A carne acabou-se rápido e logo eles desligaram a churrasqueira elétrica. Ginny desencavou dos armários pacotes de salgadinho e biscoitos. Sentaram no chão, num quase circulo, enquanto os garotos da banda se revezavam com o violão, tocando algumas músicas dos Beatles e de outras bandas. Lucy estava sentada entre Hermione e Ashley. Podia ver Amanda encostada no ombro de Chapolim que tocava My Generation. Liv estava deitada na grama, com a cabeça no colo de Lucius, que deslizava suavemente os dedos por entre os cabelos ruivos dela. Ginny estava sentada entre Rony e Harry e Lucy notou uma sintonia diferente entre ela e o garoto de óculos. Riu de leve e olhou o restante do circulo. Pedro estava sentado do outro lado, de frente para ela e parecia um hippie balançando-se de um lado para o outro ao ritmo da música, balançando seus cabelos.
- Lu? - A voz de Hermione trouxe ela de volta a realidade. Virou-se para Hermione com o olhar meio vago, como se não entendesse porque lhe chamara. - Ouviu o que eu disse?
- Ahm...não...desculpa...estava distraída. - Respondeu Lucy, balançando a mão como se espantasse um mosquito. - O que falava?
- Perguntei cadê o Max. - Murmurou Hermione, olhando preocupada para a amiga. Lucy voltou a olhar para o chão, arrancando um pouco da grama.
- Não sei...não falo com ele desde ontem. - Respondeu Lucy, a voz baixa e um tanto grave.
- O que aconteceu ontem, Luh? - Perguntou Hermione, um ar angustiado. Lucy sabia que a amiga não gostava de vê-la daquela forma.
- Eu não quero falar disso agora, Mione...nem sei se devo falar. - Disse Lucy, mordendo de leve o lábio inferior, antes de forçar um sorriso. - Vamos aproveitar o dia. Está tudo tão legal!
Porém, Hermione sustentou o olhar angustiado sobre a amiga. Lucy sabia que, das quatro, a garota era a mais sensível e se incomodava mais quando algo acontecia às outras. Mas a verdade é que não queria sair contando por aí que vira Max usando drogas. Não sem antes conversar com ele seriamente. Por fim, dando-se por vencida, Hermione balançou a cabeça positivamente e sorriu para Lucy, voltando a olhar para frente.
Lucy agradeceu mentalmente e fez o mesmo. Agora o violão estava nas mãos de Rony, que tocava uma versão mais lenta de Revolution. A garota suspirou e tentou pegar-se na música, esquecendo dos seus problemas.
- Hey...onde fica o banheiro? - Perguntou Harry, levantando-se com o apoio das mãos. Limpou a roupa com as mãos, antes de olhar ao redor, esperando que alguém se oferecesse.
- Você sabe, Harry...esteve aqui ontem de noite. - Disse Rony, enquanto tocava distraidamente os acordes da música. - You say you got a real solution, well you know...we all love to see the plan...
- Eu não estava exatamente sóbrio ontem, Rony. - Riu Harry, com uma certa dose de ironia em sua voz. Ginny riu também e levantou-se cambaleando para trás, antes de firmar-se.
- Eu te mostro...vem...- E, segurando a mão do moreno, puxou-o para o lado de dentro da casa, entrando pela porta da cozinha.
Lucy trocou um breve olhar com suas outras duas amigas, que rapidamente juntaram as cabeças para comentar.
- É impressão minha ou tá rolando algo entre eles? - Riu Ashley, olhando-as de forma sugestiva.
As garotas deram mais risadinhas, enquanto olhavam para o lado de dentro da casa. Lucy inclinou-se para trás, sentando-se corretamente. Seu olhar correu automaticamente para Pedro que segurava o violão e tocava Hotel California. Deixou a cabeça pender para o lado, apoiando-a na mão. Só 'acordou' quando sentiu algumas pequenas cutucadas no lado de seu corpo.
- É um gato, né? - Perguntou Ashley, com um ar maldoso na voz. - Também achei. Tem que ver ele sem camisa.
- O que?! Quando você viu ele sem camisa? - Perguntou Lucy, estarrecida. Logo em seguida balançou a cabeça negativamente, ao notar que não era bem a pergunta à ser feita. - Digo...eu não estava prestando atenção NELE...só na música.
