Capítulo 10
Com a ajuda de Mari, Riko havia começado uma promissora carreira de pianista. Após a separação do grupo ela passou a se sustentar com o pagamento dos concertos que fazia. Seu nome foi se espalhando pelo reino e então, veio um convite para tocar na festa de aniversário do Rei.
O mês era março e aquela fora a primeira noite agradável daquela primavera. Riko chegara em Uchiura na tarde do dia anterior e se dividida entre o nervosismo e ansiedade pela apresentação. Uma parte de si revivia o trauma da perda dos pais. Ela repetia sem parar para si mesma que ninguém ali sabia sobre seus poderes, que ali não era Akiba e jamais haveria um julgamento imediato e bárbaro como aquele fora. Repetia e repetia, encarando seu próprio rosto pálido no espelho. Apesar disso só conseguia se sentir cada vez mais nervosa.
Duas batidas secas à porta do quarto lhe trouxeram de volta à realidade. Percebendo-se com a garganta incrivelmente seca ela engoliu saliva e pigarrerou, para então responder:
"Por favor. " Disse, à guisa de permissão. A maçaneta de latão girou sobre si mesma e a passagem se abriu um pouco. Uma figura feminina surgiu à entrada.
"Ah, Senhorita Sakurauchi. " Disse a mulher de cabelos ruivo-alaranjados. Ela vestia um uniforme elegante, parecido com o da guarda-real, mas em tons que Riko não reconhecia. "Perdoe-me a intromissão. Disseram que a senhorita gostaria de conhecer o auditório antes da apresentação desta noite. "
"Sim, seria ótimo. " Afirmou Riko, levantando e alisando as camadas leves de seu vestido salmão. Apertou as mãos com um pouco mais de força do que precisaria, para conter o tremor.
A outra mulher deu um passo para dentro do aposento, incerta, e logo pareceu sentir-se vexada:
"Ora, que cabeça a minha. Entrando antes de sequer apresentar-me. " Disse ela, ruborizando. Riko achou aquilo bastante meigo da parte da outra. "Meu nome é Takami Chika, sou terceira oficial do corpo de magos arcanos da coroa de Numazu. "
Uma maga arcana. . . O estômago de Riko revirou e sua respiração travou no peito. Se existia algum tipo de pessoa mais perigosa do que outras para sua condição esses eram os magos arcanos. Sempre ouvira falar que eles eram quase inexistentes em Numazu. Parecia que o azar havia colocado justamente aquela jovem mulher no seu caminho:
"Está tudo bem, Senhorita Sakurauchi? " Questionou a oficial Takami, fintando a outra, interrogativa.
"S-Sim, está sim. " Mentiu Riko. "É apenas a ansiedade pela apresentação que me inquieta. Mal pude dormir na última noite. "
Riko aceitou o apoio solícito que Chika lhe ofereceu, quando saíram do quarto. A cavaleira-maga fechou a porta com delicadeza antes de seguirem pelo corredor:
"Não te deixes ir pelo anseio, senhorita. " Disse ela, com um sorriso franco. "Tua fama ao piano é corrente e certamente não é desmotivada. Sei que será um momento de grande júbilo, tua apresentação. "
As duas saíram da elegante pousada e caminharam a pé. O teatro onde se daria o recital ficavam a pouco mais de uma centena de metros dali. Riko não insistiu na conversa sobre seu nervosismo. Limitou-se a observar a vida tranquila daquele pedaço de cidade, guiando-se pela prestativa maga:
"É a primeira vez que vens à nossa capital, imagino por teu modo de olhar. " Comentou Chika.
"Oh, sim. Sou natural de um reino bastante distante e pouco sei sobre Numazu e sua gente. " Disse Riko, polida.
"Se tua agenda permitir lhe diria que deves fazer uma visita a cidade da encosta. Fica a um dia de viagem apenas. O maior porto de Numazu está lá. É um espetáculo único de se ver. " Recomendou Takami, gesticulando como se visse diante de si a grandiosidade dos navios transatlânticos.
"Poderias me guiar até lá, Oficial Takami? " Viu-se perguntando Riko, antes que pudesse realmente pensar. Sua intuição lhe dizia para confiar naquela cavaleira, mesmo que aquilo fosse um contrassenso lógico. Porém, como bruxa, ela sabia bem que não podia ignorar o que seus instintos lhe apontavam.
