Capítulo III
Não é um Gryffindor
Harry cedo precisou recordar com exatidão em que momento de sexto curso estava. Ao que parece acaba de falar a Hermione e Ron sobre os horcruxes e estava por jogar contra Ravenclaw pela Copa de Quidditch. Todos esses eram dados que lhe levavam a um dos momentos mais decisivos: o Sectumsempra que lhe lançou a Draco Malfoy. Essa parte tinha que a mudar. E também precisava fazer algo com Ginny Weasley e seu enamoramento para ele. Não podia tentar fingir que lhe passava bem com ela quando sua mente estava concentrada em evitar que ninguém suspeitasse sobre sua lúgubre estado de ânimo.
Duas noites após seu encontro com Snape, decidiu pôr em marcha seu plano para atrair a Malfoy. Olhou o mapa para buscar o nome de Draco e encontrou-o caminhando lentamente pelos corredores, direto à Sala Precisa. Saiu da cama discretamente e apanhou a capa para passar desapercebido. Seguiu-o até a porta da sala e olhou-o duvidar um pouco. Era evidente que Malfoy não queria estar aí, que não queria fazer o que lhe tinham ordenado.
Quando entraram, a sala era um lugar imenso em onde só ressaltava o armário no meio da habitação. Malfoy parou-se um momento a olhar ao artefato, esfregou-se o rosto e suspirou trémulo. Para Harry essa imagem de Malfoy era nova. Durante esses anos tinha sido um rival de escola e depois um inimigo digno nas batalhas. O Malfoy que recordava era o que lhe lançava maldições certeiras e defendia aos rebeldes com selvageria e astúcia. O Malfoy que via neste momento era um garoto cansado, temeroso e a ponto de explodir por toda a pressão que carregava sobre os ombros. Harry não pôde evitar recordar o que Neville lhe tinha dito. Os que ficam são quase uns meninos e isto é o que lhes deixaremos como mundo, um campo de batalha onde terão que brigar a morte sem saber exatamente por que.
A história era como um círculo vicioso que se repetia com os anos e com as mortes. Malfoy, esse Draco Malfoy, era quase um menino e estava a ponto de iniciar uma guerra. Quase podia resultar irônico que, em uns meses atrás, Malfoy tivesse estado alardeando em frente a Zabini e Pansy Parkinson. Harry podia imaginar ao filho de Malfoy crescendo sem seus pais e lutando ao lado de Neville. Esse garoto, Scorpius, não devia de ter nem a mais mínima ideia de como tinha começado tudo. Claro que esse rapaz ainda não tinha nascido. Se conseguia, quiçá o futuro de Scorpius e dos outros seria muito diferente. Mais feliz…
Malfoy caminhou para o armário e acariciou a superfície quase sem dar-se conta. Harry sabia que era o momento de se mostrar e de falar com ele. Atirou sua varinha causando um som oco.
—Quem diabos está aí? —A voz de Malfoy era um pouco temerosa, mas sua mão na varinha não tremia.
—Baixa a varinha, Malfoy. Só quero falar contigo. —Harry falou-lhe sem tirar-se ainda a camada.
—Potter? —Draco vacilou um momento, mas depois olhou pela habitação com a varinha ainda levantada. Harry estava seguro de que a usaria à menor provocação. — Como diabos me descobriu? Me seguiu envolvido nessa capa sua! Sempre suspeitei que devia ter uma capa de invisibilidade. Mostra-te!
—Minha varinha está no chão, Malfoy. Quero estar seguro de que se saio de meu esconderijo não me vai lançar nenhuma maldição. Só quero falar, te prometo. —Malfoy devia de estar pensando em que tinha sido descoberto e em que esse um erro muito grave. Olhou-o deliberar, pensar as opções que tinha. Assim que Draco deixou cair a varinha, Harry tirou-se a capa.
Olharam-se por uns segundos. Draco parecia não achar que estivessem em frente a frente, no meio dessa habitação e ao lado da grande prova de que ele era um comensal enviado por Voldemort com uma missão quase impossível: assassinar a Albus Dumbledore. Harry quase tinha esquecido o obsedado que esteve com a ideia de pegar a Draco durante o sexto curso. Talvez foi aquilo o que lhe impediu ver que Malfoy tinha perdido peso, que tinha o rosto cansado e que sua mirada era de resignação. Draco queria ser pego porque essa era a única forma que tinha de se livrar de tudo sem ser o causante direto do que provocaria. Só que Harry não lhe ia oferecer uma saída senão todo o contrário.
