O domingo amanheceu nublado e com um vento frio cortando as ruas. Durante toda a manhã, Lucy ficou em seu quarto, sentada em sua cama, as pernas encolhidas. Segurava o celular firmemente em sua mão. Por duas vezes havia buscado o número de uma de suas amigas, mas acabou desistindo. Não sabia por onde começar a contar.

Apenas quando já era meio-dia, Lucy desceu. Sua mãe havia ido para a igreja, para a missa dominical, mas havia deixado o almoço pronto. Lucy comeu sozinha, agradecendo por não ter que dar tantas explicações. Terminou de comer sua refeição e, depois de colocar os pratos na maquina de lavar, pegou o casaco pendurado na porta e saiu pelas ruas, andando.

O shopping ficava à algumas quadras de sua casa, mas talvez fosse bom andar um pouco. Precisava de tempo para organizar seus pensamentos. Sua mente fizera o favor de, ao invés de buscar uma solução ou uma explicação para tudo aquilo, sonhar a noite inteira sobre uma disputa de cabo de guerra entre Pedro e Max, onde o cabo era a própria Lucy. Fez uma caretinha e massageou os ombros, mesmo que eles não estivessem realmente doendo.

Tentando espantar aquelas lembranças de sua mente, Lucy seguiu andando quarteirão após quarteirão. Havia poucas pessoas nas ruas. A maioria estava dentro de casa, aproveitando o domingo, ou na missa. Lucy observava enquanto andava velhas senhoras em suas varandas, tomando chá e olhando o movimento(ou falta dele).

Quando mal esperava, se viu dentro do shopping. Foi pega de surpresa. Sua cabeça estava tão distante que seus pés andaram no automático. Tentando recobrar a calma ("Merda, o Max tá em algum canto aqui"), Lucy foi andando na direção da praça de alimentação, que ficava no andar de cima. Enfileirou-se atrás das pessoas que subiam a escada rolante, torcendo os dedos dentro dos bolsos do casaco.

Max estava esperando ela já na entrada da praça. Como num filme, foi vendo a imagem dele aparecer a medida que chegava ao topo da escada. O rapaz nem esperou ela ir à seu encontro. Em passos largos, chegou rapidamente até ela, abraçando-a com força.

- Hey, baby. - Sussurrou ele em seu ouvido. - Eu pensei que você não vinha.

"Pensei nisso..." disse Lucy, mentalmente, mas achou que não era a melhor hora. Abraçou Max sem tanto entusiasmo quanto o garoto e logo afastou-se.

- Temos que conversar, Max... - Disse num tom baixo e grave, olhando seriamente para o garoto.

O rapaz balançou a cabeça positivamente e, segurando Lucy pelas mãos, foi puxando ela na direção das mesas. O local era o mais movimentado do shopping. Um homem sentava ao piano, tocando músicas que Lucy nem se quer conhecia ou se dava ao trabalho de conhecer. Sentaram-se próximos à um restaurante de comida chinesas e ficaram um bom tempo em silêncio, apenas se encarando.

- Então... - Começou Max, fazendo sinal para Lucy começar.

- Quanto tempo, Max? - Perguntou a garota, parecendo repentinamente exausta, como se tivesse trabalhado um dia inteiro.

- Um ano, mais ou menos. - Disse Maxwell, e o tom de pouco caso que ele fazia irritou um pouco Lucy. - Eu e o Draco fomos numa festa. E queríamos experimentar algo novo. Então.

- Drogas, Maxwell...drogas... - Disse Lucy, olhando incrédula para o namorado. - Isso é...errado!

- Qual é, Lucy! - Disse Max, balançando a cabeça negativamente. - Você fala como se eu fosse um viciado...e nem forte é, é só maconha!

- É uma droga, Max! - Disse Lucy, exasperada. - Não importa se é forte ou fraca. E você tem que ver como você fala! Parece REALMENTE um viciado.

- Lucy...calma...escuta... - Disse Max, esticando as mãos na direção das da namorada, segurando carinhosamente. - É só um baseado as vezes.

- Max... - Disse Lucy, puxando a mãos e pondo-as sobre o próprio colo. Lançou o olhar mais severo que pôde, mas tentou manter a calma. - isso é um argumento típico de viciado. Eu não vou poder ficar com você se continuar com isso.

