Após o período de folga, Naomi teve que voltar ao trabalho. Lidar com a presença daquele homem, que de cordeiro fiel passou a ser um lobo predador.
– Não respondeu minha mensagem... – disse o loiro, calmamente, ao ver Naomi entrar sem sequer dar "bom dia".
– Não chequei mensagem nenhuma... – disse ela, arrumando suas coisas em uma das instantes no escritório.
Don girou a cadeira em direção onde Naomi estava. Ele observava bem o corpo dela, o par bonito de pernas cuja cor contrastava bem com o vestido preto e o casaco branco.
– Naomi... não precisa ficar assim comigo. Nesse mesmo e-mail que te enviei, estava me desculpando...
Ela nada falou. Sentou em sua mesa e ficou vendo os papéis em cima. Ele se levantou e, pegando a bolsa que ela havia deixado naquele hotel quando fugiu, lhe entregou. Naomi olhou para ele, dessa vez. Pegou sua bolsa e colocou perto de si, e voltou a mexer nos papéis. Ele pôs uma mão na frente daquela papelada toda.
– O que foi?
– Preciso que me dê sua atenção.
– Não me leva a mal, mas quero adiantar em minhas tarefas atrasadas.
– Não agora!
Ela se levantou, encarando-o.
– Naomi... não quero que, com isso, fique minha inimiga.
– Não, não sou sua inimiga. Até deveria te denunciar pelo que fez. Você cometeu um crime que nunca deveria ter feito comigo!
– Eu sei! Por isso mesmo, eu a perdoei pelo golpe que me deu. Foi merecido.
– Então... estamos resolvidos, certo? – ela bufou, cruzando os braços e encarando-o – Agora... posso voltar a trabalhar?
– ...tudo bem. Não vou te aborrecer mais com minhas desculpas, visto que parece ter me perdoado.
Ele foi para a mesa dela, e ela foi para onde estava. O clima entre eles era o mais frio e distante possível, principalmente por parte de Naomi. Esta mesma decidiu que, no fim do expediente, pediria a troca de setor e de subchefe, mesmo hesitando em falar o motivo real. Não queria escândalos envolvendo ela ali.
Despedindo-se normalmente de Don, ela saiu e foi até o escritório do chefe principal. Ao bater a porta, refletiu novamente o que poderia acontecer após aquilo. A ira de Don, a desconfiança dos colegas, um escândalo envolvendo sua reputação. Então, desistiu de sua vontade, resolvendo se calar e continuar tendo Don como seu subchefe, como se nada tivesse acontecido.
Quando foi para sua casa, teve uma surpresa não muito agradável, inicialmente. Aquele mesmo homem... de roupas de couro negras. O salvador dela naquela noite anterior, estava andando pela calçada perto da entrada de sua moradia. O que ele queria ali? Ele, ao virar-se, deu de cara com ela e expressou sua surpresa.
– Ora, mas não é que encontro você novamente?
Ela se aproximou dele.
– ...o que está fazendo por aqui?
– Estou procurando por uma casa para alugar ou vender. – disse, olhando para as casas vizinhas a dela.
– Por aqui?
– É...
– ...não sei se por aqui tem uma casa para alugar ou vender.
– Ah... e você mora por aqui, não é?
– ...perto daqui. – ela não quis revelar exatamente o apartamento antigo de dois andares onde vivia. E que no primeiro, não havia mais ninguém novamente.
– Humm... bom, vou andando. Deseja-me boa sorte!
– Boa sorte! Até...
Despediram-se seguindo caminhos diferentes. Naomi mudou seu caminho, de olho nele. Quando viu que ele se distanciou bem, ela correu até sua casa, entrando rapidamente e subindo pelas escadas dessa forma, até chegar à porta do seu apartamento.
De andar descontraído e com as mãos sempre no bolso da calça de couro, Eros saiu perguntando pelas pessoas por aí sobre uma casa que tivesse para alugar ou vender.
– Olha só: está vendo aquele muro, no final dessa rua? – explicava uma senhora de cabelos bem brancos, ao estilo channel, com o rosto enrugado e bem maquiado – tem um apartamento antigo, no estilo de muitos que você vê por aí nessas ruas, incluindo aqui. São dois andares, e o primeiro está desocupado.
– Eu... sei de onde fala, passei por perto.
– Então... lá mora uma moça, tem uns anos atrás que ela está morando nesse segundo andar. Vá lá e pergunta para ela sobre os detalhes, ela pode informar se está para alugar ou vender. Só sei que não mora mais ninguém no primeiro andar, não.
– OK! Muito obrigado, vou lá agora mesmo.
– Vai sim, gatão! Qualquer coisa venha aqui nessa casinha verde, estou aqui para ajudá-lo! – disse, piscando o olho.
