Capítulo XVII

Entre irmãos

—Como pode? —Hermione acercou-se a Harry e golpeou lhe violentamente o peito. — É a avó de Neville, de nosso amigo. —Harry via fluir as lágrimas de sua amiga. Não se atreveu a olhar a Ron, sabia que essa mirada azul seria mais terrível. — É nosso amigo, nossa família.

Ron apartou-a de Harry e abraçou-a com força enquanto dizia-lhe coisas que Harry não atingia a escutar.

—E não diz nada! Por que não diz nada?! —gritou-lhe Hermione. Harry teve que temperar seu caráter para não dizer nada doloroso.

—Isso é uma guerra, Hermione.

Harry não viu vir o golpe a sua mandíbula, um grande cabeçalho de Draco Malfoy.

—Isso tem sido demasiado baixo até para ti. —Draco ia levantá-lo para dar-lhe outro golpe quando a mão larga de Neville o deteve.

—Basta! —A voz alçou-se para assombro de todos. Neville caminhou até encontrar-se em frente a Draco. — Harry tem razão. —Draco não podia achar que essas palavras saíssem da boca de Neville. — Isso é uma guerra e não podemos nos dar o luxo de cometer erros. As perdas sucedem, estas coisas passam e é terrível, mas assim tinha que suceder. —Depois das palavras e a inteireza que Neville mostrava se deixava ver o profundo sofrimento e a tristeza que lhe estava açoitando a alma. — Agora, se me permitem… —Neville saiu da sala com rumo ao despacho. Harry sabia que tinha que se lamber só a ferida.

Harry sentia as miradas de decepção, enojo e ressentimento. O único rosto neutro era o de Severus Snape, que olhava sem olhar. Estava aturdido, mas não o demonstrava. Seguramente também estava pensando na forma de lhe dizer a Neville algo positivo para que pudesse sair desse trance tão duro. Harry deu-se meia volta para marchar-se, não estava de humor para seguir com isso.

Entrou a sua habitação e deu um forte estrondo. Sentia dor, desolação, sofrimento. Estava só, estava tão terrivelmente só que não podia nem sequer respirar. Não sabia como regressar o tempo e salvar à avó de Neville, salvar a todos os que em algum momento tinha morrido por culpa dessa guerra. O sofrimento verdadeiro estava para além do que nenhum de seus colegas podia chegar a imaginar. Nenhum se tinha ficado o suficientemente só como para analisar sua vida, ainda que não como Harry o tinha feito, não castigando dessa maneira para poder se dar conta de que essa era a forma de nunca repetir seu passado.

Derrubou-se sobre a cama, fechou os olhos e tentou acalmar-se. Sua magia estava-lhe voltando louco. A cada segundo sentia que podia perder o controle. Respirou devagar e tentou pensar em outras coisas, mas foi impossível: gritos, pranto, morte. Sua mente estava cheia de lembranças e não podia a controlar. Os erros do passado estavam-no condenando. Não queria se dar por vencido, mas era demasiado duro seguir adiante pensando em que o caminho correto era um labirinto cheio de decisões que não sempre seriam boas.

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Neville olhou o despacho de sua avó. Nesse lugar reinava a escuridão, só tinha um lugar no que colava a luz e esse era o escritório. A sua avó encantava lhe sentar em seu cadeirão enquanto olhava pergaminho depois de pergaminho, a cada um mais velho que o anterior. Ele nunca se tinha sentado nesse cadeirão, nem sequer por erro; tinha-o terminantemente proibido. Acercou-se e sentou-se pela primeira vez no cadeirão de sua avó. A luz dava diretamente sobre uma fotografia. Era Neville aos três anos. Sua avó tinha-o em seus braços. Ela não sorria nem parecia feliz, mais bem se via acantonada e parecia que lhe ia deixar cair em qualquer momento. Essa era talvez sua única fotografia junto a sua avó. Não tinha carinho, não tinha amor e muito menos respeito. Neville podia recordar a cada uma das palavras que sua avó lhe repetia uma e outra vez.

A porta do despacho abriu-se lentamente. Neville viu ao professor Snape e pôs-se de pé de imediato.

—Não estamos na escola, Longbottom. Pode seguir sentado. —O tom de Severus era frio e Neville perguntava-se vagamente se as pessoas emocionalmente distantes atraiam lhe por alguma razão em especial. — O despacho de sua avó é bastante curioso. —Neville assentiu.