—Tenho um mapa que me mostra a localização de todas as pessoas dentro do castelo. —Draco olhou-o estranhado. Seguramente não entendia por que Harry lhe tinha revelando uma informação tão importante. — Digo-te porque confio em ti. —Malfoy soltou uma risadinha irônica que lhe fez parecer ainda mais cansado.
—Que quer, Potter? —Harry olhou para o armário.
—Ajudar-te. —Malfoy ficou-se estático. — Pensava que te diria o contrário? —Draco engoliu saliva. — Sei o que te ordenou, sei que te pediu que não buscasse ajuda e que te ameaçou. Que disse que te faria? —Malfoy olhou para o solo.
—Disse que mataria a meus pais. Que me mataria… —Harry viu o medo, o terror. Malfoy já tinha tido um encontro com a escuridão profunda. Quis entrar a sua mente, mas conteve-se; tratava-se de ganhar-se a confiança de Malfoy. — Não entendo, Potter. Estou aqui, com o armário. Esta é sua prova de que sou um comensal. Por que não me acusar? —Malfoy olhava-o com dureza.
—Voldemort enviou-te com a ideia de que fracassasse. —Os olhos de Draco eram frios. — Mas o que tem que suceder, Malfoy, é que os comensais têm que entrar a Hogwarts.
—Não! É que não o entende?! Se eles entram a Hogwarts será o fim. Eles vêm a lhe matar. —lhe gritou Malfoy a todo pulmão.
—Não. Sua missão é matar lhe, eles vêm a certificar de que o fez. Mas nos dois sabemos que não sucederá assim porque você não é um assassino, Draco. —Malfoy fechou os olhos por um segundo e depois abriu-os.
—Não entendo, Potter.
—Consertaremos o armário para que os comensais possam entrar. Não se preocupe, Albus Dumbledore está a ponto de morrer. Há uma maldição que o está consumindo e ele já tem arranjado como quer morrer. —Harry acercou-se lentamente a Draco e falou-lhe enquanto olhava o armário. —A entrada dos comensais não será o fim, Draco. Só será o princípio. —Malfoy entrecerrou seus olhos. — É uma guerra, Draco. Lutar será inevitável e temos a oportunidade de eleger um bando. —Malfoy olhou-o fixamente.
—Isso quer? Que seja parte da Ordem? —Harry negou. — Sua estúpida Ordem não salvará a meus pais nem a mim, isso te asseguro.
—Se joga bem suas cartas, você mesmo poderá salvar tudo. Quero que seja meu espião. —Draco Malfoy empalideceu. — Voldemort morrerá, isso te asseguro, mas preciso sua ajuda. Preciso ter a companhia adequada nesta luta. —A companhia de vivos e não de cadáveres com os que tenha que carregar a custas, pensou Harry. — Pensa-o esta noite, Draco. Gostaria de dar-te mais tempo, mas não posso. —Harry sabia que quando Dumbledore regressasse de sua viagem lhe seria muito difícil não estar vigiado. Tinha que resolver isto o quanto antes. — Amanhã estarei esperando-te aqui para ajudar com o armário e poderá dizer-me sua decisão.
Harry saiu da sala envolvido na capa. Ter a Malfoy de aliado seria vital porque isso lhe daria liberdade a Snape para pesquisar sobre o regresso de Dumbledore. Não podia evitar a guerra, seria demasiado perigoso. No entanto, nesta ocasião teria o conhecimento e a habilidade que dantes não teve. Não seria singelo, isso o tinha claro. Voldemort não se deixaria destruir facilmente.
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A Harry estava-lhe custando fazer-se passar pelo garoto de dezesseis anos que se divertia com seus amigos e que estava expectante de tudo. Estava-se cansando de fingir, de ter que sorrir, de não se sentir irritado pelos comentários de Hermione sobre Ginny e sua ruptura com Dean… Levava cinco dias tentando acalmar seu mau humor, mas sobretudo tentando ser paciente. Estava esperando o grande momento, o início da guerra, e isso lhe assustava, ainda que também admitia que se tinha passado a metade de sua vida envolvido em batalhas.
