Capítulo 15
Certa vez existiu uma garota chamada Tsushima Yoshiko. Ela era uma das sacerdotisas que cresciam ao redor do futuro rei, Kunikiha Hanamaru, fazendo-lhe companhia e cuidando para que seu conhecimento mágico crescesse em harmonia total com as leis da magia arcana.
Yoshiko era uma garota tímida, de pele muito pálida e magra. Tinha cabelos e olhos muito pretos e parecia sempre atenta à presença de outras pessoas. Não era de falar. Gastava seus dias lendo os mais antigos livros de literatura presentes na biblioteca real de Uchiura. Teria sido sempre solitária se não fosse a curiosidade de Kurosawa Ruby e da própria Kunikida Hanamaru.
"Né, Tsushima-san, o que você está lendo? " Foi a primeira coisa que a herdeira do trono conseguiu pensar para tentar tirar Tsushima de seu isolamento natural. Elas tinham apenas onze anos naquela época.
"Quer passear conosco, Yoshiko-chan? " Foi o convite feito pela Kurosawa mais nova, logo quando percebeu que a outra já havia se acostumado um pouco com a presença delas.
"Mas lá fora está quente. . . " Dissera a garota de poucas palavras. Seus olhos escuros fintaram a janela fechada da biblioteca.
"Não se preocupe, debaixo das árvores o vento é gostoso! Dá quase um friozinho! " Argumentou Ruby, abrindo um sorriso genuíno para a outra aprendiz de maga.
O primeiro passeio das três novas amigas foi cheio de receio por parte de Tsushima. Ela não estava habituada a andar pelos jardins, ou de sair pela cidade tão movimentada. Sentia que poderiam pisar nela a qualquer momento, mas as outras duas meninas lhe deram apoio o bastante para que enfrentasse aquele desafio.
Depois daquele dia, cada vez mais a vida de Yoshiko se tornou movimentada. A companhia era agradável e fazia Yoshiko entender cada vez mais como risadas poderiam ser coisas simples e cotidianas. Ainda assim seu crescimento como ser sociável passou por diversos momentos de desafio:
"Kunikida-sama, você não deveria andar conosco por aí dessa maneira. " Argumentou certa vez. Hanamaru entortou as sobrancelhas.
"Que formalidade é esta de repente, Yoshiko-chan? " Perguntara a herdeira do trono. Elas já tinham quase três anos de amizade e ainda assim a outra aparecia volta e meia com aqueles lapsos de tratamento. "Somos amigas. Além disso, não quero ser tratada como uma figura intocável. Seria solitário demais. "
"Mas, você é. . ." Começou a argumentar Yoshiko, ainda a mesma garota magricela e pálida, só que agora com quatorze anos.
"Olhem! A comitiva de Akiba está chegando! " Exclamou Ruby, sobrepondo a discussão das outras duas.
Era uma tarde ensolarada de fim de verão. Estava marcada para chegar naquela semana a comitiva vinda da unidade de magia arcana do Reino de Akiba. As três únicas cavaleiras-magas em treinamento de Numazu sempre passavam um mês recebendo treinamento no reino natal, entre o verão e outono, e mais três meses de aulas no reino vizinho.
Cinco cavalos se cruzaram os muros do castelo. Yoshiko se esticou para ver por cima dos arbustos que separavam a parte que estavam do jardim da via principal que levava a entrada do castelo:
"Aquelas duas são as cavaleiras de Akiba? " Perguntou. Aquela era a primeira vez que seu caminho cruzava com a comitiva nos quatro anos em que o acordo de formação de forças locais havia entrado em vigor.
"Sim. General Sonoda e General Kousaka. São duas das cavaleiras mais poderosas de Akiba. " Respondeu Hanamaru, fintando com admiração as duas mulheres em trajes em tons brancos e azul-chumbo. Uma delas tinha longos cabelos azuis e a outra tinha madeixas alaranjadas escuras, na altura dos ombros.
"Olhem. As aprendizes estão com elas. " Comentou Ruby, parecendo bem mais empolgada com esta informação do que com o grau de magnitude do título das convidadas.
