O castelo de Uchiura tinha celas bastante confortáveis, no segundo pavimento, para aquelas ocasiões onde deter uma pessoa era também um ato político bastante delicado. Não que o local fosse utilizado, mas era importante demonstrar preocupação com a possibilidade.
Já as masmorras do castelo, um dos lugares mais insalubres para se estar em todo o país, era usado com uma frequência impressionante desde que a Juíza Kurowasa assumira o cargo. O caso da tentativa do roubo do Cristal de Raburaibu não fora exceção.
Um lugar úmido, cujas únicas fontes de luz eram uma tocha próxima à entrada do lugar e uma janela de trinta centímetros de largura, pela qual entrava uma lembrança de ar respirável durante o dia e uma umidade quase palpável durante a noite. Haviam quatro divisões para prisioneiros ali e naquele momento duas estavam ocupadas.
Yohane, o Anjo Caído, ainda tentava lidar com o desconforto causado pela retenção de sua magia, estava no quadrado mais próximo do corredor de entrada. Tinha uma visão permanente da tocha inútil do lado da entrada e podia ver uns dois centímetros do céu durante o dia. Já Watanabe You estava na quarta divisão, sem ver nenhum tipo de claridade que não fosse refletida pelos distantes olhos de íris rosadas da criatura demoníaca.
Não tinham cama ou coberta e o único alimento que lhes fora oferecido em um dia inteiro fora uma metade de pão endurecido e um copo de água. Yohane teria dado seu pedaço de alimento para a outra, se não fosse impossível atirar algo para tão longe estando com as mãos presas. You agradecera emocionada a boa intenção da Anjo Caído e aquele fora o pontapé inicial da conversa que havia levado todo o período sombrio da noite.
Apesar da dor no nariz quebrado e a voz fanha, You não tinha buscado guardar nenhum segredo nos fatos. Yohane havia escutado tudo sem compreender até o momento que suas lembranças mais distantes retornaram como uma imagem fraca e sem sentimento. A tocha estava apagada quando Yohane recitou as palavras do acordo definitivo que havia feito com Tsushima Yoshiko. O breu fora povoado apenas por sua voz e pelos soluços contidos de You.
Quando o dia amanhecera as duas não pareceram mais capazes de falar sobre nada. E assim estava sendo até a primeira hora da tarde, quando a porta da masmorra estalou. Yohane foi a primeira que viu as duas mulheres se aproximarem:
"Vocês parecem péssimas. Especialmente você, Watanabe." Disse Kurosawa Dia, chegando ao campo de visão da cavaleira presa. Havia uma nota clara de satisfação em seu tom. Ao seu lado, Matsuura Kanan era a total imparcialidade. "Talvez tenha tido tempo de repensar suas escolhas estúpidas em trair o seu Rei. "
You estava jogada contra as grades mais próximas da direção da cena de Yohane. Seu rosto estava pálido e o nariz inchado. Sangue seco manchava seu queixo, pescoço e frente do uniforme imundo. Apesar do estado, ela ergueu os olhos de íris safira com uma determinação intocável:
"Tudo o que este tempo me deu foi certeza. " Disse, a obstrução no nariz fazendo sua voz soar afunilada. Seus olhos foram na direção de Kanan e então retornaram.
"Certeza? " Questionou a Juíza, sorrindo perversamente. "Pois adoraria saber qual é a certeza que alguém como você tem, Watanabe. "
You se ergueu, apoiando-se com os ombros, pois as mãos estavam atadas. Ela então caminhou até as barras de ferro que a separavam de Kurosawa:
"Certeza de que você é uma imbecil, Dia. " Sibilou You. O ódio faiscou nos olhos esverdeados da juíza e esta agarrou o uniforme ensanguentado da outra. Kanan colocou a mão sobre o ombro desta.
"Calma. " Disse a Capitã, com o tom de voz neutro. Seus olhos não estavam em Dia, mas em You. Ela parecia tentar ler o que estava por detrás do olhar obstinado desta. Dia soltou o tecido, mas avançou a mão dando um tapa certeiro no nariz já quebrado da outra. You ganiu e caiu para trás, batendo os quadris e costas na pedra gelada.
