– Por favor... não faça nada constrangedor... – disse Naomi, vendo Eros deslizando as mãos pela cintura dela de forma provocante.

– Ora... mas é para isso que estou aqui... – afundou seu rosto no meio dos cabelos dela, depois que a virou de costas para ele, dançando lentamente.

– Por favor... eu te peço... não faça o que fez naquela outra mulher! – ela estava estática, observando o público assoviar e aplaudir. Suas bochechas pareciam que pegavam fogo.

– Ahh... que pena... mas tudo bem. Depois eu quero conversar com você, agora estou ocupado entretendo o público. – ele a girou, tomando-a nos braços e fazendo coreografias de dança de casal. Afinal de contas, ele não podia parar para conversar normalmente.

– OK. Eu te espero lá naquele balcão.

Eros apontou o balcão onde estava justamente Don, bebendo e assistindo. Naomi quase engoliu seco, ao ver que o loiro estava justamente assistindo eles dois.

– ...que tal aquela mesa ali, perto do camarim de vocês? – ela teve uma rápida ideia, enquanto estava se acostumando com aquela dança erótica.

– Por mim... tudo bem. Vou descê-la agora, já que não quer brincar.

– Ótimo.

Beijando-lhe a mão, Eros lhe deu uma piscadinha e levou-a novamente para o fim daquele palco, deixando-a descer. Naomi indicou sinalizando a mesa em que ficaria. Eros deu um pequeno sorriso e continuou sua performance. O tal secretário deixou-a ali, sozinha, indo fumar alguma coisa.

Ao terminar sua apresentação, Eros foi até ela e puxou-a pela mão.

– Vamos conversar lá no meu camarim!

– ...certo.

Sim, aquele mesmo camarim em que flagrou um certo homem se preparando para uma apresentação. Eros a levou para lá, fechando a porta.

– Mas o que é que você faz aqui?

– Eu... bom, de vez em quando costumo vir aqui... – deu a desculpa esfarrapada.

– Ahh... e por que não quis brincar comigo lá no palco?

– Eh... é que tenho vergonha de... sabe? Aprecio assistir, apenas.

– Hahahaha, entendo. Nunca imaginei que a minha vizinha tão séri gostasse de lugares como este! – disse ele, pegando uma garrafa de champanhe e, abrindo-a, colocou em uma das taças que estavam disponíveis em cima da bandeja de bebidas – toma um drink comigo?

– Bem... não costumo beber mas... vou aceitar. – estando realmente sedenta, Naomi bebeu aquele champanhe como se fosse um copo fresco de água.

– Hahaha, vai com calma, que isso não é água! – ele se aproximou com a outra taça na mão.

– ...não repara, não... – disse ela, rindo sem jeito.

Eros observava aquela mulher com jeito de menina.

– ...seria indelicado em perguntar sua idade?

– Hum? Não muito, mas só se você falar a sua primeiro!

– Está bom. Apesar de parecer mais velho, tenho vinte e um anos, cheio de boas, más e péssimas experiências...

– Haha... também tenho essa idade.

– Jura?!

– Sim.

– Bom, agora que sabe onde trabalho, quero saber onde trabalha.

– ...sou escritora da Companhia de Jornal de York Shin.

– Nossa! Você é tão jovem e já num posto bem elevado! – Eros falava admirado.

– Nem tanto...

– ...bem, vamos juntos para a casa? Ou... você está com alguém aqui?

– Não... vim sozinha.

– Vi você com o Pepito... achei que estava com ele.

– Pepito?

– É, aquele velho que trabalha aqui. Ele quem coordena os dançarinos e strippers.

– Ah, sim. Mas ele apenas estava conversando comigo, até se ofereceu como uma companhia.

Eros pôs a taça no chão, ao seu lado, e cruzou os braços.

– Ele... não te persuadiu para vir trabalhar aqui, não é?

– Er... não, que isso! Não, ele não fez isso? – Naomi estava se embolando na própria mentira. Aliás, a presença dela ali era farsa, uma espionagem pessoal para saber quem era Eros.

– Hum... qualquer coisa, fala comigo que eu ponho ele no lugar! Você não é dama para trabalhar aqui!

– ...mas vocês não são inferiores como parece julgar. Todo trabalho é digno, é a luta pelo seu sustento.

– Aiih! Como você é gentil, ...qual seu nome, mesmo?

– Naomi.

– Isso, Naomi! – ele pegou a mão dela, beijando devotamente como Romeu fazia com Julieta.

– Ah, chega... não faz assim. – ela sentia seu corpo inteiro revirar. Afinal, um belo homem como aquele fazendo tal coisa... mas recompôs a postura.

Depois de mais umas conversas furadas, Naomi esperou lá fora do camarim Eros se trocar e ambos foram embora para casa. No caminho, foram parados pelo tal Pepito.

– Não quer a companhia das meninas para voltar para casa?

