Na manhã seguinte, assim que o Fórum abriu suas portas, Marília dirigiu-se à Vara da Infância e da Juventude, munida da procuração de Emma e disposta a aprofundar e tomar ciência do caso. Fez cópias dos autos e voltou para a casa das amigas. Leu toda a documentação cuidadosamente enquanto sorvia pequenos goles de café preto. À primeira vista tudo parecia dentro dos parâmetros legais. Procedeu algumas anotações e ligou para seu escritório na capital paulista.

- Alô, Alcebíades? Preciso que você levante a ficha de um cidadão para mim. Preciso de "serviço completo", fui clara?

- Claríssima, senhora.

- Anote os dados aí.

Emma e Regina foram até a casa de Dona Ed enquanto Marília foi ao Fórum. Juliana costumava ter mudas de roupas na casa de Dona Eda e como estava com seu material escolar acabou indo direto para a aula pela manhã. Aproveitando que Juliana estava na escola contaram os últimos acontecimentos para a velha amiga que escutava tudo com um ar de preocupação estampado no rosto. Combinaram que Emma pegaria Juliana na escola, para que a menina não desconfiasse de nada e a levaria para almoçar em casa. Diriam simplesmente que Marília era uma amiga de São Paulo que tinha vindo visitá-las. Por volta das quatorze horas Dona Eda iria até a casa delas e convidaria Juliana para ir até a sorveteria, e para depois dormir com ela de novo. Isto daria oportunidade à Marília de fazer os contatos necessários sem que Juliana pudesse ouvir do que se tratava. Ju era uma criança esperta e seria difícil inventar desculpas caso ouvisse algo a respeito dela. Emma e Regina decidiram conversar com Ju quando Marília já tivesse uma estratégia em vista e quando a situação estivesse pelo menos um pouco mais clara para elas.

Logo em seguida passaram no hospital, onde Regina dirigiu-se à administração para informar que não trabalharia naquela tarde também. Já havia faltado no dia anterior e como não entrou em detalhes, simplesmente alegou sérios problemas pessoais, lhe foi dito que descontariam as faltas de seu salário e que sua situação seria estudada pela direção do hospital. Regina não estava disposta a discutir, sendo que levantou-se e saiu. Conversou com Emma sobre o ocorrido.

- Eu senti um tom de, digamos, ameaça na voz do diretor. Eles não admitem funcionários faltosos. Mas eu não estou em condições emocionais de trabalhar hoje. – disse Regina.

- Eu sei, meu amor, e você está certa.

- Eu trabalho com vidas... será que é tão difícil das pessoas entenderem que a gente precisa estar bem? Imagina se eu dou uma medicação errada, ou sei lá, desato a chorar no quarto de um paciente?

- Re,você não precisa justificar isso pra mim. Eu concordo plenamente contigo. E mais. Eu acho que a gente está vivendo um momento extremamente delicado e a Ju vai precisar de nós muito presentes. Eu não tenho como deixar totalmente a loja de lado, mas posso jogar com meus horários. Já o hospital tem horários muito rígidos, exige muito... Re, porque você não deixa o trabalho por enquanto?

- Não, Emma, eu não posso...

- Não pode porque?

- A gente já conversou sobre isso. – respondeu Regina.

- Só que antes o destino da nossa filha não estava em jogo. Nesse momento a Ju precisa de você, de nós. Além do mais é o teu último semestre na faculdade, e ano que vem, se Deus quiser, você estará no seu consultório. Pensa bem, amor...

Regina ficou calada, cabisbaixa. Caminharam mais uma quadra em silêncio até que Regina disse:

- Eu acho que novamente tu tens razão. Enquanto essa situação da Ju não se resolver eu não vou ter cabeça pra mais nada mesmo. Amanhã eu peço afastamento do hospital.

Emma passou o braço sobre os ombros de Regina caminharam abraçadas e em silêncio até o portão de casa.

