algo que ele quer desesperadamente.

No calor do verão feroz, nos sentamos em frente à minha lareira e fazemos promessas um ao outro.

Bolas de fogo, bestantes, feridas, tiros, duas arenas e uma guerra e esta ainda pode ser a coisa mais assustadora que eu já fiz. Ao contrário dessas outras situações que eu não podia ver chegando, eu tive anos para construir essa fobia, para ver os mundos dos outros desmoronar, perder entes queridos, para me endurecer de sentir.

Entretanto, também pode ser a mais bonita, honestamente. Somos só nós dois. Como tem sido há um bom tempo. Não há elegância. Nada de belos vestidos ou smokings lustrosos.

Mesmo com cicatrizes e sem camisa, Peeta nunca me pareceu mais bonito. Todo o seu semblante irradia alegria: olhos, bochechas, sobrancelhas e até mesmo a forma como ele passa a mão nos cabelos. Ele me olha novamente, de uma maneira que chega a beirar o infantil. Ele parece muito mais jovem do que ele tem sido desde que nossas vidas se cruzaram. Seu sorriso está um pouco grande demais, uma mistura de nervosismo e descrença.

Nós mergulhamos o pão no fogo. E com as mãos cheias de cicatrizes, nos alimentamos mutuamente dele. Eu esfrego o meu polegar sobre os seus lábios, prolongando o momento.

Seu pão. Meu fogo.

Essa poderia muito bem ter sido a nossa frase, ao lembrar daquele momento há anos atrás, quando ele me alimentou com um pão queimado e tivemos a nossa vida interligada desde então.

O fogo crepita e eu tremo, pensando em todas as coisas que poderiam dar errado. Que eu não vou fazê-lo feliz, que ele vai mudar de ideia, que eu não sei o que estou fazendo...

Mas o pão é vida. E hoje, damos um ao outro uma vida nova.