Gostaria de agradecer a minha beta, que mesmo começando no finalzinho já me ajudou bastante. Obrigada Kawane. Agradeço a todos que chegaram até aqui. Esse é o ultimo capítulo da historia dessa que aprendemos a gostar.
familia fofa que muitos se apegaram tanto.
"Olhos, olhos, olhos...", pensava Emma como um turbilhão fervilhando em sua mente, algo estava lhe batendo no inconsciente e não conseguia saber o que era. "OLHOS!" Era isso! Como um manto negro que fosse arrancado e deixasse a luz do sol passar, Emma virou-se para Marília e puxou-a de encontro a si, cochichando algo veementemente em seu ouvido.
O Juiz bateu seu martelo pedindo silêncio, Marília empertigou-se e em tom mais brando falou:
- Meritíssimo, eu gostaria de fazer uma última pergunta ao Sr. Adamastor.
- Francamente, isso está indo longe demais, senhor Juiz! – protestou o advogado.
- Seja breve. – disse o Juiz dirigindo-se à Marília.
- Sr. Adamastor, o senhor é realmente o pai de juliana?
- Claro que sou.
- O senhor tem certeza disso?
- Tenho... claro que tenho – titubeou o homem.
- Então não se oporia a fazer um exame de DNA?
- Protesto Meritíssimo! – exaltou-se o advogado.
- Se oporia ou não? – insistiu Marília.
- Responda – disse o Juiz.
- Não... isso não é preciso... mas eu faria sim... – disse sem a menor convicção na voz.
- Mesmo tendo a certeza de que daria negativo? – questionou Marília.
- Por favor Meritíssimo – interferiu o advogado – isso é pura perda de tempo.
- Não é não! Pois esse homem não tem chances de ser o pai de Juliana, e ele sabe disso.
- O que a leva a fazer essa afirmação de forma tão categórica, senhora advogada? – quis saber o Magistrado.
- Lições de biologia, senhor Juiz. O Sr. Adamastor tem olhos azuis, a mãe da criança também, logo se tivessem um filho em comum teria necessariamente olhos claros, pelo gene recessivo. Ele não é o pai de juliana
Fez-se mais um breve silêncio onde os dois homens cochicharam entre si. Emma segurou a mão de Regina por baixo da mesa e Marília manteve-se impassível e inexpressiva. Por fim o Magistrado continuou.
- Frente aos argumentos não me resta outra alternativa, para não incorrer em equívocos solicitar um exame de DNA.
- Não é preciso – disse secamente Adamastor – Eu desisto.
- Então o senhor admite que não é o pai biológico da criança? – indagou o Juiz.
- Não sou mesmo. Aquela vagabunda já tava de barriga quando foi viver comigo.
- Modere seu palavreado neste recinto! – exaltou-se o Magistrado – Eu posso enquadra-lo por desacato à autoridade, ou por falsidade ideológica, como desejar! Afinal por qual motivo pleiteava a guarda dessa menina?
Adamastor baixou os olhos e ficou em silêncio.
- Eu posso imaginar, senhor Juiz – disse Marília.
- Pois diga.
- Pelo valor de seguro pago pela morte por atropelamento da mãe da menina. Foi depositado em Juízo.
- Foi por isto, senhor? – indagou o Magistrado.
Adamastor continuou calado, com o olhar fixo no chão. O advogado guardou seus papéis em sua pasta e mal conseguiu disfarçar sua contrariedade por não saber daquela parte da história de seu cliente.
- Não creio ser necessário dar continuidade a esse impasse. Por favor retirem-se, - disse o Juiz aos dois homens – e aguardem do lado de fora da sala. Depois retomamos nossa conversa.
Em seguida virou-se para a oficial ao seu lado e questionou:
- A criança está aqui?
- Sim senhor.
- Então por favor que venha até aqui.
Regina e Emma estavam com a sensação de terem recuperado a razão de viver, era como se uma pedra enorme houvesse sido retirada de cima de seus ombros, e como se a angústia que lhes apertava o coração houvesse se dissipado como que por encanto.
Marília virou-se para elas e disse baixinho:
- Calma... ainda não terminou. Ainda existe a possibilidade de Juliana ser encaminhada a um abrigo.
Novamente Emma e Regina ficaram apreensivas. Neste momento a porta se abriu e Juliana entrou conduzida pela Oficial de Proteção. O dia estava chuvoso e Juliana vestia uma calça de lã vermelha e um casacão xadrez com capuz em tecido estofado e quadriculado, nas cores laranja, marrom, vermelho e amarelo. Um gorro de lã amarelo deixava cair pelas laterais o cabelo crespo e solto da menina. Ela ainda usava um par de luvas amarelas, conjunto com o gorro. Ao avistar as mães sorriu para elas, correndo em sua direção. A Oficial chegou a tentar fazer com que se sentasse na cadeira do centro, mas Juliana foi mais rápida e abraçou Regina, sentando-se em seguida no colo de Emma.
