Feitiçaria negra e riqueza não era coisas comumente associadas. Sempre que um plebeu pensa sobre bruxas ele já visualiza uma casa escura em um pântano fétido. Uma mulher de faces torcidas pelo mal, seguidora de demônios, vestida e trapos ritualísticos que por si só emanavam forças medonhas. Porém a vida de Ohara Mari não tinha nada em comum com aquela visão da sociedade sobre uma feiticeira pagã.

Nascida em um palacete suntuoso, em uma das ricas nações além-mar, Mari havia desde muito cedo aprendido duas coisas fundamentais: o dinheiro era o maior poder do mundo; para aquelas poucas coisas às quais o dinheiro não pudesse conseguir, ela sempre teria a feitiçaria ancestral de seu sangue para lhe auxiliar. Ela cresceu no berço da sociedade mágica do Reino de New York, aprendendo magias elegantes na escola e feitiçaria ancestral em casa, em noites de lua cheia onde sua mãe abria os livros trazidos consigo do Oriente.

Mari nunca tivera nenhum tipo de objetivo em mente. Amava o conforto e estudava o mínimo para ser aceita como a herdeira dos negócios da família. Porém seu pai não cansava de tecer críticas sobre aquele comportamento. 'Você precisa de ambição! Você tem que tornar o império Ohara ainda maior do que já é! ' Era o que ele dizia quase todas as noites à mesa do jantar. A reação da garota era sempre a mesma: virar o prato de comida e se retirar para seu quarto de decoração indescritivelmente impecável.

Isso mudara apenas em uma certa tarde de outono, quando Mari, já cansada das mesmas conversas circulares de seus amigos de colégio, retornou mais cedo para casa e, sendo o mais silenciosa o possível, adentrou à biblioteca de sua mãe, para vasculhar os livros que a bruxa oriental não permitia ninguém de tocar.

Foi neste dia que Ohara Mari descobriu a existência do Cristal de Raburaibu. Uma joia milenar de poder equivalente ao de uma divindade. Escondido em algum lugar do Reino de Akiba, no extremo Oriente, o cristal fora banido em um passado remoto pelo perigo que representava seu poder incalculável.

Mari soube, a partir daquele momento o que ela iria fazer com o curso de sua vida. Ela tomou o livro proibido e foi direto ao escritório de seu pai. Não se importou com os poderosos acionistas que estavam reunidos com ele, ela adentrou a magnânima sala de reunião da sede das Corporações Ohara e jogou o livro diante do homem. Não deixando qualquer brecha para que ele tentasse falar, Mari enunciou que partiria de imediato para os reinos nipônicos, com ou sem sua permissão. Ela sequer se importaria de abrir mão de sua fortuna, pois ela retornaria triunfante com o cristal e construiria uma nova fortuna, ainda maior do que a existente na família.

'Este é o olhar de ambição que sempre quis ver em você, Mari. Vá e traga o Cristal de Raburaibu para a glória da família Ohara. '

Mari foi para o Reino de Akiba, não sem levar consigo uma quantia ridiculamente imensa de ouro em barras para armazenar nos cofres da nobreza local. Porém sua chegada não foi tão receptiva quanto ela esperaria para alguém portador de tanto valor: Em Akiba a Magia Natural, referida localmente como Magia Negra ou Feitiçaria, era proibida. Para sua sorte ela não foi presa, nada que alguns dobrões não tivessem permitido, mas teve que sair dos territórios de Akiba de imediato. Acompanhada de uma maga arcana muito prestativa de sobrenome Kousaka, Mari foi até a primeira cidade do outro lado da fronteira, no Reino de Numazu.

Um pequeno infortúnio que não lhe atrapalhou tanto quanto poderia. Depois de enfeitiçar sua fortuna e escondê-la apropriadamente, Mari tratou de conhecer mais daquele singular país no qual havia ido parar, agora já sabendo ser mais segundo esconder a natureza de sua magia. Um lugar bastante rural onde o tempo parecia andar bem devagar. Um verdadeiro tédio se comparado a vida agitada do lugar de onde viera.

Porém sua busca pelo cristal não foi tão fácil quanto ela gostaria. Passaram-se meses até ela encontrar pessoas que já tinham ouvido falar do mesmo e também o caçavam. Chegou a formar alianças, mas nenhuma de suas magias de leitura de energia acusava qualquer sinal de um item mágico tão poderoso. Os meses foram se tornando anos e sua jornada não parecia avançar nenhum passo a mais.

Foi por volta do seu terceiro aniversário nas terras orientais, quando ela já se sentia assombrada pelo fantasma do fracasso, que um encontro quase casual deu uma guinada em sua história:

"O Cristal Raburaibu? Oh sim, o Rei colocou dois de seus agentes mais capazes na busca deste item. " Disse-lhe uma linda maga arcana de longos cabelos azuis presos em um rabo de cavalo alto. "As irmãs Kurosawa disseram que tem uma pista boa da localização. "

Estavam em um restaurante em uma cidade que beirava a estrada central do reino. Passava das dez da noite e só haviam mulheres, algumas desacompanhas e outras em pares, conversando baixo. A feiticeira havia visto a cavaleira sentada sozinha e tratara de pedir um vinho e sentar-se para fazer-lhe companhia:

"Que interessante. " Disse a mulher loira vinda do outro lado do mundo. "Estive em busca de informações sobre o Crista primeira vez que vejo alguém falar que há uma pista forte. "

"Vejo que o Cristal de Raburaibu também é conhecido para além-mar, Senhorita Ohara. " Comentou a maga, lhe encarando com um sorriso de lado.

