O acaso da felicidade.
Capitulo 6
Já passavam das oito horas da noite quando Emma finalmente terminou seus afazeres no escritório naquela sexta-feira. Olhou no relógio e se deu conta que lhe restavam somente quinze minutos para chegar até o Teatro Amazonas. Não teria tempo de passar no hotel e resolveu ir direto dali. Retocou a maquiagem e foi a pé, uma vez que a escola era bem perto dali.
Quando Juliana pisou no palco a primeira coisa que fez foi passar os olhos na platéia. Na primeira fila estavam Regina, dona Eda e Seu Arno. Havia um lugar vago entre Regina e dona Eda, que ela havia pedido para a mãe guardar para Emma. Não conseguiu disfarçar o ar de decepção quando se deu conta que o lugar estava vazio. No entanto, no momento seguinte, os seus olhos brilharam e ela acenou de cima do palco para uma figura imponente que adentrava pelo corredor central do recinto. Juliana fez um sinal com a mão indicando à Emma onde sua mãe estava sentada. Percebendo a movimentação Regina se virou e também acenou para Emma. Regina não pode deixar de contemplar aquela figura que se aproximava, ostentando um sorriso largo e encantador. Vestia um conjunto preto, saia e blaiser, com uma blusa de seda verde que lhe realçava a cor dos olhos. O cabelo estava preso num coque e brincos prateados em forma de pingentes lhe adornavam os lóbulos das orelhas. Os sapatos sociais, com salto, a deixavam ainda mais alta. O passo cadenciado e a figura imponente fez com que quase todos os presentes desviassem os olhares do palco e observassem sua caminhada até a primeira fila. Emma, tentando ser discreta, cumprimentou o casal de idosos e Regina com um aperto de mão. Instalou-se em sua poltrona reservada de antemão e acenou discretamente para Juliana, que sorriu de orelha a orelha. A menina vestia uma túnica amarelo ouro, assim como os demais artistas, e tinha o cabelo preso numa trança. A apresentação durou cerca de uma hora e meia, onde se apresentaram os aprendizes de música. No final, após os aplausoonde todos os que se apresentaram voltaram para o tablado, Juliana correu até a beirada do palco e Emma pegou-a no colo, trazendo-a para a platéia.
- Meus parabéns, garota! Você canta muito bem! – Emma.
- Obrigada. – respondeu Juliana orgulhosa.
- E essa roupa está muito bonita também.
- Eu adoro amarelo!
- Bom, - disse dona Eda – nós vamos indo. Hoje temos um aniversário para ir, de uma amiga do grupo da terceira idade. Nosso jogo fica pra semana que vem depois do jogo do Brasil.
- Estão com medo da revanche, ein? – brincou Emma.
- Não mesmo – respondeu Seu Arno – espera só até a próxima. Vai ser outra lavada! O Brasil pode perder, mas eu minha velha não – e sorriu para elas.
- Tudo bem... vamos ver. – disse Emma.
O casal se retirou e Regina disse:
- Bom, vamos jantar lá em casa?
- Tenho uma idéia melhor. Que tal um jantar fora para comemorar a performance da nossa artista?
- Não sei.
- Olha só, é por minha conta. Eu quero retribuir o jantar da semana passada. – emendou Emma.
- Tá bom. – concordou Regina
- Uêêêba! – gritou Juliana.
Juliana abraçou Emma e saiu caminhando a seu lado, apresentando-a a seus coleginhas toda orgulhosa.
- Essa é a Emma, minha amiga!
Emma retribuía os cumprimentos enquanto Regina se divertia com a situação, pois Juliana estava deixando Emma tonta, tamanha agitação e ânsia de apresenta-la aos colegas. Fazia tempo que Regina não via Ju tão feliz . Elas pegaram um táxi e foram até um restaurante
Já instaladas numa mesa de canto conversavam animadamente enquanto esperavam que o garçom trouxesse o elogiava a apresentação de Juliana, para alegria desta e orgulho da mãe coruja. Ju havia tirado sua túnica amarela e estava com um vestido em tom lilás, com minúsculas margaridas amarelas estampadas em toda sua extensão. O cabelo solto, cuidadosamente escovado antes de sair de casa já apresentava sinais de rebeldia, fazendo com que Regina prendesse as mechas encaracoladas com uma presilha em forma de borboletas, evitando desta forma que as madeixas invadissem o prato de comida da menina.