- Vai me fazer escolher, Lucy? MESMO? - Disse o garoto, lançando um olhar sério para a namorada. Lucy respirou fundo e lançou o olhar mais firme que pôde para Maxwell e balançou a cabeça positivamente. - Tudo bem...

E, enfiando a mão no bolso, o rapaz tirou uma caixinha de fósforos. Lucy não precisava olhar dentro para saber o que tinha. Seguiu firmemente o movimento que o namorado fazia até atirar a caixinha no lixeiro mais próximo. Voltou a olhar em seus olhos, de uma maneira firme e decidida.

- Eu te amo, Lu...se eu tiver que escolher, escolho você. Ok? - Disse o loiro, esticando uma mão em sua direção. Lucy olhou meio desconfiada para ele, como se tivesse medo que o namorado não estivesse sendo exatamente sincero. Por fim, soltou um suspiro pesado e segurou a mão dele, sorrindo de uma maneira meio forçada.

- Também te amo, Max...


O som de música alta acordou o garoto. Lentamente e com um ar nem um pouco amigável, descolou a cara do travesseiro e olhou ao redor. Demorou um pouco até reconhecer o quarto de paredes brancas onde estava. A cama ao lado estava vazia e desarrumada. Sentiu um gosto amargo na boca e a cabeça ligeiramente pesada.

Depois de deixar Lucy em casa, havia voltado até a casa de Ginny para deixar o carro. Ela e Rony estavam sentados na beira da piscina, conversando. Sentou-se para conversar com eles, abriram umas cervejas e, no fim de tudo, nenhum dos três tinha condições de dirigir(Ginny por não ter habilitação).

- Nunca mais bebo na minha vida. - Murmurou o garoto, sentando-se na cama e buscando os chinelos com os pés. Depois de muito tempo sentado, buscando coragem, levantou-se da cama, sentindo o corpo bastante mole.

Foi arrastando os pés para fora do quarto e, quando abriu a porta, a alta música pop explodiu em seus ouvidos com o mesmo efeito de uma bomba. Fechou os olhos e, tentando ignorar a dor latejante em sua cabeça, foi caminhando na direção da cozinha.

- Finalmente acordou. - Murmurou uma voz e, para a surpresa de Pedro, reconheceu como sendo de Liv.

- O que está fazendo aqui? - Perguntou o garoto, tentando não parecer tão ranzinza.

- O pessoal veio buscar o Rony...e você... - Respondeu a ruiva, largando a frigideira de lado, virando-se completamente para Pedro. - E decidiram ficar logo aqui...é mais perto do bar...

- Ah...claro... - Murmurou Pedro, sentindo a cabeça doer um pouco na parte do lado.

Liv sorriu de leve e caminhou na direção do garoto, em passos lentos e insinuantes. Esticou a mão e passou suavemente por seu rosto e sua testa.

- Pensei que estivesse com saudades. - Murmurou, aproximando-se lentamente, quase encostando os lábios nos dele.

- Não...aqui é perigoso... - Murmurou Pedro, sem esconder o mal humor.

- Não se preocupe. Os rapazes saíram para comprar cerveja. E a Ginny está tomando banho. - Murmuro Liv, aproximando mais rapidamente e dando um selinho demorado nele. Pedro segurou o braço da ruiva e afastou um pouco. - O que foi?

- Eu estou de ressaca...e não escovei os dentes. - Disse Pedro, franzindo a testa de leve e afastando-se um passo dela.

- Isso nunca impediu você antes. - Disse Liv, visivelmente mal humorada agora. - O que está acontecendo, Pedro?

- Nada... - Mentiu o garoto, olhando para ela meio de canto, antes de bufar baixinho. - Ok, me desculpa...acho que não devia ter bebido tanto ontem.

- É...não devia mesmo... - Murmurou Liv, olhando meio manhosa para ele, antes de voltar a aproximar-se. - Onde estávamos mesmo?

E, dando um ultimo sorriso maldoso, encostou-se completamente nele, pondo os lábios sobre os do garoto. Meio a contragosto, Pedro retribuiu, pondo as mãos na cintura dela e puxando-a mais para perto. Liv sentiu um pouco da má vontade do garoto e intensificou um pouco mais o beijo, empurrando-o contra a bancada da cozinha e levando a mão até entre as pernas dele, estimulando o garoto sem nenhum pudor.

