Dia levantou do leito, mal deu dois passos e caiu. Estava sozinha na enfermaria nunca utilizada do prédio anexo ao Castelo de Uchiura. Seus músculos ainda se recusavam a obedecer, tensionados e quase totalmente paralisados, apesar de já ter tomado duas doses de elixir para quebrar o feitiço. Ainda assim ela conseguiu levar os braços aos apoios metálicos da cama e se ergueu. Seu maxilar doía da pressão artificial que era obrigada a fazer. Se pudesse falar teria deixado sair de si uma das poucas palavras de baixo calão que já se permitira na vida. Alcançou o frasco com o restante do elixir e virou todo o conteúdo na boca.
O castelo estava cheio de guardas nos níveis inferiores, mas no alto da torre não havia ninguém. Não era para ser esse o protocolo. Dia se arrastou pelas escadarias que levavam ao topo da torre e não ouviu sequer passos ou tinlintares de armaduras vindos de baixo. A sensação apavorante de que algo estava errado tomava conta dos pensamentos da cavaleira enquanto ela lutava contra os músculos paralisados.
Último andar. As portas duplas da sala que guardava o Cristal de Raburaibu estavam entreabertas. Dia tirou forças do fundo da própria alma para colocar o corpo em movimento em uma corrida desenfreada à entrada:
"Parados!" Foi o berro que Kurosawa deu ao pular contra a passagem destrancada. Pode ver os dois vultos e, sem dar-se tempo nem para piscar lançou uma magia púrpura violentíssima com ambas as palmas das mãos.
Dia não sabiam quem eram aquelas duas mulheres, mas sabia que iria pulverizar o corpo de pelo menos uma delas. Teria sido perfeito se no momento derradeiro a outra invasora não tivesse saltado em um resgate quase suicida:
"Leah! Cuidado! " Foi o berro da salvadora. Ela empurrou a mulher mais baixa para longe e se conjurou um escudo energético.
"Sarah onee-chan! " Gritou Leah, ao cair e ficar momentaneamente cega pela claridade do impacto entre a magia de Dia e o escudo.
Porém a magia de Dia era forte demais. O escudo explodiu junto com o feitiço, lançando Sarah para longe. . . Ou melhor, para perto, perto do Cristal. Sarah colidiu direto o suporte do objeto sagrado. Caiu por cima de tudo e, ao tentar se apoiar, acabou apoiando-se diretamente sobre o Raburaibu.
Dia teve apenas uma fração de segundo para perceber a dimensão da própria estupudez. Apenas um par de milisegundos entre o toque de Sarah no Cristal e a explosão de magia em proporções que a cavaleira jamais tinha visto na vida.
Não foi poder que paralisou Dia. Foi o frio. Tão intenso que transformou todo o ar em gelo por toda a torre e por boa parte do céu que cobria o castelo de Uchiura.
A violência absurda dessa expansão de energia foi sentida por toda a cidade e arredores. O frio varreu tudo de imediato e as pessoas comuns congelaram no mesmo lugar que estavam, antes mesmo do gelo as alcançar. Um som como um grito gutural se espalhou pelo ar enquanto o céu era recoberto por pesadíssimas nuvens que se materializavam por todo lado.
O gelo continuou se expandindo incrivelmente rápido. No salão real, Kunikida Hanamaru olhou para os soldados e oficiais ao redor e notou que estavam todos paralisados. Soltou as abotoaduras da pesada capa e deixou que a energia da magia arcana fluísse pelo seu corpo. Ela era o Rei, mas também era uma das mais talentosas magas arcanas de Numazu. Usou seus músculos reenergizados para saltar para fora do castelo, atravessando a janela ornada de vitrais seculares como se nada fossem. Pousou nos jardins e saltou mais duas vezes para alcançar os estábulos. Ofegava pelo esforço quando desprendeu seu cavalo. Olhou uma vez mais para o castelo, agora já inteiro congelado antes de atravessar a saída principal.
