Capítulo III — A garota, o autógrafo e a descoberta cruel
Era muito difícil explicar o que tinha acontecido nos seis dias após Sesshoumaru ter me chamado para sair – exceto pelo óbvio de eu ainda estar muito surpresa com o fato.
Ele não era exatamente o tipo de pessoa acessível, pelo menos pelo que pude notar. Era irônico e não fingia gostar de algo apenas para agradar outra pessoa. Havia momentos em que ele simplesmente ignorava minhas perguntas e comentários, isso quando não respondia de forma grosseira. Que os bons deuses tivessem pena da humanidade, de tanto que esse homem se irritava fácil.
Só que, por incrível que pareça, eu achava lisonjeiro essa personalidade esquentada dele, porque significava que, no resto do tempo, eu o interessava o bastante para ele se esforçar em ser sociável. Eu pensava que esse tipo de gente rabugenta se resumia a existir nos filmes e nos livros, e, de repente, eu percebia que se sentir atraída por uma pessoa assim era na verdade cansativo e irritante. E, embora seja difícil admitir, era encantador também, já que essa faceta intragável acompanhava um caráter sólido – eu me via comparando-o com Kouga sem perceber mais vezes do que eu achava ser saudável.
Menos de vinte e quatro horas depois de me chamar para sair, os telefonemas vieram acompanhados de mensagens de textos. Eu me sentia meio que uma adolescente novamente. As perguntas sobre os livros foram se tornando menos frequentes, e eu acabei por iniciar um jogo estranho onde eu perguntava sobre assuntos aleatórios apenas para me divertir com as respostas:
e se ñ existissem mais economistas no mundo?, tinha sido a mensagem que eu havia mandado há pouco mais de seis horas. O fato de não ter respondido significava que ele achava que a pergunta não tinha relevância alguma. Ele agia de modo muito previsível e eu sentia um prazer quase infantil por isso.
Só que não apenas de mensagens com homens inteligentes vive uma mulher, então eu tinha que trabalhar. Eu estava de pé diante de vários protótipos de marketing visual impresso suspensos em cavaletes, que eram as ideias de novos anúncios de uma empresa alimentícia, quando meu celular vibrou, anunciando o recebimento de uma nova mensagem:
Eu realmente preciso responder a isso? Não basta ter passado a madrugada inteira tentando explicar porque clipes de papel são importantes para a evolução da humanidade?
Sesshoumaru Taisho era um maldito que escrevia tudo certinho, como se reduzir alguma palavra ou deixar de colocar um acento corretamente lhe causasse dor.
ah sim precisa, até pq o q vc chama de "explicar" n vdd foi um monólogo de 3 horas sobre os sintomas de ser adulto
E por quê?, ele respondeu.
pq você quer jantar comigo
Estou quase revogando esse meu querer.
ñ adianta, meu senhor. responda q 1 das coisas q minha mãe me ensinou foi a de ñ sair com gente q ñ conheço
Mas você já me conhece.
há menos de 7 dias, respondi, com certo desdém. Só que ele estava certo. Eu o conhecia tão bem que chegava a ser assustador.
A resposta demorou um pouco, mas finalmente veio:
É aí onde você se engana, você me conhece desde os dezesseis anos. Sabe tudo sobre minha mente, sobre minhas crenças. Eu não sou intermediário, eu sou o criador dos livros que você ama.
Era verdade, às vezes me esquecia completamente disso. Os livros dele me encantavam há oito anos. E... se eu seguisse essa linha de raciocínio... era apaixonada por ele há pelo menos cinco. Talvez fosse isso que me incomodava mais em tudo aquilo. Eu amava o que ele escrevia ou ele? Era possível amar alguém de quem eu não lembrava o rosto, mas lembrava de suas palavras com tanta perfeição? Era possível separar o homem de seus livros?
Diante da minha demora para responder, Sesshoumaru mandou a seguinte mensagem:
Se você fosse um dos meus personagens, qual seria?
