O som de vozes femininas foi se afastando a medida que duas garotas em trajes minimos e saltos altos se afastavam na direção da porta. Uma delas virou-se para o moreno de cabelos compridos, sentado à beira da cama, com um ar exausto e, soltando uma risadinha irritante, murmurou um "me liga", antes de sair com a amiga, quase esbarrando com Amanda no corredor.
- A noite foi divertida, não? - Perguntou a garota, olhando por um instante por cima do ombro antes de entrar no quarto. Pedro soltou uma risadinha irônica, antes de virar a cara. - Alguma delas é comprometida?
- Não perguntei a nenhuma delas. - Respondeu o garoto, meio secamente, enquanto voltava a olhar para frente, admirando os próprios dedos.
- Tudo bem...isso nunca pareceu lhe incomodar, não é? - Perguntou Amanda, com um ar de reprovação, misturado à um sutil sarcasmo. - Aliás, acho que está se tornando um fetiche.
- Do que está falando, Gryffindor? - Perguntou Pedro, virando o olhar gelido para ela, apoiando o queixo sobre os joelhos.
- Não tente se sair...eu vi você com a Lucy ontem... - Disse Amanda, escorando-se no portal do quarto, olhando diretamente para ele. - A Liv não era o suficiente?
- É diferente... - Disse Pedro, logo me seguida franzindo a testa. "porque eu disse isso?
-Por que? Por que é diferente? Vai dizer que gosta dela?! Que vai namorar ela, casar e ter filhos?! - Disse Amanda, num tom ainda mais gélido e cortante do que antes. - Você não está com ela porque gosta. Está porque é um compulsivo, obsessivo em procurar mulheres comprometidas!
- Do jeito que você fala, eu fico parecendo um monstro. - Murmurou Pedro, dando uma risada irônica, antes de levantar-se, quase com um pulo. - Pode sair? Quero trocar de roupa.
- Você não muda nunca, não é? - Perguntou Amanda, com um ar de censura em sua voz.
- Não...agora, vire lentamente e caminhe até seu quarto...eu vou mesmo trocar de roupa. - Disse Pedro, encenando tudo o que ela devia fazer com os dedos. A garota olhou para ele por um momento, antes de dar as costas, batendo a porta ao passar.
Por um longo minuto, Pedro ficou olhando para a superfície lisa da porta, antes de jogar-se na cama mais uma vez. Deixou o corpo cair no colchão pesadamente, deitando-se de costas, encarando o teto.
Por que diabos não conseguia tirar aquela garota da cabeça? Conhecia ela há menos de um final de semana e, ainda assim, ela havia marcado seu pensamento de uma forma que nenhuma outra garota conseguiu...exceto Liv.
Será que, no fundo, Amanda estava certa? Será que só estava atrás dela pelo fato da garota ser comprometida? Sacodiu a cabeça com força, como se aquilo pudesse afastar qualquer possibilidade de ser aquela teoria, antes de levantar-se mas uma vez, dessa vez mais lentamente.
Ouviu a porta abrir-se novamente e virou o rosto para ver Liv. A garota olhava por cima do ombro, como se quisesse ter certeza de que não estava sendo vista, antes de fechar, olhando para o rapaz com as sobrancelhas erguidas.
- A noite foi animada ontem, não? - Perguntou a garota, com um ar levemente cínico.
- É...pois é... - Murmurou Pedro, sem nenhuma vontade. Levantou-se e começou a catar algumas roupas na mochila, de costas para ela.
- Aconteceu algo? - Perguntou Liv, aproximando-se lentamente, franzino a testa de leve.
- Não...nada... - Murmurou com mais má vontade do que antes. Puxou a camisa limpa e fechou a mochila com um puxão violento no zíper.
- Bem...se não foi nada... - Murmurou Liv, abraçando-a por trás, encostando a cabeça em suas costas. - Estava com saudades.
- É... - Disse Pedro, meio vagamente, virando-se e olhando para ela. - Eu vou tomar banho...
- Bem, podemos tomar banho juntos. - Riu a garota, com um ar malicioso.
- Não...eu te encontro mais tarde... - Disse Pedro, meio ríspido, afastando-se dos braços dela e indo para o banheiro. Bateu a porta com força, deixando para trás uma Liv completamente confusa.
Max parou o carro diante de sua casa poucos minutos depois de saírem da escola. Ele dirigia rápido de mais novamente, mas, sempre que Lucy perguntava o que estava acontecendo, ele respondia algo sobre "resolver problemas em casa". Cansada de perguntar e tentar conseguir uma resposta mais concisa, Lucy contentou-se em amuar no banco.
- Bem...então... - Disse a garota, soltando o cinto lentamente, como se quisesse ganhar tempo com o namorado. - no vemos amanhã?
