Capítulo 13

Não tardou que uma notícia e um convite oficial fossem entregues pelo garoto Koji na casa de campo de Watanabe You. Antes disso, por ainda estar em sua licença não-oficial, a maga arcana teve um dia inteiro para refletir sobre a conversa com Kanan. Os termos eram claros, mas o peso das promessas mútuas entre as amigas de infância descia como gelo pelo esôfago de You todas as vezes que as palavras lhe voltavam à memória. Sentia-se à beira do abismo como em nenhum momento antes nessa sua jornada insana.

Já Yohane retornou cheia de ânimo para casa, ao final daquela tarde. Pareceu extremamente satisfeita depois de gastar horas conversando, as gaitadas e guinchos de diversão macabra, com uma de suas únicas amizades no mundo. Aquilo fora inesperado, mas satisfatório. Descobriu que a Anjo Caído podia sim sentir algo como alegria por conta própria. Talvez parecesse pouco, mas para You aquele detalhe era tudo. Era mais uma prova de que a humanidade na alma de Yohane era própria e real.

Voltando às duas cartas trazidas pelo garoto ofegante de emoção por reencontrar seu grande amor platônico, You abriu e leu primeiro o bilhete que trazia o emblema da coroa no envelope, sentada à poltrona mais próxima à janela. Sem qualquer disfarce Yohane colocou-se às costas da poltrona para ler o conteúdo por cima da cabeça da maga:

"Eles vão fazer um baile oficial! São mesmo uns pomposos. " Riu-se a feiticeira.

"É uma grande ocasião, afinal. " Comentou You, abrindo o outro envelope, com a escuderia da divisão de magia arcana.

"Uma convocação? "

"Eles querem que todas nós estejamos presentes na cerimônia de apresentação do Cristal. " Atalhou a mulher de cabelos curtos. "A Kanan não tem escolha senão me convocar de volta ao trabalho. "

"Hm. . ." Yohane então deslizou para o lado da poltrona e dali para o colo da mortal, surpreendendo-a. "Então irei vê-la no baile. "

You levou dois segundos para ler melhor a expressão felina da Anjo Caído:

"Estás me dizendo que vais ao baile, minha Yohane? " Indagou, erguendo as sobrancelhas.

"Evidente. " Sorriu Yohane, encarando a outra nos olhos. "É um momento ideal para dar uma olhadinha no Cristal pessoalmente. "

You não gostava daquela atitude. Não por ser evidentemente maliciosa, maligna mesmo, mas pela pouca vontade que a outra tinha em esconder que tinha outras intenções:

"E pretende apenas olhar o Cristal? " Perguntou a maga, sem conseguir refrear-se.

"Claro. Apesar de ser tão valioso o Cristal não é algo que me interessa muito. " Falou a mulher-demônio. You sabia que aquilo era mentira.

"Ainda assim não vejo sensatez nesta escolha, Grandiosa Yohane. " Insistiu You. "Poderá ser identificada. Haverá tumulto e irão os magos todos contra ti. "

"Nem todos, suponho. " Corrigiu a Anjo Caído, deixando as pontas dos dedos da mão passearem pelo rosto da amante. "A Mari confia plenamente na Capitã Matsuura, então creio que seja um outro nome que possa descartar desta perseguição que estás supondo. "

"Ainda assim haverão muitos soldados. Correrás perigo imenso indo até lá. "

"Teu cuidado é excessivo, mas posso imaginar que seja uma reação natural da tua parte, meu Pequeno Demônio. " Disse a feiticeira, enquanto brincava com uma mecha da franja de You. "Não há o que temer, pois estarei encoberta por uma maldição de discrição. Ninguém naquele baile que já não saiba de minha presença poderá sabe-lo. "

Watanabe não voltou a argumentar. Estava caindo na distração da outra e também chegava à sua compreensão de que nada poderia mudar a resolução de Yohane sobre o assunto:

"Que seja. " Suspirou a cavaleira. "Se algo der errado ao menos estarei lá para colocar-me entre tu e os outros, para que possa sair como uma nuvem negra pelos céus. "

O salão de festas do castelo de Uchiura estava cheio de luz na noite do baile oficial de apresentação do Cristal de Raburaibu. Uma banda de uma dúzia de instrumentistas lançava notas suaves ao salão repleto de convidados. Toda a nobreza local e das vizinhanças havia vindo ver a grande conquista do Reino de Numazu, portanto o salão estava cheio de cores e risos. Garçons passavam para cima e para baixo, servindo os copos de espumante das nobres damas e senhores entretidos em conversas frívolas. Havia um clima de conquista elegante no ar e aquilo revirava o estômago de Yohane.