- Sei... - Disse Ashley, rindo baixinho. - Não é crime. Ele é bem bonito na verdade. - E olhou mais uma vez para Lucy, que lhe olhava com o famoso ar de "eu tenho namorado". - Ah, qual é. Achar ele bonito não significa trair o Max. Acha que ele não olha outras garotas?
Lucy olhou feio para Ashley, antes de desviar o olhar. Claro que sabia. Maxwell não era nenhum santo. Ele olhava descaradamente para algumas meninas e até mexia com muitas delas, mas nunca lhe traíra. Sentiu-se um pouco infantil por ter achado que estava traindo o namorado só por achar alguém bonito, mas não queria confessar isso.
- E, ah. Eu vi ele sem camisa aqui mesmo. Ele estava nadando. Saiu só porque falaram que iam te buscar. - Riu a loira, olhando maldosamente para Lucy, com as sobrancelhas abaixadas.
- Ash! - Exclamou Lucy, um tanto escandalizada.
- Do que estão falando? - Perguntou Hermione, curiosa.
- Do quanto a Ashley é besta. - Respondeu Lucy, com um ar meio irritado e as maçãs do rosto vermelhas.
Ashley sorriu e voltou à sua posição anterior. Hermione continuou olhando curiosa para as amigas por um longo tempo, até dar-se por vencida e voltar a escutar música. Pedro terminou os últimos acordes da música, antes de passar o violão para Lucius, que não parecia ter grande intimidade com o instrumento. Por um breve momento, seu olhar cruzou com o de Lucy. A garota tentou sustentar, mas sentiu um forte calor em seu rosto e preferiu abaixar, voltando a encarar a grama no chão.
O sol já havia se posto quando decidiram que era hora de voltar para suas casas. Ashley e Hermione iam para o outro lado da cidade, pegaram uma carona na van com a banda. Rony ia passar a noite na casa da irmã. Pedro ofereceu-se à levar Lucy no conversível da família Weasley.
- Você só escuta música assim? - Perguntou Lucy, rindo enquanto Pedro procurava uma rádio onde tocasse algum rock das antigas.
- Não...na verdade eu era super fã da Lady Gaga até descobrir que ela é hermafrodita. - Disse Pedro, em meio à uma risada.
- Já discutimos isso antes! Ela não é hermafrodita! - Lucy tentou forçar um tom irritado na voz, mas seu riso não escondia que estava achando graça naquilo tudo.
Pedro devolveu a risada e assim eles começaram uma discussão sobre a possível sexualidade de Lady Gaga. Lucy ria tanto que só percebeu que estava na frente de casa quando Pedro desligou o motor do carro.
- Então... - Disse o garoto, secando uma lagrima que havia caído por causa das risadas. - chegamos...
- Ahm? - Lucy ergueu o olhar até sua casa e demorou um instante até reconhece-la. - Ah, sim...chegamos...
Sentindo-se um pouco incomodada, Lucy olhou para ele mas uma vez antes de abrir a porta do carro. Pelo barulho do outro lado, ele também havia saído do carro. Pelo canto do olho viu que ele dava a volta e agora acompanhava seu passo pelo caminho de pedra que levava até a porta de sua casa.
- Bem...então... - Disse Pedro, olhando da garota para a porta, as sobrancelhas ligeiramente erguidas. - mais uma vez está em casa. Sã e salva.
- É... - Disse Lucy, dando um sorriso tímido. - Te conheço há dois dias e você já é quase meu motorista particular.
- Espero ao menos que o serviço esteja sendo bom. - Disse Pedro, fazendo uma reverencia longa. Lucy levou a mão aos lábios, abafando uma risada antes de voltar a olhar para ele.
Seus olhares se encontraram no mesmo instante. Lucy deu um passo para trás e encostou-se na porta. Pedro acompanhou esse passo e colocou uma mão na parede, logo acima do ombro dela. A garota sentiu o coração disparar fortemente. Sabia o que ia acontecer. Uma parte dela(e essa parte, estranhamente, tinha a voz de Hermione), gritava que aquilo era errado e que ela devia sair dali rapidamente. A outra parte(e essa tinha a voz de Ashley), sussurrava para que ela deixasse acontecer. Sentindo as pernas mole, viu que o rapaz inclinava-se em sua direção. Por um breve instante fechou os olhos e entreabriu os lábios, mas algo estalou em sua mente ao sentir a respiração quente dele em seu rosto.
- É melhor eu entrar... - Disse ela, a voz saindo baixa e sem força, quase num sussurro. Abriu os olhos e viu que ele também parecia despertar de algo.