Essa pergunta eu respondi sem hesitar:
Youko
Ela era um yokai-raposa que tentava viver normalmente sua vida no século XXI, no qual as crenças nas lendas populares japonesas não eram tão mais fortes. Essa personagem era tudo o que eu queria ser quando fosse adulta (foi o primeiro livro que eu li dele): forte, decidida, feminina e, infelizmente, controladora.
Escolha interessante., foi a resposta dele.
diga-me Sesshoumaru Taisho e se vc fosse um personagem da série "Dragon Ball" qual você seria?
Passaram-se vários minutos e ele não me respondeu. Havia decidido me ignorar mais uma vez. Fiquei encarando o celular até desistir e cair na risada, e foi nesse estado lastimável que minha assistente me encontrou.
— Senhorita Higurashi, você parece feliz. — ela disse, sorrindo, enquanto entrava segurando um pacote, o qual deixou em cima da minha mesa — Já faz algum tempo que a senhora parece se divertir com essas mensagens de celular.
Eu sorri para ela, colocando o celular na escrivaninha.
Ao abrir o pacote, encontrei nada menos que meu livro "Enclausurados", o qual eu havia deixado na casa dos pais de Sesshoumaru três dias atrás. O livro estava dentro de um saco plástico resistente, em que eu o havia colocado quando entreguei à madrasta de Sesshoumaru — era uma edição valiosa, tinha que ser protegida com carinho. Tirei o livro da embalagem e alisei a capa com devoção. Depois abri o livro e virei as páginas até achar o autógrafo que tinha sido objeto de barganha.
Na contracapa:
Tenho três manuscritos inéditos.
Estou aberto a negociações.
Sesshoumaru Taisho
— Céus, senhorita Higurashi, você está vermelha como uma pimenta! — exclamou minha assistente. Sim, estava. Eu sentia isso. Minhas orelhas estavam queimando e minhas mãos tremiam.
Peguei o celular e procurei o número do maldito na minha agenda.
— Eu não vou responder, então nem adianta me ligar. — ele anunciou sem se dignar a me cumprimentar.
— Acabei de receber o livro. Que... maldição... de... autógrafo foi esse?!
Ele riu do outro lado da linha. Eu arregalei os olhos, surpresa. E de repente tive o pensamento absurdo que valia a pena ter minha edição de colecionador inutilizável para venda em troca de ouvir a risada dele. Minha assistente me olhou com interesse, já que provavelmente eu estava sorrindo como alguma idiota que tinha acabado de receber flores no dia dos namorados.
— Pensei que iria gostar. São três manuscritos muito bons... Um deles é o próximo livro que será lançado.
— Quer comprar minha alma?
— Você já fez uma oferta anterior. Parece errado da minha parte recusá-la.
Fiquei vermelha novamente.
— Muito bem, Sesshoumaru, já se divertiu às minhas custas. Estou desligando.
Terminei a ligação e suspirei. Minha assistente lançou um sorriso malicioso, quase cúmplice.
— Ele é bonito? — ela perguntou.
— Não. — respondi com outro suspiro — Na verdade, ele tem uma aparência bem estranha, mas é a última coisa com a qual estou me preocupando nesse momento.
Ela acenou afirmativamente, parecendo pensativa. Às vezes tenho a impressão de que a vida amorosa dela se resume a saber sobre a minha vida amorosa. E pensar nisso me fez perceber que eu iria para o inferno por ficar flertando tão descaradamente com outro homem que não era meu namorado.
De repente uma onda de culpa me assolou. Eu tinha um namorado. E nos últimos seis dias eu não fui exatamente uma companheira carinhosa. Muito pelo contrário, fui ausente, arredia e nada apaixonada. Eu estava evitando pensar no assunto ultimamente, mas agora que isso finalmente tomava a minha mente, eu percebo que já tinha tomado uma decisão sobre o que fazer: iria terminar com o Kouga o quanto antes. Não era justo com ele e não era justo comigo, pois eu realmente não conseguiria conviver comigo mesma depois de fazer algo tão ultrajante como trair alguém com quem eu estivesse. Eu simplesmente não consigo ser esse tipo de pessoa.
