Epílogo
As ruelas do subúrbio de Otonokizaka eram frias e mal iluminadas a noite. Sonoda Umi podia sentir o odor do limo que se acumulava pelos cantos sujos das passagens de pedra por dentre as inúmeras construções revestidas de pedra que se aglomeravam de modo desordenado naquela parte da capital. Ninguém circulava por aquele caminho, a cavaleira sabia bem, pois era essencial para sua rotina de crime que não houvesse nenhuma testemunha das suas viagens até os arredores do Monastério Arcano.
Seus passos eram despreocupados e preguiçosos após o desgaste desejado. A mente sempre agitada da guerreira tinha um mínimo de paz em noites como aquela e, depois de tantos anos e de tantas esperanças vãs, era por causa dessa sensação passageira que continuava se arriscando daquela maneira. Já estava ficando velha, os fios prateados cada vez mais comuns não lhe deixavam esquecer. Sabia que não tinha mais coragem para realmente tomar uma atitude para mudar aquela situação desajustada, mas de certo modo cômoda.
Rememorava ainda as lembranças felizes mais recentes quando se percebeu diante da porta dos fundos de casa. Por força do hábito olhou para o céu. Lua Nova, ainda bem. Destrancou a passagem e entrou pela cozinha. Ouviu vozes familiares e foi direto para a sala de estar:
"Espero que tenham deixado um pouco de vinho para mim. " Disse, ao ver a figura de suas duas companheiras de batalhas e de vida. Sentou-se à sua poltrona e fitou-lhes outra vez, só então percebendo uma tensão inesperada em seus semblantes. "Aconteceu alguma coisa? "
"Chegou uma carta. " Disse Kousaka Honoka disse, voltando-se para a mulher de cabelos azuis. "Da floresta. "
Umi piscou, ajeitando um pouco a postura:
"Toujou? " Perguntou, voltando os olhos para a terceira cavaleira arcana presente. A mulher de cabelos louros estava quase de costas para o centro da sala e, de fato, tinha uma folha nas mãos, para qual direcionava toda a sua atenção.
Honoka balançou a cabeça afirmativamente. Umi não gostava de ver aquela cara tão séria, não tinha como ser um bom sinal:
"O que houve? Alguém a encontrou? " Quis saber.
"Não é ela. É sobre o Cristal. " Manifestou-se enfim Ayase Eli, ainda encarando a mensagem recebida.
"Cristal. . . " Repetiu Umi, sem compreender num primeiro instante. "O Raburaibu. "
"Numazu. " Disse Honoka. Sua expressão se tornou perturbadoramente mais nublada.
"'Numazu encontrou. As guardiãs estão mortas. Estão com o Cristal.' " Leu Eli, a voz endurecida. Umi levantou de um salto, sem conseguir evitar olhar para Honoka. Esta fugiu dos seus olhos.
"O. . . O que isso significa? Eles não poderiam ter como vencer as. . . "
"Eles venceram, Umi. " Cortou Ayase. "Devem ter sido as irmãs daoístas. Não importa, O Raburaibu não está mais no seu local. . . "
Umi sentiu o estômago revirar. Um tanto pelo Cristal, um tanto pelo fato das guardiãs do mesmo terem sido mortas:
"A-Rise. . . " Murmurou sem perceber. "O que isso significa? "
Eli se voltou para as outras cavaleiras. Seu olhar tinha um temor sombrio:
"Significa que precisamos ir à Numazu imediatamente. Ou será o Fim dos Tempos. "
[A Saga do Cristal de Raburaibu – Primeiro volume. FIM]
PilotChiken Out2017 – Mai2018