—Harry, está me ouvindo? —Harry assentiu e Hermione levantou sua sobrancelha esquerda. A classe de poções tinha terminado e dirigiam-se ao grande comedor.
—Ok, não. Perdão. Estava pensando em outra coisa. —Sentiu uma pesada mirada sobre ele e supôs que se tratava de Malfoy, mas decidiu não certificar. Seus amigos estavam vigilantes.
—De novo pensando em Malfoy. —Harry olhou a Hermione estranhado. — Ainda acha que é um comensal, verdadeiro? —Piscou um pouco.
—Não o sei. Só sei que Malfoy parece algo estranho ultimamente. —Ron bufou.
—Estranho, ele? Olha que não é o único. Desde que regressaste da enfermaria parece que anda em outro mundo. Não será que esse livro seu te está sorvendo o cérebro? —Pela primeira vez, Harry riu-se de boa vontade. Era uma sensação bastante irreal após tanto tempo sem fazê-lo.
—Não, só é que são demasiadas coisas: os pesadelos, os horcruxes, viajar com Dumbledore, ganhar a copa… —Ron fez um beicinho.
—Demônios, colega, tens-me que recordar isso? A cada vez que penso na partida me treme o corpo. —Hermione rodou os olhos e murmurou algo muito parecido a homens. — Ademais, os nervos dão-me fome. Preciso alimentar-me para manter-me forte.
Ron adiantou-se com Neville e Dean para o comedor. Quando esteve fora de seu alcance, Hermione se acercou a Harry.
—Ainda não tens decidido nada sobre Ginny? —Harry contou mentalmente até dez. Ginny Weasley era muito graciosa e tinha bastante atraente, mas, vendo-o em retrospectiva, parecia-se demasiado a sua difunta mãe e isso lhe resultava assustador. Ademais, Harry não precisava se complicar a vida com uma relação que não desejava.
—Não vou fazer nada, Hermione. —A garota deteve-se em seco e lançou lhe sua melhor olhada de desaprovação.
—Mas Harry… —Hermione não tiraria o dedo de arenga. Harry sabia o persistente que podia ser.
—Já sabe o que está a ponto de suceder. —Harry olhou-a seriamente. — Não quero iniciar uma relação com alguém e depois lhe pôr em perigo. Não poderia viver com isso, Hermione.
Harry surpreendeu-se um pouco quando sentiu os delgados braços de sua amiga lhe rodeando. Com essa mostra de carinho corroboro que tinha dado uma resposta que o Harry de dezesseis anos tivesse dito. Imaginou que era comovedor, "o trágico garoto que tinha que abandonar a possibilidade com seu primeiro amor por ir lutar contra as forças do mau". Todo um poema. Quando Hermione se apartou, Harry lhe sorriu indulgente e seguiram caminhando.
Potter não podia achar que com seus amigos todo fosse tão complicado. Preferia mil vezes suas conversas com Malfoy ou com Snape; tinham sido bem mais honestas e não tinha tido que indultar seu azedo caráter e isso já era um ganho dado seu atual estado de ânimo.
Harry olhava o armário enquanto esperava que Draco se reunisse com ele. Malfoy não era tonto, Harry lhe estava oferecendo uma oportunidade, muito pequena, sim, mas uma oportunidade a final de contas. Escutou a porta abrir-se lentamente. Os passos de Draco eram mais seguros que a noite anterior. Chegou até seu lado e olhou com desprezo o móvel em frente a eles.
—Pensei que não virias. —Malfoy não disse nada. Limitou-se a empunhar as mãos. — O enojo que sente agora deve recordar para os momentos nos que vacile sua vontade.
Harry sabia que não era só enojo ou raiva. Malfoy sentia-se humilhado por aceitar um trato com ele. Mas a verdade era diferente, porque o humilhado era Harry. Ele se tinha manchado com o sangue de pessoas inocentes enquanto Malfoy só era um garoto sangue puro que tinha que aceitar um trato com seu rival de colégio.
—Que passa contigo, Potter? Tenho-te estado observando todo o dia e há algo diferente em ti. Tens estado aparentando, sorrindo sem vontades, falando, mas pensando em algo mais. Parece que sempre tens algo em mente.
—Tens-me estado observando muito? —Harry perguntou-o sério apesar de que a pergunta podia mal interpretar-se. Malfoy encolheu-se de ombros.
