Capitulo 15 (parte2)

Em pouco tempo Marília reuniu tudo o que precisava. Fez mais alguns contatos telefônicos para conseguir mais dados sobre os familiares biológicos de Ju, mais especificamente sobre o pai. Juntou a documentação necessária e compilou o material que considerava suficiente para dar ganho de causa às amigas. Com tudo organizado encaminhou o que julgava necessário ao Fórum e guardou algumas evidências como cartas na manga para a ocasião da audiência. Era como ela dizia: "não se deve dar todo o ouro para o bandido...". Concluído temporariamente seu trabalho em Manaus preparava-se para retornar a São Paulo, para suas "crianças", como ela costumava dizer. Marília tinha quatro filhos homens, tendo o mais velho 20 anos, os gêmeos com 18 e o mais novo com 15. Antes de retornar ainda conversou com Emma e Regina.

- Bom, meninas, vocês sabem que agora vamos nos ver só no dia da audiência. Nós já conversamos bastante sobre isso, mas eu quero recapitular alguns pontos principais com vocês. O advogado deles vai querer detonar a moral de vocês agarrando-se à questão da homossexualidade. Isso, se for questionado pelo Juiz, não há como negar. O importante é que vocês respondam as perguntas de forma convicta, de cabeça erguida e em nenhum momento cedam às provocações. Isso é pra você, Emma.

- Tá, já entendi. – respondeu Emma fazendo uma careta para a amiga.

- Outra coisa, lembrem-se que o enfoque é o bem estar de Ju, não o de vocês. E nada de choradeiras na frente do Juiz, entendido ?

- Entendido...

- Bom, então estamos conversadas. Amigas, até breve.

- Até. – responderam as duas.

Emma foi levar Marília até Porto Alegre, para pegar o vôo rumo à sua casa. Regina ficou em casa, esperando Ju para almoçar. Naquela tarde foi até o hospital, disposta a definir sua situação funcional. Colocou sua impossibilidade de trabalhar naquele momento e pediu para sair.

No final da tarde Emma já estava de volta. Regina lhe contou sobre sua ida ao hospital e que havia pedido formalmente para sair do serviço. Ju, ouvindo a conversa, perguntou:

- Tu vai sair do hospital, mãe?

- Vou.

- Por que?

- Bem... é porque eu tô cansada.

- Cansada?

- É, tenho que me dedicar à faculdade neste semestre, depois de me formar aí eu penso em voltar.

- Aaahhh, tá bom então. Eu tô gostando disso, assim tu fica mais tempo comigo! – disse Juliana abraçando Regina carinhosamente.

Regina custou mas conseguiu conter as lágrimas, tentando ser forte. Apertou a menina bem forte junto a si.

- Eu te amo, guriazinha, tanto, tanto... – disse Regina.

- Eu também te amo, mãe.

Emma abraçou as duas.

Naquela noite, depois que se certificaram de que Ju estava dormindo, Regina e Emma conversaram.

- Regina, a gente precisa conversar com a Ju...

- Eu sei, mas não tenho coragem.

- Mas vamos ter que arrumar coragem. Ela precisa saber o que está acontecendo e o que pode mudar na vida dela.

- Emma... é isso que me assusta... tudo pode mudar na vida dela, e na nossa.

- Uma coisa não vai mudar. Nós vamos permanecer juntas e com a Ju.

- Como é que tu tem tanta certeza?

- Porque a gente vai ficar com a Ju por bem ou por mal.

- Como assim?... – assustou-se Regina.

- Re, ninguém vai tirar a nossa filha. Se nós não conseguirmos a guarda dela... a gente foge com ela.

- Fugir? Como?

- Não seja ingênua Regina. Quando se tem os contatos certos, o mais fácil é conseguir sair do país sem ser descoberto. E o vovô Salim tem os amigos que precisamos.

- Mas Emma, é arriscado! E é ilícito!

- Nem tudo que é lícito é moral, Re,ou você prefere entregar a Ju pra esse cretino?

- Claro que não!

- Então não tem outro jeito.

- Mas a gente vai passar a vida fugindo?...

- Só o tempo que for necessário. E se tiver que ser a vida toda, que seja. Desde que estejamos juntas.

Regina abraçou Emma, que a aconchegou amorosamente de encontro ao peito. Decidiram esperar mais uns dias para conversar com Ju deram-se um prazo de uma semana.

O tempo realmente é relativo. Sabe se arrastar quando queremos que passe logo ou acaba voando quando desejamos que se arraste. Já era dia 21 de agosto e a audiência que definiria a vida futura de Juliana, Regina e Emma seria dali a exatamente uma semana. Era preciso contar à Ju o que se passava, sendo que não havia mais como protelar aquela conversa. À noite, após o jantar, Emm e Regina chamaram Ju.

- Julinha, meu amor, vem aqui um pouco... – pediu Emma– a gente precisa conversar contigo.

Ju deixou sua brincadeira de casinha e sentou-se ao lado delas. Observou as expressões tensas e sentiu como que uma mão gigante a lhe apertar o coraçãozinho, pressentindo más notícias.