Capítulo II – A garota, o escritor estranho e o namorado galinha
Era dez de janeiro. Isso significa que já se passou 1/3 de mês desde o evento maldito (a.k.a. ano novo). Ao menos posso falar com propriedade de que grande parte da minha memória está confusa e que recordo quase nada do ocorrido, o que é muito gratificante, já que o pouco que eu meu lembro é o suficiente para me fazer queimar de vergonha.
Se eu fui capaz de esquecer até as promessas de ano novo, então esquecer de ter sido humilhada na frente do meu escritor favorito vai ser moleza. Tão fácil quanto odiar as Girls Generation's.
Ouvi quando a porta do meu apartamento foi aberta e fechada com muita força. Fiquei olhando para a porta da cozinha, esperando que a pessoa raivosa que acabara de entrar na minha casa finalmente aparecesse. Kouga surgiu, segurando várias sacolas. Ele me deu um sorriso amarelo, enquanto se desculpava:
— Usei o pé para fechar a porta... Coloquei força demais. Desculpa, Ka-chan. – Dei de ombros, sorrindo para ele, e indiquei o balcão para que ele colocasse as bolsas plásticas – Trouxe vinho, cervejas, uvas, aspargos... – Enquanto falava, ele tirava as compras das sacolas – ... iogurte, maçãs verdes e azeitonas.
Eu o encarei, curiosa.
— Até entendo parte do vinho e da cerveja... Mas para quê o resto? – perguntei.
Ele seguiu para a minha geladeira e a abriu dramaticamente.
Sim. E daí?
— Catorze latas de refrigerante, chantilly, pizza congelada e sobras de comida chinesa. Comendo esse tipo de coisa, até hoje não sei como você ainda não adoeceu seriamente. – Era só o que me faltava, meu namorado bancando meu pai. – Aliás... É um mistério da natureza você ter esse corpo comendo desse jeito. Eu também não vejo você fazendo nenhum exercício físico.
— Metabolismo alto. – disse, pegando uma das maçãs que ele trouxera e dando uma mordida exageradamente teatral.
— Tem gente que nasce com mais sorte do que merece. – ele resmungou, fazendo uma expressão birrenta. Kouga conseguia ser incrivelmente fofo quando ficava assim. Ele era o típico badboy, mas conseguia ser incrivelmente apaixonado e atencioso quando queria.
Não era à toa que ele era tão assediado. Para me provocar, ele chegava a brincar dizendo "calcinhas caem por onde eu passo".
O celular dele tocou e u comecei a guardar as compras na geladeira enquanto ele atendia. Alguma coisa me fez prestar atenção no tom de voz de Kouga enquanto conversava. Parecia quase um tom de flerte, o que com certeza não combinava com o que ele dizia:
— Com certeza, senhor, nos encontramos amanhã. – Ele desligou o celular e eu fingi que não estava prestando atenção – Ei, ei, K-chan... Está passando o campeonato nacional de atletismo. Sem querer ser chato... Vamos assistir?
Eu sorri para ele e peguei as azeitonas.
— Claro. Mas você fica me devendo um jantar. – declarei.
— Perfeito. Conheço um restaurante vegetariano que você vai adorar. – ele disse, pegando a minha mão.
Dei um tapa leve no ombro dele, enquanto reclamava:
— Se atreva e você será um homem morto!
Ele me abraçou e se inclinou, mordendo de leve os meus lábios.
— Não faça isso, meu amor, você não encontra outro como eu por aí. – ele gracejou, piscando maliciosamente para mim. Apenas sorri e o acompanhei.
Seguimos para sala com o vinho e duas taças. Ligamos as luzes, a televisão, e enquanto ele se divertia assistindo o campeonato, eu pequei um livro no meu quarto e me perdi nele, sem nem dar bola para as vozes irritantes dos narradores esportivos.
Sim, o livro era de Sesshoumaru Taisho.
É triste admitir isso, mas depois que (não) conversei com ele, eu comecei a me perguntar o quanto da pessoa do autor que eu conheci estaria nos livros. O homem era, obviamente, irônico... E isso era uma das características mais marcantes de seu estilo. No entanto, eu sempre percebi uma sensualidade e sensibilidade nos livros dele que com certeza não percebi no homem.
