Capitulo 16 ( parte1)

Ju... nós temos uma coisa pra te contar... é uma coisa difícil de dizer e nós vamos precisar que você seja forte. – disse Emma pegando a menina no colo.

- O que é?... – perguntou Ju em voz baixa, com a expressão séria.

- Nós recebemos uma carta do Fórum, do Juiz que está cuidando da tua adoção, lembra que a gente te falou? Aqueles papéis que vão te fazer ser a nossa filha legalmente?

- Lembro.

- Então. Só que, além de nós, tem mais uma pessoa que quer ficar com você...

- Mas eu não quero! Quero ficar com vocês!

- Eu sei querida. E nós também. Mas é que apareceu um senhor e pediu para ficar contigo. Ele diz que é o teu pai...

Juliana ficou uns segundos em silêncio, pensando no que ouvira.

- Mas eu não preciso de um pai agora. Eu já tenho duas mães. Até já fiz os cartões pra vocês no dia das mães. E não fiz pro dia dos pais! Eu não quero esse pai!

- Ju , calma. – continuou Regina – sabe aquela amiga nossa, a Marília?

- Sei.

- Ela é uma pessoa que vai nos ajudar a ficar contigo. Ela é advogada. Na semana que vem nós vamos no Fórum e o Juiz vai decidir com quem tu deves ficar...

- Eu vou ficar com vocês!

- Vai, meu amor, vai sim.

- Juliana – disse Emma – Vamos encarar isso como um jogo, ok?

- Como assim? – quis saber A menina.

- Um jogo de pega ou esconde.

- Como é esse jogo?

- É assim: no dia da audiência, se o Juiz disser pra você ficar conosco a gente corre e te pega! Te pega no colo e vem para casa. Se ele disser que tu deve ficar com o teu pai a gente dá um jeito de se esconder. – explicou Emma.

- E como a gente faz isso? – perguntou Juliana com os olhinhos brilhando.

- Fácil. Tu vai estar com ele e a gente segue vocês, escondidinhas. Aí quando der a gente te faz um sinal e você corre até a gente e aí fugimos e nos escondemos dele pra sempre.

- Tá! – concordou Juliana animada - Mas quanto tempo vai demorar até a gente fugir?

- Aí eu não sei bem. Pode ser um dia, dois, uma semana. Mas eu te juro, a gente te pega de volta! – disse Emma com os olhos marejados de lágrimas.

Juliana a abraçou forte. Apesar da confiança nas palavras de Emm, a criança estava com medo. Aliás, Regina e Emma também estavam com medo. Até Pipoca andava desanimada e entristecida nos últimos dias.

- Mãe... eu não quero ir embora daqui. – disse Juliana para Emma enquanto esta a colocava na cama, cobrindo-a com seu edredom de tecido estrelado.

- Você não vai, meu amor. Se sairmos daqui vamos todas juntas. Nós três e a Pipoca! – respondeu Emma dando um beijo na testa da meNina – Boa noite, dorme com Deus e sonha com os anjos. Eu te amo.

- Eu também. Boa noite mami.

Emma saiu do quarto e apagou a luz. No quarto delas Regina já estava deitada. Emma se deitou e suspirou profundamente. As duas estavam caladas, olhando para o teto. Não tinham palavras. Após um curto tempo a porta do quarto entreabriu-se lentamente, enquanto uma batidinha leve na porta antecedia um "posso entrar?". Era Julianacom Emilio em baixo do braço.

- A gente pode dormir aqui essa noite? O Emilio tá com medo...

- Claro, meu amor, - disse Regina levantando a ponta das cobertas – vem aqui, vem, corre.

Juliana saltou na cama, sendo jogada por Regina no meio delas. Aconchegaram-se bem, ajeitando Emilio no travesseiro de Regina e Juliana junto ao travesseiro de Emma. Pipoca, ouvindo a movimentação no corredor, também abandonou a sua caminha ao lado da lareira e entrou pela fresta da porta deitando-se no tapete ao lado da cama, enroscando-se bem e encostando-se à ponta do edredom que caía até o chão.

- Família unida é família feliz! – disse Emma.