- Tudo bem, pode deixá-la à vontade. – disse o Juiz dirigindo-se à Oficial, que fazia menção de chamar Juliana para sentar-se em frente ao Magistrado.
Juliana encarou o Juiz ciente de que ele a havia chamado para conversar. Pela primeira vez a figura sisuda esboçou um sorriso, cumprimentando a criança:
- Boa tarde.
- Boa tarde. – respondeu Juliana educadamente.
- Qual o seu nome?
- Juliana Amorim. Mas todos me chamam de Ju. E o seu? – quis saber Juliana.
Os adultos sorriram frente à espontaneidade da criança.
- João Alberto. E eu sou o Juiz que trata dos casos das crianças aqui nesta cidade.
- Isso eu já sabia. A Re e a Emma me disseram.
- E o que mais elas lhe disseram? – continuou o Magistrado.
- Que o meu pai apareceu e quer ficar comigo. Mas eu não quero. Eu quero ficar com elas!
- Juliana, eu gostaria que tu me contasses com quem moras.
- Eu moro com as minhas mães, a Regina e a Emma. E a Pipoca, minha cachorra. Eu queria um gato, mas ainda não tenho. Acho que a Pipoca ia ficar com ciúmes.
- Com certeza... – concordou o Juiz – e como é o seu dia?
- Como assim?
- O que é que tu fazes, desde de manhã.
- Bom, eu acordo cedo, eu e a Emma. A emma sai pra correr e eu fico tomando banho e colocando meu uniforme. Aí chega a Antônia, a moça que trabalha lá em casa. Ela faz o café e quando a Emma chega eu tomo café com ela. Às vezes ela malha um pouco, eu também, gosto da bicicleta ergométrica! Ela não me deixa mexer nos pesos. Na luva de box eu posso, mas é pesada. Depois do café a gente vai no quarto dar um beijo na Re que ainda tá dormindo. Ela é muuuito dorminhoca – disse Juliana olhando com uma carinha levada para Regina – Depois a Emma me deixa no colégio. Perto do meio dia alguém me busca na escola e me leva pra casa pra almoçar. Às vezes é a Re ou a Emma, ou a Antônia, ou a Dona Eda, ou o Seu Arno, que são nossos amigos. Quando a Dona Eda me busca eu fico um pouco na casa dela. Aí de tarde eu tenho escolinha de futebol e aula de flauta-doce e música. Tem um dia da semana que não tenho nada de tarde, aí eu fico em casa. Nesses dias eu convido meus amigos pra brincar lá em casa, na minha nave espacial!
- Tu tens uma nave espacial? – questionou o Juiz.
- Tenho! O senhor pode ir lá em casa ver. Foi o Seu Arno e a Emma que fizeram. Cabe assim de gente, ó! – fez um gesto com os dedinhos – Aí eu brinco bastante! Nos dias que eu tenho atividade chego em casa lá pelas cinco horas. A Re sai pra faculdade as seis, agora ela saiu do hospital, tá só estudando, antes ela trabalhava de tarde e ia direto pra aula. Depois que a Emma chega a Antônia vai embora. Aí eu tomo banho e faço os temas de casa. A Emma me ajuda. Depois a gente janta, eu vejo televisão, brinco no meu quarto, brinco no computador, jogo dominó com a Emma, um monte de coisas. Depois eu vou dormir. Às vezes a Re chega depois que eu fui dormir, mas ela vai me dar um beijo assim mesmo. Eu seeempre tenho que escovar os dentes antes de deitar. A Emma não se liga muito nisso, mas a Re me faz levantar se a Emma conta que eu esqueci de escovar.
- No que faz muito bem! – assentiu o Magistrado.
- Acabou com o meu cartaz, ein garota. – disse Emma em tom de brincadeira.
- Nos fins de semana a gente passeia, se diverte, eu brinco, e é isso. Ah, esqueci de dizer que nas férias eu vou para a casa do meu avô Salim e da vó Ester, lá na Fazenda . Na verdade eles são avós da emma, eles são meus bisavós. Mas eles não são muito velhos não. O vô Salim tá ali fora me esperando. – continuou Juliana.
- A senhorita tem uma vida bem ativa, não é mesmo? – comentou o Juiz.
- É sim. Mas eu gosto mesmo é do futebol. A Emma diz que eu jogo bem pacas!
Emma sorriu para a menina.
- Joga bem mesmo, campeã.
- E me conte sobre sua casa. Tu tens um quarto?
