Regina foi direto para casa, tomou um banho, deitou-se e dormiu profundamente. Não chegou a buscar a Ju na casa da vizinha, pois precisava dormir um pouco antes de voltar para o hospital. Nas ocasiões em que fazia plantão extra era Dona Eda quem levava Ju para a escola.
Emma passou a manhã bem e na passagem do plantão da tarde Regina foi até seu quarto para ver como estava.
- Eu me comportei direitinho. Não tentei fugir, comi uma gororoba horrorosa que me serviram sem reclamar e até já penteei o cabelo!
- Muito bem, a senhorita está de parabéns! – respondeu Regina.
- Eu liguei para o hotel e eles mandaram alguns pertences pessoais, e uma muda de roupas para quando eu tiver alta. E olha que eu estou até me acostumando com esse modelito sensual... – disse Emma em tom de brincadeira, referindo-se ao avental que todos os pacientes usavam.
Regina não pôde deixar de rir, pois realmente era estranho usar aquele traje com abertura nas costas. Mas mesmo assim Emma continuava bela. Regina não resistiu e fez o que muito raramente costumava fazer, uma pergunta pessoal para os pacientes que atendia:
- Tu moras no Hotel?
- Moro.
- Há quanto tempo?
- Desde que cheguei na cidade, seis meses.
- É estranho morar em hotel, não é?
- Já me acostumei. Meu ritmo de vida é muito corrido, não teria tempo para os cuidados que uma casa requer.
- Mas... e a tua família?
- Belém. São todos de lá.
Regina se deu conta que estava sendo muito invasiva e desconversou, sentindo-se constrangida. Pegou sua bandeja e dirigiu-se para a porta. Antes que pudesse sair foi Emma quem disparou:
- E você? É daqui mesmo?
- Sou.
E antes que Emma pudesse formular outra pergunta Regina sorriu amavelmente e pediu licença para se retirar:
- Tu já sabes, se precisar é só tocar a campainha.
- Eu sei.
Durante a tarde Regina entrou duas vezes no quarto de Emma, uma a pedido desta, outra para os procedimentos de praxe. Emma percebeu que aquele setor estava bastante movimentado naquela tarde. Soube que faltaram dois funcionários e os que estavam de plantão mal davam conta dos afazeres. Naquele final de tarde Regina não chegou a se despedir de Emma antes de sair, tamanha a correria. No início da noite Emma perguntou por ela e foi informada de que já havia saído. Uma ponta de tristeza invadiu aqueles olhos esverdeados. "Custava ter dado um tchauzinho?", pensou. Passou bem durante a noite e pela manhã sentia-se muito melhor. Ficou feliz quando Drª Maristela lhe disse que ficaria só mais um dia no hospital e que na manhã seguinte, se o quadro permanecesse como o apresentado até então, iria receber alta. Frente à perspectiva de retomar sua rotina percebeu-se pensando em Regina. O fato de provavelmente não voltar a vê-la deixou Emma com um sentimento de peso. No entanto, logo em seguida sorriu, pois se deu conta que Manaus não chega a ser tão grande assim, portanto não seria tão inviável encontra-la casualmente na rua. Ainda mais que sabia dos seus horários de chegada e saída do hospital. "Mas o que é isso, Emma, perdeu a noção das coisas?", pensou consigo mesma, "essa garota tem a vida dela, e eu a minha, e ponto final". Ainda perdida nesses devaneios Emma escutou uma voz conhecida logo atrás dela:
- Oi, soube que esta paciente esteve tão comportada que provavelmente terá alta amanhã.
Emmavirou-se e percebeu aquela figura conhecida sorrindo amigavelmente para ela.
- Pois é...
- Fico feliz que esteja bem.
- Acho que vou sentir falta desse paparico, ein?
Regina sorriu timidamente, baixando os olhos.
- Vamos verificar essa temperatura e pressão arterial?
- Aposto que estou melhor que você!
- Não duvido. Sua carinha está muito melhor hoje.
Regina fez algumas anotações na planilha médica e preparava-se para sair.
- Hoje você passará aqui antes de sair? Gostaria de me despedir, pois amanhã à tarde provavelmente não estarei aqui.