"Você está certa, Matsuura. Não tenho porque me alterar com uma traidora. " Disse Dia, tirando um lenço do bolso do uniforme vermelho para limpar a mão. "Ainda mais nas circunstâncias atuais. "
A Juíza tomou o caminho da saída, parando diante da cela de Yohane. O nojo evidente em sua expressão ao fintar a Anjo Caído:
"Sua execução está marcada para amanhã, monstro. " Falou. "Terei o prazer de puxar a corda que irá soltar a lâmina que irá cortar essa sua cabeça amaldiçoada fora. "
Dia se dirigiu à entrada, mas voltou-se, estranhando a falta da proximidade de sua colega:
"Apresse-se, Matsuura. "
"Irei apenas servir a ração das prisioneiras e já retornarei ao meu posto, Juíza. " Disse Kanan.
"Que seja. " Concordou Dia. "Não esqueça de oferecer uma dose de bebida à condenada. Não vamos deixar as tradições de lado só por se tratar de uma criatura abominável. " E tendo dito isto Kurosawa saiu, deixando a porta da masmorra aberta.
Kanan não falou nada. Saiu e retornou com os dois pães e duas canecas. Colocou primeiro a parte de You para que alcançasse quando tivesse disposição de se mover. Depois foi até a Anjo Caído:
"Dê minha parte a minha acompanhante. Seu organismo é muito mais frágil. " Disse Yohane. Kanan hesitou.
"Mas você está sem magia. Deve sentir fome e sede quase como uma pessoa normal. " Argumentou a cavaleira.
"Talvez, mas estarei bem. " Insistiu Yohane. Sem saída, Kanan levou a segunda caneca e pão para a cela de You.
"Eu estava certa. " Foi o que disse a maga arcana prisioneira quando a amiga se aproximou pela segunda vez das barras de sua cela. Kanan ergueu os olhos, atenta. "Yohane lembrou de tudo. Ela e Yoshiko realmente fizeram um pacto de fusão para sobreviver. "
Apesar da penumbra do canto miserável da masmorra, o sorriso no rosto de You era nítido ao olhar de Kanan. Os olhos azuis se encheram de lágrimas que logo começaram a correr pela face abatida de Watanabe.
"Né, Matsuura. " Chamou Yohane. "Espero que você a Mari e a Riri estejam a postos amanhã. Não quero realmente perder a cabeça. "
"Riri? " Indagou Kanan, sem entender. You também ficou surpresa ouvindo aquele nome novo.
"Ah, o disfarce, claro. " Ponderou a Anjo Caído. "Não se preocupem, tenho certeza de que ela vai estar lá. "
"Eu estarei lá, como Capitã da divisão de magia arcana do reino. " Disse Kanan. "Eu e Mari já falamos sobre isso. Ela me disse para intervir apenas caso ela peça expressamente. Preciso manter o meu posto intocável até o limite do possível. "
"Exatamente como uma outra maga deveria ter feito. " Disse Yohane, olhando na direção de You. Esta pareceu ofendida com aquelas palavras, mas Kanan respondeu primeiro:
"Achei que vocês tinham um pacto de fidelidade. " Lembrou a Capitã.
"O pacto diz que ela jamais poderá agir para me prejudicar, não que deverá tomar atitudes sem inteligência para se colocar em situações difíceis que em nada me beneficiam. " Corrigiu a feiticeira.
"Pelos deuses, você tem uma alma gélida como a noite do inverno. " Reprimiu Kanan, irritando-se. "Não dá para entender como You consegue continuar a te amar com toda a alma quando és uma criatura sem empatia. "
Yohane sorriu de lado:
"Isso é algo que também me pergunto, dia e noite. "
A sala de música sempre tão tranquila da casa Takami estava tomada por uma energia pesada. Acordes duros e graves ressoavam pelas estantes e contra o vidro da janela. As teclas brancas e pretas eram bombardeadas sem parar.
Você sabe que amanhã teremos que agir. As palavras de Mari ressoavam como um eco amaldiçoado pelos pensamentos de Sakurauchi Riko. Aquilo alimentava o furor das suas mãos ao piano, lhe fazendo mergulhar em um ritmo impreciso, mutável, inconstante. . . Quando deu-se conta Riko sentiu que era quase uma música ritual que saía de seus dedos.
Parou. Os últimos sons pesadores penderam no ar, sem sustento. O silêncio foi sendo retomado ao fim do improviso. Riko encarava o instrumento diante de si sem sequer vê-lo. Seus pensamentos estavam em fúria.