A feiticeira imortal vestia uma peça de uma cor vermelha profunda, quase negra, de apenas uma alça. Seu cabelo muito preto estava preso no alto da cabeça, roçando com as pontas os seus ombros quase nus. Não era de maquiagem, mas ainda assim sua expressão se destacava em meio à multidão de pomposos cheios de pó de arroz sobre o nariz. Era uma das figuras mais belas, só um pesar que apenas quatro pessoas no salão todo pudessem vislumbrar sua imagem deslizante:

"Você está bem, You-chan? " Perguntou Chika. As três magas arcanas estavam posicionadas alinhadas, do lado esquerdo do trono real. A mulher de cabelos laranja estava posicionada na ponta externa da formação e, apesar da evidente antipatia entre as amigas, ela pareceu incapaz de se conter diante da expressão tensa da outra.

"Sim, está tudo ótimo. " Respondeu You, quase sem mover os lábios. "É apenas a tensão da grande data. "

Matsuura Kanan, colocada logo ao lado do altar do trono, deu uma risada fraca, disfarçada de pigarreio. Seus olhos percorriam o salão de modo altivo:

"Se todos pudesse ver a figura de Yohane ficaria deveras evidente o motivo da tua ansiedade, You. " Surrurrou a capitã, falando quase sem mover os lábios. You tossiu e procurou disfarçar o rubor no rosto.

Além das magas arcanas havia pelo menos duas dúzias de soldados posicionados próximos às entradas do salão. Todos usavam armaduras azuis pesadas e tinham viseiras que ocultavam seus rostos com sombras, tornando-os praticamente inumanos. Os convidados os ignoravam sumariamente, mas de certo modo sabiam que a alegria do momento dependia deles para existir.

"Né, Riko-chan, " começou Ohara Mari, sentada à uma mesa redonda na companhia exclusiva da pianista ruiva, " eu estava pensando sobre meu plano de roubo do Cristal. Talvez você quisesse me ajudar com alguns detalhes. "

"Não! " Chiou Riko com urgência, olhando por cima dos ombros, para todos os lados. "Já falei que não quero me envolver em nada disso, Mari-chan. Meus dias de vagar pelo mundo chegaram ao fim quando meu caminho cruzou com o da Chika. "

"Eu diria que foi por causa de outro cruzamento, que não o do destino, que você resolveu se aquietar. " Insinuou a loira, com um sorriso de lado. Ela desviou os olhos para o altar ainda desocupado do Rei. Riko ruborizou àquilo.

"Não faça jogos de palavras deste nível de maldade, Mari-chan. O que sinto por Chika e ela por mim é algo puro e superior. " Reclamou a musicista. A estrangeira encolheu os ombros.

"Percebo que a veia purista dos de Akiba também está em você, Riko. " Comentou. "Espero que ainda possa defender a pureza dos sentimentos de sua nobre cavaleira quando ela descobrir sua verdadeira natureza. "

"Bobagens! A Chika não precisa saber sobre nada disso! " Sentenciou Riko, falando em silvos quase inaudíveis.

Mari não pareceu se importar em nada com a fúria puritana de sua irmã de feitiçaria. Aproveitou que seus olhos se cruzaram com os de Kanan para acenar para a amante. A Capitã não resistiu em sorrir e abanar de volta, com discrição:

"Voltando ao ponto. " Retomou Mari, depois do momento de alegria pessoal. "Estive falando com Yohane, mas ela não quis me revelar se tem algum plano próprio em relação à captura do Cristal. " Contou e então bebericou seu espumante. "Não que me preocupe em ser passada para trás, mas é que a circunstância não nos é favorável. "

"Acha que ela pode ter um plano próprio para pegar o Cristal? " Quis saber Riko, que falou sem parecer mover nem um músculo para isto. Seus olhos estavam focados nos músicos que tocavam uma valsa sem graça das mais adequadas à uma festa da realeza.

