POV Harry

A vida sem Vivian era exatamente igual à vida com Vivian, e esse fator tão determinante quando o assunto é relacionamento me deu a certeza de que eu havia feito a coisa certa.

Dias depois, quando voltei de uma viagem de trabalho que me deixou fora de casa por quase duas semanas inteiras, peguei um táxi no aeroporto e pedi para o motorista me deixar direto na empresa. Ainda não era nem três da tarde de uma sexta-feira e eu tinha coisas urgentes a resolver, então aproveitaria algumas horas e depois iria para casa descansar durante todo o final de semana.

Cumprimentei as poucas pessoas que avistei pelo caminho e parei na mesa em frente à minha tempo suficiente para cumprimentar minha colega de trabalho.

-Oi, Helen.

Ela estava distraída com alguma coisa no computador, mas desviou os olhos para mim com seu habitual sorriso animado.

-Ei, Harry, como foi a viagem?

-Tudo tranquilo. - Respondi enquanto me acomodava na minha cadeira. - E como está essa mocinha?

O bebê era uma menina, e minha colega falava tanto da filha que acabei criando o hábito de perguntar como ela estava.

-Chutando mais do que tudo, daqui a pouco nem sinto mais minhas costelas. - Por trás da reclamação estava o orgulho que ela não fazia questão de conter. - Mostrou para aqueles teimosos quem é que tem os melhores drives desse país?

A empresa em que trabalhamos fabrica drives para computador, e embora na prática eu não entenda quase nada deles, minha função era convencer a todos os clientes que os nossos são os melhores possíveis.

-Claro que mostrei, só falta ver se eles se convenceram.

Ela riu da minha resposta e se aproximou quando a chamei para discutirmos as condições propostas, porque eu deveria enviar até o fim do dia nosso aceite ou recusa.

Depois de analisar, calcular, estabelecer um plano convincente e decidir que era totalmente viável, enviei o e-mail que encerraria minha semana cansativa e me preparei para ir embora.

A Helen me acompanhou até a garagem e entrou no próprio veículo para ir embora, enquanto eu fiz o mesmo. Acomodei minha mala de roupas no porta malas e deixei a bolsa com o notebook no banco ao meu lado antes de dar a partida e sair dali.

Ao invés de dirigir direto até o meu apartamento, guiei meu carro até o centro da cidade e estacionei em frente a um barzinho que servia um parmegianna ótimo. A comida do avião não havia sido satisfatória e cozinhar quando chegasse em casa estava fora de cogitação.

Entreguei minha chave ao manobrista, peguei a carteira e entrei no local já cheio de gente, como era típico numa noite de sexta. Esperar por uma mesa demoraria demais, então me encaminhei ao bar e sentei em um dos poucos bancos disponíveis ali. Pedi ao garçom atrás do balcão o meu prato preferido e uma cerveja para acompanhar, e comecei a olhar a multidão em volta enquanto aguardava.

Não havia nada específico que eu quisesse ver, então aproveitei o ambiente pouco iluminado para correr os olhos a esmo enquanto deixava minha mente vagar por outros lugares. A primeira olhada no salão, no entanto, me fez deparar com uma cabeleira vermelha que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Ginny estava de costas, a algumas mesas de distância, sentada relaxada em uma cadeira. A essa distância não consegui ver o que vestia, mas os cabelos estavam soltos, caindo por sobre o encosto do assento. Quando a vi gesticular, notei que ela estava falando com alguém, e o que vi não me agradou em nada.

Senti um aperto incômodo no estômago, que rapidamente identifiquei como ciúmes, ao identificar o homem sentado ao lado da dela. Ela virou a cadeira de modo a se sentarem frente a frente, e estava contando algo aparentemente muito interessante, visto a empolgação com que falava.

Há muito tempo eu não sentia essa sensação tomar conta de mim, mas não me surpreendi com o fato de ser Ginny a causá-la, exatamente como nas outras vezes em que esteve presente.

