Hanamaru sempre tivera uma memória excepcional, ainda mais quando se tratava de leituras. Foi por isso que, durante a acalorada discussão que se instalou à chegada de Kazuno Leah no forte dos Magos Arcanos de Numazu sua mente aproveitou um instante de debate particularmente redundante para deixar sua mente voltar alguns anos no tempo, para uma ocasião quase ordinária, mas que, naquele instante, faria toda a diferença para o futuro do seu reino.
"Né, Hanamaru-chan, nós não deveríamos estar aqui. . . "
Estava tudo mergulhado em um breu absoluto. Hanamaru conseguia sentir a presença próxima das duas pessoas que mais confiava na vida:
"Você podia parar de ser tão medrosa e iluminar um pouco o ambiente, zura. " Disse a herdeira do trono do pequeno Reino. Ela não aguardou resposta e conjurou chamas mágicas amareladas, sobre as palmas das mãos.
Era uma biblioteca subterrânea no centro do Colegiado Real de Akiba. A entrada era proibida mesmo para os estudiosos de alta qualificação do lugar, mas mesmo assim a herdeira estrangeira do pobre reino vizinho tinha dado seu jeito de acessar as escadarias secretas para o andar mais profundo. O ar ali era parado e viciado, o odor de mofo cutucando os narizes das jovens:
"A-Atchoo! D-Desculpem. . . "
"Você está bem, Yoshiko-chan? " Perguntou a futura rei. "Este lugar parece bem ruim para alguém de saúde fraca. "
"Estou bem. Eu. . . " Hesitou Yoshiko, voltando os olhos escuros para as dezenas de prateleiras a frente. "Eu também quero ver o que tem aqui. "
Hanamaru sorriu diante da curiosidade legítima da sempre medrosa Tsushima. Ruby ainda mantinha a expressão nada convencida do que faziam:
"Se descobrirem que entramos aqui, vão nos prender. " Falou.
"Seria um incidente diplomático e tanto. " Riu-se Kunikida. "Vamos tratar de dar uma boa olhada e depois sair de fininho. "
Ela avançou na frente, com as chamas mágicas iluminando os arredores. Foi observando os títulos das sessões até parar diante da intitulada 'Magia Ancestral Celta':
"É isto. " Falou.
"Por Deus, logo na parte de Magia Natural. . . " Choramingou Ruby. Já Yoshiko tinha o mesmo olhar de avidez que Hanamaru sabia estar portando. Não precisou nem dizer duas vezes para que esta começasse a vasculhar os volumes.
Aprender Magia Natural era algo proibido. Em Numazu não chegava a ser criminoso, mas os pagãos eram tratados como escória diante do poder governamental. Em Akiba sim era algo grave. Feiticeiros eram decapitados, crucificados ou queimados em praça pública sob o olhar do Alto Sacerdote e Santo Sacerdote, as duas figuras místicas vivas mais importantes da nação.
Ainda assim Hanamaru queria ler aqueles livros. Ela era a futura governante do insipiente Reino de Numazu e tinha desde aqueles tempos o objetivo de tirar seu país da posição medíocre na qual seu vizinho poderoso lhe colocava. Não que fosse se tornar uma feiticeira, mas apenas uma mente conhecedora de todos os tipos de saberes teria capacidade de guiar um povo desacreditado a um novo patamar:
"Tratado Ancestral de Dominação Natural. . . " Leu Yoshiko, sentada com um pesadíssimo volume em capa de couro no colo. Hanamaru interessou-se pelo título e ajuntou-se para folhear a obra.
Gráficos detalhados sobre o fluxo de energia vital em largas paisagens foram de complexidade de fascínio para suas mentes curiosas. Depois o estudo mostrou comparações entre a movimentação de energia no corpo humano em relação ao mundo. Hanamaru jamais havia pensado sobre aquilo, mas a ideia era muito bem explicada.
Haviam feitiços por todas as partes. Para medir a quantidade de energia mágica pura presente no ar, para mudar o fluxo, para reverter o fluxo. . .
Isso. Era esta a parte que estava procurando.
Fluens. . . Braccens. . . Verbera. . . Lungens. . .
Quase isso.
Revertio Fungens.
Hanamaru abriu os olhos quando o feitiço ressoou em seus pensamentos. As vozes alteradas da discussão no tempo presente retornaram como se alguém tivesse desmudado da realidade. A Rei voltou os olhos para o que acontecia diante da mesa a sua frente.
"A única maneira de destruir esta criatura é também destruir o núcleo ao qual está presa. " Dizia Matsuura Kanan, a séria Capitã das forças arcanas insipientes de seu Reino.