- Tenho, e é lindo.
- E o resto da casa?
- Tem o quarto delas – respondeu Juliana apontando para Regina e Emma – o escritório, o quarto de hóspedes, o outro quarto que virou academia, a sala, a cozinha e os banheiros. Ah, e tem também o quartinho e o banheiro da Antônia. Tem também a garagem, a casinha da Pipoca, a minha nave espacial, e... e só.
- Muito bem, e qual dessas senhoras é a tua mãe? – perguntou o Magistrado.
- As duas.
- As duas?
- É. Em vez de ter um pai e uma mãe, eu tenho duas mães. E não preciso de pai!
- Mas isso não é muito comum.
- Mas eu não me importo. Eu amo a Re e a Emma. Elas são a minha família, depois que a minha mãe morreu. – disse Juliana baixando os olhos.
- E tu te sentes feliz?
- Ah-rãã. Eu sou feliz. Acho que é porque eu rezo todos os dias pro meu anjo da guarda. Quando a minha mãe morreu, eu fiquei muuito triste. Mas a Re me explicou que quando Deus precisa de anjos lá no céu ele escolhe umas pessoas legais aqui na terra e leva, por isso ele escolheu a minha mãe, porque ela era boa. Mas em compensação, pra eu não ficar sozinha Deus me mandou a Regina. Depois a Emma. Me mandou duas mães. Acho que Ele gosta de mim. E por isso eu sou feliz. E por isso eu não quero mudar de família.
O velho Magistrado calou-se, examinou novamente os autos, coçou o queixo. Novamente dirigiu-se à Juliana:
- Bom, mocinha, a nossa conversa fica por aqui. Agora eu vou pedir que tu acompanhes essa moça que te trouxe, pois nós adultos precisamos conversar mais um pouco.
- Tá bom então, tchauzinho... – acenou para o Juiz, deu um beijo em Emma e Regina e estendeu a mão para a Oficial de Proteção que a conduziria de volta à ante-sala.
Após alguns instantes de silêncio depois de Juliana sair da sala, Marília falou:
- Meritíssimo, creio não haver impedimentos para que minhas clientes possam concretizar a adoção da menina. Existem provas nos autos de que a criança está muito bem assistida. Desde que a mãe foi ao óbito juliana tem recebido os cuidados materiais e emocionais que necessita, prova está de que se trata de uma criança saudável, comunicativa e feliz.
Breve pausa se fez e o Magistrado tirou os óculos e cruzou as mãos sobre o processo aberto em cima de sua mesa. Fitou as três mulheres com seriedade e iniciou seu pronunciamento:
- Este caso configura-se numa situação bastante atípica: a disputa pela guarda de uma criança pelo pai, que se descobre não ser pai, e por uma mãe que vive maritalmente com outra mulher. Sinceramente, eu lhes digo que não entendo essas situações de homossexualidade, e nem aceito. Mas também não cabe neste momento avaliar e julgar o que não está em pauta. Estamos aqui para decidir o futuro da menina que espera ali fora, na sala ao lado. Senhoras, mesmo não entendendo e nem aceitando o modo como vivem, não posso deixar de lhes parabenizar pelo que fizeram e continuam fazendo por esta menina. Ela de fato demonstra ser uma criança educada, com valores, com postura adequada para uma criança de sua idade, enfim, uma criança perfeitamente normal, como qualquer criança criada por uma família de moldes tradicionais. Pelas provas constantes nos autos, e pelo que pude constatar , realmente não encontro nenhum motivo para revogar a guarda de tão pouco encontro fundamentos para não dar um parecer favorável ao pedido de adoção da menina Juliana, em favor da Sra. Emma Swan Abdala. Expeça-se a guarda definitiva com vistas à adoção. Declaro encerrada a audiência. – proferiu o Magistrado dirigindo-se à escrivã e dando início à redação do termo de audiência.
Regina fechou os olhos e segurou firme a mão de Emma. por baixo da mesa, enquanto uma lágrima, agora liberta, escorria do canto de seus olhos. Marília esboçou um sorriso de sucesso. Emma respirou aliviada e disse mais para si mesmo do que para os outros, "graças aos deuses". Após a assinatura da documentação, finalmente elas puderam ir ao encontro de Juliana, que esperava ansiosa pelas novidades. Pela expressão de felicidade estampada nos semblantes das mulheres, nem foi preciso dizer em palavras qual havia sido o veredicto. Regina abriu os braços, indo ao encontro de Juliana que correu e se jogou em seus braços.
- Vamos para casa, minha filha...
Juliana a abraçou forte.
Emma passou pelo avô e disse baixinho em seu ouvido, o que somente Marília que estava ao lado escutou:
- Pode dispensar o helicóptero.