Eu queria olhar para qualquer outra coisa, mas não consegui desviar minha atenção da mão dele na coxa dela, ou da empolgação com que ela interagia com alguém que não era eu. Em determinado momento, ele colocou o cabelo dela pra trás e puxou seu rosto em direção ao dele, prendendo a minha esposa, ex esposa, em um beijo.

-Senhor, seu prato. - Olhei para o garçom que colocava meu jantar de frente para mim, agradecido por me obrigar a olhar qualquer outra coisa que não aquela cena.

Assim que ele saiu, no entanto, voltei a olhar os dois, agora conversando outra vez. Ginny estava de costas para mim, então eu conseguia ver com perfeição o rosto do homem à sua frente, mas eu poderia olhar para eles durante toda a noite que ele não me notaria, porque sua atenção era total e completamente da ruiva que o fazia companhia.

Ele o olhava tão concentrado, tão maravilhado, como se soubesse exatamente a sorte que tinha ao ter a companhia dela, que me senti um completo idiota por não ter feito exatamente aquilo enquanto tive chance.

Eu deveria tê-la olhado daquele jeito, prestado atenção em cada pequena palavra que me dirigia, dito sim a todos os convites para ir da sala até a cozinha acompanhá-la durante as refeições. Deveria ter feito tudo o que aquele estranho estava fazendo enquanto me causava mais ciúmes do que eu me lembrava de já ter sentido um dia.

Será que era assim que Ginny se sentia quando eu chegava mais tarde? Se fosse, eu até poderia entender um pouco os ataques, porque o limiar entre incômodo e dor física é muito tênue para ser ignorado.

Já sem a mesma vontade de antes, apenas para matar a fome, comi meu jantar quase sem sentir o gosto, enquanto isso Gina e aquele intruso trocaram risadas, beijos, um abraço, alguns carinhos, fazendo cada pedaço de carne descer mais incômodo que o anterior pela minha garganta.

Demorei mais do que o normal para terminar minha refeição, ao mesmo tempo que eu queria apagar aquela cena da minha frente, também queria ver até o fim. Bebi minha cerveja em pequenos goles, pedi uma sobremesa que eu nunca fazia questão de comer e, mais de uma hora depois, pedi a conta ao garçom. Abrir a carteira para pagar o que consumi só me fez lembrar que agora havia ali um espaço vazio onde antes ficava uma foto do rosto sorridente da mulher que agora sorria para outro.

Irritado comigo mesmo pelo rumo dos meus pensamentos, levantei e andei a passos largos para fora do restaurante. Aparentemente a noite dela seria longa, então pensando bem era melhor não ficar para ver tudo.

A visão do meu pequeno apartamento contribuiu para meu sentimento de fracasso assim que passei pela porta. Ver minha parcela de culpa esfregada na minha cara desse jeito, com outra pessoa fazendo tudo o que em outros tempos ela quis receber de mim, trouxe mais uma vez aquela sensação incômoda de que eu também poderia ter feito alguma coisa para que o rumo das coisas fosse completamente diferentes.

O que ela me cobrava não era nada demais, era apenas o que qualquer cara apaixonado faria sem nem precisar de um pedido: atenção. Eu era esse cara apaixonado, e não fiz nada.

Tomei um banho rápido e me joguei na cama, agradecendo a semana cansativa que tive e deixando que o cansaço me envolvesse. O que me pareceu minutos depois de fechar os olhos, meu celular tocou em cima do criado mudo, me fazendo sobressaltar.

-Fala, Ronald. - Não me importei com os bons modos, minha voz de sono mostraria a ele o motivo do mau humor.

-Vai jogar hoje? - Ele também não se incomodou em ser um cavalheiro.

Eu não tinha o hábito de jogar futebol todos os sábados, como ele, mas as vezes acompanhava para me divertir. Afastei o aparelho suficiente para conseguir ver as horas, já era quase dez da manhã. Eu não tinha mesmo nada para fazer, então achei melhor não ficar em casa pensando no que não devia.

