Enfim chegou o sábado! Por volta das oito horas da manhã Regina observou o seu redor e custou a acreditar no que seus olhos viam. Os painéis da decoração da festa estavam prontos. É óbvio que elas não encontraram nada que fizesse menção a uma decoração espacial nas lojas da cidade. Mas Emma não se deu por vencida. Podia ser uma negação na cozinha, mas era uma artista nos trabalhos manuais e de desenho e pintura. Trabalhando em equipe com o Seu Arno confeccionaram eles próprios a decoração da festa. Não contentes em deter-se nos painéis e nos enfeites resolveram construir uma nave espacial no quintal, para as brincadeiras das crianças. Seu Arno era excelente marceneiro e fez o que seria uma nave espacial em madeira, de forma oval, com dimensões de mais ou menos 2,5m de raio e altura de 2m, um espaço suficiente para acomodar cerca de seis "tripulantes" confortavelmente. Confeccionou um painel de controle com chaves de luz, tomadas velhas, alavancas de madeira e um guidão de uma bicicleta de corrida. A nave era pintada por fora com tinta prateada, com detalhes em vermelho. Por dentro a madeira foi pintada de branco. A nave tinha janelinhas redondas, mais parecendo um submarino, e uma porta que se abria para baixo, transformando-se em rampa de acesso. Emma se divertiu muito ajudando o Seu Arno, assim como Juliana. Emma reservou todas as tardes daquela semana para se dedicar aos preparativos da festa. E a "nave", com toda a certeza, seria a estrela da festa. Juliana mal conseguia conter a expectativa de mostrar seu brinquedo aos colegas de aula. Mas não contou nada para eles, dizia somente que em seu aniversário eles teriam uma surpresa.

O bolo e os doces ficaram por conta de Dona Eda. O almoço, com exceção do churrasco, ficou a cargo de Antônia e Regina que faria a tão desejada lasanha e a torta de maçã. Dona Eda fez um bolo delicioso e Emma construiu uma maquete perfeita de um foguete em isopor para enfeitar o bolo, ao lado da qual colocaram uma enorme vela cor de rosa, para, dar um toque feminino ao arranjo

Outro impasse foi a roupa de Juliana. Regina queria que a filha usasse um vestidinho branco e vermelho, presente do vovô Salim e ela queria uma "roupa espacial". Novamente Emma salvou a pátria. Comprou um tecido de lamê prateado e encomendou em sua costureira um macacão sem mangas, com uma gola alta engomada e um fecho na frente. Comprou ainda um par de botas brancas, de cano alto, onde desenhou nas laterais, com tinta vermelha, o mesmo símbolo que haviam pintado na porta da nave. O conjunto era arrematado por um cinto largo de couro vermelho e fivela prateada. Juliana estava transformada numa desbravadora de galáxias!

Por volta das dez horas da manhã um carro estacionou na frente da casa e se pôs a buzinar. Emma viu que eram seus pais e seus avós. Eles vieram de avião e locaram um carro no aeroporto. Foram recebidos efusivamente por juliana que correu para abraçar vovô Salim e vovó Ester. Foi apresentada aos pais de Emma, Mary e David, e explicado que eles também eram seus avós. Eles mostraram-se receptivos com a menina e com Regina, para alegria de Emma. Regina também se mostrou disposta a estreitar os laços com os pais de Emma, muito embora naquele primeiro momento não conversassem sobre o relacionamento das duas explicitamente.

Por volta de onze e meia chegaram os colegas de Juliana. Ela convidou somente seus amigos mais chegados, num total de nove crianças. Algumas mães e pais acompanharam os filhos e em pouco tempo a casa estava repleta. Antônia havia chegado antes das sete horas da manhã, assim como Dona Eda e Seu Arno, que tomou conta da churrasqueira. O almoço foi servido por volta da uma hora.

Juliana ganhou muitos presentes e estava radiante com sua festa. As cinco horas foi cantado o "Parabéns à Você" e servidos os salgadinhos e o bolo. Depois a criançada ainda inventou um jogo de futebol, do qual Emma participou, assim como seu pai. O velho David tinha um fôlego quase tão bom quanto o de sua filha. Naquela altura do campeonato Juliana já estava sem as botas e jogava descalça na grama do quintal. Sua roupa de "viajante galáctica" estava suada e seus cabelos totalmente revoltos grudavam-se na testa e na nuca encharcada de suor. Mas ela estava feliz. E era o importante.

Quando o ultimo visitante foi embora já eram nove e meia da noite. Regina e Emma despencaram no sofá da sala. Juliana estava entretida vendo seus presentes no seu quarto. Salim olhou para as duas figuras exauridas e gargalhou:

- Haja saúde para acompanhar essa meninada, ein?