– Não, Pepito. Ela vai comigo. Ela é minha vizinha, logo moramos no mesmo endereço.

– Ahhh! Que curioso saber. Então já se conhecem, mesmo.

Naomi sentiu uma gota descer pela testa. Despedindo-se do velho homem, os dois seguiram caminho até a motocicleta dele, quando um vulto se meteu na frente deles.

– Tem outros amigos que lhe possam trazer aqui?

– Don... – disse Naomi, indiferente.

– Quem é esse? – perguntou Eros, olhando-o de cima para baixo.

– Meu colega de trabalho.

– Só? Somos grandes amigos ainda, Naomi. – disse Don, aproximando-se dela. Eros pôs um pouco à frente, como se estivesse protegendo a bela. – Ora... não precisa agir dessa forma, rapaz. Mas fico feliz em vê-lo protegendo. Naomi é uma garota muito especial... – ele destilava certa ironia naquelas palavras.

– ...podemos prosseguir nosso caminho?

– Posso leva-la para sua casa, se quiser...

– Ela vai comigo, senhor. – disse Eros, cortando as palavras dele.

– Senhor? ...hehehe... já disse que somos conhecidos, logo não preciso que fique protegendo ela de mim.

– Eu vou com ela. Somos vizinhos de apartamento, logo vamos para o mesmo endereço.

Don fez uma leve careta. Naomi estava passada. E temerosa diante do loiro. Também não queria que nada acontecesse com Eros.

– ...poderia nos dar licença? – disse Eros, pegando na mão dela.

– Huh... essa tua marra, cara... está me deixando irritado.

– Chega, vocês dois. Don... por favor... – Naomi empurrava Eros para frente, fazendo os dois pararem de se encarar – pela nossa amizade... deixa ele. Nós nos vemos amanhã. Até mais!

E assim, Eros foi até a sua moto com ela. Oferendo o seu próprio capacete para ela, montou em seu veículo. Naomi também o fez, e assim ele foi embora dali. Observando os dois sumirem no horizonte, Don ria.

– Era esse o tal que você tanto falava, Naomi?

...

– Kuroro, já consegui o Jounenshi. – disse Hisoka, do outro lado do celular.

– Traga-o até a mim.

– Espero que dessa vez não haja outras desculpas... e já estou farto de ficar nesse lugar.

– Sabe onde me encontrar.

– Bem... liguei justamente para saber onde você realmente está...

– Heh... estou em casa. – disse Kuroro, referindo-se a Meteor City.

Parfeit. Até breve, Kuroro!

Desligou o celular. Estava perto de realizar sua desejada luta. E quando voltasse para York Shin, veria sua amada novamente. Estava tão concentrado nessa luta que sequer sentia a necessidade de satisfazer seus desejos sexuais em outros corpos que não fossem o dela.

...

– Então... esse cara não é flor que se cheire?

– Sim. Não vou falar todos os motivos, mas Don me decepcionou como um amigo que parecia ser.

– Mas por que não denuncia esse homem, se ele estiver assediando-a?

– Olha o nível dele e compara com o meu... o jeito é ir levando as coisas como se tudo estivesse normal.

– Naomi, qualquer coisa que precisar... estou aqui. – disse Eros, com as mãos nos ombros dela – Agora, não está tão sozinha por aqui. Sei que não sou o melhor nas brigas, mas estou disposto em te ajudar no que precisar!

– Ehh... tudo bem. – disse ela, olhando-o com a ternura de uma amiga – diferente do jeito que o olhou como dançarino erótico daquele clube.

– Ahh, fico feliz em ter me permitido conhecer sua casa! – disse o ruivo. Ele olhou o gatinho em um dos cantos da sala – Ahh você tem um gatinho! Posso vê-lo?

– Pode... só espero que não te receba com certa rispidez... é que ele é muito tímido... só depois de um tempo que ele se acostuma com uma pessoa estranha.

– É como diz o ditado: os gatos são reflexos de seus donos. Hehe...

Naomi até achou graça ao ouvi-lo falar assim. Por um lado, até que Eros estava certo.

– Ah... ele fugiu.

– Ele se esconde atrás das cortinas. Disse que vai levar um tempo para Kuro se tornar amigo seu.

– Ah... Kuro... vem aqui, seu gatinho! – ele mexia na cortina, tentando fazer o gatinho sair dali. Parecia uma criança querendo mexer com gatinhos.

Naomi se levantou, indo até a cozinha.

– Quer beber alguma coisa?

– Ah, só um copo d'água, por favor. Agora, eu estou com sede.

Naomi tranquilamente abria a geladeira e pegava uma garrafa d'água, para encher um dos copos para visita. De repente, sentiu uma presença calorosa por trás. Virando-se rapidamente, Eros estava bem atrás dela.

– Ai, que susto!

– Desculpa... mas e minha água?

– Está aqui...