E, céus, eu tinha esquecido o quão bom ele era com as palavras. Ele era o que as pessoas poderiam considerar como prodígio. O texto simplesmente fluía, como se fosse uma rapsódia benfeita. Sem exageros, havia momentos em que eu simplesmente sentia vontade de chorar. Não porque estivesse emocionada com a trama, mas por que eu me envolvia com o texto de uma forma que nenhum autor conseguia fazer comigo.
— Você e esse tal de Sesshoumaru Taisho parecem estar se dando bem. – Kouga comentou ao meu lado. Eu quase dei um pulo de surpresa.
— O quê? – perguntei, assustada. Como Kouga havia ficado sabendo disso?!
— Esse é o sexto livro dele que eu vejo em suas mãos nas últimas duas semanas. Por que você surtou do nada com ele?
Eu respirei fundo. Ah, então Kouga não sabia de nada.
— Por que ele é um escritor incrível. – respondi, suspirando. Tão incrível que agora eu me sentia idiota por não ter insistido em conversar com ele. Eu havia deixado passar uma oportunidade que com certeza eu não teria outra vez.
Antes que Kouga pudesse opinar, meu celular tocou. Ele estava carregando no meu quarto e eu tive que sair apressada para atender a chamada antes que a pessoa do outro lado da linha desistisse.
Pulei na cama tentando alcançar o celular que estava no criado-mudo.
— Alô?
— Parece ofegante. – declarou uma voz masculina rouca. Parei, surpresa. Nossa, eu não ouvia uma voz assim desde que aquele telefonista me ligou oferecendo produtos de limpeza e eu acabei comprando uma pequena fortuna em detergente apenas por ter sido seduzida pela voz sexy. – É Kagome Higurashi quem está falando?
— Sim. – respondi como uma boba. Que inferno! Estou agindo como uma garotinha apenas por que um cara tinha voz sensual? Que os deuses sejam bondosos, e que ele não esteja vendendo nada, por que a tentação me consome. – Quem é?
— Alguém que não conseguiu fazer com que sua mãe o odiasse. Ela mandou o seu número de celular para mim por meu pai, junto com um recado bastante sugestivo.
Franzi o cenho, tentando compreender. E foi quando tudo finalmente fez sentido.
— Sesshoumaru Taisho?! – exclamei sem acreditar. Eu não lembrava que ele tinha uma voz tão sexy! Aliás, não consigo nem mesmo lembrar a aparência dele. Toda vez que pensava em Sesshoumaru Taisho, a imagem que vinha a minha mente era a de um boneco-de-neve de mais de um metro e oitenta de altura, com olhos amarelos e uma peruca prateada. Eu estava realmente muito mal naquele dia.
Tomada por essa imagem ridícula, eu comecei a rir.
— Eu me questiono o motivo da risada. – ele disse – Mas não explique, acho melhor não saber.
O homem estava evidentemente mal-humorado. Ou seria sempre azedo assim?
— Eu avisei, senhor Taisho, que deveria impedir minha mãe. – fechei a porta do quarto, para impedir que Kouga ouvisse aquilo – Agora o senhor se viu obrigado a ligar para mim.
— Eu não faço nada que eu não queira, senhorita Higurashi. – Ui! O que ele queria dizer com isso? Que não ia fazer com que minha mãe o odiasse apenas por que eu disse para fazer isso? Ou estava falando que não teria ligado para mim se não quisesse? De qualquer forma, ele soava confiante demais para alguém que se vestia como ele.
— Fico feliz por você. Por que ligou?
— Para chamar você para sair. – ele disse tranquilamente.
— "Coméqué"? – perguntei, assustada.
— Estou dizendo que quero ter um encontro com você.– ele disse lentamente, como se eu tivesse retardo mental.
— Não posso. – falei rapidamente – Tenho namorado.
— Estou chamando você para jantar, não para participar de uma orgia.– Grosso! Babaca! Imbecil! –Apesar de seu oferecimento de ser minha escrava sexual.
Eu. Vou. Matar. Minha. Mãe.
