Fatos ocorridos na vida de Naomi enquanto Hisoka partia em direção a York Shin.
Ambos chegavam no belo flat de Don. Naomi parecia um pouco molenga, devido à bebida. Don também não se preocupou. Colocou-a em seu quarto, deitando-a na cama. Sentou-se ao lado da bela que começava a dormir profundamente aos poucos. De repente, teve uma ideia: pegou Naomi novamente nos braços e levou para seu próprio quarto. Atreveu-se a tirar-lhe os sapatos de tom vermelho-escuro e de salto alto. Observou aqueles pezinhos mimosos, de unhas bem curtinhas e pintadas de vermelho. Voltou a contemplar a criatura jogada de bruços em sua cama macia. Olhou o zíper de sua roupa e puxou-o delicadamente, deixando a roupa mais folgada no corpo dela.
– É melhor que descanse assim… – disse Don, tirando seu terno e afrouxando os botões do pulso da camisa.
Ele se levantou da cama, olhando Naomi mais uma vez antes. Foi tomar uma ducha fria, precisava aliviar a tensão e a expectativa que teve em relação a morena. Depois de uma longa ducha, foi de roupão até sua cama, onde Naomi dormia tranquilamente. Voltou a sentar ao lado dela, deslizando a ponta dos dedos no meio das costas nuas. Sequer fez um movimento de reflexo. Estava no seu mais profundo sono.
– É só uma questão de tempo… Naomi.
Ajeitou-se no nado dela e dormiu assim mesmo, de roupão. Em plena manhãzinha, ele levantou para ir arrumar a mesa do café da manhã. Não que a presença de criadas para fazer isso fosse fato, mas ele quis fazer uma surpresa bem agradável para ela, que despertou meia hora depois dele, com os raios solares que transpassavam o vidro da janela batendo em sua cara.
Foi ao banheiro em sua rotina matinal, vestindo a própria roupa que usou na noite anterior. Foi até a sala de jantar e deparou-se com um banquete – para ela, era um banquete dos mais luxuosos. Don estava esperando ela comer enquanto lia uma revista.
– Mas… nossa… que bonita mesa… – exclamou Naomi, quase boquiaberta.
– Que bom que apreciou… e eu ajudei a arrumar também! – disse o loiro, com os cabelos levemente assanhados, largando a revista.
– Mas… espero que não tenha dado muito trabalho! – disse ela, sentando-se ao lado dele, que estava na cabeceira.
– Mas que nada! Coma que você deve estar faminta! – foi então que ele começou a se servir – deixei um roupão para você em cima da cama. Não tinha visto?
– Não… mas quis me vestir logo… hoje é dia de trabalho.
– Aiii! Nem arrumei minha roupa pra ir! – botou a mão na testa. Havia esquecido de se arrumar para mais um dia de trabalho.
– Quer que eu o ajude?
– Ajudaria?
– Por que não? O mínimo que posso fazer como um agradecimento.
Apressaram-se em terminar o café da manhã. Naomi teve a oportunidade de ajudar Don a se arrumar – não vesti-lo todo, propriamente. Começou a rir, lembrando-se de algo enquanto colocava-lhe a gravata – coisa que Don nunca conseguia tão facilmente.
– Do que está rindo?
– Não é de você…
– Então, do quê?
– Lembrei-me quando eu ajudava meu pai a colocar a gravata. Foi ele quem me ensinou.
– Hmm… vejo que faz isso tão bem… há mais de vinte anos que tendo fazer isso tão habilidosamente como você faz e nunca aprendo!
– Nossa! – Naomi finalizou de arrumar-lhe a gravata, apenas ajeitando o colarinho agora.
Ambos trocaram olhares por rápidos segundos.
– Falta seus óculos, não é?
– Sim, Naomi. Vou pegá-los.
E assim, foram para o local de trabalho.
…
O dirigível onde estava Hisoka pousava no aeroporto. Mais uma vez, pisava naquele solo. Lembrou-se quando foi convocado por Kuroro há um ano atrás para atacar aquele evento de negócios onde conheceu Naomi. Queria tanto sabe ao menos se ela estava viva, mas teria que conter-se. Tinha outras prioridades. Mas… talvez, em uma hora livre… pudesse verificar aquela casa onde morava Naomi antes dele partir. Será que ela inda morava lá?
Mas sua luta com Kuroro não poderia ser mais adiantada. Quase três anos esperando isso… muito tempo. Obteria informações com Kurapika, outro jovem Hunter talentoso que era amigo daqueles garotos, e poderia ficar frente a frente com o líder do Ryodan, a sós.
