Capítulo 12
Dentre tardes perdidas em leituras frívolas e noites bem mais pacíficas do que já experimentara, Yohane vinha tendo um período de bastante tranquilidade na residência de You. A necessidade de discrição por parte do transporte do Cristal de Raburaibu para a Capital fizera com que a dupla chegasse na cidade com bastante adiantamento, o que a feiticeira imortal não tinha percebido até ser tarde demais. Não reclamava realmente, afinal vinha tirando proveito o bastante do tempo.
A maga Watababe também vinha gastando seus dias de maneira bastante ordinária, entre a limpeza do seu terreno das ervas daninhas, o cuidado com os cavalos adquiridos na volta, idas eventuais à feira para comprar alimentos variados (e muitos derivados de carnes que Yohane fazia o seu melhor para não demonstrar total nojo ao ver). Por algum motivo que a bruxa tentava não pensar a respeito era inegável a felicidade quase exagerada por parte da sua anfitriã.
Na tarde do sétimo dia de estadia Yohane ouviu um bater de palmas estridente vindo do lado de fora. Se alarmou e olhou para os lados. You estava fora, caçando algum animal na floresta para fazer mais um de seus assados grotescos, porém a janela do andar superior estava aberta e a ladeira queimava, pois Yohane vinha cozinhando uma mistura específica de ervas para usar na próxima lua. As palmas se repetiram. Yohane largou o livro no acento da poltrona e levantou, sorrateira, indo até atrás da porta de entrada. Seu coração respondia com batidas fortes à sensação de perigo que sentia. Ela fechou os olhos.
Sua alma privilegiada então entrou em ação. Yohane sentiu sua consciência expandir até ser capaz de realmente começar a ver do lado de fora sem que fosse necessário que se movesse fisicamente. Era um garoto, montado em um cavalo três vezes maior que ele. Tinha uma bolsa pendurada ao lado, e um envelope nas mãos. Só isso?
"O que desejas, garoto? " Questionou Yohane, tomando coragem e saindo para a frente da casa. O rapaz, de cabelos castanhos e sardas pelo rosto arredondado pareceu ficar muito surpreso com a visão da mulher.
"Ah, e-eu trazia um recado para a Cavaleira Watanabe. . . Está é a casa dela ainda, não é? " Perguntou ele, a voz de criança ainda evidente.
"Evidente. " Respondeu Yohane. "Sou sua convidada. Creio que pode deixar o recado comigo que eu entrego a ela. "
O rapaz pareceu indeciso e aquilo fez borbulhar uma pequena nota de irritação dentro da mulher-demônio. Talvez não fizesse muito mal se livrar daquela criatura insignificante que estava atrapalhando o andamento normal do seu dia. . .
"Oh, Koji-kun! "
Essa era a voz cheia de alegria de You, que se aproximava pela estrada, montada na égua negra que outrora fora a montaria de Yohane. Ela trazia dois cadáveres de coelho pendurados em uma corda, ao lado do corpo antes limpo da égua:
"Cavaleira Watanabe! " A maneira de falar do rapaz chamado Koji foi tão cheia de admiração que Yohane se perguntou por um momento se ele iria se atirar ao solo para que You pudesse desmontar sem colocar suas sagradas botas embarradas no chão. "T-Tenho um recado para você! É da Oficial Matsuura. "
"Muito obrigada, Koji-kun. Você é sempre muito prestativo. " Agradeceu You, ainda em cima da égua, alcançando o envelope esverdeado que o rapaz lhe estendeu. Ela então levou a mão ao bolso da calça. "Oh, espere um momento que irei lhe retribuir pela gentileza de trazer o recado. "
"Não é preciso, Cavaleira Watanabe. A Oficial Matsuura já foi mais do que generosa quando solicitou este pequeno favor. " Dispensou o rapaz, já colocando sua montaria a caminhar de volta para a estrada principal. "Tenha um ótimo dia, Cavaleira Watanabe! "
"Em breve irei perder a conta da quantidade de admiradores que você tem, Watanabe-da-Legião-de-Apaixonados. " Ironizou Yohane, observando You desmontar e levar a égua para o pequeno estábulo ao lado da casa. A maga arcana riu francamente daquilo.
"Você é tão ruim nisso que não sei se está praticando ciúmes ou sarcasmo, Minha Yohane. " Disse You, com um sorriso de orelha a orelha.
'Minha' era um pronome possessivo que You vinha se habituado a usar bastante desde que as duas tinham chegado naquele ponto de sua. . . Cooperação? A Anjo Caído se perguntava se aquilo de alguma forma trazia alguma satisfação ilusória à maga, pensar que realmente tinha algum tipo de posse sobre uma criatura muito superior a si mesma. Estranharia mais se não tivesse já visto comportamentos semelhantes na saga de livros que vinha ocupando sua cabeça anestesiada pelo conforto daquela semana.