- E então, a cantora está com fome? – perguntou Emma.
- Muuuuita!
- Que bom, porque lá vem o nosso pedido.
Os olhos de Ju brilharam em frente ao prato de batatas fritas com bife.
- Nunca vi ninguém gostar tanto de batatas fritas. – riu Regina.
- Crianças sabem o que é bom... – emendou Emma.
- Eu também adoro pipoca com açucar .. – disse Ju
Fernanda olhou rapidamente para Nina, fingindo uma cara feia. A garota disfarçou daqui, disfarçou dali e disse:
- Ai, desculpa, eu sei que o Natal está um pouco longe e que talvez você ja tenha planos pro fim de ano, mas gostaríamos muito que passasses o Natal conosco – continuou Regina. – Somos só Juliana, Seu Arno, Dona Eda e eu. É a nossa grande família!
Emma sorriu e assentiu:
- Obrigada pelo convite. Eu vou sim. E não tinha planos. Na verdade tinha. Iria dormir. Rses .Mas chego tarde.
- Não tem importância, a gente sempre espera a meia noite mesmo.
- Então está combinado.
- Ôba! – disse Ju num gritinho.
- Como essa época de final de ano é agitada. Eu ando bem cansada. Tenho praticamente morado dentro do hospital. – disse Regina.
- Em tudo que é lugar é assim. Na loja também. Quase não tenho tempo de respirar! E com a copa e o grande movimento estrangeiro estamos trabalhando muito e já prevejo o mesmo no fim de não me queixo, pois é a melhor época de vendas. No entanto, depois do Ano Novo tudo volta a normalidade...
- Pois é...
- Quando é tua próxima folga? – quis saber Emma.
- Neste domingo, porque?
- Nada... é que eu tava pensando... eu quero dar um pulinho no Centro. Mesmo não indo para casa no Natal quero mandar alguns presentes. Meu avô é fascinado por antiguidades e aos domingos tem uma feira muito interessante,na Eduardo Ribeiro. Conhece?
- Conheço.
- Que tal a gente ir até lá?
- Bom...
- Se você não estiver muito cansada, é claro. Não quero atrapalhar o teu descanso.
Ju acompanhava aquele diálogo com a maior atenção, controlando sua vontade de dizer: "aaaah... vamos?..."
- Tudo bem, acho que vai ser ótimo fazer um programa diferente.
- Eu vou adorar! – exclamou Juliana, mal cabendo em si de contentamento.
Elas terminaram de jantar e novamente pegaram um táxi para voltar para casa. As primeiras a desembarcar foram Regina e Juliana.
- Então vamos combinar assim: no domingo eu pego vocês aqui por volta de oito horas, pode ser?
- Está ótimo. – respondeu Regina.
- Então, uma boa noite às duas!
- Boa noite. – respondeu Regina.
Juliana estendeu os braços e Emma pegou a menina no colo:
- Muito abrigada por ter ido. Eu fiquei muito feliz. – disse a menina dando um beijo carinhoso no rosto de Emma.
- Foi um prazer, querida. Eu adorei ter ido.
Ju abraçou Emma bem forte e lhe deu mais um beijo estalado na face. Emma a colocou no chão e entrou no táxi que a aguardava. Ju e Regina acenaram para ela antes de entrarem em casa, enquanto o táxi se afastava lentamente. De volta ao hotel Emma custou a conciliar o sono. Sentimentos estranhos estavam perturbando seus pensamentos nas últimas semanas. Realmente estava se afeiçoando de uma forma muito especial àquela menina meiga de cabelos revoltos, e à mãe dela também.