- E que Deus permita que continue assim... – completou Regina.

Finalmente o dia da audiência havia chegado. Marília estava na cidade desde a véspera. Naquela noite ninguém conseguiu dormir bem. Os sonos foram povoados por pesadelos e sensações angustiantes. A manhã arrastou-se lânguida e morosamente. Vovô Salim havia chegado em manaus há três dias. Regina, Emma, Marília e Salim já haviam traçado o plan plano B. O plano C, que Marília desconhecia, havia ficada a cargo de emma e vô Salim. Tudo para garantir a juliana que ficasse com sua família, a família de seu coração. Pouco depois do meio dia Dona Eda e Seu Arno também chegaram a casa delas. A menina estava apreensiva. Regina estava uma pilha. Emma serviu-se de uma dose de whisky sem gelo antes do almoço.

- Olha lá ein, Emma? – repreendeu Marília – Eu preciso de você sóbria.

- Me deixa Marília, eu preciso dar uma relaxada.

- Quem sabe sexo ao invés de álcool?... – brincou Marília ao ouvido de Emma, para descontrair.

A loira riu sem graça e deu uma cutucada no ombro de Marília que a fez quase perder o equilíbrio.

- Isso, ainda desconjunta a advogada! Quer botar tudo a perder?

- Vai à merda, Marília. – respondeu Emma, também em tom de brincadeira.

A advogada aproximou-se de Emma e a abraçou afetuosamente:

- Amiga, ânimo! Onde está a Emma que eu conheço?

Emma largou o copo, ainda pela metade, e respondeu:

- Tá aqui. – e retribuiu o abraço – Por favor, trás a minha filha pra casa... – implorou com a voz entrecortada pela emoção.

- É isso que eu vim fazer aqui, não é?!

Com antecedência de quinze minutos Marília, Regina e Emma chegaram ao Fórum e esperavam a chamada para a audiência. Um pouco mais tarde Juliana levada por Salim e Dona Eda, chegava ao Fórum e aguardava numa sala contígua.

Pontualmente as quatorze e trinta e cinco foram chamadas para o início da audiência. Tanto Regina quanto Emma haviam se esmerado na apresentação. Emma trajava um conjunto de calça e blaser, de linho azul marinho, com uma blusa de lã bege por baixo, de gola rolê, enquanto Regina usava uma saia de lã preta e um casaco, também de lã, cor de vinho, com detalhes em preto. Uma maquiagem discreta disfarçava as marcas faciais de uma noite mal dormida, aliás várias noites insones.

Logo após acomodarem-se nas cadeiras laterais, entraram no recinto o pai de Juliana acompanhado de seu advogado. Emma respirou fundo tentando conter seu impulso de voar no pescoço daquele homem e estrangulá-lo lentamente. Conseguiu dominar sua fúria e fazer com que seu lado racional prevalecesse naquele momento, afinal precisava estar tranqüila para reverter aquela situação em favor delas.

Regina não conseguia encarar os dois homens. Emma passou a analisar o homem à sua frente. Era um sujeito bastante alto, mais alto que ela, com certeza, compleição física forte, claro, cabelos quase loiros, olhos numa tonalidade azul água, quase translúcidos. Estava de barba feita e sua vestimenta era simples. Tinha as faces coradas e os olhos vermelhos, próprios de quem é dado ao vício da bebida. Aparentava nervosismo e evitava de olhar na direção delas.

O Juiz era um senhor mais velho, aparentando mais de sessenta anos, sério e com óculos de lentes espessas. Calvo e vestido impecavelmente. O branco de seu colarinho chegava a reluzir em baixo da luz artificial da sala. Iniciou a sua explanação colocando que a audiência tinha como objetivo definir a guarda da menina Juliana.

- Meu cliente vem requerer a guarda de sua filha legítima após saber da morte da mãe da menina. Soube que a filha estaria desassistida e deseja cumprir suas obrigações de genitor.

Frente àquela colocação Emma mexeu-se na cadeira, sendo contida pela mão de Marília, por sob a mesa.

- E por que somente agora decidiu fazê-lo? E qual o motivo de não haver registrado a filha? – questionou o Magistrado.