"Ora, claro. " Respondeu Chika, surpresa com aquele convite. "Seria uma imensa alegria, Senhorita Sakurauchi. "
As duas chegaram ao teatro e Chika nem precisou dizer nada para que a entrada fosse liberada a elas. Cumprimentou o cuidador da portaria com um gesto de cabeça. Riko prendeu a respiração quando chegaram ao espaço interno. Estavam no alto das fileiras da plateia, o palco à frente. Takami percebeu seu assombro e deixou que observasse o lugar antes de irem até o palco. O chão, forrado com um belíssimo tapete aveludado não produzia som aos seus passos. Tudo parecia mergulhado em uma atmosfera de respeito e admiração, mesmo que não houvesse mais ninguém ali além delas. Riko nem percebeu que se soltara da condução da cavaleira, de tão absorta nos detalhes. Quando percebeu estava no palco, tocando as teclas cobertas do piano de calda. Olhou ao redor, perdida, e viu a maga arcana lhe encarando com um sorriso enorme no rosto:
"Incrível, não? Apesar de vir aqui poucas vezes, sempre acho este teatro uma das coisas mais belas construídas em Numazu. " Comentou.
Riko hesitou por um momento, mas então sentou-se diante do instrumento familiar. Seu coração batia em descompasso diante do pensamento de que realmente iria se apresentar ali. Suas mãos tocaram o tampo de madeira, mas não tiveram coragem para libertar as teclas de seu confinamento:
"Não quer tocar algo? " Perguntou Chika, chegando até o lado do piano, observando a estrutura misteriosa de cordas que haviam ali.
"Não seria um problema? " Questionou a musicista de volta, fintando a outra com ansiedade.
"Claro que não. Você irá se apresentar aqui dentro de algumas horas. É natural que queira verificar tudo antes. " Disse Takami, o sorriso persistente como poucas coisas que Riko havia visto na vida.
Então tocou. Uma melodia alegre voo pelo ar, colidindo com poltronas vazias, paredes e o teto, todos construídos com o intuito de levar o belo som diante, sem conflitos. Ainda que não usasse seus poderes, Riko podia sentir a vibração das notas com seus sentidos aguçados. Sentiu as vibrações contra o rosto de Chika, e mesmo de olhos fechados admirou a beleza sincera da expressão de contentamento evidente que a cavaleira-maga tinha. Quando terminou sentiu uma onda de alivio imenso nos dedos, mãos, braços e pulmões:
"Bravo! Bravo! "Exclamou Chika, exultante. Ela batia palmas como uma criança, cheia de uma felicidade sem medida que Riko jamais vira em alguém. Por um mínimo instante sentiu-se hipnotizada pela força daquela emoção pura.
"És lisonjeira, Cavaleira Takami. Apenas toquei simplórios acordes de improviso. " Disse Riko, sorrindo. Para sua nova surpresa, Chika pareceu quase ofendida com aquelas palavras.
"Não seja humilde, Senhorita Sakurauchi! Sua técnica é fantástica! Certamente se eu entendesse algo sobre música poderia me expressar de maneira mais elaborada. Mas sou uma maga ignorante, então perdoe-me por apenas reverenciá-la! " E dito isto, Chika realmente se curvou em reverência exagerada.
Riko não conseguiu conter uma risada àquelas palavras. Chika lhe encarou, surpresa, e então também riu. A ansiedade pelo concerto desapareceu por completo.
A apresentação foi um sucesso. Riko escolhera peças famosas, intercalando-as com composições próprias, sempre seguindo a temática das estações do ano. Mesmo sem usar feitiçaria ela jurou poder sentir o frio do inverno ou os ventos secos do outono quando tocou uma das mais conhecidas peças sobre o ciclo do ano. Foi ovacionada pelo público e pelo próprio Rei, do seu camarote exclusivo.
De algum modo seus olhos puderam encontrar Takami em meio à nobreza. Sua expressão, apesar de um pouco mais contida, tinha a mesma nota de admiração pura que vira antes. Seu coração vacilou, em alegria. Riko pressentiu como nunca antes, que o rumo de sua vida estava para mudar outra vez.
Dali dois dias Riko foi na garupa do cavalo crioulo de Takami rumo à cidade portuária. Passaram lá quatro dias inteiros, onde Riko conseguiu esquecer-se por completo do medo por ser uma feiticeira e do perigo que era estar cada vez mais próxima de uma maga arcana.
"Senhorita Sakurauchi. " Chamou Takami. Era fim de tarde e elas caminhavam ao lado da mureta que cercava a parte rochosa do litoral. O céu laranja estava acima delas e, logo à frente e abaixo, o oceano.