No dia seguinte, sábado, Juliana mal conseguia conter sua expectativa. Quando Regina chegou em casa, por volta das dezenove e trinta,a menina já havia separado sua roupa para o dia seguinte, os acessórios que combinavam, o par de tênis, a mochila e o óculos de sol com armação estilo foi obrigada a rir, ela própria não era tão organizada quanto Juliana. Logo após a janta a menina foi se deitar, como que para o tempo passar mais rápido. Regina sentou na sala, em frente à televisão ligada, porém seus pensamentos estavam muito longe. Pensava em Emma, em seus olhos , em seu sorriso encantador, em seus cabelos perfumados, em seus atributos físicos... e um calor começou a invadir-lhe os sentidos. Resolveu tomar um banho frio. E depois foi se deitar.
No dia seguinte, um amanhecer num céu azul sem nuvens prenunciava um domingo quente e ensolarado. Emma acordou cedo, deu uma caminhada, tomou uma ducha e um bom café da manhã, vestiu uma calça jeans corsário e uma blusa regata de algodão em cor salmão. Calçou seus tênis e pegou sua bolsa esportiva a qual colocou atravessada nas costas. Prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo e escolheu um de seus óculos de sol, o que considerou melhor adequar-se àquela vestimenta. Pegou a chave de seu carro e dirigiu-se para o estacionamento do hotel. Ao passar pela portaria Ãngelo cumprimentou-a:
- Bom dia, dona Emma!
- Bom dia, Ângelo.
- Vai dar um passeio?
- Vou. – respondeu Emma enveredando na direção do estacionamento.
- Dona Emma, - interveio Ângelo – a senhora quer que eu peça para trazer o seu carro?
- Não, obrigada, pode deixar que eu mesmo pego. – respondeu alegremente já cruzando a porta de saída do hall do hotel.
Conforme o combinado, às oito horas ouviu-se uma buzinada na frente da casa de Regina. Juliana, que já estava pronta desde as sete horas, gritou para sua mãe que ainda estava terminando de se arrumar:
- A Emma chegou! A Emma chegou!
- Tô indo! – respondeu Regina. – Vai indo para o carro e diz que eu vou já.
- Fuuui! – respondeu Ju e saiu correndo para o portão de entrada.
Emma havia saído do carro e abraçou Juliana afetuosamente, erguendo-a no colo:
- E aquela tua mãe enrolada? Já tá pronta ou a gente vai ficar esperando muito? – brincou Emma.
A menina riu e respondeu:
- Já tá vindo aí.
Emma acomodou Juliana no banco de trás ajustando o cinto de segurança na criança. Em menos de cinco minutos Regina foi ao encontro delas. Após fechar a porta da frente e assegurar-se de que Juliana não havia esquecido de colocar água e ração para Pipoca cruzou o portão de saída do pátio. Emma a aguardava sorridente do lado de fora de seu carro, de braços cruzados e escorada no capô do veículo. Regina não conseguiu esconder seu ar de satisfação ao vê-la e retribuiu o sorriso encantador. Passados os segundos da troca de olhares Regina observou o carro no qual estava prestes a entrar. Foi tomada de surpresa, pois esperava fazer uma viagem de Gol, o que já conhecia, da loja. E o que se descortinava à sua frente era a visão de uma magnífica BMW prateada, quatro portas, com cheirinho de recém ter saído da concessionária.
- O que é isso? – perguntou Regina boquiaberta.
- Olha, pelo que me conste é um carro estacionado, com uma menina dentro, e uma mulher encostada do lado de fora.
- Gracinha... – respondeu Regina esboçando um sorriso frente ao deboche de Emma. – Estou me referindo justamente ao carro.
- Então respondi certo.
- É teu?
- Olha, eu ainda não costumo furtar veículos e levar inocentes moças para um passeio antes de assassina-las.
- Debochada!
- Bobinha...
- Eu perguntei porque nunca entrei num carro desses.
- Então terá o prazer agora. Posso não ter uma casa, mas não abro mão de ter um carro à minha altura...
- E convencida! – respondeu Regina sorrindo.
- Mas é verdade, ou você acha que ele não combina comigo? – provocou Emma chegando bem perto de Regina.
Esta ficou desconcertada ante a proximidade da outra e desconversou rapidamente:
- Combina sim. Vamos então?
Emma abriu a porta do carro para Regina num gesto gentil e fazendo uma reverência quando ela entrou.