- É, claro. - Disse Max, parecendo agitado e atento de mais. Lucy notou que as narinas do garoto estava ligeiramente alargadas e com feridas. Abriu a boca para responder, mas o garoto interrompeu. - Tchau!
Sem reação, Lucy ficou olhando escandalizada para o rapaz. Demorou um instante até conseguir processar aquilo em sua mente. Balançou a cabeça, como se tentasse espantar um enxame de abelhas, antes de murmurar um "tchau" secamente e descer do carro. Bateu a porta com força, mas Max não pareceu notar. Arrancou o carro rapidamente, queimando pneu pela rua.
- Idiota... - Murmurou Lucy, olhando de cara feia para onde o carro do namorado havia sumido.
- Também acho. - Disse uma voz, logo atrás dela.
Lucy virou-se de um salto, com a mão no peito, a outra já preparando-se para socar quem quer que fosse. Demorou um pouco para reconhecer o rosto risonho do moreno de longos cabelos e olhos castanhos. Pedro encarou ela por um instante, ainda sorrindo, antes de levar a garrafa de cerveja aos lábios mais uma vez, oferecendo à ela.
- O que faz aqui? - Perguntou Lucy, sentindo que o coração batia ainda mais forte do que na hora do susto.
- Oras, precisamos conversar. Você não pode me beijar e fingir que eu não existo. - Disse Pedro, com um ar sério, mas logo sorrindo marotamente. - Afinal, eu sou um garoto de família!
Lucy reprimiu uma vontade de rir, mas acabou sendo entregue por um barulhinho curioso que escapou por seu nariz. Pedro alargou ainda mais o sorriso, olhando diretamente em seus olhos.
- Então...- Começou Lucy, olhando os próprios pés. - O que quer falar?
- Hmmm...eu...você...nos beijando...achei que tivesse ficado bem claro... - Disse Pedro, simplesmente, antes de dar um novo gole na cerveja.
- Não há o que falar. - Disse Lucy, sentindo o rosto esquentar e corar.
- Como não? Você enfia a língua na minha boca e diz que não tem nada a falar?! - Perguntou o garoto, parecendo injuriado.
- VOCÊ quem enfiou a língua na minha boca! - Disse Lucy, arregalando os olhos.
- Ah, bem, isso só depende do referencial adotado. - Disse Pedro, no mesmo tom simples de antes, um ar maroto dançando em seus olhos.
Lucy encarou o garoto por um instante, sentindo-se perder em seus olhos. Abaixou o olhar quando achou que não era mais seguro olha-lo. A voz de Hermione já voltava a zunir em seus ouvidos, como um conselheiro incomodo e muito chato.
- Você gostou disso tanto quanto eu. - Disse Pedro e só então Lucy notou que ele havia descido o muro e estava à sua frente, menos de um palmo de distância dela.
- E...eu...eu não gostei! E aquilo não devia ter acontecido. - Disse Lucy rapidamente, dando um passo para trás para afastar-se.
- Por que não? - Disse o garoto, acompanhando o passo dela, não deixando que ela se distanciasse.
-Eu tenho namorado! - Disse a garota, sentindo a garganta secar. Deu um passo para o lado, que foi prontamente acompanhado pelo rapaz.
- Que acabou de te dispensar grosseiramente. - Disse Pedro e aquela simplicidade com que falava já começava a mexer com ela. Ergueu o olhar e olhou novamente em seus olhos. - Lucie...podemos ficar nesse joguinho o tempo que quiser...
A garota mordeu o lábio inferior nervosamente, ainda olhando em seus olhos. Viu ele sorrir e retribuiu o sorriso, meio inconsciente. Sentiu as mãos dele em sua cintura e, automaticamente, colocou as mãos em seu peito. Sentiu ele aproximar-se e agora a voz de Hermione praticamente berrava que aquilo era errado, mas ela havia mandado tudo para o espaço. Sentiu o nariz dele tocar o dela, enquanto ele mantinha uma espécie de suspense.
- If I feel in love with you... - Murmurou ele, antes de pressionar os lábios contra os dela. Sem receios como o dia anterior, a garota escorregou as mãos para seu pescoço, retribuindo o beijo.
O tempo pareceu parar ao redor deles. Mas quando seus lábios se separaram, Lucy tomou conhecimento do quanto haviam ficado ali, parados. E se alguém tivesse visto? E se um dos colegas do colégio tivesse visto aquele beijo? Sentindo-se incrivelmente mal e culpada com aquilo, a garota escondeu o rosto entre as mãos e deu dois passos para trás.
- Uau...eu beijo tão mal assim? - Perguntou Pedro, franzindo a testa de leve.