-Vou, só preciso me trocar.

-Estou te esperando, até daqui a pouco.

Encerrei a chamada e cocei os olhos antes de me levantar e ir em direção ao banheiro. Dizer que uma noite de sono melhorava alguma era uma completa mentira, porque eu ainda me lembrava de tudo o que tinha visto na noite anterior.

Encontrei meu amigo na casa dele antes de irmos para a quadra onde ele se exercitava regularmente. Depois de duas horas inteiras correndo e ouvindo ofensas que ele dirigia a mim sempre que eu errava um passe, entramos novamente no carro e fizemos o caminho inverso até sua casa.

Mione estava sentada no sofá da sala quando entramos, e me lançou apenas um aceno de longe.

-Oi, Harry. Não, Ron, você está todo suado. - Resmungou quando ele se debruçou sobre ela e lhe deu um beijo no pescoço, mas nem eu consegui levar aquela bronca a sério.

-Vou tomar banho. - Ele anunciou e saiu da sala.

-Tudo bem? - Perguntei depois de me acomodar na poltrona em que eu sempre me sentava quando estava aqui, de costas para a cozinha.

-Tudo, e você?

-Também.

-Que cara é essa? - Perguntou com a sobrancelha erguida.

-Cara de que?

-De qualquer coisa, menos de que está tudo bem.

Ri da sinceridade que ela sempre usava.

-Nada, só estou cansado. Passei duas semanas viajando, voltei ontem à tarde.

-Entendi. - Ela confirmou, embora não parecesse convencida.

O celular dela soou com uma mensagem e a vi desbloquear o aparelho e se concentrar no que havia recebido. Observei enquanto ela ria para a tela e digitava uma resposta, pensando que aquele aparelho deveria estar repleto de fotos de todo mundo, inclusive da Ginny. ao contrário do meu.

O grito do Ron interrompeu meus devaneios.

-Amor, vem aqui. - Ouvimos a voz dele abafada pela porta fechada.

Mione rolou os olhos, mas não demorou um segundo a atender ao pedido dele.

-Ele sempre esquece alguma coisa. Já volto, Harry. - Comentou antes de soltar o aparelho sobre o sofá e sumir pelo corredor.

Antes que eu sequer pensasse no que estava fazendo e como minha atitude era mal educada e nada condizente com minha postura habitual, me levantei e peguei o celular da minha amiga antes que ele bloqueasse automaticamente.

Nem me dei ao trabalho de sentar, apenas abri o aplicativo de mensagens instantâneas e selecionei a conversa com Ginny, que era uma das primeiras. Não me preocupei em ler o que as duas falavam, porque não estava preocupado com isso, fui direto na galeria multimídia, onde uma infinidade de fotos da minha ruiva se estendeu à minha frente.

O conteúdo da galeria me fez rir: havia imagens de comida, dela própria, de roupas, em casa, em provadores de loja e algumas piadas trocadas. Parei um pouco numa foto em que ela aparecia de frente para um espelho, vestida apenas com sutiã e uma calça jeans ainda com etiqueta, a mensagem que acompanhava era "o que achou dessa?". Inconscientemente, falei comigo mesmo "ficou ótima".

Selecionei as que mais gostei e cliquei no botão para encaminhar todas para mim, não me faria mal ter algumas fotos outra vez. E de qualquer forma, não era o tipo de foto que eu nunca tinha recebido dela em outros tempos.

-Posso saber o que você está fazendo?

O tom de repreensão me fez dar um pulo e esconder as mãos para trás.

-Nada! - Falei tão rápido, que me senti uma criança escondendo as coisas da mãe.

-Nada? - Mione repetiu, desafiadora.

Derrotado, estendi o celular para ela e me sentei. A vi olhar para a tela com compreensão e um brilho de diversão no olhar, mas eu nem precisava disso para me sentir constrangido.