Salim sorriu aliviado.
- O que foi que você disse, Emma? – quis saber Marília, desconfiada.
- Nada não... Era só o plano C.
Marília somente balançou a cabeça. Dona Eda desatou numa choradeira só, quando lhe foi dito que estava tudo resolvido e que Juliana voltaria para casa com eles.
Passaram para pegar o Seu Arno e foram todos para a casa de Emma e Regina. Resolveram fazer um churrasco na janta para comemorar. Salim e Seu Arno foram comprar a carne e os demais ingredientes necessários.
Os homens trataram de assar a carne. Antônia, vó Ester e Dona Eda prepararam as saladas e os pratos quentes. Regina e Emma só borboletearam para cima e para baixo, queriam mais era curtir a felicidade de ter a pequena Juliana definitivamente em casa.
Após o jantar Juliana ficou jogando dominó com Seu Arno, Regina e Dona Eda. Antônia tratou de organizar a cozinha enquanto Emma, Marília e vô Salim sentaram na área da frente para tomarem um drinque. Enquanto bebericavam Marília questionou:
- Escuta, que história era aquela de helicóptero, ein?
Salim e Emma se entreolharam e sorriram.
- Plano C, queridíssima. – respondeu Emma.
- Como assim, plano C?...
- Simples, caso não conseguíssemos resolver a situação de juliana pelas vias legais usaríamos outros métodos... – continuou Emma
- Mas isso seria seqüestro! – exclamou Marília.
- Chame como quiser, mas eu não entregaria a minha filha assim no mais para um vagabundo qualquer.
- Mas vocês seriam caçadas pela polícia!
- Marília, minha cara, no exterior é difícil encontrar pessoas que sabem se esconder...
- Eu não acredito no que estou ouvindo...
- E se fosse com um dos teus filhos? – perguntou Emma.
Marília calou-se pensativa. Por fim respondeu:
- Eu trataria de arrumar um helicóptero...
Os três sorriram.
- Mas, enfim, graças a Deus e a você minha amiga, não foi preciso recorrer ao plano C. – disse Emma sorridente.
- A mim não, a VOCÊ! – respondeu Marília – Graças a tua perspicácia e atenção aos detalhes nós ganhamos a causa. Como é que te deste conta do detalhe dos olhos?
- Simples. Eu nunca colei nas provas de biologia. – riu-se Emma.
- Mesmo assim, foi muita perspicácia...
- Eu chamaria de desespero.
- Eu chamaria de capacidade de racionalizar, mesmo frente a uma situação de conflito – disse Salim, que até então ouvia atentamente – virtude que serve tanto para se livrar de apertos quanto para enriquecer!... – riu-se o velho.
- Bom, o importante é que agora tudo está resolvido! – respondeu Emma.
- E devo dizer que foi uma decisão com duplo sabor de vitória, - continuou Marília – conseguimos garantir uma família para ju e marcamos um ponto a favor na questão da quebra de preconceitos.
- É verdade... – concordou Emma.
- Então vamos brindar a nossa felicidade! – disse Salim erguendo seu copo e sendo acompanhado pela neta e por Marília.
- Saúde e felicidade! – disseram os três.
Aquela noite foi especial para todos. Depois das visitas irem para casa e de vovô e vovó estarem acomodados no quarto de hóspedes, Regina, Emma e Juliana foram dormir. Novamente dividiram a mesma cama. Naquela noite queriam Juliana no meio delas, bem abraçadinha. Na noite seguinte retomariam a rotina normal da menina dormir em seu quarto. Novamente Pipoca aproveitou a deixa e infiltrou-se no quarto delas, enrosquilhando-se nos pés da cama, numa ponta da coberta que caía até o chão.
Salim e Ester ficaram ainda por mais cinco dias com a neta, antes de retornarem. Marília retornou a São Paulo no dia seguinte à audiência, para supervisionar a rotina de seus filhotes e de seu esposo.
Regina, Emma e Juliana retomaram suas atividades rotineiras. primeira semana de setembro trouxe de volta a tranqüilidade àquela família. No final de setembro Emma estaria de aniversário, no dia 27, e logo em seguida, no dia primeiro de outubro era Regina quem completava mais uma primavera, literalmente. Combinaram de comemorar no dia primeiro de outubro, que cairia num domingo. Resolveram fazer um almoço para os familiares e amigos, porém ainda não tinham definido aonde.
A primavera chegou novamente à cidade colorindo as ruas com as nuances vivas das flores em seu esplendor. O aroma dos jasmins adocicava a brisa suave do entardecer daquela sexta-feira, dia 22 de setembro. Os dias estavam esquentando gradualmente, com temperaturas que permitiam o uso de bermudas e camisetas ao sol. Regina estava se dedicando com exclusividade e afinco ao ultimo semestre da faculdade. Estaria formada em menos de três meses e isto a deixava num misto de ansiedade e euforia. As duas conversavam após a janta, enquanto Juliana assistia a um desenho animado.