Com um modesto sorriso, ele agradeceu com um gesto afirmativo e seguiu até onde morava Naomi, sem sequer imaginar isso. Ao chegar, viu duas campainhas. Tocou a de cima, desconfiando que fosse do segundo andar. Esperou. Levou um susto ao ver Naomi na janela, que foi ver quem era.
– Ué? Você mora aqui? – comentou com ar risonho.
– Por que está me seguindo assim? – Naomi começou a ficar mais alerta com Eros.
– Não estou te seguindo! Estou procurando uma moradia por aqui! – ele falou um pouquinho alterado, mas se recompôs – E me indicaram este lugar. Disseram que o primeiro andar não tem moradores. É verdade?
Naomi hesitou por segundos.
– ... é sim.
– Mas se realmente mora aqui, por que não me disse logo que havia este apartamento?
– ...
– Deixa para lá. Sabe se tem algum proprietário?
– Não sei.
– Certeza?
– Tenho sim. Vá até algum órgão responsável e veja se pode conseguir este.
– ...hmmm... parece que não quer me ter como vizinho, não é?
– ...não quis passar essa impressão.
– Lembra-se que te salvei quando precisou naquela noite. E confiei meus telefones ao te passar meu cartão. Não sou um cara de más intenções!
– ... tudo bem. Mas só estou te dizendo que não sei se há algum proprietário desse apartamento de baixo.
– Por favor... guarda ele para mim?
– Guardar?
– Sim, se vier outra pessoa, diga que esse já tem seu dono. Só isso!
– ... está bem. Mas vá logo, então.
– Ah, obrigado... qual é seu nome mesmo?
– ...Naomi. O seu é...
– Eros. Já havia lhe dito meu nome. Vê se não esquece mais, agora que serei seu novo vizinho!
Despedindo-se, Eros foi providenciar o que precisava para se mudar para ali. Ainda na janela, Naomi olhava o homem se distanciar correndo. Sentia-se aflita. Será que ele era algum espião? De alguém? Por que aqueles encontros casuais seguidos? Saiu da janela, fechando-a.
...
Hisoka se divertiu naquela cidade louca em Greed Island. Estava atrás do tal jounenshi, o sacerdote especialista de Nen para Kuroro. Encontros casuais, desde infantis até eróticos, Ai-Ai era um lugar bem interessante para passar o tempo. Mas nenhum dos jogos e encontros eróticos animavam ele. Ele poderia conseguir cartas do jogo com facilidade, mas não era para isso que ele estava lá. De repente, sentiu tédio ali e começou a explorar sozinho as áreas perto dali. Hisoka estava usando o nome do moreno para atrair a atenção dos outros Aranhas que estavam no jogo, mas acabou encontrando Gon e Killua e eles, juntamente com Biske – a mestra experiente deles que, apesar da aparência de garotinha, já era uma mulher com mais de cinquenta anos – enquanto se banhava em um lago pouco distante da cidade onde estava antes.
Não queria demorar mais em sua jornada, e aqueles meninos poderiam atrapalhá-lo novamente. Soube com precisão esconder suas intenções, porém Biske sabia – ou pressentia – que ele estava escondendo suas reais intenções. Mas a única coisa que ela temia nele era em relação aos meninos. Resolveu mantê-lo perto para descobrir algo que pudesse ser perigoso para eles.
Um jogo. Como a sua equipe não tem número suficiente de pessoas fortes para a sua próxima partida de dodgeball contra um dos fundadores daquele jogo, Razor, Biscuit o convida para se juntar a eles. Hisoka concordou, porque ele não tem nada a fazer no tempo em que esperava por alguma novidade. Também, um treino básico poderia mantê-lo em forma. Sentia-se meio "enferrujado". Bom tempo sem uma boa aventura...
...
Naomi estava assistindo TV em sua casa, com seu gatinho no colo, quando novamente a campainha tocou. Kuro pulou fora do colo dela, escondendo-se em qualquer canto que encontrasse, enquanto Naomi foi até a janela. Não viu ninguém.
– Ué, quem entrou pelo portão principal?
Imaginou quem fosse. Foi até a porta do seu apartamento e abriu.
– Não vai dar boas vindas ao seu novo vizinho? – perguntou com um sorriso no rosto.
Pela primeira vez, Naomi o viu sem o capuz que usava. Ruivo e de cabelos lisos – porém assanhados -, Eros possuía belos traços masculinos em um rosto pálido e jovem. Possuía uma franja longa que cobria quase os olhos cor de âmbar. Era ainda maior ali, diante dela. Grande, corpulento e levemente de um jeito meio desajeitado.
Naomi ficou paralisada, olhando-o.
– Fala alguma coisa!