- Uma carruagem digna de uma rainha. – brincou Emma.
Regina foi obrigada a rir da teatralidade da impaciente disse:
- A gente vai ou não vai?
- Calma, guriazinha. – retrucou Regina.
- Já estamos partindo senhoritas. – disse Emma pondo o carro em movimento.
Regina observou a BMW por dentro e ficou encantada com a praticidade e o conforto daquele carro. Tinha tudo o que se podia imaginar. Seria possível morar dentro dele, pensou.
Chegaram antes das nove horas. Estacionaram numa garagem onde Emma costumava deixar o carro quando vinha ao centro e logo em seguida estavam percorrendo a feira já tradicional na cidade e todos os domingos reunia um burburinho de gente. A diversidade de pessoas era grande e os vários grupos étnicos, sociais, políticos e religiosos conviviam pacificamente entre si naquele espaço democrático e expressavam, cada um, sua ideologia através das vestimentas, atitudes, costumes e atividades. O dia ensolarado contribuiu para que as pessoas se animassem a sair de casa naquele dia dedicado ao descanso e à recarga de energias para a nova semana que se iniciaria no dia seguinte.
Ju aproveitou cada minuto do passeio. Ajudou Emma a escolher os presentes de seus pais e avós, comeu algodão-doce, pipoca, crepe, andou nos brinquedos do parquinho de diversões, tomou refrigerante, muito refrigerante, afinal... era domingo.
Regina também se divertiu bastante. Cada vez mais se encantava com Emma, com seus trejeitos, seu modo de encarar a vida, sua simpatia e bom humor. Emma, por sua vez, estava adorando a companhia das duas novas amigas. Deu-se conta de que fazia um bom tempo que não se divertia tanto.
Antes de retornarem ainda foram comer o famoso kikão do Rosário, cujo tamanho quase fazia com que o maxilar dos ávidos devoradores se desencaixasse na primeira abocanhada. Passearam e se divertiram a tarde volta das sete horas da noite tomaram o caminho de volta para casa. Nem haviam rodado os primeiros quilômetros e juliana adormeceu no banco de trás do carro. Estava exausta, pois havia saracoteado o dia todo.
- Cansada? – perguntou Emma.
- Um pouco. O dia foi bem agitado. Foi ótimo, mas agitado. E tu?
- Um pouco também. Na verdade é um cansaço cumulativo. Desde a inauguração da loja eu ainda não relaxei. Na próxima semana eu viajo pra São Paulo a negócios.
- E vai ficar muito tempo fora? – quis saber Regina.
- Não. Três ou quatro dias somente. É só o tempo de visitar alguns fornecedores e dar um beijo nos meus pais e meus avós, principalmente no vovô Salim, que já tem reclamado a minha ausência ha meses. Aí ele faz aquela chantagem emocional do tipo: "eu não ando me sentindo muito bem, é o coração, a pressão, pode ser que não vejas mais teu avô com vida se demorares mais um pouco para vir...", essas coisas. – respondeu Emma.
- Ele parece ser muito apegado contigo. Deve sofrer pela distância.
- Realmente, eu adoro o vovô. Nós somos muito parecidos. Ele tem senso de humor, e disse que eu herdei dele o tino para os negócios. – riu Emma.
- E não é verdade?
- É... não deixa de ser. Mas sou muito mais mão aberta que o vovô! – gargalhou Emma. – Aquele velho é fogo. Se não fosse a vovó eles por certo ainda estariam com o fusca 64, "muito econômico", segundo o vovô.
Regina teve de rir imaginando o temperamento do avô de Emma.
- Vai ser bom para ti revê-los. – disse Regina.
- Com certeza. Mas eu precisava mesmo era de férias... – sorriu.
- Nem me fale. Eu bem sei o que é trabalhar muito. Também estou bem cansada. E tem a Juliana, fico me culpando por não ficar mais tempo perto dela, mas se eu não trabalhar nos plantões extras não consigo manter o mínimo das necessidades dela.
- A escola dela não é publica, não é mesmo?
