Fatos ocorridos na vida de Naomi enquanto acontecia o Exame Hunter que Hisoka estava prestando pela segunda vez.

Naomi despertava aos poucos, ainda sentindo uma preguiça de levantar da cama. Era dormindo, assim nem se preocupava. Mas a ansiedade de receber o e-mail do local de trabalho aprovando o novo livro era grande, e foi isso que a fez levantar e lavar o rosto para aliviar os olhinhos inchados do seu despertar. Indo até o computador, abriu sua caixa de e-mails e estava lá: a resposta da empresa em relação ao livro dela! Mas o e-mail fez a felicidade murchar. O novo livro escrito por ela foi censurado e a empresa do jornal sofreu duras críticas – principalmente por parte das mulheres – por parte de um romance tal "escandaloso".

– Ahhh! Esse romance por acaso é voltado para crianças? Por que estão fazendo isso?

O tal livro tinha como base tudo que ela vivenciou quando foi sequestrada pelo Genei Ryodan. Era uma leve denúncia disfarçada de outros personagens e outros nomes. Era sábia o suficiente para não relatar sua história real. Não queria mais encrencas com o Ryodan. Nunca mais ver Kuroro em sua vida. Exceto um deles… Claire Noir (o pseudônimo dela como escritora) estava tendo um livro censurado pela primeira vez.

Ela mandou respostas, justificando-se. No dia seguinte, foi até o local de trabalho conversar com o redator-chefe que era o segundo patrão dela. Durante a audiência com ele, ela escutou gritos que vinham da entrada do grande prédio comercial.

– O que é isso?

– Vamos ver daqui da janela, mesmo. – disse o homem louro, bem mais alto e aparente bem mais velho que Naomi.

Eram algumas mulheres, todas vestidas igualmente de vermelho, caras pintadas, aparentemente ativistas de alguma organização, queimando folhas em plena porta da empresa. Aquelas folhas eram cópias piratas tiradas da internet e eram feitas como lenha para uma pequena fogueira. Um ataque direto a obra dela.

– Mas o que é isso?! - perguntou Naomi, assustada.

– Fica calma… já vamos dar um jeito nisso. – ele foi até o interfone na parede e mandou seguranças lá para baixo.

– Preciso ir lá me justificar! - a morena virou-se para abrir a porta, quando duas mãos grandes e bronzeadas apoiaram-se em seus ombros esguios e retos, impedindo-a de sair gentilmente.

– Por favor, Naomi… não vá se arriscar ali, elas são loucas, podem querer fazer alguma coisa contigo!

Dando um leve suspiro, ela ficou parada ali e justificou.

– ...preciso explicar-me diante daquelas mulheres. Acho que ninguém entendeu meu livro, e é mais que justo explicar para elas e para todos a essência do meu livro. Não me segura, vou até elas! – disse, saindo dali.

Entre seguranças e ativistas que se atacavam grosseiramente, apareceu a média figura da escritora. Calma, séria, concentrada. Naquele perfil seguro e silencioso, todos pararam por instantes.

– Peço que se acalmem, pois preciso justificar-me.

– É você essa escritorazinha? - gritou uma delas.

– Sim, é essa mesma escritorazinha que você está pensando. E antes que venham me atacar pessoalmente, preciso falar com todas vocês!

– Falar o quê? Só se for para cancelar esse lixo obsceno de livro! – disse a mesma que a chamou de "escritorazinha".

– Mas é essa menina que escreveu tal livro?! – perguntou uma outra, abaixando os próprios óculos escuros para analisar Naomi de cima para baixo.

Mais vozes estridentes e femininas começaram um burburinho. Naomi pediu silêncio.

– Quero justificar esse livro para vocês, que aparentemente nem leram direito!

– Ora, faça-me o favor de… – a de óculos foi interrompida pela primeira a se manifestar, que pôs sua mão na frente dela. A (aparentemente) líder do grupo queria ouvir a explicação.

– Gostaria de lembra que esse livro, antes de tudo, narra algumas experiências pessoais que passei, não todas! - ela mentiu um pouco, afinal reservava a privacidade dela dos fatos – e que não foi fácil para mim. A experiência de um sequestro é assustadora, e os abusos não devem ser visto como fantasias sexuais, até peço perdão se fiz parecer isso. Mas se lerem a história, analisarem os fatos, verão a realidade por trás disso. Narrei também a experiência de outros que sofreram coisas piores que eu. Expliquei isso durante todo o contexto.

– Desculpam por favor minha interrupção, – o segundo chefe de Naomi tomou-lhe a frente – mas devo concordar com essa jovem escritora. Eu acompanhei todo o processo do livro, pude ler antes da avaliação geral, e posso garantir que o livro é uma séria denúncia aos sequestros, há relatos importantes. As cenas que envolvem abusos sexuais não são reles fetiches, são cenas complexas, pesquisam em casa sobre isso. Se lessem mais, pesquisassem mais, se tivessem a mesma experiência que nossa escritora aqui… não estariam se passando por ridículas agora! Então, façam o favor de pararem com esse ataque pessoal. Voltando para casa, vocês poderão refletir melhor que ficar fazendo essa baderna!

Ele finalizou. O silêncio ponderou por segundos. A "líder" quis argumentar uma coisa, mas resolveu fechar a boca. Os guardas tomaram a frente dos dois.

– Isso mesmo, passam fora! Fora, fora, xô!

Houve mais um princípio de confusão, tendo que aparecer a polícia local para amenizar.

– Vamos para dentro, Naomi. – o diretor loiro a levou para dentro.

Naomi seguiu calada, chateada com aquilo. Notando isso, ele prosseguiu.

