Em um luxuoso quarto do 200º andar, um ser estava diante da enorme janela, que dava vista para toda a cidade onde ficava a Torre Celestial. De roupão cor de vinho, ele fitava toda aquela visão maravilhosa, pensando na luta que teria à tarde. Mais um idiota qualquer que teria que matar. Já estava ficando entediado com as expectativas que criou quando foi para lá. Será que aqueles dois meninos viriam realmente ao seu encontro?
Hisoka coçava a cabeça entediado, enquanto não saia dali. Surpreendeu-se ao ver no céu azul e sem nuvens um dirigível luxuoso. Era de uma empresa de jornal. E aquele slogan era familiar. Sim, vinha de York Shin, devido a sinalização de cor roxa – todos os dirigíveis de lá tinham esse detalhe: uma sinalização em forma de bandeirola – no caso roxa – em uma das antenas. York Shin… tinha deixado tantas coisas lá… ainda tinha fé que lutaria com Kuroro breve. Breve. Já tinha mais de três anos que esperava isso. Naomi. Ele não havia esquecido daquela pessoa. Propositalmente, ele havia apagado – bloqueado com sua habilidade Nen - o registro do número do seu celular do outro que deixou com ela. Poderia reativar quando quisesse. Mas a hora não era aquela.
O que ela estava fazendo nesse momento? Será que o esqueceu? Ele torcia para que não. Sempre imaginava planos para reencontrá-la. Aquele dirigível fê-lo lembrar das loucuras que a fez vivenciar junto com ele, e não se arrependia de nada. Será que Kuroro havia esquecido mesmo? Não queria ter o incômodo de imaginá-la nos braços dele novamente, como da outra vez em que o moreno a forçou uma estúpida relação sexual. Chega, aquilo era um passado finito.
O ruivo de cabelos úmidos e escorridos pelo pescoço, quase chegando aos ombros, olhou para o relógio. Apertou os lábios um no outro, demonstrando seu tédio. Mas ao lembrar do corpo daquela pessoa, acabou deslizando a língua sutilmente entre seus lábios. Seria muito bom se ela estivesse ali agora. Mas encontraria com ela, um dia. Ela querendo ou não. Mesmo que se estivesse com outro. Faria de tudo para, ao menos, ter uma última vez com ela e deixá-la ir com quem quer que fosse se namorado ou marido. Penteando os cabelos com os dedos, ele saiu da janela e sentou-se na cama macia e de colchão grosso.
– Droga… – ele resmungou baixinho.
De repente, alguém bateu a porta. Ele levantou-se e foi atender. Era uma das serventes domésticas trazendo necessidades de cama, mesa e banho. Com um leve sorriso, ele permitiu que ela entrasse. Deixou ela atualizar toalhas, lençóis, o que precisava ser trocado ali. Não que Hisoka deixasse tudo uma tremenda bagunça, mas eram regras do local. Principalmente as suítes do 200º andar para cima, onde os lutadores e expectadores tinham tratamento típico de um spa. Encostado à parede e com as mãos nos bolsos do roupão, ele assistia a jovem servente trocar os lençóis.
Essa servente era uma jovem mulher, de estatura média, silhueta magra – mas saudável – e de porte sério. Os cabelos de um tom roxo bem escuro, presos caprichosamente junto com o chapéu típico dos funcionários da Torre Celestial. O vestido sempre justo ao corpo, revelando um corpo aparentemente curvilíneo. A pele clara e o perfil mimoso a fazia parecer um anjo. Os olhos castanhos escuros, quase negros. Lembrava um pouco Naomi, só diferenciando na altura – a servente parecia um pouco mais alta e a cor do cabelo. Não era a primeira vez que essa servente vinha até a suíte onde estava Hisoka e ele já a havia observado numa outra vez. Também aparecia uma outra servente, uma mulher bem mais madura, cabelos bem negros, pele pouco mais bronzeada e de olhos cinzas. Tinha a fisionomia bem magra e sequer olhava para a cara do ruivo. Parecia que nem gostava dele. A outra não, essa ainda o olhava nos olhos, pedia licença, perguntava se a comida servida estava ao gosto dele. Quando estava disposto, dava uma certa gorjeta para ela, porém esta sempre recusava de forma pacífica. A servente mais velha recebia sem nenhuma outra reação a não ser um simples "obrigada" - era quando olhava nos olhos dele, que já a provocava com o olhar para assustá-la. Mas a outra mais jovem… era dócil demais, não despertava nenhuma vontade nele… a não ser curiosidade. Bom, os traços dela. Lembrava a Naomi.
– Mais ou menos pelas cinco da tarde, trarei a comida, está bem? – a voz melodiosa e baixa o tirou da distração.