As duas entraram de volta na casa (Yohane fazendo questão de deixar a outra e sua dupla de cadáveres à alguns passos de si) e, depois de largar a caça sobre a mesa da cozinha, foram se sentar às poltronas. You abriu o envelope e leu a mensagem:
"Kanan-chan está nos convidando para tomar um chá da tarde em sua casa, hoje mesmo se possível. " Contou Watanabe, fintando a letra bem desenhada da amiga mais uma vez. "Ela quer falar comigo em particular, mas disse que recebeu uma solicitação especial para que você me acompanhasse. "
"O que isso pode querer dizer? " Questionou Yohane, franzindo a testa.
"Hm. . . Aqui diz – P.S.: Se a Anjo Caído insistir em não vir, diga o nome de Ohara Mari e tudo estará resolvido - " leu You. "Como assim? Quem é essa Ohara? "
Yohane explodiu em uma gargalhada gutural, assustando a outra. Riu tanto que chegou a ficar com os olhos molhados de lágrimas:
"Mas que belo chá da tarde será este! " Declarou a feiticeira.
Quatro horas mais tarde as duas parceiras estavam adentrando ao paço de Uchiura dividindo a mesma montaria. O cavalo castanho tinha ares robustos e parecia refletir perfeitamente a alma da mulher que o conduzia, You. Yohane sentia-se menos desconfortável do que seria há algumas semanas, mas ainda assim não deixava de ter espasmos de preocupação toda vez que alguém dirigia um olhar mais longo do que um segundo na direção do seu capuz roxo.
A cidade em si era um local bastante interessante, foi a primeira coisa que conseguiu concluir a Anjo Caído. O chão de ladrilhos fazia os cascos dos cavalos e das pessoas ressoarem de maneira mais estridente do que era o habitual. O volume de gente indo e vindo com seus animais e crianças também ajudava a dar a toda a cena um ar de caos quase descontrolado. Algo quase hipnótico para quem vivia desde sempre o mais distante o possível de qualquer ser mortal.
Claro que a ideia de fuga mais uma vez passou pela mente de Yohane, mas sentir o cheiro do cabelo lavado de You assim tão perto do nariz já foi o bastante para que ela, ao invés de tomar qualquer atitude drástica, apenas apertasse de leve o abraço ao redor da cintura da cavaleira. Devia estar perdendo seu senso de sobrevivência graças àquelas experiências adocicadas.
O passeio pelas vias da cidade não foi muito longo. Logo You parou o cavalo diante de um sobrado de fachada clara e estrutura imponente. Uma herança da família Matsuura, segundo a maga. Ela então desceu do cavalo e ofereceu a mão para apoiar Yohane. Uma vez no solo You tratou de prender o cavalo em um estacionamento público, no meio da via, onde havia apenas mais outro cavalo. Yohane se adiantou e puxou a corda do sinete à entrada.
Foi Matsuura Kanan quem surgiu à entrada depois de alguns minutos. Ela tinha um sorriso simpático para Yohane, como da outra vez:
"Que bom vê-las. Por favor, entrem. " Disse, dando passagem. You olhou de lado para a Anjo Caído e deu o primeiro passo. Uma vez dentro estavam no hall de entrada da bela casa e Kanan chegou a porta.
"Ah! Yohane-chaann~ " guinchou uma voz afetada e cheia de sotaque que a feiticeira já esperava ouvir a qualquer momento. Ela se virou com entusiasmo na direção do som.
"Mari! Mari! " Respondeu. As duas mulheres foram de encontro uma à outra, apertando-se em um abraço de grande companheirismo. Se soltaram e então trocaram gestos com as mãos que não faziam qualquer sentido para alguém que não elas mesmas. Depois riram. Riram como maníacas.
"Parece que parte das apresentações são desnecessárias. " Comentou Kanan, observando a cena com divertimento.
"Que vento diabólico te carregou para este lugar terrível, Mari? " Quis saber Yohane, com grande entusiasmo.
"Oh, My Lady Yohane, os ventos do Destino são tão fortes quanto inexplicáveis! " Disse Mari, que vestia uma peça cinza e preta, cheia de babados, além de um pequeno chapéu. "Veja se não foram os caminhos tortos da paixão que me deram uma visão privilegiada da vinda do Cristal de Raburaibu para esta cidade! "
Riram de novo. Eram como gralhas histéricas, aos olhos chocados de You:
"Oh, ventos misteriosos certamente, minha fiel companheira de bruxaria. Sinto como se estes ventos pudessem varrer toda a sanidade do Universo de uma só vez! " Comentou A Anjo Caído. Mari riu, colocando a mão na frente da boca. Seus olhos foram para a cavaleira de cabelos prateados neste momento.
"Não posso dizer que é surpreendente que me logo tu me diga isto, Yohane Goddess. " Silvou a loira. "Teves o azar de ser alvo de uma das mais belas dos espécimes dessa raça mortal a qual tua serva também faz parte. Um privilégio! "
You corou ao ouvir tão estranho elogio. Kanan pareceu também se desconsertar, apenas de achar bastante graça:
"Ora, ora. Modere com a língua quando fala do meu Pequeno Demônio, Mari. Ou terei que arrancar-lhe olhos e língua para que aprendas teu lugar. " Ameaçou Yohane, entre risadas. Porém seus olhos afinados não deixaram dúvida da seriedade do comentário. A maldita sabia muito bem demonstrar possessividade!