Alguém bateu na porta e anunciei que poderia entrar. Ueda Hitoshi, o presidente da companhia Akatoki, surgiu. Eu imediatamente fiquei empertigada. O homem era um gênio na minha área e se eu cheguei onde estou hoje, foi por causa dos conselhos e do auxílio dele.
— Chegou a resposta da Phit's. — ele comunicou calmamente. Eu fiquei nervosa e apertei as mãos. Phit's era uma das marcas de cosméticos mais famosas do leste asiático, e a Akatoki havia escolhido a minha equipe para criar a campanha que a companhia apresentaria à Phit's.
Eu sabia muito bem que a proposta da Akatoki competiria com outras quinze, de outras companhias, e temi que Ueda houvesse se precipitado por ter colocado uma novata como eu como responsável pela campanha.
— Eles escolheram nossa proposta. — Ueda disse, sorrindo animado. Meu coração começou a martelar dentro do peito — Parabéns, Kagome! Você e sua equipe fizeram um ótimo trabalho. Semana que vem vamos conversar sobre aquela vaga à Associado Sênior.
Ueda apertou minha mão e eu me mantive sorrindo com alegria até que ele acenasse e saísse. Assim que a porta se fechou, eu comecei a dar pulinhos e gritinhos abafados, sentindo-me, nesse momento, mais adolescente do que nunca. Eu estava apaixonada e tinha conseguido uma vitória no trabalho. Simplesmente não havia outra forma de descrever felicidade.
Apesar da minha recente decisão, eu sabia que tinha que contar à Kouga sobre o fato de a nossa campanha ter sido escolhida – ele tinha sido o responsável pela parte gráfica. Peguei meu sobretudo e meu celular, e saí da minha sala até a dele, onde a assistente me contou que ele tinha ido mais cedo para casa. Resolvi que precisava contar pessoalmente – até porque deveria aproveitar a oportunidade para terminar o nosso relacionamento, por mais que cruel que pudesse parecer fazer isso acompanhada de uma boa notícia.
Pela primeira vez em um ano, eu entrei no meu carro e não me xinguei mentalmente por tê-lo comprado, empenhando ¼ do meu salário todo mês. Segui até o apartamento de Kouga, estacionei, cumprimentei o porteiro, entrei no elevador e esperei pacientemente que subisse até chegar ao andar. Parei diante da porta e bati uma vez, sem resposta. Na quarta vez, resolvi usar a chave extra que ele deixava em cima do arco. Se ele não estivesse em casa, eu deixaria um recado.
Só que... bem... ele estava. Mais necessariamente no sofá, entre as pernas de uma loira.
Apesar da fama de Kouga, eu jamais pensei que ele poderia ser tão baixo a ponto de trair a namorada.
Eu me encostei ao batente da porta, ciente de que eles ainda não haviam me visto. O que eu faria? O que uma mulher faria numa situação daquelas? Melhor... O que eu faria, se pudesse pensar racionalmente?
Eu tinha duas opções... Ou saía e fingia que nunca tinha visto aquilo ou me fazia notar e enfrentaria a situação. Nunca fui covarde, então sair e fingir que não tinha visto nada estava fora de cogitação. Mas ficar e bancar a namorada traída também não parecia fazer o meu tipo.
Enquanto eu permanecia parada, chocada demais com o que via e com os meus pensamentos, em meio às frases obscenas que os dois deixavam escapar durante o ato, o meu celular tocou. Kouga parou o que fazia e me encarou. A expressão horrorizada dele foi impagável.