Yoshiko se encolheu por reflexo ao ouvir aquilo. Apenas seus olhos pretos muito curiosos ressurgiram acima da folhagem para ver as três jovens de idades entre quatorze e dezesseis que completavam o cortejo. Não tinha como negar, eram realmente as cavaleiras em formação de Numazu. Tsushima sentiu vontade de sair dali, ir para algum lugar seguro e solitário, tamanha ansiedade que se instalou em seu peito.
Hanamaru, observadora como poucos, acompanhou o olhar da amiga e deixou um riso de diversão escapar-lhe dos lábios:
"A cavaleira Watanabe parece cada vez mais bela, não é verdade? " Foi seu comentário.
Dali alguns metros a jovem You Watanabe, de quinze anos, ouviu seu nome ser dito e virou o rosto para buscar. Não foi difícil encontrar a herdeira e suas duas companheiras. Sorriu e acenou brevemente. Yoshiko sentiu o rosto queimar ao perceber que os olhos safira da cavaleira em treinamento estavam apontados não para alguém além dela.
Não tardou para que, após a recepção feita à comitiva, as cavaleiras novatas de Numazu se vissem livres. Hanamaru aproveitou esta oportunidade para arranjar um singelo chá da tarde para que pudessem conversar:
"Este ano tenho certeza de que irei surpreender as expectativas da General Sonoda! " Disse Takami Chika, quinze anos incompletos, quando já estavam todas reunidas em uma das muitas salas de estar do castelo.
"Acho que se conseguir conjurar uma magia de ataque elemental que seja a General já ficará surpresa, Chika. " Comentou Matsuura Kanan, com um olhar maldoso para a amiga.
"Ei, não fale uma coisa dessas na frente do futuro rei! " Exasperou-se a garota de cabelos laranja.
Yoshiko sentara-se mais distante da conversa e folheava um livro com anotações sobre símbolos arcanos antigos como forma de não precisar envolver-se nos assuntos. Para sua surpresa uma voz chegou até ela apesar de todas as precauções:
"Tsushima-san. " Disse You, sentando-se em uma poltrona mais próxima à da morena.
"Ah, Watanabe-san. " Respondeu Yoshiko, levantando os olhos de livros e depois baixando novamente. Percebeu que não pareceria educado ignorar dessa maneira, então largou o livro de runas ao lado. "Faz algum tempo. "
"Verdade. " Respondeu You, com um sorriso franco. "Como tem estado sua saúde? "
"Bem. . . Na medida do possível. "
"Ainda seus pulmões? " Perguntou a cavaleira, fechando o semblante. Yoshiko não gostava de ser alvo de preocupações, então aquilo a deixou mais deslocada.
"S-Sim. Só o de sempre. . . Algumas dores à noite. Um fôlego meio ruim para escadas. Não é algo relevante. "
"Claro que é relevante. " Disse You, séria. "Irei perguntar a General Sonoda sobre isto. Deve haver alguma magia arcana antiga capaz de ajudar a fortalecer os pulmões. "
"P-Por favor, não se incomode com isto, Watanabe-san. " Pediu Yoshiko, sem jeito para lidar com a preocupação da cavaleira. "Não penso que isto seja realmente algo que possa piorar. Tenho essas fraquezas há muitos anos e nunca nada a fez nem melhorar nem piorar. É uma sina. "
A garota de cabelos cinza-prateados lhe encarou, avaliativa. Por fim suspirou:
"Se assim o dizes. Espero que o inverno não venha a se tornar perigoso diante destas circunstâncias, Tsushima-san. "
A aprendiz de magia nada respondeu. A conversa acabou se encerrando ali, da mesma maneira estranha que havia começado. Yoshiko não sabia o que dizer e aquilo a afligia. Por outro lado, Watanabe pareceu bastante confortável em apenas fazer-lhe companhia enquanto as companheiras falavam de seus mais recentes feitos mágicos para Ruby e Hanamaru.
