Os dias da semana correram na mesma rotina por longos meses. Infelizmente o Brasil perdeu na semifinal. Toda sexta as mulheres se encontravam na casa do seu Arno para suas jogatinas. As festas de final de ano estavam se aproximando Juliana tinha pedido a Emma que esta a ajudasse a montar a árvore de Natal.

Na quarta-feira, conforme o prometido, Emma chegou na casa de Regina bem no finalzinho da tarde. Juliana estava sozinha, mas Emma percebeu movimentação na casa de dona Eda, sinal de que ela estava ali. No chão da sala havia três caixas, uma da árvore artificial, a outra com os enfeites da árvore e a terceira com o presépio. Também havia uma sacola com barba-de-pau, colhida pelo Seu Arno, para os detalhes da decoração.

- Já tá tudo aqui, ó... é só montar – disse Juliana.

- Então, mãos à obra, mocinha.

Emma encarregou-se de montar a estrutura da árvore, sendo observada por Juliana que ia lhe alcançando os ramos por ordem decrescente de tamanho. Uma vez montada a estrutura Emma colocou as luzes em volta da árvore, que de pé media cerca de 1,60m, além da mesinha sobre a qual havia sido posta. Depois colocou as correntinhas de minúsculas estrelas douradas de galho em galho, como se formassem ondas até o topo da árvore. Logo em seguida as duas começaram a pendurar as bolas coloridas e os demais enfeites: anjinhos de feltro, miniaturas de casinhas de madeira, maçãs vermelhas, laços de fita dourados, pequenos Papais Noéis, meias luas, pingentes transparentes que refletiam a luz dos pisca-piscas e muitos outros enfeites, alguns comprados e outros feitos artesanalmente pelas mãos habilidosas de dona Eda. Por último jogaram aleatoriamente uma razoável quantidade de fios prateados, que caíam e se alojavam sobre os galhos, emaranhando-se nos enfeites e projetando a luz artificial em reflexos multicoloridos. Pronto! A árvore estava montada. Só faltava a estrela, que era a última coisa. Agora restava montar o presépio. Sob a árvore Juliana estendeu um pedaço de carpete verde que servia de tablado para a estrebaria de madeira construída pelo Seu Arno com alguns gravetos e pedaços de sarrafo. Cobriram essa estrutura com barba-de-pau e pronto! Estava armada a casa do Menino Jesus. Juliana se encarregou de dispor os personagens, Maria, José, os Pastores, os Reis Magos, o burro e a vaca, o camelo e o Anjo da Anunciação. Por fim, solenemente, a menina depositou cuidadosamente a figura do Deus Menino na manjedoura. Bateu palmas de contentamento e disse para Emma:

- Agora só falta a estrela!

Juliana pegou a estrela de seis pontas, na verdade o cometa dourado, e olhou para Emma com os olhos brilhando de satisfação. Entendendo a mensagem Emma tomou Ju nos braços e levantou-a do chão, erguendo-a até o topo da árvore. Ela encaixou a estrela no cume e novamente bateu palmas e soltou um gritinho de satisfação. Emma baixou a menina e indicou a tomada, para que acendesse as luzes. Juliana ligou a flecha na tomada e a sala foi iluminada pelas luzes coloridas da árvore e do presépio.

- Ficou lindo! – gritou Juliana alegremente abraçando Emma pelo pescoço. – Vou chamar a dona Eda e o Seu Arno para ver. – e saiu correndo na direção do portão.

Logo em seguida retornou puxando dona Eda pela mão.

- Devagar, menina. – dizia a velha senhora.

Seu Arno vinha logo atrás, fingindo empurrar dona Eda pelo traseiro. Ao avistarem a obra de arte das duas bateram palmas:

- Muito Bem! Está lindo! – disseram quase que em uníssono.

- Obrigada pela parte que me toca! – sorriu Emma.

- Acho que a minha mãe vai adorar!