-Isso não parece exatamente nada. - Provocou.

-Sem avacalhar, por favor. - Pedi emburrado, eu já ficaria sem minhas fotos, não precisava de uma bronca também.

Ela sentou do meu lado e olhou para a tela do aparelho com todas as imagens selecionadas. Não disfarcei minha surpresa quando a vi clicar nos comandos certos e encaminhar tudo para o meu contato, depois bloqueou a tela de novo e deixou o aparelho de lado.

-Pronto, se você queria algumas fotos era só me pedir.

-Obrigado. - Agradeci sério, sem saber mais o que dizer.

-Olha Harry, eu não me meti nisso até hoje, mas já que você estava usando meu celular sem consentimento e roubando fotos que foram enviadas apenas para mim, me sinto no direito de fazer isso pela primeira vez.

Olhei de canto para seu argumento, mas ela não se incomodou e continuou o que ia dizer.

-O tempo já passou, vocês já viram como é ficar separados, já tiveram tempo de sobra de refletir sobre tudo o que aconteceu, e pelo que acabei de ver aqui o sentimento não mudou muito, não é? - Ela me olhou quando terminou a pergunta, mas eu não respondi. - Acho que está na hora de vocês conversarem, tentem se entender, acho que faria bem a vocês.

-Não, Mione.

-Por que, Harry? Teimosia é mais a cara dela do que a sua.

-Não é teimosia, é só que… - Hesitei antes de terminar a frase. - Ela está bem.

-Como você sabe?

-Eu vi os dois juntos, e tenho certeza que você sabe do que estou falando. Ela parecia bem, não vou atrás dela para levar um não na cara.

-Mas você ia levar um não? - Perguntou desafiadora.

-Acho que você sabe a resposta para essa pergunta melhor do que eu. Além disso, se voltarmos e tudo for como era antes não vai dar certo de novo, só vamos ficar ainda mais magoados um com o outro.

-Agora está sendo medroso. - Brincou, mas eu já conseguia ver seu olhar compreensivo para mim.

-Não é medroso, só estou sendo realista.

-Tudo bem, se você acha melhor assim. - Deu de ombros. - O que você vai fazer então?

-Não vou fazer nada, só queria umas fotos. Obrigado.

-De nada. - Ela encostou a cabeça no meu ombro e ficou em silêncio.

-Queria almoçar sua comida também. - Pedi um tempo depois, rindo.

Mione riu também, deixando o clima mais leve.

-Deixa só o Ron sair do banho que eu ligo o forno para gratinar, já está pronto.

-Por isso que eu gosto de você, Mione.

-Vou fingir que você não disse isso só por causa da minha comida.

Ela tinha um ótimo senso de oportunidade, então nenhuma palavra mais foi dita sobre o assunto anterior.

POV Ginny

Julho já não começou muito bem para mim.

Logo na primeira semana do mês, estava parada em um semáforo à caminho de casa quando um veículo na direção contrária fez a curva de forma errada e bateu na lateral do meu carro. Felizmente, nem eu e nem o outro motorista nos machucamos, mas as minhas duas portas do lado direito ficaram completamente amassadas.

Resolvi a burocracia do seguro e o carro foi enviado para conserto, onde ficaria por duas semanas. Fui da oficina para casa de táxi, mas assim que cheguei lá liguei para o Nev, expliquei a situação e pedi uma ajudinha a ele pelos próximos dias. Como amigos são exatamente para esse tipo de coisa, ele passaria na minha casa pela manhã e me deixaria na faculdade, depois passaria para me deixar em casa quando estivesse indo almoçar. Vantagens de ter o próprio escritório e trabalhar perto de casa.

-Nossa, tinha que demorar tanto? - Brinquei assim que entrei no carro, me esticando para cumprimentá-lo. - Oi, Nev.