Pelos deuses se You tivesse realmente questionado Sonoda Umi sobre aquele mal. Talvez a experiente maga tivesse percebido o que apenas o instinto da mais jovem dava sinais.
O que Yoshiko tinha era muito pior do que uma sina sem perigo.
O inverno chegou cedo naquele ano. A anormalidade do clima fez com que Yoshiko atribuísse a falta de ar e crises de tosse ao final prematuro do outono. Algo incomum, mas que logo se estabilizaria, com a chegada do inverno.
Só que não foi assim.
No primeiro dia de neve, final de novembro, Yoshiko acompanhava Hanamaru e Ruby em uma exploração pelos bosques que cercavam o perímetro de Uchiura. Estavam acompanhadas das três aprendizes de cavaleira. Yoshiko sentia muito frio. Mal chegou a pisar nas primeiras camadas de neve quando perdeu os sentidos.
Aquela foi a última vez que esteve ao ar livre em sua curta vida mundana.
Neste ponto a trajetória de Tsushima Yoshiko se torna obscura. É quando uma sombra amaldiçoada, vinda expulsa dos planos celestes aparece em nossa história. Uma criatura ainda sem nome e sem rosto, mas que deixa um rastro de morte por onde passa. Alguns apelidavam a monstruosidade de Anjo Caído, por ter vindo do alto e ser ao mesmo tempo portadora de maldições horrendas.
O que se conta é que a criatura, farejando a doença de Yoshiko, invadiu o castelo de Uchiura e a matou, possuindo seu corpo. Apenas depois disso foi que a criatura adotou o nome de Yohane e passou a vagar em uma forma material pela Terra.
Porém, existem detalhes nesta história que apenas são possíveis de saber se olharmos pelos olhos das lembranças até então intocadas do Anjo Caído. Lembranças essas que foram revividas apenas quando, em uma cela úmida e escura, mais de sete anos no futuro dos fatos, Yohane ouviu de Watanabe You, presa por traição, a narrativa sobre a vida da mundana Tsushima Yoshiko, enquanto aguardava sua execução em praça pública por um crime que não lembrava de ter cometido.
Tudo era dor. Existir era dor. Vagar era dor. A Criatura não entendia nada sobre si mesma ou sobre o mundo, mas já vivia em fuga. Expulsa de um lugar que não passava de luzes em sua memória de recém-nascida, a Criatura corria e sofria.
O ar do mundo humano era como brasa sobre seu espírito disforme. Os sons lhe arrebentavam e as cores feriam suas estruturas incompletas. Tudo era doloroso. Sentia-se despedaçando e por isso gritava. Não era capaz de emitir sons racionais, mas sabia que os humanos eram pulverizados ao contato dos seus lamentos. Evitava ao máximo chegar neste ponto.
Sentia-se perdendo parte de si conforme o tempo passava. Ia diminuindo, morrendo. Sua vida amaldiçoada seria curta. Descobriu uma maneira tosca de lidar com aquilo, porém o custo era bastante alto. O sangue humano, ainda quente, e suas almas fracas, tinham energia o bastante para prolongar a vida da Criatura por um pouco mais de tempo.
Passou a caçar. Logo passou a ser caçada. Absorver todas aquelas almas lhe fez compreender a linguagem humana. Entendeu as palavras de medo e ódio que usavam para falar de si e descobriu mesmo que ela era uma existência, o que até então não havia lhe ocorrido. Tinha vindo do céu, do mundo superior, expulsa da terra dos anjos por ser uma coisa horrenda. Talvez fosse verdade.
Chegou o ponto em que a Criatura percebeu que não valia a pena adiar o inevitável. As dores ainda a consumiam o tempo inteiro. Viver mais tempo significava apenas sofrer mais tempo. Ia desistir.
Quando o primeiro floco de neve caiu sobre sua forma indistinta a agonia foi tamanha que a Criatura quase enlouqueceu. O frio transformava sua nevoa escura em cristais que se partiam, e liquidificavam no chão. Um rastro de sangue preto e pútrido passou a ficar por onde a Criatura passasse. Estava se deteriorando muito mais rápido.