Tinha que ativar o pingente que lhe mantinha em contato com Ruby. Tinham que sair da cidade o quanto antes. Não conseguia imaginar até onde o gelo era capaz de avançar. Sentiu-se uma governante incrivelmente incapaz ao pensar na pouca quantidade de recursos que tinha ao seu dispor.
Porém, Hanamaru sentiu presenças mágicas se movendo em uma das ruas laterais e avançou aos galopes. Colidiu contra uma pilha de caixotes e teve que frear quando se viu na mira das pessoas que menos imaginaria ver logo agora:
"M-Magestade?! "
"Matsuura. " Disse Hanamaru, seus olhos fintando rapidamente o grupo. "Parece que Yohane tinha mais amigos do que esperaríamos. . . "
"Não temos tempo para assuntos nobres agora, Grande Magestade. " Debochou A Anjo Caído.
"Concordo. " Disse Kunikida, surpreendendo Yohane. "Peguem cavalos e saiam da cidade o quanto antes. Se abriguem no Quartel da ordem arcana se o gelo não chegar até lá. "
"Isso é um acordo? " Questionou Yohane, ainda incrédula.
"Somos as únicas pessoas com energia mágica em milhares de quilômetros quadrados. Temos que sobreviver para tentar reverter seja lá o que tenha acontecido. " Colocou Hanamaru. "Agora vão. Irei me encotrar com Ruby e ir para lá também. " E tendo dito isso a Rei voltou a montaria e afastou-se. A neve começava a cair e o gelo já fazia sombra, se aproximando muito rápido.
Kanan se voltou para aquele seu grupo incomum:
"Vamos pegar os cavalos e fazer isto. É tudo o que podemos fazer. " Disse a maga. Todas avançaram para o estabulo próximo e pegaram montarias. "Sakurauchi? "
Riko já avançava na direção que o Rei havia partido. Ela não refreeou o impulso do animal para falar uma última vez ao grupo:
"Encontro vocês no quartel."
Yohane, montada em um belo cavalo negro, com You na garupa abraçada em si fintou as costas da irmã de pacto por um breve momento e então voltou-se para Kanan e Mari:
"Vamos."
"Essa criança, essa. . . Coisa. Isso é uma aberração! " Berrou a mulher de cabelos grisalhos, brandindo a bengala. Sua cadeira estava no ponto focal da sala de estudos da confortável residência no subúrbio de Uchiura.
"Mamãe, fale mais baixo! " Pediu o homem de cabelos e barbas ruivo-cobreados. Seus olhos foram para a porta única da sala. Estava fechada, mas isso não diminuía a sensação de incomodo que ele sentia. "Ela pode acabar escutando! "
"Que escute! Eu lhe digo isso todos os dias para que nunca esqueça que é uma anormal. " Disse a senhora, com o tom de repugnância ao máximo. O homem, um cavaleiro arcano, sentiu o queixo cair diante daquela maldade.
"Por Deus, ela é só uma criança! Como pode ser tão cruel? " Questionou ele. "A pobrezinha não tem mãe, mal vê o próprio pai e tem que ouvir essas coisas horríveis da única parente que tem por perto. . . "
"A culpa de tudo isso é sua, Yusuke. " Acusou a matriarca. "Essa criança nasceu amaldiçoada como um castigo pelos seus pecados. "
"Não." Rosnou o homem, a expressão contraída e os olhos fechados. "Por favor, não fale disso outra vez. Eu sou seu filho, mas sou capaz de perder a razão se falar o nome de Hikari em vão outra vez. "
A velha fungou em desaprovação, mas não falou mais nada. Yusuke suspirou, cansado e decidiu que a discussão havia terminado. Ao sair para o corredor e fechar a porta ele sentiu o coração apertar no peito: sua pequena filha, de apenas oito anos, estava sentada à alguns metros, nos primeiros degraus da escada que levava para o segundo andar:
"Ei, minha princesinha. " Ele disse, puxando o melhor sorriso e tom mais amoroso do fundo de si mesmo. "Achei que ia ficar mais tempo brincando com suas amiguinhas. "
"É que começou a chuviscar. " Explicou a pequena, sem disfarçar o tom amuado. Aquilo doía no peito do pai que sempre carregava a culpa de uma vida ocupada.