- Não. Consegui uma bolsa por causa de algumas freiras que me conheciam. Da escola da Ju eu não abro mão. Não é preconceito em relação à escola pública, não é isso, mas não podemos negar, infelizmente, que a questão dos conteúdos e carga horária é cumprida com muito mais rigor nas escolas particulares. E com certeza o estudo é a coisa mais importante que eu posso dar para ela.
- Realmente.
- E depois tem o resto todo, material escolar, roupas, calçados, alimentação, contas da casa, e aí vai. Mas tenho conseguido ir levando. – Regina sorriu.
- Pois é, não é fácil. Mas mesmo não ficando mais tempo com a Ju você tem conseguido ser uma boa mãe, essa menina é um encanto e te adora.
- Eu sei... e é recíproco.
Fez-se um silêncio e Emma perguntou:
- Quando é que você tira férias?
- Acho que só em Dezembro. Até já tenho férias vencidas, mas agora não posso nem pensar em tira-las, não nessa época. Por que?
- Não, é que... bom, eu tava aqui pensando... já que estamos as duas estressadas, quase a beira de um ataque de nervos, - riu Emma – porque não tiramos uma semana de folga depois do Natal e passamos o Ano Novo na praia? Uma semaninha só. Afinal é o Ano Novo da virada do século! Acho que Manaus conseguirá sobreviver sem nós. Além do quê acho que a Ju iria gostar. Pois parece que ela vai passar as férias escolares todas em casa, não vai?
- Vai... – respondeu Regina cabisbaixa e pensativa. – Mas infelizmente não vai dar para ir não. Uma pena.
- Porque não?
- Porque não.
- Grana?
- É. Também. Tem o hospital. E não temos condições de pagar hotel, passagens, essas coisas... e não tem graça viajar às custas dos outros.
- E quem falou em hotel?
- E tu pretende ficar aonde? Numa cadeira na beira da praia? – brincou Regina.
- Não senhora! Na casa do vovô Salim! Ele tem uma casa em Alter do Chão. Santarém , conhece?
- Sei onde é,mas nunca fui.
- Ele quase não vai lá, aliás sou eu mesmo quem mais utiliza aquele paraíso. E ele não costuma me cobrar aluguel! Bom, o problema da hospedagem está resolvido. Comida tem de sobra na dispensa. Toda vez que eu aviso que vou para lá o vovô pede para o caseiro entupir a geladeira e o freezer de comida. Ele pode até ser mão fechada com os outros, mas quando o assunto é a neta preferida a coisa muda de figura – riu Emma – e por último as passagens. Eu vou de carro e tanto faz irem três pessoas ou uma, que o gasto com gasolina é o mesmo, logo, só sobrou o hospital...
- Tu nunca pensaste em mudar de ramo profissional? – Perguntou Regina.
- Porque?
- Com esse discurso o mundo perdeu uma ótima advogada!
As duas tiveram que rir.
- Me dá um tempo para pensar, tá? – pediu Regina
- Tudo bem – respondeu Emma olhando para o relógio de pulso – sessenta segundos. Contando...
- Boba. Tô falando sério.
- Eu também. Olha, pensa pelo lado da Ju...
- Isso é chantagem.
- Não. É bem querer. Eu já gosto bastante dessa menina e acho que ela merece um tempinho maior ao lado da mãe e... de uma amiga.
Regina ficou séria e pensativa. Emma não quebrou o silêncio, dando tempo para Regina ordenar os pensamentos, até que esta respondeu:
- Eu vou ver o que posso fazer no hospital. Só não prometo nada, mas vou tentar.
- Ótimo.
- Tira essa ar de satisfação da cara – disse Regina cutucando Emma no braço – eu disse que vou ver... pode não dar certo.
- Mas vai dar.
- Ô criatura obstinada.
- Otimista.
- Tá certo...
Viajaram mais um tempo em silêncio, cada qual perdida nos seus próprios devaneios. Depois retomaram o diálogo conversando sobre assuntos os mais variados, desde televisão até receitas culinárias. Ao chegarem defronte à casa de Regina acordaram Juliana que mal conseguia manter-se em pé devido ao sono. Emma tomou a menina nos braços e a levou até a cama. Após Regina acompanhou-a até a porta.
- Aceita um cafezinho antes de voltar para o hotel?