Dor, apenas dor. A Criatura poderia morrer a qualquer momento, mas talvez já tivesse sido contaminada demais pela alma humana. Sentia medo de morrer. Num ato de desespero, em uma manhã clara, com chão coberto pela primeira nevasca do ano, a Criatura invadiu uma construção enorme, buscando se proteger. Era o castelo real de Uchiura.
No pouco de racionalidade que conseguia ter em meio à dor, a criatura optou por infiltrar-se por uma janela baixa, em uma das partes mais afastadas e discretas da construção. Poderia ganhar tempo daquela maneira. Poderiam demorar para encontrá-la.
A sua sorte e o seu azar foram que sua escolha fora justamente a da única janela do quarto de Tsushima Yoshiko.
A garota enferma despertou com o som da forma quase etérea adentrando. A Criatura parou no canto do quarto sem perceber a companhia. Estava diminuída à uma mancha preta menor do que uma cadeira. Se encolhia contra o canto entre o guarda-roupa e a penteadeira, buscando aplacar um mínimo do sofrimento do ar gelado. Guinchou quando as primeiras ondas sonoras fraquejadas alcançaram-lhe:
"Você é. . . O Anjo Caído? "
A Criatura se voltou na direção do ataque e vislumbrou o que lhe pareceu ser um cadáver. Porém o corpo tão pálido quanto um morto ainda era capaz de mover olhos, boca e pulmões:
"Você parece ferido, Anjo. " Disse Yoshiko, os olhos fundos e rodeados por manchas escuras. Seus lábios estavam roxos. "Não parece muito melhor do que eu. "
O tom de voz de Yoshiko era tão fraco que não feria a Criatura. Aquela a primeira vez que um humano não parecia emitir nenhuma nota de horror à sua presença. Aquilo despertou uma curiosidade também inédita no ser:
"Dizem que você se alimenta da saúde das pessoas. " Seguiu Yoshiko. "O que é uma pena, pois saúde é o que mais me falta. Estou morrendo. "
A Criatura se aproximou da cama da moribunda. Tinha uma ideia. Não uma ideia nova, mas mesmo assim uma ideia. Nunca havia dado certo, mas que precisava arriscar mais aquela vez:
"O que? Você também está morrendo? " Perguntou Yoshiko, parecendo pouco surpresa por ter recebido uma mensagem clara em sua mente. "Você veio se esconder aqui por estar morrendo? "
A Criatura sentiu-se como nunca antes. Aquela humana era capaz de entender seus pensamentos. Ninguém mais havia sido capaz. Uma sensação de ansiedade imensa invadiu o ser disforme. Yoshiko sorriu diante da inquietude do dito monstro:
"É uma pena que estejamos tão perto da morte. Poderíamos nos dar muito bem, Senhor Anjo Caído. " Disse a aprendiz de maga. Sua garganta estava seca e ela tossiu com força, sentindo uma dor excruciante nos pulmões. A Criatura pareceu sem reação diante daquela angústia tão distinta e tão próxima à sua.
Talvez e apenas talvez, haja uma maneira de tudo ser diferente.