— Olha, vamos esclarecer uma coisa, boneco-de-neve. – falei – Minha mãe não estava em seu juízo perfeito quando disse isso. E eu, menos ainda. Estava bêbada de tanto remédio para gripe e falei sem pensar. Era apenas uma criança de 16 anos.
— Ainda bem que eu não a conhecia, então, ou seria preso.– Fiquei completamente sem fala. O que ele queria dizer? – Mas do que foi mesmo que você me chamou? Boneco-de-neve?— Simplesmente não respondi, ainda não me sentia capaz de falar nada coerente. Além do mais, bem que a imagem combinava com ele. O tom dele indicava que ele era feito de gelo.
— Não vou sair com você. – resmunguei.
— Muito bem, então. Você faria o favor de ligar para sua mãe e explicar o porquê de não sairmos juntos?– Canalha. Se eu falasse isso para ela, minha mãe amaldiçoaria os meus filhos... Mesmo que fossem os netos dela.
— Isso é golpe baixo. – reclamei. Respirei fundo. – O.k. Mas eu tenho condições.
— Você se superestima, senhorita Higurashi.
Ignorando-o, falei:
— Você vai autografar a meu livro de "Enclausurados"...
— Calculista.
Rolei os olhos. Como ele estava malditamente falante por telefone. Posso não lembrar de muita coisa, mas acho que me recordo que ele parecia um túmulo de tão silencioso dez dias atrás.
— ... antes de termos nosso encontro. – continuei – Vou deixar meu livro na casa de seus pais.
— E qual o motivo disso?
— Se você agir como da última vez, vou tentar matar você e lá se vai minha chance de ter meu livro autografado. Isso vai valorizar minha edição de colecionador em pelo menos um milhar de ienes.
— Estou chamando uma interesseira para sair. – ele resmungou.
— Minhas condições ainda não acabaram. Você também vai ter que responder algumas perguntas sobre seus livros.
— Não me agrada sair com alguém para falar do meu trabalho.
— Podemos fazer isso por telefone! – disse, sem me dar por vencida. – Você tem meu número e agora eu tenho o seu.
— Aceito as condições... Daqui a dez dias, então? – ele falou depois de um suspiro. Devia achar tudo uma bobagem.
— Pode ser.
— Prefere jantar em algum lugar em especial?
— Sim. Aqui em casa. Eu cozinho. – Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Ultrajada, completei: — Eu não cozinho mal!
— Espero que não.
— E sendo aqui em casa, eu posso te expulsar quando eu quiser.
— Sei... Você é um doce de pessoa. Então, pode fazer a primeira pergunta.
Deitei na cama e liguei o abajur. Lembrei do livro que eu havia deixado no sofá e perguntei:
— Os soldados Quin e Kiler do livro "Remanescentes"... Eles ficam vivos? O final foi tão vago quanto a eles. – perguntei, ansiosa.
— Você é do tipo que gosta de antagonistas.
— São meu fraco. Agora responda logo.
— O que você queria que acontecesse? – ele perguntou, parecendo entediado.
— Que eles ficassem vivos.
— Então eles ficaram vivos.
— Ei!
Ouvi ele respirar fundo.
— As pessoas tem a péssima mania de esquecer que eu escrevo ficção. Um desfecho não se torna mais real por que o autor do original disse que era assim. Então, se é apenas fantasia, você pode dar o final que quiser. Se quer que eles fiquem vivos, então eles ficarão vivos.
Eu fiquei calada por alguns instantes e depois sorri, por que fazia muito sentido. Não era perfeito, como se ele me dissesse que tinha um conto escondido à sete chaves onde conta o destino dos personagens, mas já fico satisfeita com esse argumento.
Agora eu finalmente via no boneco-de-neve um pouco do autor que eu admirava tanto.
Depois disso, uma hora se passou e eu esqueci por completo do namorado assistindo televisão na minha sala.
Oi, gente!
Muito obrigada pelos comentários que deixaram, e espero que gostem desse capítulo. :3
Essa fanfic tem cinco capítulos + epílogo. Então vai acabar rapidinho! *- - - *
Beijos da Ladie.