- Meu cliente desconhecia a gravidez da ex-companheira. Soube da existência da filha através de sua irmã que trabalha no mesmo hospital da pessoa que está com a menina no momento.

O Magistrado calou-se e examinou as provas constantes no processo referentes aos antecedentes de Adamastor.

- Sr. Adamastor, - disse o Juiz dirigindo-se ao pai de Juliana – o senhor se considera apto a cuidar de sua filha?

- Sim senhor – respondeu o homem.

- Mesmo tendo uma, digamos, propensão a envolver-se em situações que infringem a lei? – indagou referindo-se aos processos que tinha.

- Eu estou mudado. Minha filha me fez mudar. Eu já paguei o que devia. Eu tô fazendo tratamento nos Alcoólicos Anônimos, aí deve ter o comprovante, e quero ficar com a menina. A minha irmã vai me ajudar, a minha mãe também.

- O senhor reside aonde? – continuou o Juiz.

- No momento com a minha irmã.

- No momento. E antes?

- Com a minha mãe.

Novamente o Juiz se calou. Marília pediu a palavra, sendo concedida.

- Inicialmente, senhor Juiz, eu gostaria de ressaltar que a menina não se encontra "desassistida" como referiu o nobre colega, muito pelo contrário. Desde o óbito da genitora vem sendo muito bem cuidada por minhas clientes, conforme constam provas nos autos. – disse Marília referindo-se às fotos, boletim escolar e tudo o mais que havia juntado ao processo – e eu gostaria de confirmar algumas datas com o Sr. Adamastor.

- Prossiga. – disse o Juiz.

- Sr. Adamastor, o senhor chegou a viver por oito meses com a falecida mãe de Juliana correto?

- Sim, foi mais ou menos isso.

- E seria de meados de 2004até fevereiro de 2006?

- É... acho que foi...

- Acha ou tem certeza? – insistiu Marília.

- Protesto Meritíssimo. – interferiu o advogado – isso não é relevante.

- Responda. – disse o Magistrado dirigindo-se ao pai de Nina.

- Tenho certeza.

- Bom, neste caso, considerando-se que Anelise nasceu em abril de 2006 , na ocasião da separação a mãe já estava com sete meses de gestação. E o senhor não havia percebido que sua companheira estava grávida?

- Protesto Meritíssimo. – disse novamente o advogado, enquanto Adamastor se mexia nervosamente na cadeira.

- Continue – disse o Magistrado à Marília.

- Meritíssimo, esse senhor não somente abandonou a companheira gestante como também nunca sequer manifestou o menor interesse no bem estar da criança. Nunca contribuiu em nada para o sustento da menina e o que é pior, negou à própria filha o direito de crescer ao lado de um pai. E agora que a criança está adaptada a um lar estruturado, e feliz, pretende, numa atitude egoísta e sem levar em conta o sentimento da filha, arrancá-la desta rotina estável e saudável e inseri-la quem sabe aonde. Novamente esta criança será exposta ao trauma de ser separada abruptamente das pessoas que ama e que lhe servem de referência.

- Que tipo de referências, nobre colega? – interveio o advogado – E qual o conceito de "lar estruturado" a que se refere? Não me consta que o lar de um casal de lésbicas seja o mais adequado para a criação de uma criança. Será que duas "sapatonas" criariam uma criança com valores morais mais adequados do que o próprio pai?

Regina neste momento conseguiu encarar o homem de frente, porém manteve-se impassível. Emma também respirou fundo e não mexeu um músculo sequer da face. Marília exaltou-se:

- Eu gostaria muitíssimo, Magistrado, que fosse solicitado ao nobre colega manter a educação e a ética neste tribunal, pois em nenhum momento nos dirigimos ao seu cliente como vigarista, bêbado, arruaceiro e mentiroso, o que de fato é! Portanto, minhas clientes exigem respeito na forma de tratamento. Se o nobre colega possui alguma ressalva ou preconceito em relação ao homossexualismo que tenha pelo menos a decência de tratar da questão com um vocabulário adequado, menos chulo e agressivo.