– Vamos lá, você foi excelente! Eu que peço desculpas por quase impedi-la de se defender.

– E eu que agradeço por ter me ajudado. – disse Naomi, com um pequeno sorriso no rosto.

Ambos trocaram olhares por alguns segundos. E depois voltaram até o escritório dele.

Voltando para a casa, deparou-se com um pequeno grupo de garotos uniformizados que estavam judiando de um animalzinho, que pelo miado fraco e choroso, era de um gatinho. Foi inevitável ignorar aquilo. Meteu-se na frente dos colegiais e agarrou o pequeno gatinho preto nos braços.

– Que está fazendo, mulher?! – disse um deles.

– Solta esse bichinho aí, senão ele vai te trazer azar, hein?! – disse um outro.

– Azar é ter que lidar com ignorantes como vocês! Voltem para suas casas, por que esse gatinho já é meu! – disse sem pensar, totalmente cheia de compaixão pelo gatinho que estava ferido.

– Sua peste! Você não é ninguém para nos dar moral!

– E você tem bastante moral na cara a ponto de fazer mal a um filhote que sequer tem poder de defesa! – ela retrucou.

Os três começaram a caminhar em direção a ela, dois deles socando uma mão na outra e o outro levantando um pedaço de madeira contra ela, que manteve-se firme ali diante deles. Era muita ousadia diante de uma situação tão injusta. Ambos, apesar de serem meninos, eram maiores que ela. Três contra um. Ou contra dois.

O que estava com pedaço de madeira foi o primeiro a atacar e o primeiro a levar um chute entre as pernas, fazendo-o cair de joelhos entre gemidos de dor. Depois de chutar as bolas sensíveis do primeiro agressor, Naomi saiu correndo com o gatinho no colo, e os dois outros foram atrás dela. Entrou em um beco, acabando encurralada. Sem saída, os outros dois foram até ela, e vinha o outro agredido, andando meio torto por causa da dor, mas decidido a se vingar.

– Covardes que nem vocês me dão pena… mas podem vir. – mesmo receosa por dentro, era marrenta demais para demonstrar medo.

Vendo uma pedra no chão e ao seu lado, pegou-a e ameaçou com ela. O gatinho era firmemente seguro por um braço só.

– Podem vir!

Uma figura alta aparece por detrás dos garotos. Loiro, de óculos escuros, de punhos fechados.

– E aí, seus moleques! São vocês que estão sem saída aqui!

Naomi reconheceu seu segundo chefe. Até ela surpreendeu-se com o ar frio e intimidador dele, que fez os colegiais pararem congelados.

– Tratam de dar o fora daqui, agora! Senão eu vou dar uma lição de covardia aqui! - ele parecia rosnar enquanto falava.

– Calma aí, tio, já estamos saindo…

– Tio, o caramba! Rápido, rápido! – ele gesticulava com a mão para eles saírem dali da frente dela.

Depois que os três saíram, ele foi até ela. Fitou por uns segundos a criatura que olhava admirada para ele.

– Devo reconhecer que você foi o herói do dia… – disse Naomi, ajeitando o gatinho machucado no colo.

– Pelo visto, você foi a heroína do dia. Apenas lhe dei cobertura… – disse ele, estendendo-lhe a mão grande para ela, falando-lhe docilmente – vamos andando?

– Er… sim claro… – ela aceitou, ainda meio sem jeito diante daquela figura alta.

Ele a acompanhou até a casa dela. Naomi o convidou para que entrasse e tomasse um pouco de café, mas ele recusou gentilmente. Despediu-se, beijando-lhe a mão com jeito cortês, e foi embora. Agora, ela tinha um gatinho lindo e machucado para cuidar.

– Como está o gatinho, Naomi? – perguntou o chefe, enquanto levava uns papéis até a mesa de Naomi.

– Está bem… por sorte, não estava tão debilitado. Sinto-me tão bem comigo mesmo por ter me arriscado ali! Se não tivesse me arriscado, que seria daquela pobre criaturinha?

– Por isso que disse ontem que foi a verdadeira heroína do dia! … bem, quer um pouco de café? - ele ofereceu enquanto preparava o expresso na máquina da sala.

– Ah, sim… mas descafeinado, por favor.

– Certo… ah! Esqueci de falar antes! Seu livro foi liberado pelo chefe maior.

– Sério?! – ela levantou-se da cadeira.

– Sim, sim. E o esquecido aqui quase não te comunica…

Ela foi até ele e, pegando seu descafeinado, promoveu um brinde.

– Vamos brindar?

– Claro, Naomi! Um brinde a essa pequena guerreira!

– Hehehe… nem tanto… – disse a mulher, modesta.

Após o brinde, Naomi foi também agradecer – mas sem brinde – ao seu primeiro chefe. Com o passar dos dias, o livro de Naomi foi um sucesso em questão de dias. Além de ter sido polêmico antes da publicação – o que ajudou no sucesso -, convenceu leitores e leitoras eufóricas. "Tudo Por Trás do Sequestro" tinha sido sua indireta resposta para Kuroro. Ele disse que lia seus livros. Logo, lerá esse também e entenderá sua resposta. Mas Naomi escreveu de forma discreta e direta, sem atacar diretamente ninguém. Talvez… Hisoka lesse também. Mas onde ele estava nesse momento?

Nesse momento, Hisoka prestava seu segundo Exame Hunter e descobria novos promissores, futuramente seriam seus brinquedos até que ele finalizasse. Divertia-se no exame como ninguém. Mas lembrava-se sempre dela. E torcia para que ela não o tivesse esquecido – essa era a prova que ele pôs para ela.