- Ôôô vovô, nem fale, eu tô acabada! – disse Emma.

- Mas foi uma festa encantadora – disse Mary– Aliás essa menina é encantadora, bem que o papai e a mamãe já haviam nos falado sobre ela, não é mesmo David?

- Realmente. – concordou o pai de Emma – Mas quem sabe a gente vai indo procurar um hotel, pois vocês precisam descansar.

- Absolutamente! Vocês ficam aqui conosco! – disse Regina enfaticamente.

- Mas nós não queremos dar trabalho. – respondeu Mary

- Não é trabalho nenhum, mamãe. Por favor... – disse emma – Você e o papai ficam no quarto de hóspedes e o vovô e a vovó ficam no nosso. A gente dorme no quarto da Juliana.

Fez-se um silêncio pela referência aos quartos, enquanto os pais de Emma entreolhavam-se um pouco desconcertados. Apesar de terem ciência da situação da filha tinham muita dificuldade em falar sobre o assunto. Regina também ficou sem jeito. Vô Salim riu da situação e descontraiu:

- Pois para mim está ótimo! Eu quero agora é tomar um banho e me deitar! Já não tenho mais idade para essas empreitadas!

- Sei... – provocou David– O senhor é capaz de enterrar a nós todos ainda!

Salim riu-se e vovó Ester o acompanhou para separar suas roupas. Antônia arrumou os quartos e preparou alguma coisa para a janta, praticamente "ressuscitou" o almoço, afinal havia sobrado muita coisa. Após lavar o último prato Emma foi leva-la em casa.

- Antônia, eu nem sei como te agradecer pela força. Fico te devendo essa.

- Que é isso dona Emm a, não tem que agradecer nada não. Eu fiz pela Juliana mesmo, ela merece.

- Mesmo assim, muito obrigada.

Quando voltou para casa todos já estavam recolhidos, com exceção de Regina que a aguardava recostada no sofá da sala. Sorriu amorosamente ao vê-la chegar.

- E então? O que achou da festa da nossa criança? – quis saber Emma.

- Não tenho palavras...

- Modéstia à parte, mas a decoração ficou o que há de bonita, ein?

- Tu que ésbonita... a mulher mais bonita que eu já vi, com certeza a mulher mais maravilhosa que existe nessa galáxia...

- Para com isso, sua boba, eu já sou convencida por natureza, vou ficar pior!

- Mas é verdade...

Emma deitou-se sobre Regina no sofá e beijou-a carinhosamente nos lábios. Ficaram abraçadas por um tempo em silêncio.

- Vamos deitar? Eu tô com as costas em frangalhos. A Antônia arrumou uma cama pra gente no quarto da Julianaa, no canto que sobrou sem presentes do quarto da Ju quero dizer. – riu-se Regina.

- Ai, vamos sim, que se eu pegar no sono aqui vou acordar toda torta amanhã.

- Emma..

- Huum?

- Será que os teus pais gostaram de mim? E da Ju?

- Claro que sim. Qualquer pessoa se apaixona fácil pelas minhas duas beldades!

- Eu tô falando sério, Emma.

- Eu também!

- Mas tu poderias ter nos poupado do comentário do quarto, ein? – disse Regina lembrando da saia justa que ficaram.

Emma riu muito.

- Mas o vovô Salim sempre se sai bem! – disse Emma divertidamente – Re, não é segredo para ninguém que dormimos juntas! Ou será que os meus pais pensam que eu sou assexuada? Ou louca? Pois só sendo louca ou assexuada, para não agarrar e fazer amor com a mulher mais de-li-ci-o-sa desse sistema solar...

- Emma...

- Emma o quê?... é verdade! Eu te amo.

- Eu também te amo.

Beijaram-se amorosamente.

- Emma... vamos dormir? Dizer que a gente dorme juntas, tudo bem, mas fazer teus pais presenciarem esse... agarramento, caso resolvam beber água, aí já é demais, né?

- Tá certo...

Regina e Emma adormeceram abraçadas na cama arrumada no chão do quarto de Juliana. Estavam de fato exaustas, mas felizes. Juliana dormia abraçada em Emilio. Depois de tomar banho foi direto para a cama, só teve ânimo para beijar e dar boa noite aos avós. Dormia com um sorriso nos lábios e por certo seus sonhos a estavam levando por uma viagem intergaláctica.

Os pais e os avós de Emma foram embora no dia seguinte, logo após o jantar. Regina estava de folga novamente e passaram o dia em casa com as visitas. Tanto David quanto Mary saíram de lá com uma ótima impressão acerca de Regina, além de também estarem encantados com Juliana. Embora no fundo desejassem que a filha se casasse com um homem, entrando numa igreja de véu e grinalda, se deram conta de que Emma estava bem, e feliz.