Conforme o combinado Emma pegou Ju na escola e foram almoçar em casa. Marília foi apresentada a ela e Juliana fez questão de lhe mostrar sua espaçonave e seu quarto, e Emilio. Marília sorria frente à simpatia e espontaneidade de Juliana. Por volta das duas horas Dona Eda foi até lá e convidou Juliana para ficar com ela. A menina ficou radiante à simples menção de um sorvete e tratou de arrumar suas coisas. Ao sair disse para Marília:

- Amanhã eu volto. Hoje eu vou dormir na Dona Eda. É que eu tenho que cuidar dela. O Seu Arno sai para jogar bolão e volta tarde, aí eu tomo conta dela.

- Ainda bem que eu tenho esse anjinho da guarda! – disse Dona Eda.

Ju caminhava saltitante segurando a mão da velha senhora enquanto se dirigiam para a sorveteria da praça central. Dona Eda, bem avisada, observava atentamente qualquer movimentação ao seu redor, porém conforme Emma havia previsto, não houve nenhuma tentativa de aproximação por parte do pai de Juliana.

Às quinze horas o telefone tocou. Ligação para Marília. Era Alcebíades, do escritório de São Paulo. A advogada ouviu atentamente o que lhe passavam do outro lado da linha. Um esboço de sorriso pareceu querer brotar do canto da boca de Marília, porém ela permaneceu impassível. Só dizia eventualmente: "sim", "sim", "correto". Emma e Regina a observavam atentamente, como que tentando adivinhar se as novidades eram boas ou más pela expressão de seu rosto. Doce ilusão. Marília mantinha-se séria e inexpressiva. Condicionamentos da profissão. Após minutos que pareceram horas ela finalmente deu o sinal do fax e desligou o telefone. Em instantes o papel começou a projetar-se como uma torrente interminável. Parecia que a documentação enviada não teria mais fim. Depois de alguns minutos ouviu-se o sinal do aparelho indicando o término do envio e Marília finalmente recolheu todo o material, dobrando-o cuidadosamente em forma de gaita enquanto lia alguns trechos do mesmo.

Regina e Emma estavam impacientes.

- E então? – perguntou Emma sem conseguir se conter.

- Emma... – respondeu Marília com seriedade - ...sempre apressadinha.

- Puta que pariu, Marília! Desembucha logo!

A advogada abriu-se num sorriso discreto:

- Melhor do que a encomenda! Esse cidadão, Sr. Adamastor Moreira Holtz, está mais sujo que pau de galinheiro. Cheques sem fundo, arruaça, perturbação da ordem pública, atentado ao pudor quando alcoolizado, calúnia e difamação, furto simples, desacato à autoridade, falsidade ideológica e por último, 171, estelionato.

- E como é que esse homem anda solto? – quis saber Regina.

Marília sorriu:

- É como costumam dizer no popular: "chinelagem". O sujeito é um grandessíssimo cretino, mas nunca fez nada que uma fiança ou uns dias no xilindró não resolvessem, com exceção do 171, pelo qual ainda está respondendo.

- Mas isso é ótimo! – vibrou Emma.

- Devagar com o andor, querida. É bom. Ótimo é ganhar a causa. Mas isso nós vamos ter que esperar para ver. Outra coisa, o miserável não tem endereço definido. O que forneceu é o da irmã dele, aqui em Manaus. Também consta o da mãe dele, numa favela na periferia de Tabatinga.

- Mas com esses antecedentes, qual seria o Juiz que daria a guarda de uma criança para um homem desses? – questionou Regina.

- Eu acho difícil que dê para ele. – respondeu Marília - Mas existe essa avó, e essa tia...

- Que nunca procuraram a menina! Que, aliás ela nem sabe que existem! – entrecortou Emma.

- Mas que são a família biológica dela. E como eu já disse, aqui neste caso específico vamos ter de lidar, além do que reza a lei, com juízos de valor, e com preconceitos. Cada cabeça, uma sentença.

- Isso não é animador... – disse Emma.

- Mas não é o fim do mundo também. Nós vamos ter que provar que para a Ju o melhor é continuar com vocês. É com esse enfoque que nós vamos sustentar a nossa defesa. Regina, o que é que você tem de fotos dela? Eu quero ver todas, desde bebê se possível, ou pelo menos do tempo que está contigo. Quero também fotos atuais, casa, quarto, festa de aniversário, cachorra, escola, tudo. Quero também o boletim escolar dela. Quero a tua carteira de trabalho, Regina. E a tua declaração de Imposto de Renda, Emma. Nossa luta começa agora!