Pedro deixou Lucy em casa por volta das cinco da tarde, antes de ir até o hotel. Agradeceu por Sadie estar lendo uma revista e não notou sua passagem, subindo rapidamente as escadas até o sexto andar. Parou um instante apoiando-se na parede do corredor para recuperar o folego da subida antes de abrir a porta.
- Wow, onde você andou a tarde toda? - Perguntou Harry, assim que ele entrou.
- Andando...por aí. - Disse Pedro, um tanto quanto esquivo.
- Por aí. - Riu Rony, trocando um rápido olhar com Harry. - Sei.
- É. Por aí. - Repetiu Pedro, fingindo procurar algo na própria mochila. - Já estão se preparando para o show?
- Sim. - Respondeu Harry, afastando algumas roupas de dentro da mala, procurando algo mais no fundo. - Lucius quer chegar um pouco antes. Parece que o cara da gravadora quer conversar antes do show.
- Ah...e isso são boas ou más noticias? - Perguntou Pedro, finalmente desistindo de fingir que procurava algo na mochila, prestando atenção nos amigos agora.
- Vai saber. - Disse Rony, retirando um par de meias e calçando. - Espero que boas noticias.
Espero que boas noticias. - Repetiu Pedro, enquanto lançava um olhar rápido para os dois amigos. - Então...o que fizeram de tarde?
- Você levou a van, então tivemos que ir de ônibus até a escola da Gina. - Disse Harry, pegando o MP3 no fundo da bolsa e pondo os fones no ouvido, selecionando as músicas lentamente. - Íamos te chamar também, mas você sumiu, então, bem.
- Aliás, lembra do que as garotas falaram, Harry? - Perguntou Rony, enquanto retirava um par de meias do meio das roupas, separando do restante. - Da Lucy? Ela também sumiu.
- Pois é. - Disse Harry, parando um instante de mexer no MP3 para olhar os dois. - Elas disseram que a Lucy levantou antes delas e saiu correndo. E não viram ela na escola depois disso. E nem em casa ela está. Nem atende o telefone.
- Tem alguma ideia de onde ela tenha ido? - Perguntou Rony, trocando um olhar rápido com Harry.
- Eu? - Perguntou Pedro, tentando fazer a cara mais natural possível. Quando os dois confirmaram com um aceno de cabeça, ele apenas deu de ombros. - Não faço a menor ideia.
Harry e Rony trocaram um olhar longo e desconfiado, mas ficaram no mais completo silêncio. Notando a desconfiança no local, Pedro pegou a primeira muda de roupa que viu na frente e, murmurando um "com licença", foi quase como um raio na direção do banheiro, fechando a porta rapidamente.
- Você acredita? - Ouviu a voz de Rony falar, num tom baixo, mas ainda assim audível.
- Não. - Disse Harry, com um ar divertido. - Acho que tá rolando algo. Ao menos um interesse.
- É, acho o mesmo. - Disse Rony, com o mesmo ar de riso na voz. - Mas e o tal Maxwell?
- Contanto que ele não tenha um martelo de prata, não é perigoso. - Disse Harry, rindo alto, sendo acompanhado por Rony.
O restante da conversa girou entre o show e as outras garotas. Com um suspiro demorado, Pedro meteu-se embaixo do chuveiro. A água fria abafou as vozes dos dois e, mesmo que não tivesse abafado, ele não conseguiria se concentrar em mais nada com seus ossos congelando até o tutano.
O som de batidas em sua porta fez Lucy abandonar sua lição de casa e descer as escadas. Uma rápida olhada para os cômodos e viu que sua mãe não estava por ali. Olhou pelo olho mágico antes de abrir. Era Max e parecia agoniado. Parecia inquieto, pois andava de um lado para o outro antes de voltar à porta e bater novamente, sempre rápido.
- Já vai. - Disse um tanto quanto irritada pelo modo como ele batia. Soltou o trinco e abriu a porta.
- Lucy! - Exclamou ele, abrindo os braços antes de abraça-la. Lu, Lucy, Lucie, Lucinha, Lucy! Que bom te ver.
- Ahm...também é bom te ver, Max...- Disse Lucy, afastando-se do garoto. - Aconteceu algo?
- Não, não aconteceu nada. Definitivamente não aconteceu nada. Nadinha, nadica, nada. - Disse Max, afastando-se dela e começando a andar pela casa em passos rápidos. Parecia elétrico. - Uuuh, a TV! Você sabia que a TV é nada mais do que uma sequencia de imagens que dão impressão de movimento?! Nem eu sabia disso!
- Max... - Disse Lucy, um tanto assustada. - Calma...senta...o que está acontecendo?
- Eu já disse que nada! - Disse Max, puxando Lucy pela mão, começando a girar pela casa. - Vamos dançar, minha querida!
- Max, pára! - Disse Lucy, tentando se soltar dos braços dele. - Você tá me machucando, Maxwell!
- Ah, qual é Lucie, curte o momento! - Disse Max, entre uma gargalhada e outra. Lucy apoiou as mãos no peito dele e empurrou o garoto, fazendo-o cair sentado no sofá.
- Chega, Max! - Disse Lucy, irritada. - O que está acontecendo?!
- Eu já disse! Nadinha nadinha nadinha! - Disse Max e só então Lucy percebeu o quanto a pupila dele estava dilatada. Ele estava 'ligadão'.
- Max...você andou usando drogas de novo? - Disse Lucy, com uma nota de magoa na voz.
-Não! Claro que não! Que absurdo! Eu nunca faria isso! Nunca nunca mesmo! - Disse Max, a euforia ainda sobressaindo à ofensa em sua voz.
- Max...seu nariz... - Disse Lucy, notando os ferimentos no nariz do namorado. - Isso...você... - seu olhar foi até o casaco do rapaz. Havia um pó cristalino em sua roupa. - você usou cocaína?
- Lucy, Lucie, vem cá. - Disse Max, levantando e indo na direção de Lucy.
- Não chega perto de mim! - Exclamou Lucy, as lagrimas já se formando no canto de seus olhos. Deu dois passos para trás, afastando-se dele. - Olha...eu vou preparar um suco de maracujá...e quando você se acalmar, nós vamos falar com seus pais. E SEM CONTESTAÇÕES, Maxwell. - Finalizou com um ar irritado e carregado de magoa. Virou as costas e foi na direção da cozinha, limpando as lagrimas que já corriam soltas por seu rosto.
Não entendia como Max podia estar fazendo aquilo consigo. Era um garoto de boa família, notas razoáveis com planos para o futuro e estava jogando tudo fora por alguns minutos de diversão. sentindo mais lagrimas brotarem com aquele pensamento, serviu um copo de suco de maracujá (desde o seu quase atropelamento, procurara em algumas lojas aquele sabor de suco) e voltou para a sala.
- Aqui. Espero que você gos...MAX!
O copo caiu de sua mão no momento em que se precipitou na direção do garoto. Ele estava no chão, se convulsionando. A mão segurava o peito com força, como se sentisse dor e os olhos estavam vidrados. Por um instante ela ficou jogada sobre ele, sacudindo seu ombro e chamando por seu nome insistentemente, mas ele não saia daquela posição. Afastou-se e correu até o telefone, ligando para o número de emergência.
- Alô? Eu preciso rapidamente de uma ambulância! - Disse apressadamente, a língua enrolando as vezes. Tremula, disse o número da casa e o endereço da rua, antes de voltar até Max, que parecia mais fraco e mais pálido. - Tudo bem...tudo bem...vai ficar tudo bem.