– ... o que tenho a dizer... seja bem-vindo! – disse ela.
– Podemos nos conhecer melhor, vizinha? – perguntou ele, sem nenhum tom de malícia em sua pergunta, porém Naomi não interpretou dessa forma.
– Deixa para um outro dia, estou indo dormir porque tenho que trabalhar amanhã! Com licença! – ela fechou a porta na cara dele, ficando atrás da porta.
O outro ficou sem entender aquela atitude. Pondo a mão no queixo, pensativo, Eros ficou ali, pensando na atitude dela. Encostou-se à porta dela, acendendo um cigarro. "Que droga, poderia passar uma noite animada com ela... mas ela acha que vou fazer algum tipo de mal... o que deve ter passado de ruim na vida além daquela noite, essa menina?", pensava ele. Naomi se preparava para dormir. Estava com a cabeça confusa. Tudo o que precisava era dormir logo, mas cadê o sono que não vinha?
...
Acordou com a sensação de cansaço. Naomi havia dormido pessimamente nessa madrugada, acordando de vez em quando. Quando viu o relógio, levantou imediatamente, zonza, até o banheiro para se refrescar em um banho revitalizante. Fazendo os serviços diários de sempre, juntamente com os cuidados que precisava o gatinho, Naomi saiu de casa para trabalhar. Ao sair, olhou a porta do apartamento do seu novo vizinho. Refletiu sua atitude na noite em que ele se apresentou como o novo vizinho. Logo, saiu para lidar com mais um dia de luta, mais uma vez... lidando com a presença daquele homem.
Uma hora depois dela sair, Eros acordava. Deitado em sua cama, apenas de cueca, ele se levantou todo molenga e bocejando. Foi se arrumar para fazer as compras de casa – estava sem comida e só jantou uma pizza que encomendou na noite anterior, e que estava disposto a dividir com ela, em comemoração a sua nova moradia.
– Ah, minha moto! Deixei naquela antiga oficina! Como eu sou burro! – ele lembrou que deveria buscar sua amada moto para vir com ele em sua nova casa.
Também saiu de casa, com seu capuz e suas roupas de couro. Foi abordado pela mesma senhora que havia lhe indicado aquele lugar.
– E então, bonitão? Conseguiu aquele apartamento?
– Bem, sim! – disse ele, passando a mão pelo capuz.
– Agora... nós somos vizinhos. É muito bom ter um vizinho... como você.
Eros foi ficando meio sem jeito, mas também não queria dizer nada ofensivo para aquela senhora.
– Digo o mesmo.
– E para onde vai agora? Seria indelicada em perguntar?
– Vou fazer umas compras.
– Se precisar de alguma coisa... sou a Senhorita Nita, da casinha verde.
"Senhorita? ..." ele pensou.
– Ah, claro... muito prazer! Eros, ao seu dispor.
– Eros... que lindo nome!
– Obrigado, obrigado... bom, deixa-me ir andando, devo voltar logo para fazer meu café-da-manhã!
E saiu apressadamente. E a Senhorita Nita ainda foi mais gentil.
– Olha, se quiser, faço bons bolinhos e um café para esse horário da manhã! – gritou ela, sendo melosamente gentil com o belo rapaz.
Eros também foi resolver outras coisas que precisava. E voltou para casa no mesmo momento que voltava Naomi, que vinha com uma cara de aborrecida.
– Deixa comigo, abro a portão. – ofereceu-se Eros, saindo da moto para abrir o portão.
– Obrigada. – disse ela, sem estender conversa com ele.
Ele aproveitou e pegou as compras que estavam penduradas na moto estacionada. Naomi tinha tido um tenso dia de trabalho e precisava descansar...
– Don, pode parar com isso. Não vê que estou ainda zangada com você?!
– Ah, Naomizinha... por favor, peço que me desculpa pelo que fiz. Nunca mais volto a beber, se você não quiser!
– Faça o que quiser, nada tenho a ver com sua vida.
Ela saiu da direção dele, que acabou puxando-a para si.
– Escuta-me bem... não gosto desse tratamento que está me dando.
– Agora imagina o que você me fez naquela noite sem eu ter lhe dado permissão. Imagina o que eu sofri ali.
– Mas você gozou, Naomi... isso me lembro bem. Você não resistiu totalmente, o que me fez acreditar que estava cedendo aos poucos.
– Estava sem forças para reagir... mas bem que entendeu tudo quando tive que golpeá-lo.
Ele segurou-a pelos braços até colocá-la contra a parede.
– Vou gritar!
– Faça o que quiser. Apenas não suporto mais seu desprezo...
– Pensasse duas vezes, mesmo bêbado! Agora, deixa-me sair. – sem o deixar terminar a frase, ela empurrava-o pelos braços, ao mesmo tempo em que era forçada também pelos braços para ficar contra a parede.