- Não...não é nada disso... - Disse Lucy e havia um tom levemente choroso em sua voz. Pedro franziu a testa de leve, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado, curioso. - Eu não posso fazer isso com o Max.
- Isso o que?
- Como "isso o que?"?! - Exclamou Lucy, afastando as mãos do rosto, sem esconder os olhos vermelhos e as lagrimas. - Eu...ainda sou namorada dele! Não devia sair beijando outros caras assim...sem motivo!
- Assim você me magoa. - Disse Pedro, com uma leve irônia na voz. Revirou os olhos e aproximou-se dela. - Lucie...calma...você está fazendo tempestade num copo d'água.
- Eu não estou exagerando! - Exclamou a garota, afastando-se do garoto. - Droga! Quem diabos é você, garoto?! Chega há menos de quatro dias e já bagunça minha vida completamente?!
- Eu sou o cara que gosta de você! - Retrucou o garoto, dando um passo em sua direção. - Eu...eu sei que nada disso faz sentido. Nos conhecemos à um fim de semana, mas...
- Mas o que? - Perguntou Lucy, parando de afastar-se, olhando para ele com curiosidade.
- Tem algo em você que me atraí de uma forma que eu nunca senti antes. - Disse Pedro, olhando para baixo, parecendo perdido.
- Atraí? - Murmurou Lucy, estreitando o olhar. - É isso o que você sente por mim? Atração?
- Não! Digo...sim...mas não só isso! - Exclamou Pedro rapidamente, voltando a olhar para ela. Respirou fundo e tentou acalmar-se. - Eu gosto de você. De verdade. A ponto de enfrentar o Maxwell ou quem quer que for para ficar com você.
Lucy encarou o garoto demoradamente, sentindo o rosto corar. Abaixou o olhar e deu dois passos para trás, encostando-se na mureta. Ficou olhando para o chão e, só quando ergueu o olhar foi que viu que ele lhe cercava com os braços, apoiando as mãos na mesma mureta.
- Eu não posso terminar com o Max agora. - Murmurou Lucy, olhando diretamente em seus olhos.
- Tudo bem...eu sei esperar. - Murmurou o garoto, olhando diretamente em seus olhos, parecendo hipnotizado.
- Vai me esperar? - Murmurou Lucy, não conseguindo impedir um sorriso bobo de surgir em seus lábios.
-Claro...eu já disse...eu gosto de você...e não estou mentindo. - Riu de leve, enquanto olhava em seus olhos. Aproximou-se mais uma vez dela e beijou-a suavemente. Dessa vez Lucy não ouviu a voz de Hermione ou algum tipo de culpa. Passou os braços por seu pescoço, retribuindo ao beijo, puxando-o mais para si.
Não soube quanto tempo se perdeu no beijo do garoto. Quando afastou-se, sentiu os lábios mais sensíveis do que o comum e uma intensa queimação em seu rosto. E acabou constatando, para seu constrangimento, que não era só seu rosto que estava quente. Sentiu que ele se afastava, mas mantinha as mãos em sua cintura. Achou, por bem, que devia manter as mão sem seus ombros. Seus olhos ficaram por um bom tempo em contato, como se quisessem se comunicar. Por fim, ele soltou uma risada um tanto irônica.
- O que foi? - Perguntou Lucy, num tom infantilmente intrigado, olhando-o com a cabeça meio de lado.
- Nada...só...estava pensando... - Respondeu Pedro, aproximando e pondo os lábios sobre os dela de novo. Beijou-a por alguns instantes, mas foi ela quem afastou-o dessa vez.
- É melhor eu entrar. Minha mãe pode sair. E não vai ser legal ela me ver aqui com...
- O seu amante? - Perguntou Pedro, num tom divertido. Lucy tentou parecer indignada, mas não conseguiu conter o sorriso.
- É...isso, com o meu amante. - Murmurou num tom divertido, antes de dar um selinho demorado nele.
- E quando nos vemos de novo? - Perguntou Pedro, sem parecer querer largar ela.
-Em breve... - Murmurou Lucy, passando a mão pelo rosto dele de leve. Deu um novo selinho demorado, antes de desvencilhar-se dos braços dele.
Pedro seguiu parado no mesmo lugar, apenas virando para observar enquanto ela ia na direção da casa. Encostou-se na mureta que cercava a casa, os braços cruzados sobre o peito. Lucy ainda virou-se e acenou para ele, antes de entrar. Só quando a porta estava fechada foi que ele afastou-se da mureta. Quase saltitando pela rua enquanto andava, o garoto foi caminhando, cumprimentando os frios londrinos sem incomodar-se com os olhares repressores. Sim, ele estava feliz.