-Vou ignorar sua pergunta, se não te jogo pra fora do carro. - Respondeu enquanto arrancava com o carro, em direção à minha casa. - Tudo bem com você?

-Sim, tudo, e você e Luna?

-Estamos bem, ela te mandou um beijo.

-Obrigada, manda outro para ela.

-Tem comida pronta na sua casa? - Perguntou olhando no relógio.

-Tem o que jantei ontem, é só esquentar, por quê?

-Tenho que estar em um cliente daqui a uma hora, não vai dar tempo de ir até em casa. Vou almoçar com você.

-Ta bom.

Ele parou o carro rente ao meio fio e me esperou abrir o portão antes de entrar atrás de mim. Nev nunca foi considerado visita na minha casa, assim como eu também não era na dele, então deixei minha bolsa sobre o sofá e fui direto para a cozinha, sem esperar por ele. Enquanto eu colocava a assadeira no microondas para aquecer o arroz de forno, ele se acomodou num dos bancos que haviam no balcão e esperou.

-Pega o suco na geladeira, copo e prato pra gente. - Pedi de costas para ele, separando os talheres que usaríamos.

-Eu sou visita. - Protestou, mas fez o que pedi.

Me acomodei ao seu lado e almoçamos em meio a uma conversa tranquila, trocando banalidades e as poucas novidades que tínhamos desde a semana anterior, última vez em que nos vimos.

Quando eu estava terminando de comer, meu celular tocou sobre o balcão e o identificador de chamadas nos mostrou que era o Allan me ligando.

-Olha a sua sombra. - Nev provocou, rindo.

Ri também e silenciei o aparelho, eu ligaria para ele depois.

-Não é bem assim.

-Ah, não, o cara te liga o tempo todo. Ou então é coincidência demais e isso só acontece quando eu estou com você.

-Não, ele liga bastante mesmo.

-E você não enche o saco disso?

-Quando não quero ou não posso falar, eu não atendo e ligo depois.

-Ele sabe que está só sendo usado para fins sexuais? - Riu enquanto perguntava.

-Nunca prometemos nada um ao outro, mas eu espero que saiba porque eu já gastei minha cota de relacionamento sério dessa vida.

-Então agora a senhora é só da bagunça? - Perguntou com uma falsa expressão surpresa, me fazendo rir. - Gin, já vou, se não eu me atraso.

-Te acompanho até lá fora.

Deixamos a louça onde estava e fui com ele até o portão.

-Amanhã passo aqui no mesmo horário, não se atrase.

-Pode deixar. - Me estiquei e trocamos um abraço rápido. - Obrigada, Nev, manda um beijo pra Luna.

Ele se virou em direção ao veículo e eu voltei para dentro de casa. Peguei meu celular onde o havia deixado e retornei a ligação perdida que a tela mostrava.

-Ei, Gin. Está tudo bem? - Allan atendeu logo no segundo toque.

-Está, só o Nev que estava aqui e estávamos conversando, aí não pude atender.

-Hum.

-E você, está bem?

-Sim, só liguei para falar com você. Vou sair mais cedo da universidade hoje, estava pensando em passar aí na sua casa.

De uma forma geral, o Allan não me irritava, apenas quando insistia na ideia de vir até minha casa, o que eu já havia dito que não iria acontecer.

-Passa aqui a hora que você estiver indo embora e vamos até a sua casa, o que acha?

-Se você prefere, tudo bem. - Ignorei de propósito o tom irônico.

-Ok, me avisa quando estiver vindo, tenho umas coisas para fazer agora e preciso desligar.

-Ta bom, até mais tarde. Beijos.

Encerrei a ligação, deixei meu celular sobre a mesa de centro e deitei no sofá para assistir um pouco de TV até a hora de sair.