Tsushima Yoshiko encarou a criatura, com surpresa na face abatida:
"Ouço e vejo coisas que não compreendo, Anjo Caído. " Falou a garota. "Ainda assim tenho a sensação de que posso entender de alguma forma o que parece pretender. "
E continuou, mesmo com a garganta arranhando:
"Se duas criaturas com parte de vida se unirem, talvez uma única criatura com uma vida inteira possa surgir. " Ela entoou, como se lesse a frase escrita no ar, entre ela e a mancha negra. Seus olhos cansados se arregraram diante daquele significado. "Você diz, eu e você? "
A Criatura já tinha se decidido. Deu uma volta em seu próprio eixo e se concentrou. Encarando com sua forma sem rosto a humana diante de si:
"Se já vamos morrer, então essa tentativa seria melhor do que tentativa alguma, é o que você está me dizendo. " Falou Yoshiko, apoiando-se com debilidade nos braços magros. Após algum esforço ela enfim conseguiu sentar-se na cama. O ar era tão frio para seu corpo sem músculos. "Acho que tens razão, Anjo Caído. "
A garota se virou e colocou as pernas para fora das cobertas. Eram tão magras que pareciam mais duas varetas sem cor. Ela não era mais nem capaz de sustentar seu pouco peso sozinha. Seus cabelos e olhos muito negros pareciam saltar de sua imagem mortificada:
"Faça isso. Faça o que puder, Anjo Caído. " Falou ela, reunindo o máximo de força que lhe restava. "Eu e tu seremos meias vidas transformadas em uma só, ou então duas metades varridas pela frieza da lâmina da morte. Não posso mais aguentar este tormento, então faça! "
E a Criatura o fez. Reunindo o máximo de sua intenção e de seu poder (mesmo tão enfraquecido ainda centenas de vezes maior do que o de um mortal) saltou. Mergulhou no corpo de Yoshiko. Esta se ergueu no ar, os olhos arregalados e a boca mortalmente escancarada. Sentiu calor, um calor reconfortante e amigável. Porém no instante seguinte veio a explosão de dor. Energia humana e sobrehumana colidiram em um vórtice que atravessou seu corpo, o quarto e mesmo todo o castelo de Uchiura. Seu grito de agonia propagou como uma onda de morte enquanto seu corpo era inteiro recoberto por duas ondas de energia, uma amarelada pálida e uma cinza intensa.
Aquilo sobressaltou todo o castelo de uma só vez. Quando os guardas chegaram aos jardins viram o corpo de Yoshiko subindo no ar, cercada da energia que a perpassava sem trégua. A terra tremia diante do assombro daquele poder.
"É o Anjo Caído! Ele pegou a menina! " Gritou o comandante da guarda.
Os homens se reuniram para tentar encurralar a criatura possessora, mas foi em vão. O corpo de Yoshiko subiu aos ares e se deslocou para fora da cidade. Os cavalos colocaram-se a correr, saltando pontes e riachos. Os berros de ódio escoando pelo ar:
"Peguem o demônio! Peguem! "
Watanabe You estava em sua nova moradia, uma casa simples em um canto afastado da área rural de Uchiura. Sua percepção mágica lhe alertou do perigo e ela utilizou uma útil magia de percepção para entender o que acontecia a quilômetros de distância. Viu a imagem dos homens acelerando ao máximo seus cavalos. Então viu a massa de energia atravessando os céus. Estava vindo em sua direção:
"Y-Yoshiko?! " Exclamou a jovem cavaleira, desfazendo o feitiço e olhando para o alto. O corpo passou voando sobre sua cabeça, em direção ao bosque. Era uma velocidade absurda para já estar tão distante dos seus perseguidores. Sem pensar duas vezes You montou no seu cavalo baio e disparou para dentro do bosque, deixando o rastro de cascos na neve ainda fofa. Seu coração batendo a milhão dentro do peito.
Sentiu quando a massa estrondosa de energia parou de se mover e desacelerou. Saltou do cavalo e prendeu-o. Com o medo e ansiedade lutando dentro de si ela rastejou por entre as arvores desnudas até a borda da clareira onde havia caído o corpo de Tsushima.
A cena diante dos olhos da cavaleira foi para além de qualquer coisa que poderia imaginar por si mesma.
Yoshiko estava caída, contorcendo-se em dor. Porém seu corpo não era mais o fantasma esquelético de antes. Estava saudável e arfava com um vigor que a outra jamais vira. As duas cores de energia dançavam em harmonia ao seu redor, mas ainda estavam inquietas. Giraram cada vez mais rápido até se chocarem e se tornarem uma nova energia, de cor lilás. Foi o fim do baile de poder e tudo se calmou. Yoshiko levantou, talvez tivesse vencido a maldição.