- Por favor, senhores advogados, mantenham-se! Vamos prosseguir esta audiência com a devida educação! – exaltou-se o Juiz.

- Senhora Regina, - continuou ele – a senhora está com a menina desde o falecimento da mãe, correto?

- Correto.

- E na ocasião vivia maritalmente com alguém?

- Não. Eu vivia só quando assumi a Juliana.

- E agora? Vive maritalmente?

- Vivo.

- E com quem? – continuou o Juiz.

- Com Emma. – respondeu Regina dirigindo um olhar para sua mulher.

- E desde quando vocês moram juntas?

- Desde janeiro deste ano.

- E a senhora, dona Emma, poderia me dizer porque solicita a adoção de Juliana, e não a sua... companheira? Isto considerando-se que era ela quem havia assumido a menina após a morte da mãe.

- Bom, considerando-se que pela legislação vigente seria quase que impossível adotá-la em conjunto com Regina, optamos por ser eu quem formalizasse a adoção, pela questão dos bens da família. Meu avô faz questão de incluí-la como uma das herdeiras de seu patrimônio.

- Eu gostaria de ressaltar – interferiu o advogado – que aqui não devem ser consideradas as situações econômicas e sim as questões afetivas e de laços consangüíneos. O fato de meu cliente ser de condição humilde não o faz menos capaz de responsabilizar-se pela filha.

- Com certeza não são as condições financeiras que o impedem de cuidar adequadamente da filha... – disse Marília ironicamente.

- Por favor... – disse o Juiz num tom repreensivo, dirigindo-se à Marília.

- Desculpe. – disse ela.

"Cara deslavada..." pensou Emma, rindo internamente da expressão da amiga. "E que grandessíssimos filhos da puta esses dois aí...".

- Bom, é incontestável o fato de que a criança em questão encontra-se bem assistida em suas necessidades, porém a lei é clara, e garante aos familiares biológicos a prioridade nas questões de guarda e de criação. – referiu o Magistrado.

Regina desabou com aquela colocação. Emma sentiu seu coração pulsar descontrolado e o sangue a acelerar-se em suas veias. Marília interferiu, pedindo novamente a palavra.

- Por favor, senhor Juiz, eu gostaria de fazer mais algumas colocações.

- Pois tem a palavra.

Marília respirou fundo e continuou:

- Sabemos perfeitamente o disposto em lei, Meritíssimo, no entanto o que viemos decidir nesta ocasião envolve muito mais do que um postulado jurídico. Trata-se da vida de uma criança, uma pessoa em desenvolvimento, um ser humano com vínculos, emoções, sentimentos... E vínculos, Meritíssimo, não se fazem da noite para o dia... Afetos se constroem com a convivência, com as pequenas coisas do dia a dia, com os sorrisos a cada manhã, com os puxões de orelha quando necessários, com as noites em claro, com as dores de garganta, com o primeiro dente que cai, com o joelho machucado, com a reunião de pais e mestres, com a ida ao teatro na escola, com as quedas de bicicleta, com os piqueniques de sábado, com a flor colhida no jardim do vizinho, com banhos de chuva, com os beijos de boa noite, com o abraço protetor nos dias de medo... Vínculo é isso, Meritíssimo. E esse sentimento Juliana tem pelas minhas clientes, e não por um pai desconhecido para ela. Aliás, Sr. Adamastor, o senhor conhece a sua filha?

- Conheço... claro que conheço...

- Mas conhece das espiadelas furtivas no portão da escola ou conhece de fato?

- Eu já disse que conheço e pronto.

- Então, qual é o prato preferido de sua filha?... – continuou Marília.

- Protesto Meritíssimo! – pulou o advogado.

- Protesto negado. Responda.

Fez-se breve silêncio, sem que o homem respondesse. Regina sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, mas conseguiu controlar sua emoção. Marília continuou:

- E o brinquedo preferido de sua filha, Sr. Adamastor, o senhor sabe qual é?...

Novo silêncio.

- E a cor dos olhos de sua filha, o senhor saberia me dizer?

- São... claros...

- Não senhor! São castanhos! – exaltou-se Marília – O senhor sequer conhece a sua filha!