Ele foi até as escadas e sentou nos degraus. Colocou a mão sobre os ombros pequeninos da filha, acarinhando. Ela fintava uma boneca de pano pequena que tinha entre as mãos. Eles permaneceram em silêncio por algum tempo:
"Papai? "
"Sim? "
"É verdade que a mamãe era uma bruxa? " Perguntou a pequena. "A vovó vive dizendo isso. . . "
Yusuke franziu as sobrancelhas e inspirou fundo:
"Sua avó fala muitas bobagens. Você não precisa acreditar nessas coisas, meu bem. "
A menina voltou os olhos castanhos para o pai. Olhos acuados, como se temessem em sofrer algum castigo:
"Não preciso acreditar quando ela fala que a mamãe era ruim? "
"Não, nunca acredite nisso. " Confirmou Yusuke. Porém em vez de ver tranquilidade ele viu o brilho assustado se multiplicar nos olhos da pequena.
"Nem quando ela diz que eu sou um monstro? "
Yusuke sentiu como se tivesse levado um soco nos pulmões. Quase não pode respirar por um momento. Piscou e se levantou do degrau para se colocar de joelhos diante da menina. Suas duas mãos enormes pousadas nos ombros dela:
"Chika. . . Você não é um monstro. " Disse o cavaleiro, sem conseguir retirar todo o tom pesaroso da voz. "Você é só. . . Diferente, mas não tem mal isso. "
"Na escola o professor Gibs diz que ser diferente é ruim. Os pagãos são proibidos de entrar em Akiba porque são ruins. Diz também que Deus não gosta de. . . "
"Não! " Sobrepôs o homem, quase assustando a menina. "Ele está errado, sua avó está errada. . . Chika, você é como qualquer outra criança. Não importa que algo seja um pouco diferente. Por Deus, ninguém consegue nem notar. "
A garota tinha os olhos muito abertos. Encarava o pai como se fosse a primeira vez que o visse na vida. Yusuke podia ver que lá dentro dos pensamentos sinceros de criança Chika entendia pela primeira vez que talvez realmente não fosse uma aberração:
"Minha princesinha. " Continuou o cavaleiro, num tom muito mais amoroso. "Prometa que não vai acreditar mais nessas besteiras que sua avó diz. Prometa. "
Naquele momento, Takami Chika sorriu com esperança:
"Prometo."
Foi um momento único. Tão poderoso quanto fugaz. Dois meses depois Yusuke morreu em batalha sem que Chika tivesse tido a chance de dizer que vinha se esforçando para cumprir sua promessa. Quando chegou a notícia a garota teve certeza de que aquele havia sido o fim não apenas do pai que tanto havia amado, mas também o fim da única pessoa no mundo que poderia mostrar-lhe algo diferente do ódio.
"Sua anormal! "
"Você tem um corpo amaldiçoado, criança aberrante! "
Chika pensou em contar sobre si mesma pra You, sua melhor amiga. Mas sua imaginação formava imagens convicentes de expressões de nojo e desprezo de You e isso era o bastante para amedrontá-la.
Ninguém jamais precisaria saber. Tudo o que ela precisava era ser perfeita em todos os outros aspectos e ninguém jamais suspeitaria.
Perfeita. Ela ainda poderia ser perfeita, apesar de toda a maldição sobre seu corpo. A perfeita cavaleira arcana. A perfeita herdeira do legado da tradicional família Takami. Perfeita em julgamento, perfeita em batalha, perfeita em compostura. Tudo o que precisava era continuar sendo perfeita.
Só que o mundo teimava em sair do controle.