O som de passos vindos da escada fizeram os dois sobressaltarem-se. Liv afastou-se rapidamente e, tentando dar um jeito na aparência de quem acabou de dar um amasso, afastou-se na direção do fogão. Pedro ficou um instante perdido, sem saber o que fazer, mas rapidamente deu as costas à escada, tentando por tudo esconder a excitação que pressionava a calça jeans.

- Ah...adoro um banho quente. - Murmurou Ginny, descendo as escadas e terminando de secar os cabelos. - Ah, você acordou!

Pedro riu meio sem graça por cima do ombro e acenou para Ginny. Respirou fundo e lançou um ultimo olhar a Liv, sentindo que, enquanto a irmã de Rony adorava um banho quente, ele precisava urgente de um banho frio.

Ginny afastou-se para pendurar a toalha do lado de fora. Pedro aproveitou o momento para afastar-se de Liv, que não parecia ter terminado por ali. Abriu a porta e, ignorando completamente a dor de cabeça causada pela luz do sol e por sua intensa ressaca.

A rua estava quase vazia no momento. Apenas algumas senhoras de idade paravam em suas calçadas, aproveitando um dia de sol raro naqueles tempos em que se aproximavam do inverno. Ignorando olhares que lançaram à seus cabelos e seu jeito ligeiramente despojado("quem anda arrumado num domingo, depois de ter acordado?!" pensou com selvageria), deu mais alguns passos e foi até a calçada, em passos lentos e ligeiramente arrastados.

Não demorou muito para o som de pneus chamar sua atenção. O conversível do pai de Ginny aproximava-se da casa, com o som alto o suficiente para dar às velhinhas um novo alto da reclamação. Parou cantando pneu na entrada da garagem. Lucius foi o primeiro a sair, logo ajudando Chapolim e Rony a tirarem algumas caixas de cerveja do banco de trás. Harry saiu logo em seguida do banco do passageiro, indo ajudar com o resto das bebidas.

- Wow! Finalmente a Bela Adormecida acordou! - Riu Lucius, enquanto jogava uma das caixas para Pedro, que pegou com dificuldade.

O garoto lançou um olhar irritado na direção de Lucius, antes de sair carregando a caixa para o lado de dentro. Ginny já ajudava Liv a preparar a carne para ser colocada na churrasqueira. Pedro viu os olhos de Ginny cintilarem na sua direção, mas notou que não era bem nele em que ela focava.

- Acho que a irmã do Rony está a fim de você, cara. - Murmurou baixo para Harry, dando uma cotovelada de leve na barriga dele.

- Cala a boca. - Murmurou Harry, meio irritado, mas sem evitar de corar.

- E você está a fim dela também! - Disse Pedro, ainda controlando a voz para que Rony não escutasse. Abriu a porta da geladeira e empurrou as latas de qualquer jeito.

- Claro que não! - Disse Harry, um pouco alto, logo pigarreando e olhando desconcertado ao redor. - Ela é irmã do Rony...

- Mas não deixa de ser uma garota. E bem bonita...e solteira, até onde eu sei. - Disse Pedro, dando outra cotovelada no amigo, antes de abrir espaço para que ele colocar as cervejas também.

- Ao contrario da Lucy, não é? - Respondeu Harry, com selvageria, empurrando as cervejas com raiva na geladeira.

- O que tem ela? - Perguntou Pedro, tentando parecer indiferente, mas sem esconder o leve tom emburrado.

-Ah, não me venha com essa, Pedro Ravenclaw. - Murmurou Harry, afastando-se da geladeira e indo para um local distante, para que Rony e Lucius não pudessem escutar. - Você está caidasso por ela!

- Claro que não! Eu conheço a garota há menos de dois dias. - Resmungou Pedro, olhando de canto para o amigo, antes de encostar-se numa parede.

-O mesmo vale para mim e para a Ginny. - Respondeu Harry, com ferocidade.

- Ah, qual é. Vocês ficaram juntos mais tempo do que eu e a Lucy. - Defendeu-se o garoto, pondo os cabelos para trás da orelha.

- Não diria isso...você acompanhou ela a noite toda antes de ontem...depois foi levar ela em casa. Teve mais tempo sozinho com ela do que eu e a Ginny. - Ponderou Harry, observando a ruiva meio de longe, antes de voltar-se para o amigo.

- Ainda assim... - Murmurou Pedro, sentindo que estava sem argumentos. - Você mesmo disse...ela tem namorado...

- A vida é cruel, meu amigo... - Disse Harry, dando um tapa amigável no ombro de Pedro antes de afastar-se do rapaz.