Allan me avisou quando saiu do trabalho, tempo suficiente para eu tomar um banho rápido e me vestir. Quando buzinou, anunciando que tinha chegado, saí rapidamente e me acomodei no banco do carona. Retribuí quando ele se inclinou para me dar um beijo e perguntei como havia sido o dia no trabalho. Escutei enquanto ele falava disso, mas o próximo assunto chamou muito mais minha atenção logo na primeira frase:

-Então o Nev pode ir na sua casa sem problemas?

Olhei de canto por alguns segundos,e resolvi ignorar o tom exageradamente suave da voz dele.

-Claro, ele é meu amigo há anos, desde que éramos adolescentes.

-E ele é casado, não é?

-Sim, faz três anos.

-E a esposa dele não acha ruim?

Minha expressão certamente indicou o quanto achei aquela pergunta estranha.

-Achar ruim? Por que? Somos amigos desde muito antes de os dois se conhecerem.

-Sei lá, eu acho estranho você ser tão amiguinha assim de um homem, os dois ficarem sozinhos em casa, não acho legal.

-Bom, se você acha estranho então não seja tão amiguinho assim de uma mulher, é o melhor conselho que posso te dar.

Minha resposta direta pareceu tê-lo deixado um pouco sem graça, mas minha amizade com o Nev certamente não era algo que estivesse em discussão com ninguém, muito menos com o Allan. Ficamos um tempo em silêncio, em que eu nem tentei pensar em algo para dizer, mas ele pareceu estar escolhendo as palavras.

-Então, quando eu vou poder ir na sua casa também?

-Mas por que essa insistência toda? Não nos divertimos na sua casa e em outros lugares?

-Sim, mas eu quero conhecer um pouco mais de você também, e isso inclui o lugar onde você mora.

-Você sabe onde eu moro.

-Você entendeu o que eu quis dizer, Ginny.

-Allan, eu entendi, mas também já falamos disso. A casa não é só minha, acho chato te levar lá.

-Não entendo isso, seu ex marido não mora com você, claro que a casa é só sua.

-Não, não é. - Minha resposta foi propositalmente curta, mostrando que minha paciência com esse assunto não era muito grande.

-Você dá muita importância para um fato muito pequeno, parece até que ainda gosta dele.

A frase foi dita com um pouco de ressentimento por parte dele, mas não foi por isso que me senti paralisada por um momento. Eu não debatia meus sentimentos por Harry nem internamente, era estranho ouvir aquela frase da boca de outra pessoa, principalmente porque eu não tinha como responder sem mentir, e não queria dizer a verdade.

-É, dou mesmo importância para coisas pequenas. Você vai continuar falando disso? Se for, pode e levar de volta para casa, não estou com saco pra discutir o mesmo assunto de novo.

-Ei, calma, só perguntei. - Ele me olhou cauteloso, avaliando minha expressão rapidamente antes de voltar a atenção ao trânsito.

-Eu sei, mas sobre isso não pergunte mais.

Minhas respostas atravessadas deixaram o clima estranho por alguns minutos, mas não gerou mais perguntas sobre o assunto.

Meu carro ficou pronto dois dias antes do previsto, e com isso minha rotina e a do Nev voltaram ao normal. Minhas turmas na faculdade estariam de férias até o início do mês seguinte, e isso me enchia de tempo livre para me dedicar à minha pesquisa do doutorado.

As semanas se arrastaram em meio a entrega de notas, livros e números, até que o último dia do mês chegou.

Eu estaria mentindo se dissesse que não me lembrei dessa data em cada um dos minutos da semana anterior, mas mesmo assim o sábado do dia 31 me recebeu com uma carga de nostalgia que ia além da que eu estava acostumada a lidar no dia a dia. Foi um daqueles dias em que tudo parecia estar no lugar errado, embora fosse exatamente a mesma rotina dos últimos meses.

A primeira coisa que não me pareceu certa foi acordar numa cama que tinha apenas o meu cheiro, inclusive no travesseiro dele que ainda estava ali em cima como uma lembrança que eu não conseguia me desfazer. Depois foi a ausência de um embrulho em qualquer lugar da casa que me pareceu pesada demais, parecia errado não ter comprado nenhum presente, mais errado ainda não ter para quem entregar.