Procurou um hotel simples para passar o resto do dia. Comunicou-se pelo celular com a Machi, avisando que já estava lá.
– Vou até aí buscá-lo amanhã, às nove da noite. – disse Machi, pelo telefone.
– Mas vão os outros?
– Já estamos todos unidos aqui.. só falta você, Hisoka. Vou levá-lo até a nossa base, aliás, a nova base. Mudamos de base.
– Mas é ainda naquele lugar cheio de prédios abandonados?
– Sim. Mas estamos em uma outra área perto. Vou te levar amanhã, nesse horário. Trata de não atrasar demais em nada, odeio esperar!
– Eu sei, chérie…
– Vou desligar, até!
– Adieu. – ele também encerrou aquela ligação. Foi até a janela, observou o céu entre nuvens, com um simples Sol iluminando o chão do quarto que estava – Estou tão pertinho de você, garota…
Antes das nove da noite, ele teria tempo livre. Resolveu ir do jeito que estava, diferente das costumeiras roupas extravagantes – ele vestia um paletó cor de vinho e com uma gravata de um verde bem esmaecido, e os cabelos bem penteados para trás, com uma modesta divisão no meio, realçando as franjas meio compridas – até aquele endereço, ver de novo aquele apartamento de dois andares, onde sua amada morava no andar de cima. Em frente a ele, com as mãos no bolso, notou o local fechado, parecendo que estava abandonado. Passava uma mulher cheia de sacos de compras de supermercado, entrando na outra casa vizinha. Fazendo-se de bom moço perdido na cidade, aproximou-se desta e perguntou.
– Por acaso mora nesse apartamento uma jovem moça?
– Que moça?
– Ah... desculpa. Pensei que conhecesse seus vizinhos de rua.
– Olha, não me ocupo em conhecê-los. Mas acho que essa casa morava uma velha senhora que já morreu. E não sei se está para vender. Bom, deixa-me ir andando, estou com pressa! Com licença.
Ela saiu da frente dele rapidamente, com as mãos cheias daquelas compras. Parecia evitá-lo. Hisoka sacudiu a cabeça negativamente, e voltou a se aproximar do muro que era a entrada do tal apartamento antigo. Ele sabia que, pelos fundos, tinha a janela que dava acesso ao quarto de Naomi. Habilidosamente, invadiu a parte exterior do local e foi até em direção ao destino que queria. Tudo fechado.
– Será que vive enclausurada aí, Naomi? – perguntou Hisoka em direção àquela janela – Não… pelo que sei, trabalhava como escritora daquela empresa de jornal… deve estar no serviço…
Olhou mais uma vez aquela janela e retirou-se dali. Resolveu andar pela cidade como um cidadão "normal". Entrou em uma biblioteca. Às vezes, Hisoka gostava de passar um tempo lendo livros, embora não aguentasse passar mais de duas horas sentado e forçando suas vistas em leituras, por mais boas que fossem. Olhando as prateleiras do setor adulto, ficou seu olhar em um livro que chamou a atenção: a capa dura, preta. Assunto de tema aparentemente polêmico. "Por Trás de Um Sequestro", era o nome do livro. Autora: Clair Noir. Hisoka nem se lembrou que já tinha lido aquele nome uma vez. Pegou o livro da estante e sentou-se em um canto, para uma leitura sossegada. Com a leitura, foi se lembrando dela. Sim… daquela tal escritora que Kuroro havia mencionado. De Naomi. Identificou-se logo com aquelas cenas familiares, tudo descrito tão elaborado e tão discreto em relação ao Ryodan. Embora não fosse de ficar mais de duas horas sentado e lendo, ele acabou esquecendo de que estava assim e leu aquele livro meio grosso por aproximadamente três horas e meia. Depois, guardou-o no lugar e retirou-se dali. Nunca havia se divertido tanto naquela leitura; sua diversão foi relembrar-se dos momentos com ela e os outros durante a leitura de um livro de conteúdo explicitamente sério.
Ao chegar às nove horas da noite em ponto, alguém já o esperava um pouco distante da porta. Machi ligou novamente para o telefone do ruivo e avisar o ponto que estava, para ele não perder tempo em procurá-la. E nada do sinal.
– Ah… esse maldito Hisoka! Não vou esperá-lo! Avisei para ele! – ela pressionava seu smartphone com força, já que não podia ser o pescoço dele.