– Ah… bem, cinco horas? Mas eu estarei ocupado na arena… não tem como ser três horas depois? – disse ele, calmamente.
– Bom, posso falar para meu chefe. Mas de qualquer forma, não o deixarei sem seu lanche da tarde. – disse ela, abaixando um pouco a cabeça.
Um leve sorriso maroto apareceu no rosto dele. Mas não fez nada que a espantasse.
– Ah! Ótimo, fico feliz em vê-la preocupada em não me deixar sem comer…
– É meu dever, senhor Hisoka.
Ambos trocaram rapidamente olhares. Ela nunca conseguia encará-lo com tanta firmeza, parecia sentir medo dele – mas sem desprezá-lo como a outra colega.
– Vou me retirar, com licença! – ela saiu levando o que precisava ser limpo.
Hisoka fechou a porta tranquilamente depois que ela saiu. O cheiro de toalhas e lençóis limpos dava para sentir longe. Lavanda. Nunca foi muito fã e aromas, mas naquele momento agradava-lhe aquele aroma. Adoraria dormir ali naquele momento, mas deveria se preparar para a próxima luta. Conforto não o prepararia corretamente para isso.
…
Naomi ficou em uma suíte no 200º andar, dividindo-a com uma colega de trabalho. Don ficou em um a suíte vizinha a dela, com outro colega do mesmo sexo. Naquela mesma tarde, ele assistiria a luta. Naomi não quis, preferindo conhecer o famoso "bairro" de lanchonetes que havia naquele andar: uma área enorme cheia de restaurantes e lanchonetes, similar aos típicos "3º andar" de shoppings.
– Ah, não me diga que não quer assistir nenhuma luta?! – questionou o loiro.
– Vejo outra. Além disso, você não disse que aqui acontece lutas de hora em hora?
– Ah, isso é verdade. Mas essa luta de hoje vai ser sangrenta! – os olhos deles brilharam um pouco. Aquilo quase assustou Naomi, mas ela (ainda) se dava muito bem com ele, não havia o que temer.
– Por isso mesmo que não vou! Quero ver lutas mais leves, onde se pode admirar habilidades invés de sangue e outros "gladiadorismos"! – justificou a morena, fazendo leve biquinho.
Don riu vendo aquela resposta dela.
– ...é tão sensível!
– Pior que sou! Hehehe… – ela brincou em sua justificativa real.
– Está bem! Vejo-a depois no saguão principal, certo?
– Certo!
– Não esqueça, gata! – disse para ela, que já ia com a outra colega até a grande área de lanchonetes.
– Pode deixar! – ela cantarolou a resposta.
Don foi com o companheiro de quarto e encontrar com os outros. A luta que assistiriam era de Hisoka com um dos mestres do andar.
– Senhoras e senhores! Uma grande luta vai acontecer dentro de quatro minutos! Portanto, apressem-se porque não vamos dar desconto de tempo! – a locutora quase berrava no microfone, em uma voz meio irritante de tão fina. – Hisoka vai desafiar um dos mestres do andar que ainda não foi revelado! Será uma luta de suspense e de muita ação! O Mágico da Morte que nunca perde e sempre mata promete uma luta inesquecível! E mais, …
– Ai, ai! Cala essa boca, guriazinha! – Don resmungou para si mesmo. – Voz irritante. Muito blá-blá-blá! Cadê a luta?!
Os outros concordaram. Depois dos minutos, pontualmente a luta começa. Naomi estava em uma lanchonete, comendo com sua amiga. O local – bem grande e cheio de opções – estava vazio. Motivo? A luta que acontecia naquele momento. Os televisores dali estavam até desligados.
– Puxa, poderiam manter os televisores ligados! – disse Naomi.
– Acredito… que lutas como essa não são transmissíveis em locais onde tem crianças por perto. – explicava a outra, com a boca cheia.
– Ah, sim.
– Mas em alguns lugares com público adulto concentrado, deve ter televisores ligados. Achei que não estava interessada nessa luta, Naomi.
– E não estou. Achei apenas curioso… os televisores não estarem ligados.
– É por esse motivo que expliquei… – sem querer, interrompeu a fala para segurar o arroto, e depois continuou – o Don adora essas lutas polêmicas!
– Como todos os homens…
– Há mulheres que apreciam lutas dessas… até mesmo porque há gladiadores bem sensuais, hihihihi – ela ria baixinho, junto com a outra que compartilhava a mesma graça.
– Bom… ainda não vi nenhum gladiador de tirar o fôlego…
– Também não… mas dizem que há um… que é um pedaço cruel de mau caminho!
– E quem é esse? – Naomi parou a batata frita entre os dedos antes de comê-la.