Encarei Kouga, enquanto tirava o celular do bolso do sobretudo. Olhei a tela e teria sorrido ao ver o "Boneco-de-neve", se não estivesse numa situação tão desconcertante. Usei cada grama de minha força de vontade para manter a expressão indecifrável, enquanto colocava o telefone no ouvido. Já que bancar a ofendida não era do meu gosto, então eu também não faria questão de demonstrar qualquer coisa.
— Oi, Sesshoumaru. — os olhos de Kouga se estreitaram quando eu disse isso. Será que ele perceberia de quem eu estava falando?
— Por que todas as nossas conversas parecem sempre terminar falando de animes? — ele parecia tão irritado ao perguntar isso que eu quase engasguei. Sim, eu ri, embora fosse um riso estranho, ainda mais considerando que o meu namorado ainda estava entre as pernas de alguém.
— Eu não sei, acho que a culpa é sua. — respondi — Você podia ter me respondido por mensagem de texto.
— Não conseguiria expressar minha indignação por mensagem de texto.
— Sei... Já que estamos conversando, me responde uma coisa... O que a Youko faria se por acaso ela pegasse o namorado dela traindo-a?
Com isso, Kouga finalmente pareceu voltar a si e se levantou, pegando a calça no chão e usando-a para se cobrir, aproximando-se de mim logo em seguida.
— Kagome... — começou.
Ergui a mão, mandando que ele parasse. De forma teatral, disse:
— Espere um pouco, Kouga, não está vendo que estou ao telefone? — Kouga ficou me encarando, sem acreditar. Tenho certeza que eu estava agindo como ele nunca acreditara que uma mulher agiria numa situação parecida.
— O que você queria que acontecesse? — Sesshoumaru começou, mas eu o interrompi:
— Não faça joguinhos, Sesshoumaru. Por favor, apenas responda. — acho que algo em minha voz denunciou que eu não estava realmente bem ou talvez ele fosse esperto demais, e eu tivesse sido muito óbvia, pois ele disse:
— O que está acontecendo, Kagome?
— Responda. — pedi.
Sesshoumaru suspirou do outro lado.
— Para começo de conversa, eu nunca deixaria que alguém a traísse... Eu amo a Youko mais do que qualquer outro personagem.
Aquilo fez meu coração disparar no peito e eu me vi esboçando um sorriso.
— Mas se por acaso acontecesse... — instiguei.
— Ela ergueria a cabeça e seguiria em frente. Ela sabe que é poderosa e seu amor-próprio lhe diria não valer a pena perder um segundo a mais do que o necessário com alguém assim.
— Como eu imaginava.
Dessa vez meu sorriso foi amplo e caloroso. Kouga tentou se aproximar novamente, mas eu girei nos calcanhares e me afastei pelo corredor.
— Só para lembrar, eu ainda não sei o seu endereço. — Sesshoumaru disse.
Fingindo que Kouga não estava no meu encalço, eu disse:
— Depois envio meu endereço por e-mail, Sesshoumaru. E se eu realmente vou fazer o jantar, então você vai ter que levar algum vinho caro.
— O autógrafo não foi suficiente?
— Nem perto disso. Te vejo daqui a quatro dias. — desliguei o telefone e apertei o botão do elevador. Antes que ele chegasse, no entanto, Kouga segurou meu braço.
— Com quem você estava falando? — ele rosnou, estreitando os olhos.
— Hum... Com Sesshoumaru Taisho, o escritor. Eu não te falei, mas eu o conheci pessoalmente há alguns dias. — O elevador chegou e eu entrei. — Ah, nós ganhamos a campanha da Phit's. A propósito, se não estiver claro, estou terminando com você, Kouga. Vejo você no trabalho.
As portas se fecharam. Eu me sentia muito bem.
Depois de muito tempo, aqui mais um capítulo! Anyway, tento postar o próximo em duas semanas, porque tem que revisar e reescrever algumas coisas.
Perdoem a demora.
SANDERSON, AMO VOCÊ KIRIDO!
Beijos da Ladie.