Havia passado dez minutos apenas, o suficiente para Machi abandonar o local de encontro deles. Eles tinham que estar em ponto as dez horas. Dez horas. E Machi deveria caminhar bem até o esconderijo deles. Resolveu fazer assim: deixou a mensagem na caixa postal dele, usando Hatsu, fazendo com que a mensagem fosse vista apenas por ele. E nela, a bronca que não pode dar pessoalmente, mais as dicas de como chegar ao local. Colocou a mochila para trás e foi embora. Por um lado, foi bom para Hisoka não acompanhá-la, pois ela havia realmente encontrado Feitan, Nobunaga e Franklin no meio da estrada que dava caminho ao esconderijo. Hisoka não gostava de lidar diretamente com os outros, com exceção dela, de Kuroro e de Pakunoda. Afinal, foi esta última que o introduziu diretamente ao Ryodan.
…
Em casa, Naomi estava brincando com seu gatinho Kuro no colo, enquanto assistia a TV no amplo e macio sofá da sala de estar. O que não faltava ali eram TVs e sofás ricamente espaçosos para se sentar. Don estava verificando alguns papéis, pois senão já estaria ali ao lado dela.
– O que está assistindo aí, Naomi? – perguntou sem tirar os olhos dos papéis.
– Programa de humor, eu acho… liguei agora.
– Já vou aí… só estou terminando de lidar com esses documentos.
Por trás daqueles documentos, Don pesquisava sobre uma certa pessoa. Alguém que ele precisava acabar de uma vez. Eram só mais duas pessoas, e ele daria o seu golpe. Aquela imprensa de jornal seria dele. E o Sr. Bege, diretor e dono da empresa, também estava na mira dele – mas precisaria dele ainda vivo para ver tudo com aqueles óculos de aro preto e grosso. Usando seu poder Nen de transformação, ele modificava as assinaturas e dígitos. Ele tinha o poder similar à Textura Enganosa de Hisoka. Ele criava texturas baseadas em cópias e modificava-as como quisesse. Estava simulando um golpe em que Bege colocaria propositalmente a empresa à falência. E ele, futuramente, descobriria tudo e derrubaria ele, colocando-o na sarjeta.
Ao terminar, o loiro guardou tudo em uma gaveta e foi até ela, sentando-se ao lado dela.
– E então… pensou na proposta de estender sua moradia aqui?
– Ah… não… mas aceito passar os fins de semana, se quiser! – ela disse assim para não chateá-lo mais que já estava fazendo.
– ...não é uma má ideia… – disse ele, acariciando-lhe os cabelos da nuca até a pontas.
Naomi olhou para ele. E voltou a olhar paro o gato que dormia quietinho em suas coxas.
– É que… preciso acostumar-me aos poucos… ainda estranho sair de uma casa onde tinha minha total privacidade, sabe…
– E poderá tê-la aqui, Naomi…
– Mas.. e você?
– Não vou me importar com isso… – abaixou seus óculos, revelando o mais profundo e enigmático olhar da cor do mar – dependendo de mim, você pode até reinar aqui…
Ambos trocaram sorrisos. Naomi ficou mais uma vez encabulada.
– Não sei quando ao seu coração, mas saiba que… na hora em que me aceitar como seu por definitivo, essa casa passará a ser mais sua que minha! – ele aproximou-se aos poucos beijando-lhe discretamente o canto da boca. Ela afastou-se um pouco, ainda olhando para ele. Ele atraía e assustava ao mesmo tempo.
– Confio em você… mas tenha um pouquinho mais de paciência… estou em uma fase tão complicada…
– No quê? Descomplico para você!
– Mas são coisas do coração…
– oooohh… que meiga. Mas… é como eu disse, você tem o tempo que quiser… e acho que decidirá rápido… é só uma questão de jeito… – ele dobrou a perna grande no sofá e ficou totalmente de frente para ela. Aproximou-se para repetir o mesmo tipo de beijo que deu antes, e o fez. Mas na hora que ia tentando beijar totalmente os lábios dela, ela foi desviando-os e depositando minúsculos e ternos beijos na face e na testa, coisa que foi aceita por ele, que parou de insistir.
Após os beijos dela fora de seus lábios, Don a fitou longamente. E arriscou um palpite.
– Deixa-me beijar esses lábios, ao menos… – sua voz era roucamente sedutora, baixa… venenosa.
– ...luta por isso, então. – disse ela, calmamente.
– Sério… – ele pôs sua boca ao lado do ouvido dela, falando mais morno e baixinho – quer que eu lute por isso?
Naomi não poderia negar para si mesmo que aquilo deixou-a fraca diante dele. Mas em seu interior, a resistência e a entrega estavam em uma briga tensa. E parecia que a resistência estava ganhando. Ela deu uma pequena recuada, ainda olhando para ele, que parecia ainda mais louco. Quanto ela mais fugia, mais atiçava ele.
"Luta por isso, então."