– Só ouço falar… um tal de "Mágico da Morte", como é chamado aqui… mas não sei o nome desse…
– "Mágico da Morte"… – Naomi voltou a comer a batata – nossa, esse deve ser bem cruel!
– O Don me disse que em todas as lutas em que participou, todos! Todos, Naomi! Morreram nas mãos dele! – a companheira enfatizava com um ar empolgado.
– Ah, isso ele me falou. Nossa, nem quero ver lutas com esse cara aí, não!
– Só quero vê-lo se… se ele realmente faz as entranhas das mulheres tremerem! Entende, Naomi?
– Ai, ai… sua pervertidinha! – Naomi brincou com a amiga.
…
Esplêndida luta. Insana. Cruel. Sanguinária. Essa seria a luta que Hisoka teria naquela tarde se o seu adversário realmente tivesse comparecido. Com isso, Hisoka se tornou um mestre do andar e o tal adversário teria que voltar do zero. Nunca ele se sentiu tão aborrecido. Hisoka saiu chateado dali, assim como muitos reclamaram daquela luta que nem aconteceu. Don sentiu-se frustrado também.
Sua sede de matar ainda estava firme e forte. Foi com ela para a arena, esperando pelo tal mestre do andar, e voltou do mesmo jeito. Mas chateado. Vencer daquela forma era totalmente ridículo para ele. Voltou para a sua suíte. Viu em cima de um móvel uns mimos de admiradores, flores e caixas de bombons. Ele não tinha aquele relacionamento típico entre celebridades e fãs, mas sempre recebia desses agrados – só lhe agradando as caixas de bombons, já que doces eram seu fraco. Chegou perto dos presentes e arrancou gentilmente uma das azaleias brancas que formavam um lindo buquê. Apertou-a em sua mão com força, encravando suas unhas na palma da própria mão, descontando aquela frustração. Abrindo a mão, viu a mistura do seu próprio sangue e das pétalas amassadas da flor. Uma combinação sadisticamente bela: as pétalas alvas amassadas e manchadas de sangue. Um sangue vivo, vermelho e intenso. Lembrou-se da primeira vez que deflorou aquela mulher, aquela que sempre aparecia em sua memória. Do sangue dela contornando a área em torno da vagina. Era uma mancha tão vermelha e tão intensa como aquele sangue que provocou em sua palma da mão. Ficou naquela reflexão por um minuto e foi lavar as mãos.
Precisava tomar uma ducha morna para se acalmar e descansar até a hora do lanche. Não teria lutas por aproximadamente uma semana. O único divertimento que teria era o "batismo" de iniciantes que não possuíam a técnica Nen, prejudicando-os gravemente. Seria mais um tempo tedioso, até a chegada daqueles dois garotos que conheceu no Exame Hunter.
E por falar nestes, Hisoka descobriu que ambos já estavam lá na Torre Celestial enquanto assistia a televisão. Gon Freecs, Killua Zaoldyeck. Promissores jovens lutadores que já estavam em andares superiores aos primeiros vinte andares. Excelente. Agora, ele teria que prepará-los até que estivessem dignos de avançar depois do 199º andar. Sabia que Gon veio até lá para treinar o suficiente para devolver o soco que ele deu no garoto, durante o Exame Hunter. E estava totalmente disposto em vê-lo crescer, e amadurecer, para torná-lo o inimigo ideal para derrotá-lo e matá-lo. Porque era assim que Hisoka via um inimigo: quanto mais forte, mais merecedor de ser destruído; quando mais determinado, mais digno de ser esmagado. Por ele. Por que ele era o homem mais forte, e buscava aqueles que pudessem ser como ele um dia. Era um prazer intenso derrotá-los da forma mais insana. Suas expectativas em torno de um menino de aproximadamente doze anos e com uma força incomum eram motivadoras. Afinal, não era todo dia que se encontrava jovens promissores que nem o Gon…
…
– Uma frustração pura! – reclamava Don.
– Ah, logo terá outras lutas dele, Don! – falou a companheira de Naomi.
– Sei, mas… nem sei te explicar minha frustração, e outros também ficaram assim, não é? – o loiro apontava para o companheiro dele.
– Verdade. – concordou o outro.
– Ah, se estivesse conosco lá no paraíso dos lanches! – disse Naomi, farta de tanto comer mas nem um pouco arrependida – Olha, você iria se divertir mais!
– ...pior que você hoje tem razão, Naomi. – concordou Don, com leve biquinho.
– Bom, vamos voltar para nossas suítes! – disse a companheira de Naomi.
– Já está tarde e amanhã vamos explorar mais desses lugares. – foi a vez do companheiro de Don.
– Certo. – concordou Naomi.
Quando ambos se direcionavam para a área residencial (onde tinham as suítes), Don puxou levemente a mão da morena que estava amando discretamente.