"É possível. Eu a vi aqui hoje. "

Riko engoliu a saliva:

"Claro que, se ela tiver sucesso, isso significa que nós três teremos acesso ao poder do Cristal, conforme nosso pacto. " Continuou a mulher do Ocidente. "O que me preocupa realmente é as guardiãs do objeto. "

Riko voltou os olhos para o altar:

"Fala daquelas duas ali? À direita do trono? " Perguntou.

"Sim, as irmãs Kurosawa. " Confirmou Mari. "A mais alta, Kurosawa Dia, é conhecida por ser portadora de uma técnica de extrema eficácia. Ela é muito superior mesmo as magas arcanas, foi o que a Kanan me disse. "

Riko observou a mulher de cabelos negros compridos e lisos, trajando um uniforme de tons rubros. Ela não levava qualquer sinal de arma consigo, mas seus olhos verdes percorriam o salão com uma perspicácia inquietante. Era como se fosse capaz de desvendar os pensamentos de qualquer um que desafiasse seu olhar. Ao seu lado, mais próxima ao trono, havia outra mulher, mais jovens, de cabelos de um vermelho vivo e olhos em tons gêmeos ao de Kurosawa Dia, porém sem o mesmo ar ameaçador:

"Kanan disse que não foi relevado quase nada sobre a missão que encontrou o Cristal, mas é fato que não foi algo pacífico. " Seguiu Ohara, fintando sua taça pela metade. "Ela foi bastante expressa em dizer que nosso plano de roubo não irá funcionar se no nosso caminho aparecer Kurosawa Dia. "

A festa seguiu sem grandes acontecimentos até anunciarem a entrada do Rei. Yohane, que continuava tendo o desprazer de ouvir as conversas estúpidas daqueles malditos latifundiários se sobressaltou com as cornetas que precediam a entrada da Majestade. Abriu-se um corredor no centro do salão, para a passagem da nobre figura e, por um momento, a mulher-demônio acreditou não ter visto ninguém entrar, até perceber que a figura que buscava era muito mais baixa do que ela vinha procurando:

"Aquela garota. . . É o Rei? " Perguntou Mari, estupefata. Não havia como ter dúvidas, vendo a pomposa maneira como a mulher de pouco mais de um metro de meio de altura vinha, cercada por quatro guardas que lhes seguravam capa e ladeavam com zelo.

"Kunikida Hanamaru, ela é o Rei de Numazu. " Disse Riko, com um sorriso de contido respeito pela figura mínima. "Ela assumiu o trono logo após completar seus dezoito anos, há pouco mais de três primaveras. "

"Rei. . . " Repetiu Mari, embasbacada.

As cornetas reais continuaram entoando seus tons ruidosos até que Kunikida estivesse devidamente sentada em seu trono de madeira de lei, adornado com ouro e pedras preciosas de todos os quilates. Dia se adiantou:

"Todos curvem-se diante do Rei de Numazu! " Ordenou. Virando-se, ela mesma seguiu o movimento da multidão, ajoelhando-se. Na verdade muitos dos nobres mais distantes limitaram-se em curvar-se solenemente. Já as magas arcanas baixaram tantos as cabeças que por pouco suas reverências não se tornavam súplicas. Com uma batida seca do seu estandarte no chão, Kunikida ordenou que a normalidade voltasse. Gesticulou aos músicos, sem nada dizer, e estes retomaram a melodia.

"Bem queria eu que o roubo do Cristal passasse por um enfrentamento direto ao grande Rei de Numazu, ao invés de à sua Juíza Cruel. " Lamentou-se Mari, sem conseguir esconder por completo a diversão no seu rosto e voz, ao fintar a figura diminuta de Hanamaru.

Com a chegada do Rei os garçons passaram a servir o banquete prometido para aquela noite especial. Haviam mesas e cadeiras para todos. As conversas continuaram altas, conflitando com a música. Yohane aproveitou a falta de obstáculos na sua visão para ir até o outro lado do salão:

"Será que posso me sentar na única mesa que não haverá cadáveres servidos como alimentos? " Perguntou a Anjo Caído, já tomando uma terceira cadeira à mesa onde duas feiticeiras conversavam com o máximo de distinção.