- Bom, já acertei os detalhes no restaurante do clube. – disse Emma.
- Mas tu acha que é mesmo preciso? Quem sabe a gente comemora aqui em casa mesmo.
- Nem pensar. Quero um almoço em grande estilo para comemorar o nosso aniversário este ano. Aliás, nós temos bons motivos para comemorar.
- Com certeza. – concordou Regina. – E os teus pais, já confirmaram se vem ou não?
- Eles vêm.
- Que bom. – disse Regina – Emma... mas no dia 27 a gente podia comemorar o teu aniversário de uma forma especial, e digamos mais... íntima. Não podemos?
- Huuumm, isso é uma proposta?
- Como queira...
- Vou considerar uma proposta... indecente, mas tentadora...
Regina sorriu com sensualidade, fazendo Emma sentir um arrepio percorrer-lhe a coluna.
- ... E eu aceito... – continuou Emma com voz baixa e rouca – e você já tem algo em mente?
- Mais ou menos, eu pensei que talvez pudéssemos ir até aquela boate, onde dançamos juntas pela primeira vez. E depois uma esticadinha... num motel?...
- Ora, ora, a minha esposa está bem saidinha, ein? Mas quem sou eu para não satisfazer os teus desejos? Essa escrava que vos fala está pronta para sucumbir aos teus delírios de luxúria e satisfazer a tua sede de delícias... – respondeu Emma teatralmente, fazendo Regina gargalhar.
- Me aguarde então! – respondeu a loira.
- Re... tem uma coisa que eu preciso te falar...
- O que é?
- É o vovô, ele ligou para a loja hoje cedo e conversou bastante comigo.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada de mais.
- É que pro vovô conversar "bastante", sem se preocupar com o custo da ligação, o assunto deve ser muito importante. – brincou Regina.
Emma riu e respondeu:
- É bem importante mesmo. Bom, é o seguinte: o vovô está pensando em abrir uma filial da loja em outro bairro.
- E isso significa?...
- Que sou eu que vou gerenciar a loja nova. – disse Emma. – Aí ou eu retomo a minha vida de ficar em hotéis durante a semana e vir para casa nas sextas- feiras ou... a gente se muda pra lá.
Regina fitou Emma pensativamente e questionou:
- E pra quando seria esse empreendimento?
- O mais breve possível. Dois meses, talvez. Ele quer inaugurar antes do Natal, para aproveitar a ocasião.
- Emma, nós estamos vivendo juntas e construindo uma vida juntas. Se for o melhor para o nosso futuro vamos para outro bairro. – disse Regina com determinação – Além do mais eu não sou louca de deixar essa mulher-tentação sozinha durante a semana toda!
Emma sorriu.
- Meu amor... eu passaria a semana toda sonhando com a sexta-feira, e você sabe disso. Mas eu fico muito feliz em ter de fato uma companheira, uma pessoa que esteja disposta a batalhar junto!
- Mas eu não posso ir antes do término das aulas da Ju. – disse Regina.
- Eu sei, nem pensei nisso, mas ela deve entrar de férias no máximo na primeira semana de dezembro. E você também já deve ter concluído o curso nessa data.
- SE DEUS QUISER! – disse Regina com as mãos para o alto.
- Re, eu tô pensando em comprar uma casa ao invés de alugar.
- Ai amor, eu não sei, tu que sabe se vale a pena.
- Investir em imóveis sempre vale a pena. E a gente vai acabar ficando por lá mesmo. Tenho o pressentimento que não vamos ficar somente com uma filial. E se vamos ficar eu quero ficar bem.
- Será que a juliana vai gostar da idéia? – perguntou Regina.
- Criança gosta de novidade, Re, E ela vai ter novos amigos, conhecer novos lugares. As mudanças acabam nos fazendo crescer. E ela é nossa filha, vai ter que ir aonde a gente for, pelo menos até que seja adulta e independente.
- Ai Emma , não fala assim. Eu não consigo imaginar a nossa menininha crescida, saindo de casa.
- Mas os filhos são do mundo, meu amor, e com a Ju não vai ser diferente... – disse Emma amorosamente.
- Eu sei... mas prefiro não pensar. Pelo menos por enquanto.
- Tá bom. Mas então eu posso começar a procurar a nossa nova casa? – perguntou Emma.
- Claro que pode. – assentiu Regina.
- Depois de tudo mais ou menos encaminhado a gente conversa com a Ju,ok?