– Naomi, escuta o Don, aqui: desde aquele dia...
– Solta-me agora! Vamos nos sentar e conversar como pessoas civilizadas. Assim... aceito suas explicações.
Ele soltou-a e puxou sua cadeira para frente à sua própria mesa naquele escritório.
– Sentamos, então.
Naomi repetiu o mesmo gesto, com a sua cadeira e em frente à sua mesa.
– Prossiga.
– Então... desde aquele dia, sinto-me indigno de seu perdão. Mas lembrei-me que ainda tenha você como amiga. E eu... não quero perder isso. Sei que foi insano o que eu fiz...
Ele explicou mais uma vez tudo que lhe havia dito. Naomi bufou em ouvir tudo de novo.
– Olha, Don... posso até te perdoar. Mas a confiança... não posso ter mais. É muito doloroso lidar com tal situação. Tenta me entender, por favor.
– Eu até entendo... só... não queria seu desprezo... – ele baixou a cabeça, mostrando-se arrependido.
De repente, ele saiu de onde estava sentado e se ajoelhou diante dela.
– Peço perdão.
Naomi olhou aquilo sem uma aparente emoção.
– Naomi... – ele olhou para cima, sem sair de onde estava – não posso me rebaixar mais que isso.
– Eu imagino... mas e a dor que me fez sentir naquele dia... será que se imagina sentido aquela dor em você?
Don lembrou-se quando penetrou a força naquele corpo. Dos gritos, dos gemidos dela. Sentiu uma vontade de sorrir ao lembrar-se do prazer louco e insano que teve ao possuir o corpo jovem e sadio da morena. Mas soube manter-se em seu drama.
– ...peço perdão novamente.
– ...já disse que tem meu perdão. Mas a confiança... é como um vaso que se quebra. Poderá restaurar, mas nunca será mais o mesmo: haverá as rachaduras da queda.
Ele olhou para ela, ainda curvado.
– Como é sábia a minha Naomi...
– São os acontecimentos que me fazem abrir os olhos. Não nasci sabendo de nada.
– Às vezes, acho que já veio ao mundo sabendo de tudo.
– ...essa conversa já merece um fim, não? – ela se levantou, indo pegar sua bolsa.
– ...lembra-se de minhas palavras... quando voltar para a casa.
Naomi saiu dali sem falar mais nada. Toda vez que se lembrava de tudo o que passou com ele, ficava irritada. Não por ele, exatamente... era por Hisoka. Achava que, se ele tivesse ali com ela, estaria muito bem protegida. Nada sofreria mais. Principalmente abusos daquele tipo.
Deitada na cama, ela refletia naquilo. Em tudo que havia passado com Don, desde quando foi apresentada a ele pelo falecido Sr. Bege. Não podia ficar assim, ou entraria em uma depressão. E do jeito que vivia, sozinha e quase isolada de tudo e todos... seria péssimo para ela.
E lembrou-se do seu novo vizinho. Lembrou-se daquele cartão com os dois telefones. Deu uma vontade de descobrir sobre ele, secretamente. Levantou-se, e foi até o cartão que estava dentro da gaveta, perto daquele smartphone que era seu ponto de comunicação com Hisoka. Com o telefone da própria casa, ligou para o primeiro número.
– Alô, quem fala? – uma voz masculina e fina respondeu do outro lado da linha.
– Eu... estou à procura do Sr. Eros. Ele se encontra?
– Ele já se mudou daqui. Mas se quiser, tem esse telefone aqui, é da nova casa dele.
Naomi anotou o novo telefone como se nem soubesse que ele era seu vizinho. Despediu-se e ligou para o segundo número.
– Pronto?
– Er... estou a procura do Sr. Eros. Ele se encontra?
– Ele está de folga, ele volta a trabalhar na próxima semana. Tem o número da casa dele?
– Bem... não tenho, não. Vocês aí têm?
– Vou te passar...
E passou o mesmo número novo para ela. Confirmou que ambos os números eram respectivamente da casa e do trabalho.
– Apenas... poderiam me dizer que tipo de trabalho vocês tem? Eu mesma estou urgentemente à procura de um emprego, sabe? – ela deu essa desculpa, para descobrir que tipo de trabalho era o de Eros.
– Venha nesse endereço! ...
O atendente recusou em falar do tipo do lugar, mas deu o endereço, para que ela viesse se estivesse interessada realmente em um emprego. Com a pulga atrás da orelha, Naomi ficou pensando curiosa sobre isso. Será que ele era algum agente secreto? Ou um criminoso? Que trabalho tão secreto era esse que o atendente recusou em falar?
Esse Eros estava ficando cada vez mais intrigante...