"Amada Yohane, " sorriu-se Mari, sem lhe dirigir o olhar. "É sempre uma honra ter sua companhia, ainda que não possa demonstrar em toda a sinceridade. "

"É compreensível. " Admitiu Yohane. Seus olhos rosáceos brilhantes apontados para a expressão tensa de Sakurauchi Riko. "Há quanto tempo, Riri. "

"Yocchan. " Respondeu a pianista, com o maxilar paralisado. "Faz muito tempo. "

"Não parece muito feliz com nosso reencontro. " Verbalizou a Anjo Caído, sorrindo com satisfação.

"Não é. . . " Começou Riko, engolindo saliva para limpar a garganta dolorida. "É apenas sua impressão. "

Há alguns metros dali, uma nota de surpresa pairou no ar:

"Yohane está falando com Sakurauchi? " Questionou You, entredentes. "Mas elas sequer se conhecem. . . "

Kanan lambeu os lábios, desviando os olhos do salão. Encarou Watanabe por um momento, então direcionou os olhos para a terceira maga arcana. You não pode evitar deixar o queixo cair ao entendimento. Quase lançou um olhar para Chika, mas deteve-se em um gesto quase tremido:

"Pelos deuses. . . " Foi a única coisa que disse. A Capitã retomou seu trabalho de observar a multidão. Do seu outro lado, uma conversa muito mais leve transcorria:

"Não há palavras para narrar a honra que vocês trazem ao reino com seus feitos, zura. " Dizia Kunikida, com um sorriso aberto para as irmãs.

"Hanamaru-chan. . . " Rejubilou-se Kurosawa Ruby, sem esconder a alegria. Do seu lado, porém, um pigarreio de censura soou de imediato.

"Apenas realizamos nosso dever servil, Majestade. " Meneou Kurosawa Dia, com um tom de formalidade absoluta. Ruby pareceu sem graça de sua própria atitude.

"Não precisamos de tanta formalidade, zura. " Interveio o Rei de vinte e um anos. "Crescemos juntas e temos uma história de amizade que transcende papéis de nobreza. "

"Perdoe-me, Majestade. " Disse Dia. "Mas eu jamais poderei permitir-me tal grau de proximidade de vossa figura, ainda que assim o fosse preferir. É meu dever como guerreira e como Juíza. "

"Que seja, Juíza Kurosawa. " Deu-se por vencida Hanamaru. "Ao menos ainda tenho tua eterna amizade, Ruby-chan. Como sabem os deuses que meu coração todos os dias lamentar por não sermos mais um trio, mas apenas uma dupla. "

"Hanamaru-chan. . . " Disse Ruby, permitindo-se segurar a mão do Rei com suas duas. Dia não quis ver aquele gesto de tanta falta de subserviência da própria irmã. Tocar nas mãos do Rei!

"Né, Yohane-sama. " Retomou Mari. "Será que tua presença aqui é sinal claro de que irás agir a respeito do Cristal antes mesmo de ouvir meus planos para a captura deste desejado item? "

"Não te preocupe, minha irmã de magia. " Falou a Anjo Caído, que usava um tom de voz muito menos discreto, já que só quatro pessoas ali tinham como escutá-la. "Apenas quero ver o objeto com meus olhos. Traçar ideias a partir do vislumbre de sua imagem. Tenho meus pensamentos em andamento sobre essa e outras questões. "

"Pensamentos estes que não divides nem com tuas amadas irmãs de magia e pecado. " Reclamou a loira, fazendo um visível muxoxo para seu prato de batatas cozidas. Yohane riu:

"Demônio que és, Mari! Demônio! "

Após a refeição generosa os convidados foram se enchendo de ansiedade. As magas que cercavam o Rei aumentaram sua tensão em muitos níveis. Ainda que tivesse um olhar fixo para a entrada, Ruby sabia perfeitamente que a irmã estava com a atenção em todos os movimentos no salão, a espera de uma mínima reação.

Kanan se adiantou e anunciou a entrada do objeto de comemoração daquela data. Duas magas aprendizes vieram trazendo a joia em uma plataforma flutuante. O salão foi se enchendo de sons de respirações presas conforme a singela caminhada se aproximava do altar.