"Por favor, já disse que podes chamar-me apenas pelo nome, Cavaleira Takami. " Disse a ruiva, parando a caminhada e virando-se para encarar a outra.
"Diz isto, mas também me trata à moda formal, Senhorita. " Observou a maga. Riko ajeitou uma das mechas do cabelo, passando-a por detrás da orelha.
"Você está certa. " Admitiu Riko. "Portanto. . . O que ias dizer, Chika? "
A reação da outra ao ouvir o próprio nome foi de rubor evidente. Virou o rosto, mas suas orelhas estavam igualmente vermelhas:
"Bom, Riko. . . " Recomeçou a maga, apertando os punhos dentro dos bolsos do uniforme. "Na verdade. . . Bom. . . "
Riko deu um suspiro de divertimento. Tão pouco tempo e já era capaz de ler com perfeição os modos de agir da outra:
"Irias me perguntar sobre minha próxima destinação, não é isto? " Arriscou a dizer. A precisão do seu chute ficou evidente na expressão surpresa da outra.
"B-Bom, imagino que tenha uma agenda de shows já bastante extensa. Teu nome é de conhecimento de tantos apreciadores de música. " Argumentou Chika.
"É verdade que convites diversos já havia recebido antes mesmo de virmos para esta cidade. " Disse Riko. "Também é de se imaginar que outros tantos convites já estejam a me aguardar na volta. "
"Certamente. " Concordou Chika, com desapontamento no tom e no semblante.
"Porém não tenho certeza sobre o aceite de tais convites. " Seguiu Riko, fintando a expressão que não cansava de se transformar da maga arcana.
"O que dizes, Riko? Qual o motivo poderia haver para que não aceitasse convites generosos de grandes duques e condes para apresentações? " Questionou Takami, sem fôlego.
Riko não sabia fazer tantos rodeios quanto a outra mulher. Suspirou e foi até a mureta, recostando-se sobre ela para observar o pôr-do-sol:
"Né, Chika, " começou a pianista, " sinto que foges do que originalmente queria falar-me. " Disse. Chika foi até seu lado, fitando-lhe com certo receio.
"Não, eu. . . " Tentou emendar Chika, sem encontrar fio. "Ora. . . Isto. . . Isto era apenas. . . Uma bobagem, uma bobagem qualquer. " Gaguejou.
"Quero ouvir. "
Chika engoliu a saliva. Fechou e apertou os olhos com força:
"Eu. . . Por um momento fui uma tola. Riko, eu. . . Ia lhe perguntar se, se, se. . . Se não tivesse outros planos para quando retornássemos à Uchiura, se não gostaria de hospedar-se em minha casa. " Enfim disse a cavaleira, como se jogasse para fora de si um peso enorme. "Claro, que ideia tola a minha. Foi só uma dessas bobagens que se passam quando menos esperamos. . . "
"Adoraria. " Disse Riko, com simplicidade. Chika pareceu que iria cair sobre as próprias pernas ao ouvir aquilo. Tentou encadear palavras, mas sua voz foi apenas um murmúrio de coisa alguma. Riko sentiu o calor sobre o próprio rosto, mas não vacilou o sorriso e complementou sua fala.
"Ainda que não coloque em palavras, eu pude ver em teus olhos, todo este tempo, o que realmente queria dizer, Cavaleira. " Falou. "Os sentimentos que brilham no teu olhar me alcançaram muito antes de ter tido coragem para vexar-se em palavras do modo mais puro que eu jamais vi na vida. "
"Riko, eu. . . " Tentou dizer a maga arcana sem conseguir vencer a barreira que se configurava na vermelhidão do seu pescoço e orelhas.
"Eu penso que tenho amor por ti, Chika. "
Quando voltou para Uchiura, Sakurauchi Riko retirou seus pertences da hospedaria luxuosa oferecida sem custos pelo governo e foi para a casa de Takami Chika. Ainda que a cavaleira tenha mandado a criada arrumar o quarto de hospedes com o maior conforto possível, Riko não passou sequer a primeira noite ali.
Depois de alguns meses, o quarto foi desmontado e transformado em uma sala de música. Um piano de calda foi comprado e algumas estantes com livros que a dona da casa jamais ouvira falar passaram a preencher as prateleiras.
Riko se habituou àquela vida sem dificuldade. Chika ganhava o bastante para manter uma casa bastante confortável e três criados. Sua nova rotina se limitava a tocar, ler e visitar cafeterias que costumavam a ser ponto de encontro de pessoas de todos os tipos. Sendo um tanto apegada ao conhecimento letrado, gastava boa parte de suas tardes debatendo assuntos como política e filosofia com pessoas novas e conhecidas.