"Não! " Berrou Kazuno Leah, até então sentada na cadeira imediatamente a frente do Rei. Ela se ergueu num movimento brusco e voltou-se para encarar a maga. "Se fosse para ouvir uma solução estúpida como esta eu não teria me dignado vir até aq- "
Leah engasgou e paralisou no meio da fala. Olhou para o lado e viu que sua guarda-costas tinha a mão estendida na direção da feiticeira de gelo:
"Ruby. " Alertou Kunikida e Kurosawa soltou a outra do agarrão. A habilidade em Alquimia Daoista da família de Ruby e Dia era um trunfo de Numazu, mas também algo que assustava pela singularidade de sua manifestação.
A situação era complicada. Segundo a explicação de Leah, o Cristal de Raburaibu carregava uma energia ancestral selvagem que, ao ser tocado acidentalmente por sua irmã, Sarah, havia se libertado e explodido da maneira que tinham visto. Não era Sarah Kazuno quem controlava o poder do Raburaibu, mas sim o Cristal por si próprio que utilizava o núcleo mágico da feiticeira de gelo para se governar.
A sugestão de Kanan não tinha sido ruim, afinal, era o melhor que poderia ser feito com Magia Arcana: destruir o núcleo mágico de Sarah poderia matá-la, mas também retornaria o Cristal para a inatividade.
Mas o mundo não se limita a Magia Arcana:
"Existe um meio. " Sobreveio a voz de Yohane. A sala estava apinhada com todas as sobreviventes daquele caos e todas se voltaram para a feiticeira.
"Do que está falando, Anjo Caído. " Quis saber Matsuura, tendo um tom mais próximo do respeito do que do desafio em sua voz.
"É um feitiço também ancestral. Ele é capaz de reverter o fluxo de energia e mesmo separar essas energias misturadas do cristal com a do núcleo da maga do Norte. "
Hanamaru sentiu o queixo cair de leve diante daquela descrição:
"Por Deus, existe mesmo algo tão poderoso na feitiçaria? " Perguntou a capitã, visivelmente assombrada.
"Não é algo que qualquer um possa realizar. " Alertou Yohane, a expressão compenetrada. "Eu diria que entre os humanos destes tempos não exista algum com quantidade de poder para lidar com tal encantamento. "
A expressão de Kanan nublou-se diante daquelas palavras, mas Hanamaru não deixou que a discussão morresse quando estava tudo tão próximo da solução:
"Mas você não é um humano ordinário, não é isso, Anjo Caído? " Falou a governante. "Certamente possui magia mais do que o suficiente para tal feito. "
Yohane não conseguiu reprimir o ar de satisfação em seu rosto ao ouvir aqueles elogios. Cruzou os braços diante do corpo, o vestido escondido pelo sobretudo de inverno:
"Irá ajudar? O Maldito Anjo Caído. . . " Questionou Leah, não conseguindo colocar seu desespero na frente dos seus instintos de sobrevivência imediatos. A mera presença da criatura meio-humana, meio-celeste lhe fazia temer por seu pescoço a todo instante.
"Sou uma Feiticeira Natural como você, Kazuno do Norte, de uma tradição ainda mais antiga e pura do que a sua. " Disse a mulher-demônio, com os olhos rosáceos brilhantes na direção da estrangeira. "Talvez no Norte vocês tenham esquecido dos princípios mais básicos sobre presas pelos Ciclos Naturais, mas não aqui. " Falou, caminhando dois passos para o centro da sala que lhe auscultava atenta. "Além disso tenho muito em dívida com as pessoas que querem a reversão do desastre em Uchiura, então é natural que ajude. "
"Sem falácias, Criatura Sombria. Você não arriscaria sua existência nem por toda a lealdade dos Sete Mundos. " Atacou Leah, sentindo gritar dentro de si o instinto de fugir dali para não ser estraçalhada.
Yohane sorriu de lado, afinando os olhos:
"Este Cristal não é nada perto do meu poder, Maga do Gelo. " Sibilou, com a voz num sussurro audível. "Talvez perceba isto se provar um pouco da minha força assassina. . . "
"CERTO. " Interrompeu Hanamaru, batendo as mãos na mesa e levantando. "Acho que temos um plano bem claro diante de nós, com esta possibilidade, zura. "
"Abrir caminho até o Castelo de Uchiura e colocar Yohane lá para que possa adormecer o Cristal. " Disse Kanan, prontamente. "Creio que não será um trabalho simples mesmo estando as três Cavaleiras Arcanas presentes. "
"Oh Honey, não se esqueçam de nós. " Disse Mari, parecendo imune à formalidade que Kanan parecia carregar o tempo inteiro pendurada no pescoço. "Temos muitos truques para ajudar a abrir caminho. "
"Também estarei com vocês. " Disse Ruby, sua voz também pesada em responsabilidade e seriedade.