- Ahm...ok...- Disse Pedro, meio desconcertado, afastando-se rapidamente. - Hm...então tá...
Lucy seguiu o movimento do garoto e, por um instante, ficou olhando em seus olhos. Sentia a boca seca e o coração disparar como nunca. Então, antes que a voz de Ashley vencesse aquele duelo em sua cabeça, abriu a porta e, sem falar nada, fechou. Deixou todo o peso do corpo encostar na parede e escorregar até o chão. Suas pernas estavam bambas de mais para ficar em pé. Fechou os olhos e levou as mãos até o peito, como se isso acalmar seu coração.
Demorou um pouco até ouvisse o som dos passos dele se afastando. Ouviu o som da porta batendo e o ronco do motor do carro disparar pela rua. Mesmo sabendo que ele estava longe, não conseguia levantar.
- Filha? - Perguntou a voz de sua mãe, vinda da cozinha. Logo em seguida uma mulher, de seus quarenta e poucos anos, os cabelos brancos de mais para a idade, assim como as rugas, secando as mãos num pano de pratos, apareceu na sala. - Lucy! Aconteceu algo?
Lucy olhou para a mãe, sabendo que estava com os olhos arregalados. Abria e fechava a boca constantemente, como se as palavras estivessem engasgadas em sua garganta. Por fim, quando conseguiu levantar-se, murmurou um "com licença" e saiu em disparada na direção de seu quarto.
Sem ligar para as perguntas da mãe, Lucy subiu as escadas correndo rapidamente. Tropeçou os últimos degraus mas segurou-se no corrimão para não cair. Empurrou a porta com o ombro e fechou-a com o pé, antes de jogar-se na cama.
Ok, ela estava confusa. Amava Max. Era seu namorado há quase dois anos. Nunca pensara em trai-lo. Muitos garotos já haviam tentado, mas ela nunca havia cedido espaço. Nem uma aproximação mais atrevida como a de Pedro, mas agora...
O som do celular tocando tirou Lucy de sua auto condenação mental. Puxou o aparelho do bolso da calça e olhou o número, arregalando os olhos. Era o número da casa de Maxwell.
- Agora ele deu pra ler pensamentos. - Murmurou Lucy, respirando fundo. Esperou sua respiração voltar ao normal antes de atender. - Alô?
- Lu? Sou eu, o Max! - Disse ele. Sua voz era meio abafada. - Escuta...como você tá? Eu nem tive tempo de me explicar direito ontem.
- Não tem muita explicação, Maxwell. - Disse Lucy, numa voz severa. - Você estava usando drogas!
- Era só um baseado! - Disse Max, tentando se justificar.
- Podia ser meio baseado, Maxwell! Isso é errado! - Disse Lucy, um pouco alterada, esquecendo momentaneamente o que havia acontecido minutos atrás.
- Lucy...calma...sério... - Disse Max, a voz reduzindo-se à uma suplica. - Não briga comigo, baby. Eu te amo, gata...
- Max... - Disse Lucy e a culpa por ter quase beijado Pedro na porta de casa aflorou novamente em sua mente. - Olha...eu vou me acalmar, tá? Nós nos falamos amanhã...com mais calma...
- Me encontra no shopping? - Pediu Max, fazendo uma voz tão carente que Lucy amoleceu um pouco. - Por favor...
Lucy relutou um instante, mordendo o lábio inferior de leve. Não sabia se queria ver Max. Ainda estava com raiva. Na verdade com raiva, culpa e vergonha por tudo o que estivera acontecendo. Mas, claro. No fim ela sempre cedia.
- Tudo bem...te encontro lá no shopping, depois do almoço. - Disse a garota, com um ar resignado.
- AH! Obrigado, baby! - Disse o rapaz, com uma voz alegre. - Te amo, gata. Não esquece.
- Tá...também te amo. JUIZO, Maxwell. - Advertiu, antes de desligar o telefone. Suspirou pesadamente e ficou olhando para o aparelho, com uma certa agonia.
Precisava falar com alguém. Precisava desabafar. Estava se sentindo um pequeno vulcão prestes a estourar e soltar lava para todos os lados. Por fim, desistindo de pensar em alguém que fosse lhe ouvir sem lhe julgar ou dar conselhos furados, jogou o aparelho no puff ao lado da cama e, sem nem trocar de roupa, encolheu-se na cama.