Como havia sido tola. Tentar viver como uma mulher normal, uma adorável esposa dada à música. Estava condenada desde o começo. Ora essa, ela sabia disso desde o começo, mas havia se tornado acomodada devido à paz e rotina. Ela errara demais em tudo.
De que adiantava agora ter vivido uma farsa em forma de romance se tudo chegaria ao fim na próxima manhã? Pior do que a certeza do fim do seu sonho o que mais doía em Riko era o fato de ter se privado de mostrar-se tal como era para a pessoa que mais lhe importava.
A feiticeira amava Chika como jamais amara outra pessoa. Era contraditório, possivelmente impossível, mas ela se arrependia por jamais ter mostrado seu verdadeiro eu, livre das máscaras de polidez, a namorada. Chika jamais lhe aceitaria como uma bruxa, mas Riko teria sido muito mais feliz se tivesse tomado o corpo e alma da amada sem escrúpulos, respeitando apenas o lado mais primitivo da sua alma pagã.
Mas será que era mesmo tarde demais?
O sino da porta de entrada soou. Riko olhou para a janela e se surpreendeu em notar que era noite. Não precisou aguardar muito para que a porta da sala de música fosse aberta e Chika aparecesse. Ela tinha um sorriso cansado nos lábios quando sentou na poltrona ao centro da sala:
"Estava praticando? " Perguntou a cavaleria. A ruiva afastou a mão das teclas.
"Apenas relendo estas partituras. " Mentiu, apontando para as folhas apoiadas no instrumento. "Você parece cansada. "
"Estou. O dia foi bastante longo, com os preparativos de amanhã. " Disse a maga, recostando-se.
Riko desviou o olhar. Fintou as teclas mais graves do piano e passou as pontas dos dedos sobre elas, sem lhes martelar:
"Fala do julgamento do Anjo Caído. " Disse.
"Não é um julgamento. É uma execução. " Falou Chika, com notável satisfação na voz. Riko apertou os olhos, ainda com o rosto voltado para longe e levantou. Foi até a poltrona e, sem rodeios, sentou-se no colo da cavaleira. "R-Riko-chan? "
"Né, Chika-chan. . . " Começou a pianista, levando os dedos longos e delicados para brincar com as abotoaduras do pescoço do uniforme da mulher de cabelos alaranjados. "Você não teve medo, nem por um instante, de estar fazendo algo ruim? "
"Do que está falando, Riko-chan? " Questionou a maga, sem conseguiu demonstrar-se imparcial diante da proximidade inesperada da outra. "Acha mesmo que pode haver injustiça contra uma criatura abominável como o Anjo Caído? "
Riko olhou para o relógio de parede talhado em madeira de lei que pendia na parede da sala:
"Ainda não ceaste, imagino. " Comentou, parecendo quase ignorar o assunto da conversa.
"Pedi para que a Dona Kist servisse as nossas porções e se retirasse para seus aposentos. " Disse Chika, parecendo aturdida.
"Perfeito. " Sorriu Riko, fintando enfim a outra nos olhos. Chika prendeu a respiração por um momento.
"R-Riko-chan. . . " Disse ela. "Aconteceu alguma coisa? "
"Sabe, Chika. . ." Começou a musicista, aproximando o rosto da orelha da outra mulher. "Eu sempre me pergunto sobre minhas decisões e atos. Sempre. "
Indiscriminadamente Riko depositou um beijo quente logo atrás do lóbulo da orelha da cavaleira. Chika inspirou ruidosamente, tencionando os braços apoiados na poltrona.
"R-Riko. . . Ah. . . " Chika não pode evitar deixar escapar uma longa nota de satisfação conforme os beijos de Riko começaram a traçar uma linha no seu pescoço. Ela segurava os braços da poltrona com as mãos firmes, como se tivesse medo de ser arrancada dali à força. "E-Ei. . . "
Riko abriu cada botão da camisa grossa do uniforme da maga arcana e foi distribuindo beijos ao longo da pele que ia sendo revelada. Chika estava em choque, pois jamais havia visto a ruiva ter uma atitude tão incisiva.
"Eu nunca me arrependi de nada na vida. Nada realmente. " Disse Riko, já estando abaixo da metade da linha dos botões reforçados. "Mas tenho pensando se não cometi um erro terrível. "
"Do q-que está falando, Riko-chan? " Questionou Chika, desesperada ao sentir as mãos da pianista trabalhando na abotoadura da sua calça. Riko abriu um sorriso diferente de todos os que já mostrara à sua enamorada.