- Tudo bem.
- Mas voltando ao assunto que muito me interessou... fala com a Dona Eda pra ela ficar com a Ju no dia 27. Afinal a noite e a madrugada prometem...
- Pode deixar.
As duas se entreolharam com paixão e cumplicidade, firmando a promessa de comemorarem à duas o primeiro aniversário de Emma que passariam juntas.
No dia 27 Emma foi acordada por Juliana,que se jogou sobre ela ainda adormecida, cobrindo-a de beijos e abraços. Regina também se acordou com a fuzarca e aproveitou para afofar Emma com beijos e braços. As três tomaram o café da manhã juntas. Emma trabalhou na loja somente pela manhã. Ao meio dia pegou Juliana na escola e almoçou em casa com elas. O dia estava com uma temperatura agradável e Emma convidou Regina para dormirem um pouco numa enorme rede de casal que estava estendida à sombra entre duas árvores no fundo do quintal, enquanto Juliana brincava no pátio, entretida em sua espaçonave, cujas únicas tripulantes na ocasião eram ela e Pipoca. Regina queria mesmo descansar para estar bem disposta à noite. Adormeceram abraçadas e dormiram profundamente. Um pouco antes das dezesseis horas Dona Eda e Seu Arno chegaram na casa delas, trazendo um enorme bolo confeitado. Antônia já os aguardava de soslaio no portão, enquanto Juliana,em silêncio, vigiava as dorminhocas, afinal queriam fazer uma surpresa. Antônia já havia feito salgadinhos, e comprado bebidas. Juliana a ajudou a encher balões coloridos, que ficaram escondidos no quarto de Antônia. Rapidamente decoraram a mesa da sala e penduraram os balões. Quando tudo estava ajeitado Juliana correu para o fundo do quintal.
- Manhêê... – chamou a pequena.
Regina e Emma se espreguiçaram, haviam dormido direto estavam doloridas de ficarem na mesma posição.
- O que foi, garota... – quis saber Emma ainda sonolenta.
- Vem aqui dentro um pouco!
- Pra que?...
- Surpresa! – exclamou Juliana, saiu correndo.
- Vamos lá ver o que me espera! – brincou Emma.
Regina riu e a acompanhou de mãos dadas.
Ao entrarem na sala todos irromperam no cântico do "Parabéns a você", enquanto velinhas com o numero 35 ardiam ao lado de hastes incandescentes espetadas no bolo, que se consumiam espalhando faíscas luminosas e pareciam querer transformar o bolo num espetáculo de queima de fogos de virada de ano. Quando terminaram de cantar Emma fez um pedido e apagou as velinhas, que teimavam em reacender-se a cada nova assoprada, até que por fim, vencidas pela persistência de Emma, sucumbiram num pavio enegrecido. Juliana correu na direção dela, jogando-se em seu colo, abraçando-a afetuosamente e cobrindo-lhe a face de beijos. Regina também a abraçou e lhe deu um "selinho" nos lábios. Era engraçado como manifestações de carinho como aquela não chocavam mais as pessoas que conviviam com elas, muito pelo contrário, os amigos conseguiram assimilar a magnitude do sentimento que as unia, e o carinho expresso por contatos físicos passou a ser encarado com naturalidade.
As sete e meia Dona Eda e Seu Arno foram para casa, levando Juliana com eles, conforme previamente combinado. Antônia passaria a noite ali para cuidar da casa. Antes das nove da noite estavam prontas e saíram . Por volta de onze horas adentraram no bar onde haviam se tocado de forma mais íntima pela primeira vez e onde puderam pressentir, no sabor do primeiro beijo, o que o destino reservava para ambas.
Dançaram muito, divertiram-se novamente no videokê e quando o relógio marcava quatro e quinze da madrugada pegaram o carro e foram para um motel para dar continuidade às comemorações do aniversário de Emma.
A aniversariante escolheu o melhor motel que conhecia e pediu champanhe no quarto. Brindaram à saúde e à felicidade e fizeram amor. Amaram-se até quase a exaustão, entregaram-se àquele sentimento que as transformava em um só ser, em uma só energia, em um só coração. Adormeceram nuas, com pernas e braços entrelaçados, sob lençóis de seda azulada, onde ficava difícil distinguir onde terminava uma e começava a outra, tamanha a proximidade e o enlace dos corpos das amantes.
Na manhã seguinte retornaram para casa , embora estivessem sem pressa era necessário que emma passasse na loja no início da tarde. Agora precisavam se preparar para o almoço de domingo.
E finalmente o domingo chegou. Emma e Regina acordaram cedo, antes de Juliana. Os avós e os pais de Emma haviam chegado na sexta-feira, e estavam hospedados na casa delas.