- Não precisa, vai dar trabalho.
- Não precisa ou não quer?...
- Tudo bem, eu quero.
Regina passou um café rapidamente e elas sentaram à mesa da cozinha.
- Emma, obrigada pelo dia de hoje. Nos divertimos muito.
- Não há o que me agradecer, foi um prazer passa-lo com vocês. Bom, eu já vou indo, afinal amanhã é segunda-feira. – disse Emma levantando-se e sorvendo o último gole de café de sua xícara.
- Eu te acompanho até o portã abriu a porta para Emma e caminharam vagarosamente até o carro. Emma virou-se para Regina e disse:
- Não esquece de marcar as nossas férias...
- Tá bom. Assim que eu tiver uma resposta passo na loja e te aviso.
- Vou esperar. - Respondeu Emma inclinando-se e dando um beijo na face de Regina.
Esta última ficou na ponta dos pés e retribuiu o beijo abraçando afetuosamente a amiga. Emma arrepiou-se ao sentir o calor do corpo de Regina de encontro ao seu. Por um momento teve o ímpeto de envolve-la pela cintura e lhe beijar a boca, mas conseguiu conter-se, respirando fundo. Assustou-se com a química que aquele toque havia lhe desencadeado. O cheiro da pele e dos cabelos de Regina tinha lhe deixado excitada e custou um pouco a se recompor. Por momentos ficou estática, sem saber o que fazer.
- O que foi? – perguntou Regina ao perceber a mudança no comportamento de Emma.
- Nada. Não foi nada. Eu já vou indo. Estou começando a ser vencida pelo sono. Boa noite então.
- Boa noite.
Emma embarcou em sua BMW e seguiu para o hotel, ainda sob o efeito do toque de Regina. Após tomar um banho deitou-se e tentou relaxar. No entanto seus pensamentos borbulhavam num turbilhão. Havia convidado Regina para passar uma semana com ela na praia, e bem sabia o que estava se processando em seu interior. "Seja o que Deus quiser", pensou. Adormeceu e dormiu a sono solto até ser despertada pelo bip de seu relógio de pulso. Tinha o sono leve e geralmente acordava antes do relógio despertar, mas naquela manhã perdeu inclusive a hora de sua caminhada. Parecia haver acordado em câmera lenta. Foi para a loja e passou o dia todo pensativa. Feliz, mas pensativa.
Na terça-feira antes do fechamento da loja Emma foi surpreendida pela chegada de Regina, pouco depois das sete e meia. Regina nem sequer foi anunciada por Lourdes. Ao entrar na loja disse para a funcionária que já conhecia o caminho e que estava sendo aguardada. Quis fazer uma surpresa para Emma. Quando a porta do escritório se entreabriu após uma suave batida, a gerente nem sequer desviou os olhos da tela do computar, no qual enviava um e-mail a fornecedores, pensando tratar-se de Lourdes com o café que havia pedido. Proferiu um "pode entrar" sem maior atenção e continuou o que estava fazendo sem olhar para a figura de olhos mel que lhe sorria perto da porta de entrada. Percebendo com o canto dos olhos que a pessoa havia parado e não falava nada, olhou naquela direção e surpreendeu-se ao ver Regina. Não conseguiu conter o largo sorriso de satisfação ao revê-la.
- Desculpe, não vi que era você!
- Eu percebi. – respondeu Regina – Mas não quero atrapalhar. Quem sabe eu volto mais tarde, ou amanhã.
- De forma alguma – disse Emma caminhando na direção de Regina para cumprimenta-la.
Neste momento Lourdes entrou no escritório com a bandeja e dois cafés servidos.
- Com licença.
- Obrigada, Lourdes.
A funcionária se retirou e Regina disse:
- Bom... para o bem de todos e felicidade geral da nação... consegui os dias de folga no hospital, na semana entre Natal e Ano novo.
- Que maravilha! Então já posso avisar o vovô.
- Pode. Embora falte mais de 5 meses,pode.
Emma continuou:
- A Ju já sabe?
- Não, ainda não. É que somente hoje consegui falar com a minha chefe. Não quis levantar uma expectativa na Ju sem antes ter certeza.