—É a primeira vez que estou aqui só, sem que minha avó me reprenda por minhas terríveis qualificações. —Neville passou um dos dedos pela fria imagem de sua avó. — Nunca fui o suficientemente bom para ela. Sempre teve algo melhor que eu: Harry, Hermione, qualquer dos Gryffindor… Até o fantasma de minha Casa era mais valioso para ela que eu. —Riu amargamente. — Lamento não ter enchido suas exceptivas porque, bem como era, eu a adorava. Era minha única família, minha única lembrança da infância…

—Ela lhe queria muito e o admirava. —Neville negou. — Você não crê em nenhuma palavra do que lhe digo, verdadeiro?

—Você não conhecia a minha avó. Era uma mulher muito dura, quase uma Slytherin, e jamais tivesse pensado isso de mim. —Severus acercou-lhe.

—Tem-se em muito baixa estima, senhor Longbottom. Acho que falhei nisso quando fui seu instrutor semi pessoal. Nunca pude lhe fazer ver o valioso que é, não só para Potter e sua causa, senão por você mesmo. Conseguiu vencer seus medos e seguir adiante apesar de que ninguém esteve a seu lado para seguir lhe motivando. —Severus não era bom dando esse tipo de discursos, mas algo lhe dizia que essa conversa tão fora de tom que tinha tido com Augusta Longbottom tinha sido por alguma razão específica. — Sua avó disse-me quando eu ainda estava me recuperando. Disse-me claramente que você era admirável e que lamentava muito não ter fomentado o carinho que sentia por você.

Neville não tinha chorado até esse momento. Suas lágrimas rodaram livres até cair na superfície de madeira da mesa. Severus apanhou sua mão sem saber muito bem se esse seria um bom gesto para lhe reconfortar. Neville sujeitou-o com força enquanto tentava acalmar-se.

—Sua avó estava convencida de que uma sopa de nabos faria um milagre em mim. —Severus ainda sustentava a mão direita de Neville apesar de que este já se tinha acalmado. — Em mudança sua comida foi bem mais generosa. Ela disse que gostava de cozinhar. —Neville sorriu um pouco.

—Se estou um tanto gordo não é por genética; mais bem é porque me encanta a cozinha. E também porque me encanta a boa comida. Evidentemente minha avó não compartilhava esse gosto comigo. —Neville recordava perfeitamente os nutritivos cremes de nabos de sua avó que, segundo ela dizia, conseguiam que os níveis de magia aumentassem.

—Era uma boa mulher? —A pergunta do professor caiu-lhe como um tabique. O professor Snape merecia-se uma resposta honesta.

—Sim, ela era. Talvez não comigo, pelo menos não de todo, mas sim era boa. Era uma mulher respeitável. Tinha uma vida formada, dinheiro, ascendência... Pertencemos a uma família muito velha no mundo mágico. Acho que venho sendo tio de Draco em algum grau. —Neville engoliu-se o nodo da garganta. — Sou o último Longbottom sensato.

Não sabia como lhe ia a dizer a seus pais. Nem sequer sabia se eles estavam ainda em St. Mungo.

—Vamos, homem, anime-se. Quando tudo isto acabe conhecerá a alguma garota e terá os filhos que queira.

Neville queria crer isso, mas a verdade era que conforme avançavam nas semanas a cada vez notava mais sua curiosidade por saber que demônios passava entre Draco e Harry. E era por Draco, sabia e doía-lhe, porque esse sentimento novo aterrorizava lhe de múltiplas maneiras.

—Não sei se uma garota possa me fazer pensar nela dessa maneira. —Neville se aclarou a garganta. — Obrigado por fazer isto, professor. E mil obrigado por todo o demais. —A elegante figura de Severus Snape só assentiu. Neville levitou da cantina do despacho uma velha garrafa. — Minha avó costumava beber uma taça deste whisky a cada noite. —Neville serviu duas taças. — Por ela? —Levantou a sua.

—Por ela e por você, que é o que mais queria no mundo. —Severus também levantou sua copa e bebeu recordando a ação de Augusta Longbottom. Esse tipo de decisões só podiam ser produto do amor.

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—Não posso achar que esteja tão tranquilo na cama enquanto Neville acaba de perder ao único familiar que tinha no mundo. —Quando escutou a Draco, Harry abriu os olhos.

—Essa conversa terminou-se. —Levantou-se da cama com a intenção de correr a Draco, mas Malfoy plantou-lhe. — Que quer que te diga? Estou fodido, sei.

—É que isso não é desculpa, Potter. A avó de Neville está morta e nem sequer temos seu corpo para que Neville se despeça! —Os gritos de Draco eram estridentes.

—E? —Harry estava desesperado. Draco tentou dar-lhe outro golpe, mas Harry deteve-o. Forcejaram golpeando-se um pouco no trajeto. Em um momento dado, os dois ficaram quietos.