You fez menção de se mover, mas recuou ao ver Yoshiko se dobrar de novo. Ela urrou e tossiu violentamente. Caiu parecendo quase perder a consciência. Watanabe não pode suportar só ver se enfim se aproximou:
"Tsushima-san. . . " Chamou ela, hesitante. Yoshiko reagiu à sua voz, encarando-a com surpresa. "Seus olhos, eles estão diferentes. " Disse You, surpresa pela cor rosácea vívida que as íris da outra tinham. Não eram os mesmos olhos que já vira.
Ao invés de responder, Yoshiko voltou a tossir. Uma tosse violenta que parecia quase rasgar seus pulmões. You se ajoelhou ao seu lado bem a tempo de ver a garota cuspir uma massa preta do tamanho de um pequeno limão, envolta de sangue.
Uma visão horrorosa, mas You entendeu de imediato que era aquela massa a doença que destruíra os pulmões da aprendiz de maga. Estava livre. Yoshiko inspirou fundo, sentindo o ar entrar até o limite de seus pulmões libertos. Aquilo deu uma sensação de alívio imensa também para a cavaleira.
"Yoshiko. . . " Ela chamou, colocando as mãos sobre as costas da outra. Yoshiko lhe encarou, sem parecer reconhecê-la. Talvez estivesse em choque. Watanabe tirou sua capa de viagem de recobriu as costas quase desnudas da outra.
You não entendia o que havia se passado, mas podia sentir que o padrão de energia da morena era completamente diferente. Ainda era a mesma raiz, mas o modo como a energia circulava pelo seu corpo, além da intensidade desse poder, era fantástica.
Já para o Anjo Caído tudo era muito confuso ainda. A dor fora imensa e a sensação de possuir um corpo físico era estranha para a criatura que até então era apenas escuridão sem forma. Ela encarava a estranha mulher de cabelos castanho-prateados tentando decifrar sua atitude. Não conseguia ter medo, mas também era incapaz de entender o que aquela presença estranha lhe fazia intuir.
Foi o som de outras vozes (que já não lhe feriam) e cascos de cavalos que lhe despertou a urgência. A Criatura agora encarnada levantou, sendo imitada por aquela outra estranha. Viu com seus olhos humanos, mas também sobrehumanos, os guerreiros se aproximando. Tinham nenhuma magia, mas muita ferocidade. Não era seguro estar ali:
"O Anjo Caído, ela caiu em algum lugar da floresta! " Ecoou uma voz pesada vinda carregada pelo vento. You virou para a direção do som e então para Yoshiko, assombrada pelo entendimento. Sua boca se abriu e fechou sem que dissesse nenhum som. Emanou algo como admiração, mas isso era complexo demais para que a outra entendesse.
Que fosse. A imortal encarnada liberou energia em uma forma familiar. Uma cortina de energia negra impenetrável lhe recobriu, afastando You como um empurrão suave. A carne da humana Yoshiko, agora sua carne, se misturou à energia como se fosse natural. Desapareceu e subiu aos céus. Voou para longe dali:
"Essa não, ela subiu demais! " Disse um dos batedores, chegando à clareira. A balburdia dos cavalos preencheu o lugar.
"Watanabe! " Reconheceu o terceiro guerreiro a chegar. Em seu ombro pendiam mais patentes do que todos os outros e seu rosto era recoberto por mais cicatrizes do que os braços de todos os outros.
"Capitão. . . " Disse You, sem conseguir livrar-se do atordoamento de toda a situação. "A Tsushima-san. . . O que era aquilo? "
"Agora não é hora de conversar, Watanabe. " Censurou o Capitão corpulento da guarda real. "Você é dotada com magia de voo, não é? Pois vá atrás do Demônio!"
"Demônio. . ." Repetiu You, olhando para o alto. Era impossível distinguir onde estava a Criatura apenas pelo olhar. Sua sensibilidade mágica apontava para um lugar infinitamente distante, para cima.
"O que está esperando, Watanabe?! "
You tinha os olhos na direção onde sabia que, em algum lugar muito acima, devia estar aquela que talvez não fosse mais Tsushima Yoshiko.
Não, ela tinha certeza de que ainda era.
"Desculpe, Senhor. Ela já saiu do raio de alcance. "