Kanan tossiu propositalmente:
"Acho que podemos continuar tão animada conversa enquanto apreciamos chá e alguns biscoitos. Por favor, senhoritas. " Disse, tomando a frente e indicando a passagem para o segundo andar da casa.
A sala de estar era graciosa, com poltronas forradas com estampas claras e mesinhas com tampos de cristal onde estavam delicadas xícaras de porcelana e bules devidamente aquecidos. Kanan ajeitou lugar para que Mari sentasse e You apressou-se em fazer o mesmo. Yohane lhe fintou com certo deboche, mas aceitou a oferta. A Capitã então bateu as palmas das mãos sem força:
"Por favor, senhoritas, aproveitem o chá enquanto eu trato de alguns assuntos oficiais com minha colega de batalhão em meu escritório. " Disse a anfitriã, com um sorriso gentil.
"Oh, Kanan, espero que não queira tramar algo por minhas costas depois de tudo o que fizemos. " Disse Mari, fazendo ares de ofendida.
"Quanto a isso não é preciso preocupação, Minha Irmã. " Tomou a Anjo Caído. "Meu Pequeno Demônio fez um pacto de lealdade eterna comigo, então qualquer tentativa de trapaça resultará em sua morte imediata. " Explicou.
"Mesmo sem o pacto não haveria motivo para preocupação, senhoritas. " Falou Kanan, passando na frente de You que abrira a boca. "Somos todas aliadas sob este teto. Tenham tranquilidade e apreciem o chá. "
You acompanhou Kanan até o escritório, que ficava do outro lado do sobrado, no piso inferior. Mesmo sem que lhe fosse pedido ela trancou a porta ao entrar e não sentou na poltrona diante da mesa da Capitã até que essa lhe permitisse explicitamente:
"Parece que as coisas estão indo bem entre você e Yohane. " Disse Kanan, abrindo uma gaveta, puxando alguns papéis e colocando-os sobre a mesa.
"De fato. Tenho vivido um privilégio que acreditava antes só ser possível alcançar em meus sonhos tolos. " Admitiu You, relaxando minimamente a postura. "Sinto como se cada momento de procura tivesse valido a pena. "
Kanan sorriu, mas logo sua expressão endureceu:
"Sabe que as coisas não estarão boas por muito tempo. " Falou. "A Juíza Kurosawa chega em cinco dias e com ela o Cristal de Raburaibu. "
"Yohane demonstra um interesse sórdido no Cristal. Sinto que pode ser um problema a mais que eu não esperava lidar. " Disse Watanabe, apertando as mãos nas alças da poltrona.
"É por causa do Cristal que queria falar-te, You. " Tomou Kanan. "Tem algo que preciso te contar sobre mim e sobre Mari. Algo que só contarei a ti por saber que posso confiar em ti. Confiar tanto quanto tu já confiaste em mim para falar sobre Yohane e tudo o que aconteceu antes. "
You endireitou a postura. Ela tentava decifrar algo nos olhos da amiga e companheira de batalhas:
"Confie. Sabes que eu daria a vida para ajudá-la se preciso. "
Kanan suspirou. Não gostava de pensar no quão literal aquelas palavras poderiam se tornar em pouco tempo:
"Eu e Mari iremos roubar o Cristal de Raburaibu. "
You ergueu as sobrancelhas diante daquela revelação. As palavras lhe faltaram:
"Na verdade Mari é que deseja o Cristal. Ela irá com ele de volta para sua terra, do outro lado do Oceano. " Explicou Matsuura. "Irei ajuda-la e ser sua cúmplice pois o diabo da paixão me faz pensar que morreria se a deixasse partir sem mim. "
A cavaleira de cabelos encaracolados engoliu a saliva e baixou os olhos:
"Estive a pensar, You. " Continuou a mulher de cabelo azul. "Talvez seja uma solução para ti e para Yohane também. Ir embora para o outro lado do mundo. Lá não haverá a mesma perseguição. Veja a família Ohara, tão poderosos e respeitados, uma família de bruxos! "
Watanabe pensava, pensava. . . Não parecia conseguir formar um pensamento completo para responder àquela avalanche.
"You, você nunca vai conseguir comprovar a inocência dela. Não importa o que diga, ou toda a coerência dos fatos que apresentar. Você sabe disso. "
You se ergueu de súbito, sem aviso. Foi para trás da poltrona, no amplo espaço aberto no meio do escritório e começou a andar para cima e para baixo, sem pausa. Tinha o rosto contraído, olhava para o chão:
"Eu sei que ela é inocente. " Disse. "Não posso estar em paz enquanto eles não compreenderem este fato simples. "
"You. . ."
A maga parou o andar frenético e olhou para a amiga. Seus olhos tinham um brilho quase selvagem:
"Irei te ajudar em tudo o que precisar, Kanan. " Falou. "Se jurar também ajudar-me a esclarecer toda a verdade sobre ela. "
A mulher mais alta se levantou e sua sombra alcançou os pés da outra guerreira arcana:
"Não me peças para jurar o que já há muito sei que será meu destino como tua amiga de uma vida, Watanabe You. "