- Com certeza! – concordou dona Eda. – Vocês não querem comer alguma coisa lá em casa?

- Obrigada, mas pensamos em comer algo menos nutritivo e mais artificial, tipo x salada e sorvete... – brincou Fernanda. Ju riu.

- Essa juventude... – disse dona Eda.

- Pode deixar que a gente não vai demorar. É só mesmo o tempo de fazer um lanchinho e já trago a Ju de volta.

- Você é que sabe, minha filha. A Regina já tinha me dito que vocês iriam dar uma saidinha. Vamos Arno, a tua sopinha já deve estar pronta.

- Sopinha... ela quer me matar de fome. Eda, eu quero um bife!

- De noite, não!

- Mas Eda, eu tenho fome!

- Quem sabe vem conosco, Seu Arno... – brincou Emma.

- Boa idéia, mas se eu for a Eda me escalda com a sopa na volta!

Todos gargalharam da piada do velho. O casal foi para sua casa, ainda discutindo qual seria o cardápio da janta de Seu Arno.

Antes de saírem para jantar Juliana olhou para Emma e disse:

- Vem aqui no quarto que eu quero te mostrar uma coisa.

- O que? – quis saber Emma curiosa.

- Vem que eu te mostro.

Emma acompanhou Ju até o quarto e sentou na beirada da cama de Regina, enquanto Nina abria uma gaveta de uma cômoda antiga onde costumava guardar seus pertences mais significativos, quase seus tesouros. Do fundo da gaveta retirou cuidadosamente um porta-retratos onde um rosto de mulher sorria amavelmente. Juliana estendeu o porta-retratos para Emma que examinou detalhadamente o semblante que lhe sorria. Tratava-se de uma mulher jovem, aparentando pouco mais de vinte anos, cabelos loiros e lisos, pele clara, olhos de um verde quase translúcido, rosto redondo onde duas covinhas nas faces não deixavam dúvidas acerca de quem seria aquela figura até então desconhecida para Emma.

- É a minha mãe. – disse Ju – a minha mãe biológica.

- Bonita. – respondeu Emma sem saber muito bem o que dizer.

- Eu te acho parecida com ela, por causa do cabelo e dos olhos.

Emma esboçou um sorriso afetuoso.

- Você consegue lembrar dela?

- Mais ou menos. Às vezes eu custo um pouco pra me lembrar do rosto dela... aí tenho que olhar para a foto dela pra não esquecer. Ela era gordinha e baixinha assim ó... – continuou Juliana fazendo um gesto com a pequena mão, como que tentando mostrar a estatura da mãe. – Mas o cabelo era igualzinho ao teu...

Juliana ficou em silêncio contemplando a fotografia e continuou:

- Eu já perguntei pra Gina porque é que a minha mãe teve que ir embora... aí ela me explicou que as vezes Deus precisa de anjos e escolhe alguns aqui na terra. E a minha mãe era muito boa, por isso foi escolhida. A Gina também me disse que ela sempre vai cuidar de mim, mesmo quando eu for grande.

- Com certeza, minha querida, com toda a certeza... – respondeu Emma abraçando a menina e aconchegando-a em seu colo.

-Emma..

- O que?

- Vamos comer? Eu tô com fome.

- Sim senhorita! Vamos lá. – respondeu Emma levantando-se com Juliana agarrada a seu pescoço.

Colocou a criança no chão, para que ela guardasse o retrato da mãe e saíram do quarto.

Emma e Juliana foram até uma lanchonete perto da praça central. Depois de comerem Emma levou a menina de volta e seguiu para o hotel. Não conseguia parar de pensar na expressão de contentamento da pequena ao colocar o Menino Jesus na manjedoura e a estrela na árvore. Realmente aquela criança lhe fazia recordar dela própria naquela idade, de suas expectativas e de quanto o seu avô lhe fazia as vontades, mesmo a contragosto dos pais em algumas situações. Seguiu sorrindo enquanto caminhava perdida em seus pensamentos