Capítulo 14
A madrugada silenciosa teve início enquanto os convidados ainda deixavam o salão do Castelo de Uchiura. A troca de turnos dos guardas havia ocorrido de forma segura às onze horas e tudo parecia tranquilo para a segunda noite do Cristal de Raburaibu sob as abobadas da construção real.
O objeto de tamanho poder ficava isolado em uma sala no piso mais alto da Torre Noroeste. Coberto apenas por uma fina película de vidro, o objeto de poder imensurável repousava quieto como qualquer sinete de cristal vagabundo vendidos nas feirinhas de beira de estrada. O silêncio no ambiente era absoluto. Todas as proteções nos andares de baixo eram suficientes e mesmo que se argumentasse que existia a via área para acessar o lugar o fato de que o dom do voo era quase uma lenda de tão raro só colaborava para que a sensação de segurança fosse grande.
Porém nenhuma sensação arrogante de posse de mortais seria ameaçadora o bastante para impedir que Yohane subisse até o alto daquela torre na noite após o encerramento do baile de apresentação do Cristal.
Transfigurada em sombra a imortal passou com algum cuidado pela guarda comum. Ainda que numerosa, não havia ali ninguém capaz de distinguir a escuridão comum da noite com a disformia da figura diluída do Anjo Caído. Era um tanto doloroso para a criatura demoníaca, é fato, afinal não era sem motivo que andava sem corpo humano por aí. Porém sua mente não focava na dor, mas sim na proximidade crescente para com o objeto de sua ambição.
Por algum instante, já chegando as portas do salão do último andar da torre, Yohane se perguntou se teria tido alguma vantagem em contar seus planos para Watanabe ou mesmo para alguma de suas irmãs de feitiçaria. Ninguém poderia ajuda-la. Apenas olhos de preocupação ou de desconfiança em nada ajudariam, então se convenceu de que escolheu bem. Iria obter o Cristal, depois disso, pensaria com calma que atitude tomaria.
As portas do salão abriram apenas uma fresta. Yohane atravessou e se materializou. Estava tudo mergulhado em penumbra. As enormes janelas todas cerradas por cortinas pesadas. Estava um tanto frio, o que era bom para aguçar os sentidos. Yohane se aproximou a passos calculados, sendo tragada pela beleza do Raburaibu. Sentia os arrepios causados pelo poder imenso que aquela pedra emanava mesmo estando inerte. Chegou diante da cúpula de vidro. Levou o dedo para tocar e despedaçar a frágil estrutura. . .
"Nem pensar. "
Yohane congelou no lugar. E por isso não estou querendo usar uma figura de linguagem, caro leitor. Yohane literalmente teve o corpo paralisado por completo, a menos de um centímetro de tocar no vidro protetor do Cristal. As luminárias do salão todas acenderam de uma vez e um movimento revelou a figura por detrás de uma das cortinas. Yohane não podia vê-la, pois vinha por suas costas, mas os passos secos ecoaram no salão quase vazio:
"Parece que nosso ratinho apareceu mesmo. " Disse a Juíza Kurosawa Dia, rodeando Yohane, parando ao lado da cúpula de vidro. Seus olhos eram frios, mas havia um sorriso fino em seus lábios.
Yohane sentiu que podia mover os olhos e talvez a boca, mas era só. Encarou Dia com ferocidade, sem pronunciar nenhuma palavra. Atrás dela o som estridente de mãos empurrando a porta dupla escoaram:
"Juíza Kurosawa. " Disse a voz sempre impenetrável de Matsuura Kanan.
"Exatamente como o esperado. " Aquela era a voz estridente de Takami Chika, soando cheia de vitória.
"Yohane. . . " Sibilou You, baixo como um sussurro, mas alto o bastante para que os ouvidos sensíveis da Anjo Caído pudessem ouvir.
"Como pode ver, sua informação se comprovou verdadeira, Takami-san. " Disse Dia, lançando o olhar para onde devia estar a três magas arcanas. "A Coroa de Numazu lhe é muito grata por tal lealdade. "
"É uma honra minha, Juíza. " Arfou Chika, soando com uma altivez que teria feito Yohane vomitar se tivesse controle total de seu corpo.
Dia pegou um par de algemas de um metal azulado que Yohane jamais viu. Sem fazer esforço moveu os braços paralisados da feiticeira e prendeu seus pulsos na estrutura que não parecia assim tão forte. A reação em Yohane foi imediata.