Regina fitou Emma nos olhos e esta sustentou o olhar. A primeira sorriu afetuosamente e respondeu:
- Passo sim. Ontem não passei porque o dia realmente foi muito estressante, e eu tinha um compromisso importante.
- Está perdoada. – respondeu Emma controlando sua vontade de perguntar qual compromisso seria.
Regina saiu do quarto e Emma perdeu-se novamente em seus pensamentos: "deve ter saído com algum namorado...", "aliança ela não usa...", "mas e eu com isso!". ligou para o Hotel a fim de providenciar objetos pessoais.
No final da tarde, conforme o prometido Regina passou no quarto para se despedir de Emma. Sentia um misto de felicidade pelo restabelecimento dela e uma ponta de angustia por não mais encontrar aqueles olhos verdes expressivos, sempre dispostos, e aquele bom humor habitual difícil de ser encontrado, principalmente num ambiente como aquele.
- Promessa é dívida! Aqui estou para te dar tchau. Fico feliz que esteja bem.
- Aposto que vai sentir saudade... – disse fitando Regina diretamente nos olhos, deixando-a um pouco desconcertada e emendando logo em seguida – afinal não é sempre que deve aparecer uma paciente exemplar e comportada como eu.
- É verdade. Vou sentir falta sim.
- Mas a cidade não é tão grande, a gente se topa por ai qualquer hora dessas. Olha só, eu queria te dar um presentinho, por favor não repare. – disse Emma estendendo um vaso com samambaias bem verdinhas
- Não precisava... mas são lindas. Muito obrigada.
Regina não pôde deixar de reparar que o verde das fplhas era da mesma tonalidade que o os olhos de Emma. Sorriu feliz.
- Se você quiser, qualquer hora dessas, conhecer a loja que eu gerencio, apareça lá. É o Magazine Libanês.
- Já passei pela frente inúmeras vezes, mas nunca entrei. É uma loja muito sofisticada para o meu poder aquisitivo.
- Mas passa lá pra gente tomar um cafezinho... quando não tiveres nenhum compromisso no final de tarde... – disse Emma na esperança de descobrir onde Regina estivera ontem.
- Quando der eu passo sim. Se não tiver nenhuma apresentação de música para assistir... – respondeu saindo do quarto e deixando Emma curiosa com a resposta.
Emma sorriu e pensou: "hummm... amante da música..." .
Regina caminhava pelo longo corredor do Hospital com seu vaso de samambaias. "Elas ficarão lindas na janela da cozinha", pensava, "Ju vai gostar".
Conforme o esperado na manhã seguinte Emma teve alta e retornou para suas atividades normais já na tarde daquela quinta-feira. As duas semanas que se seguiram foram bastante tumultuadas, exigindo a dedicação exclusiva deEmma na loja. Regina não havia cumprido ainda a sua promessa de passar na loja para tomar um cafezinho. Não foram raras as vezes em que Emma pensava nela. Fazia algum tempo que não direcionava suas idéias para mulher nenhuma. Nos últimos quatro anos não havia tido nada mais do que flertes, casinhos passageiros sem nenhum tipo de compromisso nas entrelinhas, isso ainda em Belém. Desde que chegou a Manaus nem isso. A inauguração e o gerenciamento daquela nova filial estavam consumindo todo seu tempo disponível. No entanto, desde que conheceu Regina, esse seu lado passional começou a aflorar novamente. As vezes sentia vontade de revê-la. No dia em que precisou comparecer ao Hospital para consultar com a Drª Maristela, para uma revisão, marcou propositalmente para o turno da tarde. Para sua decepção porém, ao passar no setor de Regina, informaram que ela estava de folga.
Quando Regina assumiu seu plantão na tarde daquela quinta-feira e entrou no quarto não era o belo par de ollhos verdes com os quais já havia se acostumado, embora há tão pouco tempo, que lhe sorriu. A nova paciente era uma senhora de mais de oitenta anos a qual Regina recepcionou com a simpatia e a meiguice que lhe eram habituais. Nos dias que se seguiram também se surpreendeu em vários momentos com o pensamento direcionado para aquela figura loira e imponente com a qual havia convivido profissionalmente por tão pouco tempo, mas que lhe despertava desejos que não ousava admitir para si mesma. Nessas ocasiões lhe afloravam recordações amargas de tempos passados..