E o tempo foi passando...

Regina e Emma organizavam sua rotina acompanhando Juliana da melhor forma possível. A menina estava participando oficialmente do time infantil de futebol de sua escola. Era um time misto, pois não havia meninas suficientes para se formarem dois times. Ela treinava duas tardes por semana. Continuava com suas aulas de música e já havia cogitado a possibilidade de ingressar no coral da escola.

Na manhã daquela quarta-feira de maio, enquanto tomavam café, as três conversavam animadamente.

- Mãe, neste domingo tu vai ter folga no hospital?

- Vou, porque?

- Que legal! É que vai ter campeonato de futebol na minha escola, e eu queria que vocês duas fossem me ver jogar.

- E desde quando a senhorita sabe desse campeonato?

- Desde a semana passada... mas eu esqueci de falar.

- Então tiveste mais sorte que juízo, guriazinha! Da outra vez avisa antes.

- Tá bom!

- E o resto do time? – quis saber Emma – Jogam bem como a minha campeã ou são uns pernas de pau?

- Mais ou menos... – riu-se Juliana - ... o Mauro joga bem, a Julia também. O Diego é meio mocorongo, mas em compensação a nossa goleira é dez! É a Katiane, não deixa passar uma bola! E sabem quem é o capitão do time?... Euzinha aqui ó!

- Que ótimo! Então vamos ver se voltamos para casa com o troféu. – disse Emma. – E que horas começam os jogos?

- Às nove horas.

Regina não conseguiu disfarçar o ar de contrariedade:

- Mas porque tão cedo? Melhor que fosse só de tarde.

- Mas aí é muito quente, mãe!

- É... parece que tem gente que vai ter que acordar cedo no domingo... – provocou Emma, rindo da cara zangada de Regina.

Juliana terminou seu café e foi escovar os dentes para ir para a escola. Emma acariciou o rosto de Regina, deu-lhe um beijinho nos lábios e lhe disse divertidamente:

- Como diria o Garfield em suas "pérolas de sabedoria": "Viva uma vida selvagem: tenha filhos!"

Regina foi obrigada a sorrir e concordar com ela:

- Pois é...

Emma também se levantou da mesa e acabou de se arrumar. Saiu com Ju e a deixou na escola, indo para a loja logo em seguida. Regina voltou para a cama e dormiu mais um pouquinho, antes de aprontar suas coisas e ir para o hospital.

No domingo pela manhã Regina arrumou uma sacola térmica com sanduíches naturais e um pequeno isopor com água mineral gelada. Aguardava Juliana que terminava de colocar sua camiseta do time e calçar seus tênis. Emma já estava pronta, de bermuda de cóton preta, camiseta branca folgada com uma estampa da Copa e um tênis branco sem meias. Seu óculo de sol estava pendurado no decote da camiseta e havia prendido os cabelos num rabo de cavalo, que pendia da parte de trás do boné preto que colocara para proteger o rosto do sol. Regina vestiu uma calça de abrigo azul marinho e uma regata branca. Também colocou um boné e óculos de sol. Passou muito filtro solar em Juliana, pois o jogo seria na quadra externa da escola.

Chegaram cedo e conseguiram um lugarzinho estratégico, à sombra de uma árvore atrás de uma das goleiras. Algumas mães de colegas de Juliana sentaram perto delas aproveitando a sombrinha aconchegante. Conversaram animadamente e quando o time de Juliana entrou em campo aplaudiram de pé. Juliana era magrinha e portanto, sobrava camiseta, ou faltava corpo, porém corria com desenvoltura e era muito boa nos dribles. Emma sorria orgulhosa:

- Olha o que é a ginga dessa garota! – dizia para Regina.

A cada lance mais disputado Emma se levantava e gesticulava. Chegou a ir até a beira do campo e dar uns gritos do tipo:

- Aqui pela esquerda! Vamos lá! Bota pra correr, pô!

Regina se divertia com aquele envolvimento de Emma. Ela chegou a levar uma olhada meio atravessada do professor de educação física e treinador do time. Resolveu sentar novamente ao lado de Regina. Em determinado momento um garoto do time adversário deu uma entrada mais brusca em Ju. Com agilidade ela saltou por cima das pernas do garoto, mas não conseguiu evitar a queda, rolando como se fosse a própria bola do jogo e levantando logo em seguida, somente esfregando um pouco a sua canela.

- Lance normal! – gritou o juiz.

- Lance normal o cacete! – esbravejou Emma. – Você não apita falta não, ô filho da puta! – gritou indignada.

Regina olhou para Emma espantada, ela não costumava usar aquele vocabulário. Como Emma havia se levantado e fazia menção de ir até o campo, Regina a segurou pelo braço e falou ao seu ouvido:

- Amor, o que é isso?