– Vou lutar por você então, gatinha…
Naomi precisava sair da frente dele, ir até a janela e respirar profundamente. Ele era um convite tentador para uma noite de amor. Mas nada fazia ela se entregar a ele. Um homem rico, apaixonado, que pacientemente a espera. Não são todos que esperam assim. Por que Don era assim? Hisoka não a esperou (pelo que estava ficando óbvio). Mas… e se ele quisesse somente tirar proveito da juventude e da boa aparência dela? Ela se levantou, pôs o gatinho que havia acordado no chão e foi até a varanda, observar a cidade brilhante e charmosa de noite. Eram dez horas. Ele veio atrás, ficando ao lado dela.
– É mais linda ainda em contraste com as luzes da cidade… – disse ele, perto do ouvido.
– …
– Sabe que a amo a cada vez mais que se sente insegura.
– ...acha que sou insegura? – perguntou calmamente.
– Sim… mas isso é tão normal, não se preocupa, não. Bem… diga-me algo, se quiser falar sobre. Como era essa pessoa que você disse que ainda amava?
Naomi abaixou a cabeça, pensou bem no que falaria.
– O tipo mais imprevisível e estranho que uma pessoa pode conhecer. Mas ele foi fascinante.
– Como ele era fisicamente? Um rapaz que nem você, assim?
– Sim, ele é jovem…
– E… tinha traços assim semelhantes aos seus? Se sim, você tem muito bom gosto!
– Não exatamente… – disse, depois de dar um sorriso meio encabulado. Tem cabelos ruivos da cor do mais forte pôr do sol, a pele tão branca que parece de marfim, estatura imponente… parece um príncipe.
– Hum… e a personalidade dele?
– Indescritível.
– Como indescritível?
– É… ele é um misto de bom e mau.
– Esse cara aí… mas ele te tratava bem antes de abandoná-la?
– Bem, ele não me abandonou!
– Então, por que ele deixa uma mulher como você assim solta? E à espera dele? Inaceitável!
– Ele me prometeu que nos veríamos quando voltasse para York Shin.
– Ele é daqui? E... você sabe quando ele volta?
– Ele não falou quando voltava… e não sei se ele é daqui, ele nunca disse se era.
– Ah, Naomizinha! Naomi… – ele a abraçava gentilmente pelo ombro – tem certeza que ele não quis brincar com você?
De repente, a vontade de chorar veio à tona, mas resistiu – ela queria segurar o choro, principalmente na frente dele. Isso seria maior desculpa para ele alegar que o homem da vida dela estava ali, na sacada com ela.
– Prefiro esperar mais um tempo. Ainda vou dar uma chance. Senão… vou esquecê-lo e nunca mais voltarei atrás! – disse ela, apertando uma das mãos, formando um punho bem fechado e bem nervoso.
– Eu faria isso logo, se eu fosse você!
…
Todos do bando esperavam pelo Hisoka.
– Bem, vamos começar nossa reunião. – Kuroro fechou o livro e saiu do seu canto, quando a vela na entrada do esconderijo se apagou sozinha. Todos olharam sobressaltados.
– Hisoka! – exclamou Ubo. – Já íamos começar sem você mesmo? Por que atrasou?
– Ah, pensei que você tinha esquecido! – Machi foi até ele, com ar de quem ia da ruma bronca.
– Jamais… se eu faltasse hoje, perderia para sempre a oportunidade de vê-la executar seu trabalho aqui no Ryodan… e isso é uma oportunidade que jamais deixaria escapar! – Hisoka respondeu cinicamente.
– Danchou! Acho que todos estamos aqui! – adiantou Shalnark.
Da sombra do fundo da sala, apareceu a figura aparentemente alta e esguia, sempre com aquele livro na mão. Kuroro… Hisoka sorriu maldosamente ao ver aquele que queria esmagar com suas próprias mãos. O dia que tivesse o prazer de matar o mais forte dos especializadores… estaria realizado!
– Bem, vamos começar a nos organizarmos para o próximo ataque ao leilão que ocorrerá breve. – a voz calma e serena de Kuroro ecoava baixo e sombrio naquele lugar.
Eles elaboravam como seria o ataque ao famoso leilão anual de York Shin, prestes a acontecer em poucos dias. Enquanto isso, Naomi passou a noite em sua suíte particular no flat do amigo, pensando em Hisoka novamente. Aquele "fantasma" que nunca a deixava em paz. Ela tinha que esquecê-lo e tentar recomeçar sua vida com outra pessoa. Don parecia perfeito! Mas como? ...se ela tinha a cabeça tão fraca? ...deixaria o passar dos dias resolver isso para ela.