Em tudo o que fiz durante o dia havia algo para me lembrar dele, seja pensando que Harry adorava o salmão grelhado que comi no almoço, ou com a memória insistente de que sempre comemorávamos nossos aniversários com alguma viagem pequena durante o final de semana. Talvez por isso eu estivesse me sentindo tão deslocada em casa, havia algo dentro de mim que sabia que eu não deveria estar ali, muito menos sozinha.

Enquanto eu tentava prestar atenção em um filme na TV, meu celular tocou ao meu lado no sofá, me fazendo dar um pulo. Por reflexo, quis que fosse o Harry me ligando para dizer que ainda teríamos a mesma comemoração, mas não foi o nome dele que me encarou de volta.

-Oi, Allan. - Atendi de uma vez, eu sabia que ele insistiria.

-Ei, Gin, tudo bem?

-Tudo e você?

-Também, estou com saudade.

Particularmente eu achava aquilo um exagero, porque tínhamos nos visto no começo da semana.

-Uhm.

-Vamos fazer alguma coisa hoje? - Ele sugeriu com uma empolgação que eu não sentia.

-Hoje não, Allan, não estou muito a fim de sair de casa.

-Está se sentindo bem?

-Sim, só não quero sair.

-Bom, tudo bem, se você mudar de ideia me avisa. - O tom contrariado dele não me fez reconsiderar em nada minha decisão.

-Ta bom, a gente se fala depois. Tchau.

Encerrei a chamada e deixei o aparelho onde estava, voltando minha atenção à tela plana na minha frente, ou pelo menos a parte dela que não estava centrada em imaginar o que Harry estaria fazendo.

Fiquei um tempo na sala, fui me deitar no meu quarto, tentei ler um livro, mudei de posição, mas nada me deixava satisfeita, e eu sabia exatamente o que faltava. Por mais que o orgulho falasse alto comigo, eu sabia reconhecer quando era inútil tentar dar ouvidos a ele, e esse era um daqueles dias em que a saudade e a vontade de prendê-lo em um daqueles nossos abraços que ninguém mais tinha eram maiores do que qualquer ego.

Eu sempre gostei de datas, sempre achei importante comemorar, talvez por isso perder o aniversário de trinta anos da pessoa que esteve comigo em tantos momentos bons fosse tão pesaroso.

Era comigo que ele comemorava tudo, o meu abraço era o primeiro logo que acordávamos, meu presente era o primeiro que ele abria, os meus votos de felicidades eram os primeiros que ele ouvia e todo o dia era passado do meu lado. Eu entendia que não era mais possível ter tudo isso de volta, mas não queria ser completamente esquecida justo nesse dia.

Ponderei, me decidi que sim e perdi a coragem inúmeras vezes, mas por fim, já perto das onze da noite, deixei todo meu bom senso de lado e agi mais rápido do que a razão, que certamente viria me barrar em poucos minutos.

Desbloqueei a tela do meu celular, abri o aplicativo de mensagens e busquei pelo nome certo. Assim que o encontrei, digitei minha mensagem rápida e cliquei em enviar:

"Parabéns 3"

Foi tão rápido, que só depois que a mensagem foi entregue eu notei o coração no final, exatamente como mandávamos um para o outro quando tudo estava bem, muito tempo atrás. Fechei os olhos com força, tentando ignorar aquele sentimento ruim de vergonha que me encobriu por inteira, fazendo-me lembrar que há um motivo muito bom para não fazer coisas por impulso.

Harry olharia aquilo com presunção, mas não era isso que me incomodava, e sim o fato de que eu havia espontaneamente dado motivo para isso. Frustrada com o que tinha acabado de fazer, desliguei o aparelho e me acomodei para dormir, talvez o dia seguinte me fizesse pensar mais como eu mesma.