Ao meio dia foram todos para o restaurante do clube, que reservou um dos salões para a festa de Emma e Regina. Além da família de Emma estavam presentes Dona Eda, Seu Arno, Antônia, Lourdes e mais alguns funcionários da loja, os donos do Hotel Tropical e Angelo. Eram cerca de vinte e cinco pessoas. Divertiram-se bastante. Depois do almoço muitos convidados acabaram entrando no clima festivo do compasso musical e entraram a tarde dançando alegremente. Seu Arno, com as faces rosadas pela quantidade de chope ingerido, rodopiava com Dona Eda pelo salão. Vovô Salim e vovó Ester também eram uns pés de valsa. Todos se divertiram muito.
No início da noite os familiares de Emma retornaram para suas cidades, somente Salim e Ester permaneceram até a terça-feira, para ficar mais um pouco com Juliana
No mês de outubro Emma dedicou-se exclusivamente a nova filial do Magazine Libanês . Regina estava prestes a concluir seu curso e se dedicava com exclusividade a ele. Juliana também estava quase entrando na época dos exames finais na escola.
Era início de novembro e Emma conversava com Regina após o almoço naquela tarde de domingo.
- A loja está quase pronta para a inauguração. Faltam somente detalhes – disse Emma – acho que vamos inaugurar na próxima semana.
- Que ótimo. Sabe, Emma, eu gostaria que este final de ano já tivesse passado... são tantas etapas por concluir, e mudanças por ocorrer.
- Logo, logo passa. Quando a gente menos espera já foi. – respondeu Emma – Olha só, eu achei uma casa bem boa, bom estado e bom preço. Fica num bairro um pouco afastado do centro, na zona leste ,mas vale a pena pelas belezas naturais do lugar. E como a nova filial fica no bairro Proximo acaba dando só uns vinte minutos de carro. Eu gostaria que pudéssemos vê-la ainda esta semana, pois quero me mudar logo que a Juliana acabar as aulas. Até porque a minha mulherzinha já vai ter recebido sua nota final...
- Nem me fala, quando eu penso que é na semana que vem, chega a me dar dor de barriga! – disse Regina.
Emma riu-se.
- Calma, vai dar tudo certo.
- Eu sei, mas mesmo assim sinto um frio na barriga.
- Normal... Bom, então que tal você ir comigo para o Coroado amanhã? A gente volta no fim da tarde. A Dona Eda pega a Juliana na escola pra gente.
- Pode ser. – concordou Regina animada.
No dia seguinte seguiram pro novo bairro. Antes das nove horas estavam pegando a chave do imóvel na imobiliária. Rumaram para a zona leste da cidade. Quanto mais se afastavam do centro tanto mais a paisagem se modificava, e ao passarem pelo bairro do Coroado 3 até mesmo o ar ficava diferente. Os prédios altos cediam lugar a casas de no máximo dois pisos. O cenário urbano ia se transformando numa paisagem mais rural, onde o verde dos morros contrastava com o céu azulado daquela manhã de novembro.
Emma ainda rodou pelo bairro mostrando a Regina os pontos mais conhecidos daquela localidade. Por fim estacionou o carro em frente a uma ampla residência de dois pisos mais um mezanino, há uma quadra da igreja. Havia um portão automatizado, porém tinham somente a chave do portão auxiliar. A casa estava desocupada e o proprietário tinha pressa em vender, por motivo de mudança de estado. Como a casa que ocupavam no momento, aquela também possuía um pátio frontal e outro pátio maior nos fundos, inclusive com uma piscina ovalada medindo cerca de sete por quatro metros. A casa possuía cinco quartos, duas salas, uma suíte, uma cozinha com dois ambientes, garagem para três carros, churrasqueira e dependência de empregada, além do espaçoso e ensolarado mezanino, todo envidraçado e de frente para a torre da igreja. Conforme o esperado por Emma,Regina adorou a casa e o bairro. E Juliana também iria gostar. Regina não gostava do burburinho das grandes cidades e aquele bairro era tranqüilo o suficiente e não muito longe do centro da cidade.
Naquela manhã decidiram que aquela seria a casa delas. Passaram na imobiliária e acertaram a compra.
Na semana seguinte Regina obteve aprovação em seu curso, com nota final 9,8. Juliana entrou em férias e Emma providenciou a mudança para a sexta-feira, dia 17 de novembro. No dia 24 houve a inauguração da filial do Magazine Libanês.
Dona Eda e Seu Arno ficaram muito entristecidos pelo fato de Juliana estar se mudando para outra cidade, porém compreenderam os motivos de Emma e Regina e acabaram auxiliando na mudança e prometendo visitá-las com freqüência. Antônia acabou vindo junto. Já há algum tempo enfrentava problemas de relacionamento com seu marido, e como seus filhos estavam adultos e independentes, aproveitou para por um fim no seu casamento desgastado e começar uma vida nova.