"Todas estaremos nisto. " Acrescentou Hanamaru, recebendo olhares surpresos. "Não estamos em uma situação privilegiada onde a hierarquia conta para alguma coisa. "
"É possível que essa força selvagem do Cristal nos perceba e tente nos atacar, Kazuno-san? " Questionou You, com a expressão concentrada.
"Sim. Podemos esperar todas as manifestações de uso de magia do gelo para nos impedir. " Confirmou Leah.
"Então melhor deixar as fórmulas de magias incandescentes a mão. " Disse Riko, com um sorriso para Yohane. Chika lhe encarou com estupor total.
"That's Right, Riri! " Confirmou Mari, fazendo um sinal com a mão que não era entendível por aquelas bandas do mundo.
"Devemos partir de imediato, Kunikida-sama? " Perguntou Kanan, demonstrando com aquele tratamento que entendera a intenção de Hanamaru de acompanhá-las no campo de batalha.
"Já passa da metade do dia, zura. " Refletiu a governante. "É melhor que nos preparemos para partir ao primeiro raio do próximo alvorecer. Devemos evitar ao máximo discorrer em uma batalha gélida nas trevas da noite. "
"Muito sensata, Zuramaru-sama. " Elogiou Yohane. Hanamaru e a feiticeira imortal cruzaram o olhar e, naquele momento, a Rei entendeu de maneira muito mais profunda e real a dimensão do que era aquele ser que descendia da alma de sua antiga amiga de infância.
A discussão sobre os detalhes do plano durou ainda mais uma hora. Não era algo tão complexo para necessitar de questionamento. Ruby foi quem ofereceu maior resistência ao planejamento, quando foi colocado que ela deveria partir para ofensiva na companhia de Leah, no primeiro pelotão que iria avançar gelo adentro. Hanamaru teve que ser muito incisiva para que a Kurosawa entendesse que não iria fazer sua guarda e era isto.
Com planos traçados, parte do grupo tratou de preparar os vestuários e montarias para a jornada. Também precisariam de um mínimo de água e mantimentos para o caso da batalha se prolongar mais do que o devido. Mari e Yohane também se ocuparam na preparação de selos pré-formatados para a execução veloz de magias elementais de fogo.
Chika ainda sentia muitas dores devido ao golpe no abdômen, então Riko lhe levou para a precária enfermaria do quartel. A bruxa levou consigo um unguento que Mari havia estocado nos aposentos de Kanan clandestinamente e também um amuleto para amplificar o mínimo de suas habilidades deficientes:
"A magia arcana da Watanabe-san apenas fez seus tecidos fecharem em uma velocidade muito mais rápida. " Disse a feiticeira, observando a aparência do golpe recém tratado pelo tecido rasgado. "É o máximo que Magia Arcana é capaz, presumo. "
"Somos treinadas como soldados para que não precisemos de curas mais complexas. " Disse Chika, franzindo a expressão quando a pianista apertou os arredores do golpe com as pontas dos dedos.
"Preciso que isto limpe por dentro e que se reconstitua. . . Vejamos. " Riko pegou o potinho de unguento, uma mistura viscosa de tom cinza-petróleo com cheiro forte de enxofre e, sem receio, passou uma quantidade generosa na ferida da cavaleira.
"Ouch! " Reclamou Chika quando sentiu a mistura esquentar sobre a pele e começar a penetrar. Riko tinha as mãos sobre o local e franzia a testa em concentração.
"Agora, preciso só. . . " Disse Riko, mais para si mesma do que qualquer coisa. Chika pode ver quando as palmas das mãos da feiticeira se iluminaram de leve com uma luz verde clara. "Tenho certeza de que a Mari-chan ou a Yocchan fariam isto em um piscar de olhos. . . Agora eu. . . "
"Por que diz isto, Riko-chan? " Quis saber Chika, encarando a amante, ainda com a expressão tensionada pelo ardor constante no local da ferida.