—É meu inimigo, Potter. Durante seis anos tenho observado a cada um de seus movimentos.
—Estudando ao inimigo. —Malfoy assentiu. — Só que eu nunca tenho sido seu inimigo. Nem você o meu. Só temos rivalizado em algumas ideias. Mas agora temos um objetivo comum. —Draco sorriu amargamente.
—Não se confunda, Potter. Sigo tendo as mesmas ideias, sigo crendo na superioridade do sangue, mas agora sei perfeitamente que o Senhor Escuro não luta por isso, que ele só quer sua cabeça. —Harry girou-se para olhar o perfil de Malfoy.
—E não tens pensado em me entregar? Poderia ter-me capturado, ter-me levado em frente a Voldemort e banhar-te de glória. —Malfoy também o encarou.
—Pensei-o, Potter. Não sabe quantos palcos passaram por minha mente durante toda a noite e todo o dia, mas não tenho podido traçar nenhum plano que fosse perfeito e não me pusesse em perigo. De modo que tua miserável proposta é o único que tenho. —Harry olhou-o fixamente aos olhos e Draco não vacilou em lhe devolver a mirada.
—Me trairia, Malfoy? —Draco levantou uma sobrancelha.
—Só se recebesse algo melhor. Quero salvar-me e salvar a minha família, Potter. A mim não me interessa a guerra, só um idiota poderia desejar algo assim. Queria a glória, queria o poder, mas tudo isso tem um preço desagradável. Ademais, estou seguro de que o Senhor Escuro unicamente se sentiria feliz se te cortasse a cabeça com suas próprias mãos. —Harry sorriu honestamente por segunda vez no dia.
—Provavelmente tenha razão. No entanto asseguro-te de que o que te ofereço é o melhor para todos.
—Vem de ti, do Potter que está perdendo a razão e que quer aos comensais dentro de Hogwarts.
—Não estou perdendo a razão, só… —Engoliu saliva mas não decolou sua mirada da de Malfoy. — Tenho medo. —Medo de arruinar esta oportunidade, completou em sua mente fazendo que quase se perdesse o sorriso histérica de Malfoy.
—Medo? Você? Enfrentaste-te ao Lord Escuro durante anos, esta só será sua maior atuação.
—Minha maior atuação? —disse com ódio. — Não me enfrentei a ele por gosto, Malfoy, e só saí vivo porque assim tinha que ser, porque assim queriam que fosse. Ainda não o vê? Temos sido simples peças de xadrez para eles. Voldemort e Dumbledore são o mesmo, sempre mantendo as diferenças entre Slytherin e Gryffindor, o mau e o bem, a escuridão e a luz. Você e eu. —Malfoy piscou umas quantas vezes dantes de falar.
—Digamos que você não está metido nisso por gosto e eu sim. Isso faz uma diferença, verdadeiro? —Harry encolheu-se de ombros.
—Só se você quer a ver. Para mim estamos em igualdade de circunstâncias. —Malfoy assentiu suavemente não muito convencido. — Vamos, temos que avançar nisso.
Dedicaram-se a valorizar o estado do armário durante um par de horas. Harry estava surpreendido de que Malfoy parecia ter consertado a maioria dos danos. O armário estaria pronto com ou sem sua ajuda. No entanto, decidiu que não podia se arriscar e que supervisionaria a Draco de perto.
—Levante-se, Longbottom. —A voz de Severus Snape ressoou por todo o salão. — Não posso achar que não possa realizar nem sequer um bom feitiço de proteção. Que classe de mago é você? —Harry olhou a Neville tremer ante a mirada de Snape, quem seguramente tivesse querido seguir moendo a Neville apesar de que a classe já acabava.
Até verdadeiro ponto, Harry sentia-se maravilhado por notar os pequenos detalhes que em seu dia não pôde por estar levando seu próprio ônus. Podia ver ao detalhe a forma na que muitos de seus colegas se estavam convertendo nos homens que lutariam na contramão de Voldemort e, mais tarde, em sua própria contra. Neville em aparência era um garoto pusilânime, mas Harry conhecia seu potencial. E precisava-o. Neville tinha que encontrar seu valor o quanto antes porque, assim que pudesse, reuniria a seu exército.
—Harry, temos o treinamento. Aonde ias? —Merda, pensou quando Ginny o deteve justo quando estava a ponto de ir falar com Neville.