A magia parou de circular pelas células de Yohane. Foi um baque tão forte que ela pensou que fosse desmaiar, mas aguentou. Quando viu seu corpo havia caído para o lado e ela via a figura altiva de Kurosawa ainda mais imponente em seu foco de baixo para cima:
"Inibidores mágicos, " respondeu Dia antes de ser perguntada. "Talvez façam um pouco mais de mal à uma criatura sinistra como você do que fazem à um mago convencional, mas não devem te matar. "
"Juíza! " Exclamou You, dando dois passos para frente. A visão de Yohane não conseguia focar bem para perceber sua expressão. "Por favor, me escute. "
"Watanabe. . . " Disse Dia. "Este tom de voz não parece ser o que eu esperaria para uma maga arcana de elite ao apanharmos uma criatura sinistra quase roubando o Cristal de Raburaibu. "
"Juíza, quero que me escute. " Disse You, se aproximando mais. "Sei que isto foi um flagrante de tentativa de roubo, mas preciso pedir-te que deixe Yohane livre para aguardar um julgamento sobre este caso. "
Yohane arregalou os olhos. A cavaleira realmente ia argumentar em seu favor com um pedido tão estúpido como aquele?
"Do que está falando, Watanabe. Estamos com o Anjo Caído em nossas mãos. Não iremos soltá-la. "
"Mas, Juíza Kurosawa. " You estava tensa, alarmada à última instância. "Esse não é o tipo de atitude a se tomar em um caso de tentativa frustrada de roubo. "
"Cale-se, idiota! " Explodiu Dia. "Por acaso queres ficar presa junto com essa criatura maldita? "
"Tudo o que quero, Juíza, é que se faça justiça da maneira correta mesmo para este ser sombrio. " Falou You, contendo com maestria o tremor na voz.
"Correto? Claro que será correto, Watanabe. " Riu-se Dia. "O monstro será enforcado em praça pública. Se possível amanhã mesmo. "
Yohane prendeu a respiração por um momento. Presa no seu corpo mortal, privada de seus poderes, ela iria sucumbir à brutalidade de um enforcamento como qualquer pessoa comum. Seria o fim não só de sua carne, mas de sua alma magnífica, limitada àquela casca fútil.
O rosto de You enfim entrou no seu foco. Ela parecia tão aterrorizada quanto ela própria diante daquelas palavras. Mas o que poderia fazer, perguntou-se Yohane. Ela era apenas uma, e diante do poder de Kurosawa. . .
"Isso. . . " Disse a cavaleira de cabelos prateados, com a voz tremida. "Isso eu não posso permitir! " Berrou.
You voou contra Dia, envolta de energia azul celeste intensa. O movimento foi muito rápido para acompanhar com os olhos. Teria sido certeiro. Teria, se não fosse a habilidade singular da Juíza de Uchiura. You paralisou em pleno salto, sua mão fechada à dois centímetros da face da outra mulher:
"Insurreição. " Sibilou Kurosawa, perigosa. "Traição jamais imaginada. " Disse. "Em pensar que alguém nobre como você se deixaria levar pela feitiçaria macabra dessa criatura podre. "
Dia pegou outra algema inibidora e, assim como fez com Yohane, prendeu as mãos da maga. A aura de energia se desfez de imediato. Com um aceno Dia também desfez a prisão de sua magia e You caiu num arco feio, caindo com um baque surdo no piso de mármore.
"D-Dia. . . Você não pode. . . " Disse You, se revirando no chão. Sua voz era engrolada, como se estivesse sangrando na boca. "Você não pode. . . "
"You. . . Você nunca me convenceu, sabe. " Disse a Juíza. "Algo em você, desde aquele episódio. . . Talvez fosse uma intuição precisa do que estaria por vir. Você enlouqueceu daquela vez. "
"Você, precisa me ouvir. . . " Implorou Watanabe.
"Eu não vou ouvir nada. Eu vou mandar enforcar o monstro. E você vai apodrecer em uma cela. "
"Ela não é um monstro. . . Dia. . . Ela ainda é a mesma. . . "
Dia pareceu perder a paciência. Foi até onde You estava caída e pisou com vontade sobre o rosto da cavaleira. You deixou escapar um choramingo de dor. Seu rosto começou a inundar de sangue do nariz.
"Dia! " Exclamou Kanan, até então fora daquela situação. Seu tom de advertência fez a Juíza crispar uma expressão de raiva.
Yohane tentava lidar com a fraqueza absurda devido à contenção da sua energia mágica. Estava tonta e sentia a consciência esvaindo-se para um breu silencioso. Deitou o rosto no chão gelado, encarando a figura transfigurada de sua nobre cavaleira. Talvez tivesse sido mais esperto avisar dos seus planos, afinal de contas.
"Se for para falar de Justiça. . . " A voz de Dia chegou muito distante. "Então. . . julgamento. . . deste monstro. . . pelo assassinato. . . Tsushima Yoshiko. "
Tsushima Yoshiko?
. . .
. .
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