Riko pareceu despertar do seu momento de concentração e olhou para Chika. Ela estava praticamente ajoelhada diante da cavaleira, mas seu olhar não tinha nenhuma nota de subordinação:
"Eu sou uma feiticeira aleijada, Chika. " Disse a musicista. "Tive meu núcleo mágico arrancado a força quando ainda era uma criança. Apesar de ter recuperado um pouco de minhas habilidades, a verdade é que sou inútil sem ajuda de amuletos e outros artefatos. "
Chika fintou a amada com choque na expressão:
"Teve o núcleo arrancado? I-Isso parece horrível. . . "
"É como ter o coração arrancado do peito enquanto se assiste. " Comparou a ruiva. "A dor das artérias e veias se partindo é a dor dos fios de energia que circulam o espírito sendo rasgados à força, como cordas. "
Chika prendeu a respiração ao ouvir aquilo. Um arrepio lhe percorreu as costas, lhe enfraquecendo as pernas:
"O que. . . P-Por que. . . " Tentou perguntar, sendo incapaz de articular palavras mais diretas para tal atrocidade.
"Os Sacerdotes de Akiba fizeram isso. " Disse Riko. "Quando descobriram que meus pais eram mais do que músicos, mas feiticeiros de uma antiga linhagem. Eu assisti de perto quando tiveram as cabeças arrancadas. Estive acordada durante todo o tempo em que arrancaram meu núcleo mágico. Tudo em nome da pureza mágica do Reino. "
Chika pensou que fosse vomitar por um momento. Os sacerdotes que tanto haviam sido seus guias e exemplo eram capazes de realizar coisas macabras como aquilo que Riko lhe dissera. Tudo em nome do Bem, de Deus e da Santíssima Força Una. . . A cavaleira sentiu-se mais patética do que nunca, naquela sua posição de tamanha corretude:
"Como fui cega. Como foi estúpida. . . Acreditar que havia uma bondade inegável a ser defendida. . . " Disse. Riko voltou a concentrar-se na magia curativa e Chika voltou a prender a respiração quando o ardor no abdômen retornou.
"Apesar das circunstâncias, eu agradeci à Yocchan por ter surgido em Uchiura. " Disse a pianista, após vários minutos de terapia mágica. Pareceu terminar o procedimento e levantou-se. "Só assim tive a chance de repensar e entender mais sobre meus sentimentos e sobre o que me move. "
Chika também levantou, evitando os olhos claros da amante:
"Você também devia agradecê-la, Chika-chan. "
"Nem nos meus pesadelos atrozes. "
A ceia foi feita antes mesmo da noite cair por completo. Todas se retiraram para descansar cedo, pois teriam que estar a postos antes do nascer do dia decisivo. Leah fora colocada, um tanto contra vontade, nas algemas de contenção mágica e ficou sob o olhar atento de Ruby. Fora isto os pares esperados se retiraram para seus aposentos para uma última noite de tranquilidade antes da batalha decisiva.
Em seu antigo dormitório You folheava um antigo diário seu que encontrara por acaso nas gavetas. Tinha um sorriso constante no rosto por encontrar ali diversas anotações a respeito de Tsushima Yoshiko, mesmo de períodos anteriores aos acontecimentos envolvendo o Anjo Caído:
"You. " Chamou Yohane, sentando sentada em uma segunda cadeira de madeira, não muito confortável. Seus olhos percorriam a simplicidade daquele quarto com simpatia, por sentir ali algo de familiar. Pensou se seria isto mais um resultado da influência energética que a mortal vinha exercendo sobre ela sem perceber.
"Sim, minha Yohane? " Perguntou a maga arcana, distraída em suas recordações.
"Preciso falar-te a respeito do que está planejado para ser feito amanhã em Uchiura. "
You percebeu a nota inesperada na voz de Yohane e voltou-se para esta. Fechou seu antigo caderno e colocou-o sobre a escrivaninha:
"Algo que não foi falado durante o planejamento? " Questionou Watanabe, lambendo os lábios que de repente percebeu tão secos.
"Exato. " Disse a feiticeira. "É sobre o Revertio Pungem, o feitiço reversor. "
You fintou a mulher amaldiçoada com toda a atenção, aguardando que esta continuasse sua explicação:
"É fato que este feitiço exige uma quantidade enorme de poder para poder dar conta de uma entidade ancestral com o poder contido naquele Cristal. " Começou Yohane, sem encarar os olhos da outra. "Também é verídico o fato de que apenas eu, o Anjo Caído, possuo energia mágica o suficiente para tal feito miraculoso. "
Yohane preferiu não evitar mais as íris safira de sua cavaleira protetora. Sabia da força que You possuía, no corpo e no espírito, e que seria capaz de lidar com qualquer coisa que fosse colocada em seu caminho:
"O vórtex criado pelo Revertio Pungem é um separador de energias e um reversor. Ele irá engolir os núcleos da maga do gelo Kazuno e do Cristal para então separá-los. " Disse. "Porém existe uma possibilidade de que minha alma forjada a partir de dois espíritos distintos também seja tragado por esta força descomunal. "
". . . Isto seria o meu fim. Minha alma depende da conjunção das almas do Anjo Caído e de Tsushima Yoshiko para se manter estável. " Concluiu.