- Isso o quê? Aquele pivete quase quebra a perna da minha filha e esse veado não expulsa o cara? Nem falta ele deu!

- Emma, o "cara" deve ter no máximo sete anos! Calma... é só um jogo.

Emma sentou novamente, controlando sua fúria. Algumas mães olharam meio de viés para ela que ainda bufava. Regina riu sem graça para elas.

- Pe-lo-a-mor-de-Deus, mulher, te aquieta! Tem gente olhando... – pediu Regina baixinho.

- Pronto, já sentei! Mas se a Ju não salta igual um leopardo ela tava com a perna quebrada!

- Amor, são coisas que acontecem em jogos. – continuou Regina ao pé do ouvido de Emma – A nossa filha não dança balé, ela joga futebol, lembra?

Emma foi obrigada a sorrir.

- E ela joga bem pra caramba, né não? – disse Emma orgulhosa.

- Joga. Mas se toda vez que encostarem nela tu tiveres o ímpeto de bater no juiz, a carreira dela será breve.

- Pior que é verdade, né? Mas eu não consigo ver machucarem a nossa gatinha.

- Mas ela está bem, olha lá. Tá correndo igual um pé de vento.

- Menos mal...

O jogo deu o placar de sete a dois para o time de Juliana. Três gols foram dela. Em cada um deles Emma vibrava como se fosse o jogo da seleção brasileira em final de campeonato mundial. Fizeram uma pausa para o almoço e à tarde retomaram os jogos. E não deu outra, ao final da terceira partida o time deJuliana foi campeão naquela tarde de domingo. Cada participante ganhou uma medalha e o troféu ficou para a escola. Ju estava radiante, mas com certeza não mais do que Emma, que colocou a filha nos ombros para comemorar o título. Antes de voltarem para casa passaram no restaurante do quiosque para saborearem sorvetes. Emma e Regina tomaram uma cervejinha bem gelada, enquanto Juliana brindava com Fanta uva. Mesmo já sendo o mês de maio o dia estava quente e abafado, o chamado veranico de maio. Depois passaram na locadora e escolheram dois filmes para assistirem à noite. Ainda antes de se dirigirem para casa passaram na casa do Seu Arno e da Dona Eda para dar um oizinho.

No mês seguinte o verão começou oficialmente e o clima havia esquentado bastante. Ju já fazia planos para viajar nas férias de julho, iria para a casa do vô Salim. Seriam somente duas semanas de férias e ela passaria dez dias . Iria sozinha, de avião, e o avô a pegaria no aeroporto.

Emma e Regina conversaram algumas vezes sobre a situação jurídica de Juliana, e Emma manifestou seu intuito de adotar a filha, pela questão dos bens que possuía. Regina tinha o Termo de Guarda provisório da menina, mas até então não havia visto necessidade de oficializar a adoção. Emma porém, era muito prática e objetiva nesses assuntos legais. Como ainda não era possível adotar Juliana em conjunto, optaram por Emma formalizar a adoção. O interessante é que foi o avô de Emma que questionou com ela sobre a situação de Juliana. Ele fazia questão de incluí-la como herdeira de seu patrimônio. Emma planejava entrar com a documentação na Vara da Infância e da Juventude no próximo mês.

Uma semana antes das férias de julho Emma saiu da loja um pouco antes do meio dia para pegar Juliana na escola e almoçar com ela em casa. Estava a pé e quando se aproximava da escola viu uma cena que a deixou, no mínimo, preocupada. Juliana estava sentadinha com outros colegas na escadaria em frente à entrada principal do colégio e da calçada um homem observava o pequeno grupo de crianças. Emma intuitivamente diminuiu o passo enquanto Juliana se levantava e corria, numa brincadeira com os amigos. Emma sentiu um mal estar quando percebeu que a atenção daquele estranho estava totalmente voltada para Juliana. O homem acompanhava seus movimentos no pátio, e a menina nem percebia estar sendo observada. Antes que ele pudesse esboçar qualquer tentativa de aproximação Emma acelerou sua marcha e entrou no portão principal, indo ao encontro de Juliana e abraçando-a forte junto ao peito.

- Oi mãinha... – disse Juliana agarrando-se ao pescoço de Emma – O que foi? Tu tá tremendo?

- Nada não, deve ser uma friagem... mas dá cá um beijinho na ponta do meu nariz que eu esquento rapidinho – disse Emma tentando disfarçar o desconforto.

Com a filha nos braços virou-se em direção à saída, e para sua surpresa o homem não estava mais lá. Disfarçadamente olhou para todas as direções, num ângulo de 180° e não avistou mais o sujeito. Na escola não poderia ter entrado, pensou. Com Juliana segura pela mão acenou para um táxi que passava