—Ia a… Tinha algo que lhe dizer a Neville. —Ginny negou.
—Pode esperar. Agora, vamos; precisamos treinar.
Fazia muitos anos, quase desde o regresso de Dumbledore, que Harry não se montava em uma vassoura pelo simples prazer de fazer. Assim que subiu a sua vassoura, apoderou-se dele um sentimento poderoso. Elevou-se um pouco para sentir o ar golpeando lhe o rosto. Fechou os olhos e suspirou; fazia anos que não sentia tal serenidade. Elevou-se ainda mais para voar acima do campo e para além. Voou a toda velocidade fazendo piruetas, desfrutando da brisa e o frio lhe golpeando a pele e craqueamento os lábios. Ao longe, escutava os gritos de seus colegas de equipe, mas a Harry não se importava. Estava roubando um instante de pura e absoluta tranquilidade a sua vida. Após tantos anos de batalhas estava a ponto de acariciar um triunfo real. Faltava pouco para a chegada dos comensais a Hogwarts e cedo teria que ir a por o falso medalhão. E depois teria que traçar os planos de seu novo caminho.
—Harry, irmão! —Parou em seco ao escutar a voz de Ron. — Que te passa? Subiste-te à vassoura e tens começado a voar como um louco.
—Queria libertar um pouco de tensão. Sento. —Ron voou para ele.
—Bem, mas, poderia baixar e libertar a tensão no campo? Ginny queria lançar-te uma quaffle para derrubar-te. —Harry riu entre dentes e começou a descer.
Quando tocaram terra teve que aguentar uns quantos gritos de Ginny, ainda que valeram a pena porque ainda se sentia entre as nuvens após ter voado. Harry agradeceu que a pequena Weasley tivesse esses modos de sargento alemão para dirigir à equipe. Após tantos anos sem jogar, ele mal recordava das regras do quidditch. Só esperava que suas aptidões como buscador não estivessem tão mermadas como sua memória.
Ao terminar o treinamento estava mais que moído. Apesar de que seu corpo era mais jovem, tinha uma mente madura e seu cérebro lhe dizia que essa atividade era demasiado intensa. Deu-se uma ducha e obrigou-se a ficar esperto para buscar a Neville porque não tinha nem sinal dele no dormitório. Apanhou o mapa e encontrou seu nome na estufa. Harry ainda recordava a arma letal que tinha feito com um laço do diabo. Alguns de seus garotos tinham acabado com extremidades cerceadas graças a essa invenção de Neville. Após a morte de Ron, Neville tinha-se voltado mais vingativo, mais violento e menos compassivo.
Harry foi a estufa de imediato. Neville estava olhando detidamente uma planta horrorosa. Tinha-lhe aberto o talho e estava extraindo-lhe um líquido bastante malcheiroso que parecia baba azul. Neville via-se concentrado e com o aplumo que lhe faltava em todas e a cada uma das classes. Mas Harry conhecia-o; Neville tinha escondido um feroz leão no peito.
—Harry, que faz aqui? —Neville olhou-o através de suas lentes transparentes. A planta aproveitou esse breve instante para atacar com os ramos, mas Neville a imobilizou com um passe da varinha antes de fincar-lhe a faca no centro do talho.
—Quero falar contigo do que tem passado na classe de Snape. —O rosto de Neville se contorceu.
—Bom, sou péssimo. Isso é tudo. Sou um mago terrível. —Harry quase bufou. Em seu tempo, Neville era um mago temível.
—Não o creio, Neville. O único que te falta é a suficiente confiança em ti mesmo. Justo a que te tens nessas necessidades. —Neville se corou.
—Bom, a cada quem tem suas habilidades. Você é bom em tudo enquanto eu… sou bom na coisa mais inútil e simples do mundo. —Neville sorriu-lhe envergonhado. Harry quase não lhe podia crer. Tinha vontade de pôr todas suas lembranças em uma penseira e lhe mostrar a Neville no que se converteria.
—Acha-me que não é inútil. —Neville baixou a mirada. — Neville, há coisas das que não posso falar ainda mas cedo chegaram momentos mais escuros. —Os olhos de Neville ficaram fixos no rosto de Harry.