Harry foi o primeiro em beijar a Draco. Mas esse era um beijo diferente. Talvez tinha começado sendo violento, mas pouco a pouco as coisas se foram suavizando. Harry envolveu o corpo de Draco entre seus braços e deixou que a língua do loiro mandasse nessas caricias tão íntimas. Caíram na cama sem deixar de beijar-se nem um momento. A nova sensação era demasiado abrasadora. Harry apartou-se um pouco. Draco olhou-o intensamente por uns segundos e depois negou enquanto empurrava a Harry.

—Não, não, não, não. —Draco voltou a empurrar-lhe. — Pelo menos não contigo. Tem que ser alguém mais. —Harry engasgou.

—Draco… —O loiro saiu da cama—. Espera…

Mas Draco não o fez. Saiu pela porta para o corredor e encerrou-se em sua habitação. Harry seguiu-o, mas quando quis girar o pomo se encontrou com o selo posto.

—Draco, faz favor. —Golpeou a porta a cada vez mais forte. — Draco! —Mas não teve resposta.

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Draco apoiou as costas na porta e fechou os olhos. Estava chegando demasiado longe com Potter e essa não era a ideia. Ao menos não com esse Potter.

—Não, Draco, você não precisa isso. Você quer a alguém que pelo menos esteja em seus cabales…

Draco deixou-se cair na cama, fechou os olhos e pouco a pouco ficou dormido.

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Remus Lupin ofereceu o melhor discurso que sua mente podia escrever, Augusta Longbottom lhe merecia. Seu coração ainda se estrumava recordando as palavras de Dumbledore: fazer Harry. Remus não o entendia, era demasiado. A avó de Neville era uma mulher honorável. Remus não podia deixar de pensar em Neville e nas decisões tão equivocadas que tinha tomado desde que tinha decidido apoiar a Harry.

—Remus. —A voz de Dumbledore sacou-lhe de suas ideias. — Dizia-lhes aos senhores Weasley que temos que atuar de forma mais organizada, que não podemos nos dar o luxo de seguir nesta posição tão neutra e passiva. Já vê o que causou, agora Augusta está morta e não sabemos nada de seu neto.

—Que propões, Albus?

—Que sejamos implacáveis com Harry. Eu sou o primeiro no sentir, mas esse rapaz está cavando sua própria tumba. Temos que o deter agora que não é tão forte. Temos que o parar, lhe pôr um alto para que não siga sucedendo isto. Meu irmão levantou-se em meu contra e vocês foram testemunhas de que não tive mais remédio que… —a voz de Dumbledore se avariou um pouco. — privar da vida. É momento de que façamos o mesmo com Harry.

O silêncio foi terrivelmente assustador.

—Se é o que devemos fazer… —George Weasley foi o primeiro em opinar. Durante esses meses tinha estado muito conforme com seu papel de juiz, quase verdugo, mas ele só queria uma cabeça, a de Harry Potter. Tanto para Fred como para ele a morte de Percy tinha sido culpa de Harry, igual que a fuga de Ron. Eles nunca tinham albergado maus sentimentos até que isso sucedeu, até que sentiram o desejo firme de destroçar a alguém.

—Você que diz, querido Fred? —perguntou Dumbledore. Fred titubeou um pouco. Era Harry após tudo.

—Que vai passar com Ron e Hermione? —Dumbledore tinha prometido mantê-los com vida, mas com essa nova posição Fred duvidava que a vida de seu irmão menor fosse respeitada.

—Seguimos com nosso trato. A cabeça de Harry vale a liberdade de Ron e Hermione, ainda que sim terão que passar uma boa temporada em St. Mungo.

—Acho que Harry precisa um castigo. —Fred disse-o com convicção. Sim, também o culpava de todas as desgraças ocorridas na guerra. Harry já estava machucado quando ainda estavam em guerra com Voldemort e se não tivessem sido arrastados por esse louco seu irmão estaria vivo.

—Bem, acho que temos chegado a um consenso. Informem a suas equipes da nova disposição. —Dumbledore atraiu a George Weasley. — Podemos falar? —George assentiu e ambos foram ao escritório de Dumbledore. — Querido George, obrigado por vir.

—Algo me diz que me tem informação importante. —George era uma máquina. Como não roubar informação para lhe dar a ele. Dumbledore sabia que ele a usaria para seu próprio benefício, que George mataria com mais precisão, a não ser que se inteirasse de algo mais grave.

—Temos um espião dentro da ordem. —George não podia crer isso.

—Snape está morto, encarregamo-nos disso. Bom, supõe-se que Harry se encarregou disso. É impossível que ele nos esteja fodendo e a verdade é que não acho que ninguém seja capaz de fazer o que Severus Snape fazia.