O Natal foi passado na casa nova, com a presença de Dona Eda e Seu Arno e dos avós de Emma, Salim e Ester. Os pais acabaram ficando em São Paulo.
Naquele ano Emma não conseguiria tirar férias, devido à demanda de trabalho na loja, naqueles primeiros tempos de funcionamento. Mas não abria mão de passar os domingos em casa com seus dois amores: Regina e Juliana. Também tentava chegar o mais cedo possível em casa durante a semana e nas tardes de sábado. Mas da metade do ano em diante a situação se estabilizaria e ela teria mais tempo de dedicar-se à família.
Juliana foi matriculada na escola que ficava há uma quadra de sua casa e acabava indo a pé, levada por Antônia, embora insistisse em querer ir sozinha, alegando saber o caminho de olhos fechados. Havia se adaptado muito bem à nova casa e à nova cidade. Sua única preocupação na ocasião em que foi informada da mudança foi com sua "nave espacial", questionando se poderia leva-la junto, fato solucionado facilmente em contato com a firma de mudanças. Desta forma seu veículo espacial repousava soberbo no pátio ao lado da piscina, continuando a encantar seus colegas de escola e a sediar a maior parte das brincadeiras da turma.
Regina montou seu consultório dentário na cidade mesmo, conseguindo uma ótima clientela, quer pelo seu excelente trabalho e dedicação, quer pelo fato de não haver muita concorrência no bairro.
Nas férias de julho. Juliana foi novamente para a casa do vovô Salim que contava os dias para receber a bisneta. Depois levaria a menina para visitar Dona Eda e Seu Arno, antes de traze-la de volta para casa, no final do mês.
Naquele sábado, após duas semanas de chuva intensa, o sol voltou a brilhar, tímido, mas mesmo assim irradiando sua luminosidade que transformava as tonalidades cinzentas do inverno em prenúncios de primavera, apesar de faltarem ainda dois meses para a estação das flores.
Emma havia ficado em casa, deixando a Loja aos cuidados do subgerente. Pretendia dedicar o dia ao descanso. Após o almoço dormiu um pouco e quando acordou sentiu falta de Regina que havia adormecido a seu lado.
No mezanino iluminado pelos raios do sol que já iniciava sua descida , Regina observava o parapeito interno da janela onde uma carreira de vasos de violetas das mais variadas cores adornava a vidraça e refletia a luz solar. Perdida em seus pensamentos sorvia lentamente uma caneca de chocolate quente para espantar o frio. Não chegou a sobressaltar-se quando Emma a abraçou por trás, uma vez que havia escutado seus passos subindo pela escada de madeira envernizada. Beijou-lhe a nuca carinhosamente, fazendo Regina encolher-se num arrepio, sorrindo para ela.
- Fugiu de mim?...
- Não, meu amor, só acordei antes... – respondeu Regina beijando a boca de Emma com suavidade.
- Tá bom...
- É que tu tava dormindo tão bonitinha, com um beicinho de soninho... aí não tive coragem de te acordar. – disse Regina docemente.
Emma a abraçou bem forte de encontro ao peito, enquanto observava a paisagem da grande janela envidraçada.
- O dia hoje está lindo... – disse Emma.
- E o céu com o azul maravilhoso ... – respondeu Regina.
Emma sorriu e disse apaixonadamente:
- Eu me sinto a mulher mais feliz do mundo, sabia? Aliás, é você que me faz sentir assim.
- A recíproca é verdadeira. Sabe, eu tava aqui pensando em como a nossa vida mudou desde que a gente se conheceu...
- E mudou pra melhor. – respondeu Emma.
- Pois é... Quer um chocolate? É bom pra esquentar. – ofereceu Regina.
- Huuumm... acho que eu quero outra coisa pra esquentar... – disse Emma maliciosamente enquanto ligava o ar condicionado do aposento e puxava Regina para o sofá encostado à parede lateral.
Naquele fim de tarde elas se amaram até que o astro rei e seus últimos raios deixaram de iluminar a torre da igreja, cedendo lugar à luminosidade fria da lua cheia que nascia no lado oposto da abóbada celeste.
Adormeceram nuas e abraçadas envoltas num edredom alaranjado e com a certeza de que a felicidade estava ali bem ao lado, ao alcance da mão.
E viveram felizes para sempre?...
Com toda a certeza, mas com a plena convicção de que a felicidade não é um achado e sim uma conquista, não é uma situação, e sim um modo de ser e de encarar a vida.
Fim
Beijos ? ゚リリ? até a proxima