—Estarei contigo, Harry. Todos o estaremos. —Potter podia ver a admiração. As palavras do outro Neville, do homem forte, de seu rival decidido, chegaram de novo a sua mente. Ali há um Neville idiota que te admira e respeita mais que a ninguém no mundo, um imbecil que quer ser como você.
—Não há nada admirável em mim, Neville. —Harry caminhou até Longbottom e sentou-se no banquinho em frente a ele. — Recorda no ano passado? Eu não queria que Luna e você me acompanhasse ao ministério; não confiava em vocês nem cria em suas habilidades. —Neville cabeceou e quase parecia entendia o que Harry lhe dizia. — Mas estava equivocado. —Neville estranhou-se. — Luna e você lutaram na contramão dos comensais e o fariam mais mil vezes porque é o correto. —Harry recordava o momento no que o Neville de seu tempo se tinha levantado na contramão de Dumbledore, fazendo de novo o correto. — Podia ser você…
—O que? —Neville disse-lhe com a voz rouca.
—O Eleito. Podia ser você. A profecia não dizia meu nome. —Neville tinha o fôlego contido. Harry conhecia bem a profecia, a tinha repetido em sua mente uma e outra vez tentando encontrar uma forma de explicar como todo tinha acabado tão mau. — O único com poder para derrotar ao Senhor Tenebroso acerca-se… Nascido dos que o desafiaram três vezes, virá ao mundo ao concluir no sétimo mês… —Neville engoliu saliva. — Os pais de ambos o desafiaram três vezes e os dois nascemos ao concluir no sétimo mês, mas Voldemort me escolheu a mim por ser um mestiço e me marcou como seu igual. —Harry tocou-se sem querer a cicatriz na testa. — No entanto, aos dois deixou-nos sem mãe. Essa é uma marca que não se vê, mas que os três compartilhamos. Somos seus iguais, Neville.
—Por que…? Por que me diz? —Neville tinha o rosto contraído.
—Porque preciso que o saiba, porque preciso que creia. Mas não em mim. Preciso que creia em si e em todo o que pode conseguir. —Neville boqueou. — Acercam-se momentos difíceis, Neville. —Harry colocou mão direita sobre o antebraço de Neville. — Cedo teremos que decidir entre o que é correto e o que é fácil.
—Eu não… Tenho que pensar.
Neville levantou-se, deixou os óculos e bata sobre a mesa de trabalho e saiu rapidamente da estufa. Harry tomou-se uns segundos antes de sair também. Surpreendeu-lhe um pouco ver ali a Severus Snape. Harry não tinha muitas maneiras de se comunicar com Snape, salvo nas classes ou escapando pelas noites para lhe ver, mas como achava que era mais importante resolver a chegada dos comensais, limitava suas saídas noturnas a Draco Malfoy.
—Tem tido uma boa conversa com o senhor Longbottom? —Harry supôs que Snape tinha visto a Neville saindo da estufa.
—Acho que sim.
—Então posso supor que está juntando a seu exército. —Harry encolheu-se de ombros.
—Voldemort tem a seus homens e eu terei aos meus. —Snape assentiu.
—Draco Malfoy será um de seus homens? Permito-me recordar-lhe que não é Gryffindor.
—Sim, sei, e acho que esse pode ser um ponto a seu favor. —Snape levantou uma de suas sobrancelhas. — Senhor Snape, acha que poderia ajudar a Neville? —Snape olhou-o quase como se quisesse lhe amaldiçoar. — Lhe surpreenderá, senhor. Tem habilidades espantosas e é aguerrido como poucos. Só precisa que alguém confie nele.
—Que lhe faz pensar a você que eu quero confiar nele? —Harry olhou para o castelo.
—Não quero que confie nele porque isso já o faço eu. Peço-lhe que lhe ensine.
Severus olhou a Potter caminhar para o castelo. Era curioso reconhecer nele seus desplantes habituais, mas também encontrar as diferenças. Potter sabia coisas que Severus nem sequer suspeitava e, ao que parece, com os anos Longbottom encontraria habilidades no fundo de seu baú. Mas no presente, ensinar-lhe algo a esse fedelho seria tão complicado como manter sua barreira mental para Voldemort.
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Nota tradutor:
Hummmmm
O que será que Snape vai fazer a respeito da proposta que Harry lhe fez?! Hum
Vejo vocês nos próximos capítulos
Então ate breve!
Fui…