O Cristal de Raburaibu foi depositado sobre um pedestal materializado do nada, bem em frente ao trono. Uma pedra translúcida, cor de salmão, cheia faíscas no interior que pareciam dançar pelas várias camadas de cristal existentes ali dentro. Devia ser quase do tamanho da cabeça de uma pessoa adulta, arredondada e brilhante. As luzes do lugar pareceram enfraquecer diante da imagem majestosa do famigerado objeto de tamanho poder.

Matsuura Kanan sentiu o calor da energia daquela pedra maravilhosa. Seus olhos instintivamente voaram para o outro lado do salão. Mari não olhava para a pedra, mas sim para ela, Kanan. Elas sabiam o que estavam pensando. A maga arcana se sentia contaminada pela ambição aguda da amante. Seu rosto tremeu por um momento ao imaginar o que poderiam fazer em posse daquela fonte incalculável de poder em forma bruta.

Sakurauchi Riko sentiu os olhos umedecerem ao olhar para a pedra sagrada. Sua infância cheia de magia e música retornaram como se vivos, como se fossem o presente. Relembrou o rosto de seus pais, os feiticeiros mais bondosos e talentosos do seu universo. Lembrou-se dos feitos cada vez mais lindos e extraordinários que realizava conforme crescia. Aquilo poderia ser seu novamente. Diante de si estava a chave para ter de volta tudo aquilo. Fechou os olhos e apertou as mãos sobre o colo:

"Lindo Cristal, magnífico. " Disse Yohane, sabendo não poder ser ouvida por alguém além das companheiras bruxas ao seu lado. "Todos os humanos medíocres tentando fingir que não querem colocar as mãos nessa belezinha deixa o espetáculo ainda melhor. "

Neste momento o Rei levantou de seu trono ornado e caminhou até próximo ao Cristal sem, no entanto, tocá-lo:

"Povo de Numazu, " começou Kunikida. "Apresento a vocês a joia lendária de que todos já ouviram histórias, o Cristal de Raburaibu. Mesmo pessoas de pouca ou nenhuma habilidade mágica são capazes de perceber a presença única deste artefato secular que agora é de posse de nosso Reino. " Seguia a majestade, fintando os rostos de seus súditos. "Jamais haverá honrarias o bastante para consagrar as duas magas que nos trouxeram esta preciosa herança mágica. Kurosawa Dia e Kurowasa Ruby, o Reino de Numazu deve este momento de glória aos seus esforços e lealdade. "

Os aplausos ecoaram por todo o salão. A irmã mais nova pareceu bastante tímida diante da ovação. Já a Juíza Kurosawa apenas fez uma reverência breve, sem alterar a expressão impassível com quem fintava os convidados.

Yohane não prestou atenção às palavras seguintes do Rei. Seus olhos estavam no Raburaibu, emanando poder silenciosamente. O salão inteiro parecia deixar de existir enquanto a feiticeira fintava o objeto. Era questão de tempo, muito pouco tempo, para que tivesse aquela energia toda inteira para si. Se fosse rápida o bastante talvez não precisasse sequer dividir aquela quantidade exorbitante de poder com suas amigas. Um egoísmo barato, mas inevitável.

Em meio ao vácuo daquele lugar de desimportâncias, porém, uma outra luz surgiu diante do olhar de Yohane. Duas safiras vívidas voltadas para sua direção. A Anjo Caído não pode evitar buscar aquela fonte tão intensa. Seus olhos de um rosado brilhante encararam Watanabe You e ela se viu desvelada. A maga estava séria como era o exigido para seu cargo, mas havia muito ali que ninguém mais poderia ver. Mesmo sem saber como, Yohane teve certeza de que You era capaz de ler cada parte das suas intenções e lhe advertia sem mover qualquer músculo para isso.

Aquilo perturbou a mulher-demônio até o ponto que não pode suportar. Levantou-se, chamando a atenção das outras três pessoas que podiam vê-la, mas não foi na direção do Raburaibu. Pelo contrário, Yohane deu as costas e saiu do salão, a passos rápidos como uma rajada de vento, silenciosa e indetectável.