"Por favor, " disse a outra, pousando a mão sobre a da maga, "me chame apenas de Mari, Matsuura-san. "

"Kanan está bom também, Mari. " Respondeu a cavaleira, aproveitando o contato para acarinhar o pulso e antebraço próximo da loira.

Continuaram conversando até depois da meia noite. Seguiram juntas para a hospedaria mais cara daquela cidadezinha, onde foram direto para o quarto de Mari. A feiticeira teve uma das melhores noites da sua vida na companhia da comandante da guarda real, Matsuura Kanan. Noite esta que logo se tornaram duas, cinco, dez. . .

"Algo me dizia que você era realmente uma feiticeira. " Disse Kanan, na décima quarta noite que passavam juntas. Estavam deitadas no confortável leito, cobertas apenas pelos lençóis brancos. A cavaleira repousava com o dorso para cima, mãos atrás da cabeça. Mari estava deitada sobre seu abdômen definido da cavaleira. A luz da lua cheia banhava seus corpos pela janela aberta para a noite quente.

"Apesar de saber esconder os traços da magia, admito que em alguns momentos de furor é possível que algo fique sensitível. " Falou Mari, sentindo-se relaxada como se banhada pelas águas do paraíso.

"Na verdade penso que lançaste um feitiço sombrio sobre mim, Mari. Já deveria ter partido de volta à Capital há uma semana, mas minha alma se contorce apenas de imaginar não tê-la uma noite nos meus braços. " Disse Kanan, fintando o teto ornado do aposento. Mari ergueu o rosto para ela, com um sorriso felino nos lábios.

"Creio que seja outra parte tua, que não a alma, que sofra por pensar em estar sem mim, maga arcana de nobre linhagem. " Provocou. "Pois saiba que se há alguém sob um feitiço de paixão este alguém sou eu, pobre vítima de teus conhecimentos obscuros das artes proibidas. "

Kanan puxou Mari para si e as duas trocaram beijos longos e profundos. Por diversos minutos foi apenas o som de seus suspiros de crescente luxúria que preencheram o quarto:

"Venha comigo para a Capital, Mari. Não posso mais existir sem teu calor. " Declarou-se a cavaleira, sem conseguir separar racionalidade e paixão da sua voz. "Não me importo em nada com o fato de seres uma bruxa. São só costumes antigos e medos tolos do povo. Te quero comigo. "

Mari não conseguiu formar palavras para responder àquela emoção. Deixou-se perder nas sensações que já lhe eram familiares nos braços outra mulher. As duas dançaram a música dos amantes em seu passo mais voraz até caírem de volta no leito, exaustas e satisfeitas como apenas conseguiam sentir-se com aquele ato:

"Ainda que não houvesse o Cristal acho que já não poderia recusar teu convite, Kanan. " Disse Mari, os fios dourados de seus cabelos jogados sobre seu rosto e ombros. "Que os deuses queiram que o item mágico surja antes que minha fortuna chegue ao fim e isso possa me levar de volta à América em glória. "

"Não sei dizer que prefiro que teu ouro se acabe para que jamais possa fugir de mim ou se me torno tua cúmplice neste crime e em ti confio para ir mesmo aos reinos do outro lado do mundo. " Disse Kanan, cujos longos cabelos azuis repousavam soltos sobre si e sobre os lençóis úmidos de seus suores.

De fato partiram para a Capital onde Mari se apresentou apenas como uma 'herdeira de fortuna do Ocidente'. Kanan era chefe da guarda, então tinha que zelar pela reputação. Isso em nada impediu que dormissem na mesma cama todas as noites, mas fez com que a estrangeira tivesse um cuidado especial para que sua natureza mágica passasse despercebida pelas outras cavaleiras arcanas.

A primavera tornou-se outono enquanto Mari e toda a nobreza de Numazu aguardava por notícias da expedição das irmãs Kurosawa. A feiticeira acompanhava tudo com fingido desinteresse, também tratando de manter-se à parte de outros casos nos quais a elite mágica estava envolvida. Tendo a opinião e informações privilegiadas de Kanan ela viu com divertimento a partida da cavaleira Watanabe, rumo ao Oeste. Talvez fosse um caso interessante de assistir enquanto não se sabia nada do paradeiro do. . .

"Kanan? O que houve? " Perguntou Mari em certa manhã. Tomavam café à mesa da sala de jantar da casa da maga. Esta tinha em mãos suas novas correspondências.

"As Kurosawa. . . " Balbuciou a cavaleira, atônita. "Elas conseguiram. . ."

Mari ergueu-se de imediato, em choque: "Oh my God. . ." Kanan lhe encarou e gesticulou positivamente com a cabeça, também de boca aberta.

"Sim. O Cristal de Raburaibu está a caminho da Capital. "