—Não como com Severus, claro que não, mas sim com outro tipo de encantos. Talvez os encantos próprios de uma linda jovenzinha. —George começou a sentir uma opressão no peito.

—A que se refere, Dumbledore? —O velho mago colocou em seu rosto uma careta de tristeza.

—Ginny, ela está do lado equivocado. —George riu com força.

—Isso não é possível, velho. Ginny nem sequer está inteirada de nossas coisas, minha mãe tem lhe terminantemente proibido. Não quer que corra perigo, diz que já é suficiente com o que estamos fazendo nós e com o que lhe sucedeu a Percy.

—Claro, por suposto que sua mãe quer apartar a Ginny deste mundo tão escuro, mas não acho que ela esteja conforme com a decisão de vossa mãe. Diga-me se não leva a casa os planos, diga-me se não comenta com seu irmão na intimidem de vossa casa nossos planos. Diga-me se não mencionou nada sobre o ataque a Severus Snape. —As coordenadas corretas tinham levado a Draco para o lugar próximo onde resgatar a Severus Snape. Não podia pensar em Ginny lhes escutando e espiando seus movimentos para ajudar a esses assassinos. — Proponho-te algo, querido rapaz. Observa a sua irmã e se é ela…

—Temos que a deter.

George saiu do despacho de Dumbledore com a pior das decepções marcada em seu coração. Que tipo de coisas lhes dizia Potter para os ter cativos de suas ideias? Como era possível que Ron e Ginny não vissem dentro de Harry toda a maldade que encerrava? Harry Potter era destruição, todo o que queria se convertia em pó. Não podia deixar que Harry arrastasse a Ginny, não a ela, que era sua irmã pequena. Ele tinha uma meta, a de acabar com Harry Potter dantes de que fizesse mais dano.

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Harry não pôde dormir essa noite, nem a seguinte, nem toda essa semana. Sua mente não deixava de pensar em que demônios tinha significado esse beijo com Draco, mas também não podia falar com o loiro porque Draco Malfoy estava demasiado ocupado sendo um bom amigo para Neville. Harry precisava aclarar as coisas ainda que tinha que ser honesto, ele não estava familiarizado com o que estava lhe sucedendo.

Resignado e apático, apanhou os diários e começou com a busca de uma nova gema. Se não podia controlar sua vida pelo menos controlaria a morte de Dumbledore. De imediato chamou-lhe a atenção à nota de um incêndio em um orfanato em Marselha. Essa era uma grande desgraça, isso sem o duvidar. Pensou em dizer aos demais, mas não tinha caso: Hermione e Ron praticamente tinha-lhe retirado à palavra e Severus era o único que tinha com ele uma relação cordial. Isso não era uma equipe. Eles não o queriam ali e sabia que já lhes tinha feito muito dano.

Foi a sua habitação, apanhou a Pedra da Ressurreição e depois desapareceu. Desta vez trabalharia sozinho…

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Draco tentava evitar a Potter baixo qualquer circunstância. Não era muito, mas precisava pôr terra de por meio entre eles, pelo menos até que pusesse em ordem esses pensamentos tão tontos que tinha. Com Harry não podia se manter uma relação, isso era quase impossível. Draco estava seguro de que qualquer pessoa ao lado desse Potter terminaria autodestruindo-se. Entrou ao despacho e olhou a folha do jornal.

—Filho de puta…

Draco saiu despavorido gritando para os outros habitantes da casa. Neville foi o primeiro em baixar junto com Severus, que estava praticando Defesa com ele.

—Que passa? —perguntou Neville. Draco arrojou-lhe o jornal.

—Passa que o filho de puta de Potter se tem largado a encontrar a seguinte gema. Esse filho de puta desconsiderado segue crendo-se o maldito herói que o mundo queria.

—Temos que lhe atingir. —Hermione estava tratando de entender a terrível letra de Harry, que tinha deixado uma folha com indicações. Obviamente essas indicações não eram para eles, mas Hermione queria encontrar uma conexão em todos os pontos. — Um momento… —Hermione revisou de novo o papel do jornal. — Isto não é normal. —Ron levantou uma sobrancelha.

—A que se refere? —Hermione estudou de novo o diário.

—Este não é um diário comum. Parece que como sim…

Ron girou em sua mão o jornal e não encontrou nada particular. De repente seus olhos abriram-se desmesuradamente.

—É uma armadilha. Harry vai diretamente a uma armadilha…

Nota tradutor:

Realmente vindo do futuro e se esquece de coisas raras, como descobrir se é uma armadilha ou não... parece que Harry esta sendo apresado em querer terminar com tudo o que Dumbledore planeja... realmente!

Então vejo vocês nos reviews?

Ate breve!

Fui…