"Talvez eu não devesse ter tentando ser alguém perfeita para você. " Respondeu.
"Espera! " Alarmou-se a maga, colocando as mãos entre Riko e seu objetivo. "Eu não estou entendo o que está acontecendo. "
"É disso que estou falando, Chika. " Meneou a ruiva, sem impacientar-se com a resistência da outra. "Todos esses meses eu fui uma reservada pianista. Tão perfeita, tão pudica. . . Ao perceber o tamanho dessa bobagem também percebi que você nunca sequer me deixou conhece-la como o apropriado. "
"M-Mas. . . "
"Tanta coisa que eu te escondi, tanta coisa que eu não me permiti. " Continuou Riko. Seus olhos pareciam hipnóticos para a cavaleira. "Tudo isso para que agora tudo venha abaixo do dia para a noite. "
Chika não conseguia raciocinar bem. Sentia o corpo terrivelmente quente:
"Depois de todo o meu esforço tolo, bastará um momento para que você jamais me ame outra vez. " Falou a musicista. "Eu sequer pude te mostrar a força dos meus sentimentos. "
"R-Riko. . . " Gaguejou Chika, o receio e ansiedade pelo que estava acontecendo misturados dentro de si. Nunca tinha visto aquela atitude em Riko, não conhecia aquilo, mas ao mesmo tempo pensava se não havia sido ela quem não tinha permitido a outra mostrar-se por completo.
"Antes do fim eu só preciso provar, uma única vez, que meus sentimentos são mais verdadeiros do que quaisquer outros, Chika. " Disse a feiticeira, sentindo dentro de si a satisfação do controle. "Para que mesmo você jamais possa duvidar de que eu te amo com toda a vontade do meu coração. "
Chika não queria, nem poderia mais resistir. Arfou ruidosamente quando sentiu o toque dos lábios da amante sobre si. Jogou a cabeça para trás para não ver o que cada centímetro do seu corpo sentia de maneira explosiva. Existia um motivo bem claro para que ela não tivesse se entregado antes daquela maneira a outra: tinha vergonha de si, do que seu corpo era. Teve tanto medo do julgamento que a outra faria quando visse aquilo que se privou de metade da felicidade que apenas os apaixonados podem ter em conjunto. Agora era impossível evitar, não tinha controle sobre si mesma. Estava presa àquela hipnose inexplicável que a outra tinha sobre si. Se fosse para ser o fim, seria o fim da admiração que a namorada tinha nela.
Só que Riko não pareceu se importar em nada com o que vira. Era verdade que não tinha imaginado que seria daquela maneira, mas ao mesmo tempo compreendia assim toda a reserva que Chika tivera com o próprio corpo. Uma bobagem, não era assim algo a se dar tanta importância. Riko avançou com beijos apaixonados, tendo toda sua amante ao alcance de língua e lábios. Sentiu-se derreter no calor daquele envolvimento. O sentimento era tamanho que era incapaz de conter os próprios suspiros ruidosos da paixão. Tinha o controle, tinha todo o controle. Chika tremia sob sua condução cuidadosa. A cavaleira não era capaz de refrear as sensações que jamais se permitira antes. Levada ao limite para então retornar para a realidade:
"Isso foi incrível. " Disse Riko, limpando o rosto com a manga do vestido.
"Riko. . . " Disse a maga arcana, sem forças.
A ruiva levantou e olhou para a figura bagunçada de sua amante. Sorria e Chika lhe encarava com uma mistura complicada de cansaço, surpresa e confusão:
"Sinto muito por ter escondido tanto, minha cavaleira de tanta nobreza. " Falou a feiticeira. "Mas eu não poderia arriscar que me enviasse para a guilhotina durante o sono, como estás a fazer com Yohane. "
Chika franziu a testa e encarou a outra. Estava tonta por conta do cansaço, mas sentia que havia algo agindo sobre seu topor mental:
"Espera. . . Do que você está falando ? "
"Chega de conversa, meu bem. " Pontuou a ruiva. "Hora de dormir. Para que amanhã não possa me atrapalhar. "
E, com um gesto sutil com a mão, Riko fez Takami Chika cair em um sono encantado. Ela falava sério sobre não querer se atrapalhada no resgate de sua irmã de bruxaria.