Não era raro que Riko retornasse para casa ao final da tarde um pouco depois de Chika ter retornado. Foi assim que ela conheceu as duas amigas e companheiras de batalhão, Matsuura e Watanabe. Duas belas figuras, mas que também tinham o talento de lembrar a Riko que não podia descuidar-se no seu disfarce de pessoa comum. Ainda que eventualmente Watanabe tenha partido para alguma missão a qual nem Chika tinha detalhes (as amigas brigaram na época da partida da outra, justamente por essa falta de esclarecimento), a presença sempre simpática de Matsuura era o bastante para deixar Riko em alerta. Das três magas, Kanan era certamente a de senso mais apurado.
Iria ser pega, mais cedo ou mais tarde, era o que pensava Riko. Ainda que não realizasse mais nenhum ritual para a lua há quase um ano, ela poderia bobear em um momento de relaxamento e colocar tudo a perder. Talvez Chika não percebesse, mas Matsuura notaria. Era certo de que a líder das magas arcanas de Uchiura delataria para os juízes locais sobre existência de uma bruxa bem debaixo dos seus narizes.
Só que calhou um dia, após um período de afastamento de Matsuura (Watanabe não mandava notícias há meses), de Kanan vir visitar a casa de Chika em um dia de folga. Ela não veio sozinha:
"M-Mari? " Foi a indagação estupefata óbvia que Riko deixou escapar.
"Oh, se não é você. . . Sakurauchi Riko. " Disse a loira, passando seus olhos de Riko para Chika e de volta para Riko.
"Vocês se conhecem? " Perguntou Kanan, animada.
"Ah. . . " E agora? Será que Kanan também não sabia da natureza mágica de Mari? Seria realmente possível algo assim? Mas se soubesse. . . Se soubesse então em menos de dois pares de frases Chika iria descobrir também, então tudo estaria terminado.
"Claro que sim! Eu fui uma das primeiras pessoas a pagar por um concerto da pianista Sakurauchi neste reino! " Afirmou Mari.
"Que coincidência ótima esta. " Disse Chika.
"Sim, a vida é feita de coincidências fabulosas, não é mesmo Riko-chan? " Perguntou Mari, dando uma piscadela imperceptível para a ruiva. Riko quase soltou um suspiro ruidoso de alívio.
"De fato! " Exclamou, com mais entusiasmo do que o normal.
Por algum milagre do Cosmos sua vida de esposa comum permaneceu intacta. Mari logo lhe contou que Kanan sabia de tudo sobre a magia da estrangeira e que não se importava, então isto diminuiu um pouco o grau de tensão na vida cotidiana da pianista.
Quase de imediato chegou também a notícia sobre o Cristal de Raburaibu. Aquilo mexeu com o senso de proteção de Riko. Lembrou-se do desejo de restaurar seu núcleo mágico. Ao mesmo tempo pensou no conforto e alegria que tinha agora e decidiu silenciosamente em não se envolver com aquela questão. Não perder Chika era sua prioridade atualmente.
Mas fato foi que aquela onda de coincidências não deixou de causar-lhe espanto. Tudo convergia para aquela cidade como se um imã do destino estivesse atuando para puxar os elementos da vida da pianista para um mesmo lugar.
Para completar o círculo de fatos estranhamente alinhados só faltaria uma aparição do Anjo Caído. Mas isso era impossível, Yocchan jamais se aproximaria de uma capital cheia de gente. Ainda que desejasse o Cristal como todas do Guilty Kiss, sozinha ela não teria como chegar tão perto. Talvez estivesse pelos campos, esperando a chance de avançar sobre o objeto desejado antes que entrasse no perímetro urbano:
"Riko-chan! " Chamou Chika, adentrando a sala de música no meio de uma tarde qualquer de outono. Apenas por seu rosto Riko pode perceber que estava alterada, cheia de raiva. "Você não vai acreditar! "
Riko teve um mal pressentimento. O pior dos pressentimentos. Chika continuou falando:
"A You-chan voltou! Voltou finalmente! Eu estava tão feliz! " Disse a cavaleira, andando para cima e para baixo. "Mas, eu mal posso acreditar no que meus olhos viram hoje, Riko-chan! Ela trouxe consigo o próprio Anjo Caído! "
"Pior do que isso! Ela parece estar aliada àquela criatura abominável! A Kanan nem tentou fazer nada a respeito! Parece que o mundo enlouqueceu! "
Sim, nisso Riko concordou totalmente. O mundo havia enlouquecido.