- Claro.
- Emma, também passei para te dizer que eu vou precisar trabalhar nessa sexta-feira à noite. Por isso o nosso joguinho fica para uma próxima vez.
- Tudo bem. Até é bom dar uma folga que é para evitar de ficar viciada! – proferiu Emma em tom de brincadeira – E na próxima semana sou eu que não vou estar aqui. Viajo quarta ou quinta-feira, e volto no domingo.
- A gente se fala na tua volta então.
- Certamente.
- Eu vou indo então. Preciso pegar a Ju ainda.
- Então... até.
- Até. – respondeu Regina e dirigiu-se para a porta.
Antes que saísse, Emma a chamou:
- Re.
- O que? – respondeu virando-se para dentro.
- Acho que vou sentir saudades.
Regina sorriu docemente para ela, permanecendo em silêncio e olhando-a nos olhos. Sem dizer nada saiu em direção à rua. Emma permaneceu em sua cadeira de trabalho, olhando por um bom tempo na direção da porta, de olhos fechados, sentindo o perfume deixado por Regina.
Os dias seguintes passaram muito rápido, Regina trabalhou inclusive no final de semana. Na quarta-feira Emma embarcou para São Paulo, não sem antes ligar para a casa de Regina na noite anterior para se despedir de Juliana. Na verdade queria ouvir a voz de Regina antes de viajar. Sua ida à São Paulo foi tranqüila. Os negócios tiveram êxito e seus pais ficaram radiantes ao revê-la. Mas quem ficou realmente radiante foi seu avô, que não lhe deixou ficar na casa dos pais e sim na dele. Apesar de sentir-se bem na companhia do avô, Emma não via a hora de retornar à Manaus. Tamanha ansiedade não passou despercebida aos olhos astutos e observadores do vovô Salim:
- Afinal, qual é o real motivo da minha neta querer retornar tão cedo para aquela cidade distante e deixar esse pobre avô quase morto de saudade?
- Não apela, vovô! – riu Emma, tentando desconversar.
- E então? O que é que a senhorita achou por lá? Mais precisamente, quem a está aguardando lá?
- Vovô! Por favor.
- Eu não nasci ontem... e te conheço bem.
- Acho que não tão bem assim...
- Tudo bem, não quer falar, eu respeito. Mas eu não sou bobo.
Emma abraçou o avô afetuosamente:
- Você é uma raposa velha! Tem razão, eu não quero falar, até porque eu também não sei direito o que está acontecendo.
- Imagino...
- Mas eu tô bem.
- Seja o que for, minha filha, tem o meu apoio.
Novamente Emmaa abraçou o avô e lhe deu um beijo na careca.
- Eu te amo, sabia?
- Eu também, minha filha, eu também.
No dia em que Emma retornou e antes de sair da casa do avô, este lhe disse:
- Veja se não demora tanto para vir me ver.
- Pode deixar, eu venho mais seguido.
- E... Emma, aproveita a praia para relaxar e te aconselhar com as ondas. O mar é um ótimo mestre. Ele acalma e ajuda a encontrar as respostas escondidas dentro de nós mesmos.
Emma ficou impressionada com a capacidade do avô de quase ler seus pensamentos. Nunca havia conversado diretamente com ele sobre sua homossexualidade, mas isso era apenas um detalhe. O avô a conhecia muito bem, e mais que isso, a amava e a aceitava como era, com suas escolhas e seu estilo de vida.
- Pode deixar, vovô... eu vou fazer isso sim.
Eram pouco mais de nove horas da noite de domingo e Emma mal havia acabado de largar as malas no hotel. Correu para o telefone e discou o número da casa da Regina. A ligação chamou até cair. Deveria estar no hospital. Em seguida ligou para a casa de Dona Eda e uma vozinha conhecida atendeu ao telefone:
- Alô?
- Ju?
- Emma! Eu tava morrendo de saudades! Pensei até que tu tinha esquecido de mim.
- Querida, eu cheguei agora. E também estou com saudades. E a tua mãe?
- Trabalhando. Ela me falou da praia e eu AMEI! Eu não conheço o mar, só de fotos.