Chika caiu de costas quando a porta do quarto abriu sob seu peso. Depois de bater a cabeça duas vezes nos cômodos anteriores ela conseguiu evitar mais um galo. Estava com as mãos atadas, sem seu poder mágico, mas ainda era a dona daquela casa e sabia muito bem onde encontrar algo que lhe ajudasse a livrar das algemas. Arrastou-se de joelhos para baixo de cama, onde uma pequena arca estava guardada. Empurrou com as mãos atadas até emergir novamente no quarto. Com alguma dificuldade puxou o cordão com pingente em forma de folha de tangerina do pescoço. Usou o enfeite como chave para destrancar o baú:
"Aquele Anjo Caído. . . " Resmungou a cavaleira, pegando uma gema bruta de cor vermelha. Sussurrou o feitiço específico e respirou aliviada quando o laço mágico se desfez. "Nada civilizada. "
Levantou e olhou ao redor. A casa estava mergulhada em silêncio. Riko havia mencionado os empregados, provavelmente os havia deixado também sobre um sono encantado. Melhor assim. Decidiu sair dali mas acabou parando diante do espelho de corpo inteiro ao lado da entrada do aposento.
Anormal.
Isso foi incrível.
A imagem de Riko lhe fintando após o ato, os olhos cheios de paixão. Chika sentiu o corpo reagir apenas ao lembrar das sensações. Riko tinha lhe tomado e aceitado por completo. Talvez fosse uma louca, talvez todas as feiticeiras fossem loucas. Pecadoras tenebrosas, criadoras de feitiços e danças ao redor do fogo. Mulheres amaldiçoadas a nunca entender os verdadeiros desígnios do Criador. . .
Antes do fim eu só preciso provar, uma única vez, que meus sentimentos são mais verdadeiros do que quaisquer outros, Chika.
"Riko. . . Riko. "
Os pensamentos embaralhados de Takami foram jogados de lado quando a sensação opressora de poder sobreveio. Chika sentiu todos os pelos arrepiarem diante da magnitude daquela força. Um silêncio absoluto lhe sobreveio àquela sensação.
Vinha do castelo.
Correu escadaria abaixo e dali para rua. Seu cavalo relinchou alto do lugar onde estava preso, mas todas as pessoas que transitavam ali ficaram imóveis, como se congeladas no mesmo lugar. Estava incrivelmente frio de repente:
"Mas que. . . "
Nuvens pesadas surgiram no céu ao norte, sobre o castelo e se espalharam por todo o céu num crescente ameaçador. Chika sentiu mais uma vez o arrepio pelo corpo quando percebeu que todo o castelo estava envolto por gelo.
Elas tinham feito aquilo? Mas Yohane havia dito que iria resgatar You. . . Ora, como se fosse realmente possível confiar em feiticeiros e suas promessas. Tudo havia sido parte de uma encenação.
"Chikaaa! " Ressoou a voz vinda pelas ruas sem movimento.
"Riko-chan. . . " O coração da cavaleira perdeu o compasso no peito. Só então ela percebeu que já havia começado a nevar.
"Chika! " Repetiu Riko quando seu cavalo surgiu galopando pela via. "Você se libertou. Graças aos deuses. "
"Eu. . . "
"Precisamos sair da cidade. " Disse a feiticeira com urgência. "Alguém chegou ao Raburaibu e agora tudo está sendo congelado. O Rei em pessoa nos disse para ir para o quartel dos magos arcanos, fora da cidade. "
"O Rei?! " Surpreendeu-se a maga. Ela estava atordoada, sem saber se acreditava ou não naquelas palavras.
"Vamos, Chika! " Repetiu Riko, oferecendo a mão para que a outra subisse na garupa da sua montaria. Seus olhares se cruzaram. Chika olhou para seu próprio cavalo amarrado e de volta para a feiticeira. "Ele vai ficar bem depois que esse gelo mágico for desfeito. Agora venha! "
Chika hesitou. Estava muito frio agora, a neve cobria seus pés e ombros. A sombra da calota de gelo crescente estava visível há algumas dezenas de metros. Riko lhe encarava com súplica. A cavaleira se questionou se não deveria ficar ou mesmo enfrentar a bruxa.
Sua idiota, sua idiota.
Chika segurou a mão de Riko e se impulsionou. Sentou na garupa e a ruiva não hesitou em colocar o cavalo para correr.