– Espera, Naomi. Eu… queria falar uma coisa contigo.
– Claro, o que é?
Os outros dois tinham parado também. Don se virou para eles.
– Vão na frente, é algo particular. Depois levo a Naomi para suíte de vocês duas, certo?
– Por mim, tudo bem. – concordou a companheira de quarto dela.
Quando ambos estavam a sós no saguão, Don a puxou para um dos sofás enormes que havia ali.
– Vem cá… e me diz: pensou naquela minha proposta?
– Proposta?
– Sim, não se lembra? ...que eu pedi em namoro.
– Ahh… – ela coçou a cabeça.
– Então… o que me diz? Pensou bem no caso?
– Bom… não estou pronta ainda.
– Pronta? Não está pronta? Está mais que pronta! Livre, desimpedida… bem, você é livre, mesmo?
Ela abaixou a cabeça.
– Eu sabia. – disse ele, suspirando.
– Bem, não namoro ninguém… mas… promete não se irritar comigo?
– Ora, ora… irritar-me porque ama uma outra pessoa que conheceu antes de mim? Ahhh! – puxou-a para um abraço amistoso – isso é totalmente normal, Naomi! Só… sinto por não ter sido tão rápido, antes!
Naomi ficou silenciosa, aproveitando aquele aconchego que oferecia aquele peito que parecia robusto por baixo da camisa. Ela fechou os olhos.
– … que bom que me entende…
– Claro, Naomi. Claro…
Ele acariciava os cabelos sedosos da morena. No fundo, estava irritado, mas jamais passaria aquela frustração nela. Tudo era só uma questão de tempo.
– E… essa pessoa que você ama… te ama também?
– ...não sei te dizer, Don.
– Se ele não te ama como você o ama, aconselho como um grande amigo esquecê-la…ou esquecê-lo, na verdade. – acrescentou um leve toque de riso.
– Ele me ama… mas não nos vemos faz tempo.
– Entendo… entendo…
– Don… é uma história louca se eu te contasse…
– Ah, adoro histórias loucas! – soltou-a do abraço para falar gesticulando, como costumava fazer – E românticas? Mais ainda!
– Você… é louco mesmo… vou contar as coisas aos pouquinhos, preciso sentir confiança em mim mesmo para te contar como e por que estou apaixonada.
– ...tem todo o tempo do mundo comigo, Naomi… – ele abaixou seus óculos escuros para fitá-la nos olhos.
Parecia que Naomi tinha encontrado um bom amigo para ser seu confidente. E, se ele realmente a amava, entenderia tudo.
– A confissão desse momento: gostei de um cara q sequer imaginei encontrar na vida, e que me prometeu voltar para mim um dia.
Don olhou desconfiado para ela. Essa confissão passava a impressão que ela estava sendo iludida por um típico sedutor barato.
– Olha, Naomi… não querendo magoá-la, mas esse cara me parece desses típicos sedutores baratos, viu?!
Naomi olhou para ele com certo ar de frustração.
– Seria mesmo isso?
– Sim, sim. E não quero vê-la iludida. Quero fazê-la realizada! – ele a puxou para um outro abraço. Similar ao anterior, porém apertava-a em seus braços.
– Mas… mesmo se… se já tivesse ocorrido uma primeira vez?
Don ficou chocado. Naomi já tinha sido deflorada por um outro que não fosse ele? Mantendo a calma, ele a segurou pelos ombros gentilmente, querendo saber mais.
– Mas Naomi… tudo… ocorreu porque você quis, não?
– Claro! ...nunca fui abusada por ele! – ela falava tranquilamente como se nunca tivesse acontecido esse abuso – eu que quis.
– Ah… um alívio a mais… – mentiu. Agora que ele estava chateado em saber disso.
– Que bom que compreendeu minha situação.
– Só desconfiei desse cara manter essa distância depois de tê-la tido pela primeira vez… confesso, Naomi… não quero que seja brinquedo de ninguém! Jamais Don trataria a senhorita Naomi como um brinquedo! – disse convincente.
Ele parecia confortável em suas palavras. Isso fez Naomi refletir ali.
– Mas… ainda somos amigos?
– E se quiser, você pode ser mais que isso para mim. Sabe bem!
Ela abraçou-o forte. Ele correspondeu, obviamente. E em um canto daquele saguão, alguém estava sozinho, espionando o casal. Sem se preocupar em detalhes, essa pessoa apenas queria relaxar sozinho no grande saguão do 200º andar, fora da própria suíte. Achou curioso ver, naquelas horas da noite, apenas um simples casal abraçado tranquilamente. Enquanto isso, essa pessoa se ocupava em seu canto mudar o foco de observação, concentrando-se no castelo de baralhos que estava edificando solitariamente.