You levantou em um movimento brusco, derrubando a cadeira na qual sentava. O som da madeira maciça contra o piso de pedra ressoou de maneira quase sobrenatural naquela sala pequena. Os olhos safira encaravam os rosáceos. You arfou como se tivesse sido golpeada com força no diafragma:
"Yohane, isso não . . "
"Não é uma certeza, Watanabe-dos-olhos-assustados. " Interveio a Feiticeira. "É evidente que não desejo que isto aconteça. Prezo pelo meu tempo de vida e prezo pelo bem-estar deste corpo que se tornou meu lar neste mundo. "
Yohane levantou, ficando com o olhar pouco mais de dois centímetros acima dos da cavaleira:
"Ainda assim eu precisava lhe dizer. "
"Yohane. . ."
A bruxa suspirou, impaciente, e colocou-se a andar para o outro lado do quarto, indo e voltando duas vezes:
"Não falei sobre isto diante dos outros porque sabia que precisarias de um momento para absorver esse risco. " Disse. "A chance de perderes a razoabilidade e atentar contra a integridade de todo o plano seriam enormes se eu falasse abertamente. "
You acompanhava o caminhar da outra. Tinha ainda a respiração alterada. De um movimento colocou-se no meio do percurso da outra mulher, obrigando-a a encarar-lhe mais uma vez:
"Não posso perdê-la. " Disse You, sem sequer piscar. Yohane perdeu a capacidade de manter-se impassível e virou-se de costas para a outra.
"Tola humana. " Disse, a voz endurecida na garganta. "Cheia de enunciados finais e possessividade sobre o que não tem posse. É tão esdrúxula a vontade humana de assoberbar-se sobre o Destino e sobre a Morte. . . Tamanha arrogância que o coração humano é capaz de lidar quando possui essa estranha doença do Amor. . . "
Yohane estava com os braços cruzados sobre si mesma quando You a abraçou pelas costas, apertando com toda a força razoável. Suas mãos estavam mais frias do que o esperado, a imortal percebeu quando esta tocou nos pulsos:
"Eu te amo, Yohane. Pedes demais de mim se queres que não tema com toda minha alma pela possibilidade de ter-te tirada de mim de repente. " Disse a cavaleira em um sussurro ao ouvido da mulher de cabelos negros. "Seria mais fácil a mim dar minha própria existência do que ver-te perder a tua, minha amada. "
Yohane encolheu-se naquele abraço, procurando aquecer as mãos geladas da amante:
"Não quero o fim. " Falou, também com a voz quase muda. "Pelos deuses, não há ser vivo que queira isto. Você mesma sentiu a agonia de uma árvore. Porém. . . É preciso ter o espírito sempre preparado para o eventual Destino. "
"Não. . . Não quero pensar nisso. "
Yohane soltou-se do abraço e se voltou para a cavaleira. Tomou seu rosto macio com suas mãos, colocando-as a um palmo de distância uma da outra:
"Me escuta agora , Watanabe-dos-miolos-tortos. " Disse a feiticeira.
"Eu não quero morrer amanhã. Mas, se for isto o que vier a acontecer, eu quero que saiba. . . "
". . . Se teve algo nesta minha encarnação maldita que me trouxe algum momento de júbilo genuíno, quero que saiba que foi por tua causa. Tua e apenas tua causa, You. "
Yohane nunca pensou que proferir palavras comuns, que não fossem um feitiço, poderia ser algo tão difícil quanto aquilo estava sendo:
"Obrigada, por ter me feito conhecer uma versão tão estranha desse conceito chamado Felicidade. "
You chorou de alegria e de temor. Tomou o abraço e os lábios de Yohane com desespero, mas também com exultação. A Anjo Caído aceitou-lhe e correspondeu-lhe com todo o temor de quem, pela primeira vez em sua existência, experimentava o genuíno medo da morte. Nem quando seu corpo fora trancafiado e torturado por um soldado de Akiba até quase seu fim, Yohane havia experimentado um temor tão grande quanto naquele momento.
As duas amantes juraram sua paixão mais uma vez naquela noite, com toda a volúpia que o corpo é capaz de suportar. Realizada uma dança apenas delas, onde não havia mais distância entre o centro de suas próprias almas. Yohane sentiu a vida como jamais antes e jurou a si mesma, no calor dos braços de sua cavaleira que não entregaria sua vida jamais.