- Então vai conhecer agora.
- Ai, mas vai demorar ainda!
- Mas passa logo.
- Emma, eu já sei o dia da minha formatura, é no dia 11, um sábado de tarde. Tu vai?
- Não sei... tenho que ver... nos sábados a loja funciona...
- Aaahh... por favor... vai.
- Tá bom. Pedindo assim...
- Ôba, ôba, ôba! E tem outra coisa. Eu preciso de ajuda para montar a árvore de Natal e o presépio e eu acho que a minha mãe vai estar trabalhando, e a dona Eda é muito gorda e não consegue subir na cadeira para me ajudar. E o Seu Arno é muito magro, não consegue me levantar no colo pra eu pôr a estrela na árvore. Tu me ajuda?
- Garota! Você engoliu um toca-discos! Calma... eu te ajudo sim.
- Que bom!
- Pede pra tua mãe deixar todos os tarecos da árvore à mão, que eu te ajudo a montar.
- Um beijo.
- Outros... muitos. – respondeu Ju e desligou.
Emma teve de rir da torrente que era Ju. Lamentou não ter conseguido ouvir a voz de Regina. Desarrumou sua mala, mas não colocou as roupas no armário. Definitivamente a organização do armário ficaria para o dia seguinte. Pediu a janta no quarto, tomou banho e dormiu profundamente. Sonhou com as palavras do vovô Salim.
Na manhã seguinte chegou na loja bem cedo, eram pouco mais de sete da manhã. Nem bem havia aberto a porta de seu escritório quando o telefone tocou. "Quem será a essa hora?", pensou. Ao atender ouviu uma voz bastante conhecida e ficou radiante.
- Madrugou? – perguntou Regina.
- Como você sabe que sou eu?
- Primeiro: conheço o teu "alô" e segundo: só tu mesmo para estar tão cedo na loja.
- Pois é.
- Mas como foi a viagem?
- Tudo bem, tudo correu como eu esperava. – respondeu Emma.
- Desculpa ligar tão cedo, mas é que depois que eu me deitar vou ferrar no sono até o meio dia, para retornar ao hospital à tarde. É que ao chegar Ju já estava acordada e me falou que tu havias ligado. E que você iria sair com ela.
- Pois então...
- Emma não vai atrás dessa menina, senão ela te aluga! Acho que ela pensa que não tens mais nada para fazer.
- Val, tudo bem. Eu não me importo. Vai ser depois do expediente mesmo.
- Mas tu andas cansada...
- Descanso depois. Se eu não pudesse com certeza eu diria, ok?
- Jura? – insistiu Regina.
- Claro.
- Bom, então tá. Eu tenho plantão na quarta-feira à noite. A Ju vai dormir na casa da dona Eda .Nos vemos nessa sexta-feira? Na nossa costumeira jogatina?
- Nossa! Falando assim me sinto uma jogadora contumaz! – riu Emma– Mas, nos vemos sim. No horário de sempre.
- O Seu Arno e a dona Eda já estão reclamando da nossa escapulida...
- Só eles é que estão sentindo falta dos meus belos olhos?... – provocou Emma.
Fez-se um breve silêncio no outro lado da linha e Emma quase pode visualizar a expressão de Regina.
- Não... mais gente também...
- Muito me alegra saber.
- Bom, mas vamos ficando por aqui mesmo porque este zumbi que vos fala precisa descansar.
- Tá certo... um bom descanso.
- Obrigada. Tchauzinho.
- Tchau.
Regina desligou e Emma ficou sorrindo para si mesma. Sua percepção lhe dizia que a amiga estava sentindo por ela a mesma atração que despertava. Por certo estava perturbada com isso, assim como ela própria, por toda a situação. Resolveu parar de pensar e deixar as coisas acontecerem por si mesmas, "como as águas dos rios que se ajustam às margens...", pensou.
Antes de adormecer Regina também pensou nas provocações de Emma. "Não... não posso estar enganada... ela me olha diferente, e me diz coisas com segundas intenções. Mas, nossas realidades são muito opostas. Ela não tem planos de ter uma família, muito menos uma filha... melhor parar de pensar e dormir".