Ao pegar o copo, Eros deslizou sua mão na dela, que segurava o copo. Naomi ficou encabulada diante dele, que se atreveu a perguntar inocentemente, ainda sem nenhuma malícia nas palavras ou nos gestos.

– ...Naomi, seu coração já tem algum dono? Se não tiver, dê para mim. Eu gostei de você, mesmo!

A morena abaixou os olhos. Eros observou aquela atitude.

– ...entendo. Não sou o tipo de cara que serve para você, não é?

– Não! Não foi isso que quis dizer!

– ...e então? O que me diz, querida?

– ...é que já tenho uma pessoa...

– Ah... – ele pegou o copo e começou a beber, ao mesmo tempo em que continuou a conversa – se já tem alguém, não vou ficar insistindo.

– Mas podemos ser amigos... ou ficou chateado comigo por isso?

– Nada, sua boba! – ele colocou o copo já vazio na pia e ficou bem de frete a ela. – Por que ficaria chateado com isso? Bem... só um pouco... mas nada disso é razão para me zangar...

Naomi viu certa familiaridade naquela resposta dele. Don também teve a mesma reação e foi capaz de fazer o que fez. Sentiu que deveria ficar alerta, mesmo que Eros ainda não fosse um selvagem que nem Don.

– Bom, vou para o meu andar. Tenho que dormir logo. Tenha uma boa noite, Naomi! – disse ele, dando um beijo fraternal na bochecha dela, que correspondeu da mesma forma.

– Até mais!

– Na próxima vez, venha visitar-me. Falta você conhecer a minha casa.

– ...e eu já conheço aquele andar... uma senhora que vivia solitária ali era minha amiga. Foi ela quem me amparou aqui quando vim morar sozinha pela primeira vez.

– Assim como está fazendo comigo?

– ...sim.

– Ah, que interessante. Mas agora, você vai conhecer a minha casa. Venha amanhã ou outro dia que queira... e se quiser, pode trazer seu namorado também.

– ...pode deixar.

– Cuida-se, hein?

– Está bem, Eros!

Ele se retirou. Naomi caiu em uma ducha fria e longa, aliviando-se daquele cheiro de bebida e de fumo que estavam impregnadas em seu corpo e foi dormir.

...

Hisoka teve alguns problemas para retornar ao mundo real sem nenhum cartão sequer. Em Greed Island, não aceitavam o retorno sem sequer ter tido um cartão. Convencendo a recepcionista do portal à base da ameaça, ele conseguiu finalmente retornar até onde tinha partido para lá: York Shin. Retornou ele e o sacerdote de Nen. Dali mesmo partiriam os dois para Meteor City.

– Não posso ficar muito tempo fora do meu ambiente.

– Será breve. Preciso que cure uma pessoa amaldiçoada pelo Nen de um outro usuário. Logo, poderá voltar para seu lugar.

– ...eu não conheço nada por aqui...

– Eu conheço bem. Não se preocupe. Agora mesmo vamos partir para onde está o nosso "adoentado".

E foram para Meteor City. Levaram dois dias e meio para chegarem até Kuroro, que estava isolado em uma área onde os outros não poderiam encontrá-lo, também graças ao Hisoka. O ruivo cuidou dele, indiretamente, apenas para mantê-lo até que pudesse lutar com ele. Foi o próprio que havia lhe prometido.

E eis o momento em que ficou frente a frente com ele... que estava um pouco mais magro, aparentemente abatido. Mas ainda tinha aquelas feições juvenis tão intactas que só eram quebradas por olheiras acentuadas.

– Vejo que não está em melhores dias...

– ...você achou?

– Sim. Mas aqui está o homem que pode lhe curar.

Kuroro olhou o Jonenshi de cima para baixo. Este sentiu uma energia negativa e baixa diante daquele homem, porém não demonstrou isso em nenhuma atitude, nem por olhares, gestos ou fala.

– Pode ir fazer seu trabalho. – ordenou Hisoka, com um sorriso maroto no rosto.

– ...preciso que tire todas suas roupas. – pediu o Jonenshi.

– ...vai querer que eu saia? – Hisoka perguntou para Kuroro.

– Não... fica. Não tenho nada tão pudico para ser escondido entre homens. – disse ele, levantando-se e tirando as roupas – e quero que veja o prometido ser cumprido.

Um corpo magro, ainda musculoso. Algumas cicatrizes que pareciam enfeitar a pele tão alva e um pouco seca, devido às condições em que vivia. Uma visão. Hisoka olhava a ação com tédio, ao mesmo tempo em que se lembrava daquela vez... em que teve que testemunhá-lo violando Naomi. Deu uma raiva naquele momento. Foi até ótimo isso acontecer, pois inspirava-o mais em sua breve luta – onde finalmente acabaria com ele.

O sacerdote rondou as mãos por todo o corpo despido do moreno, como se estivesse passando um pano nele. Após isso, acendeu um incenso que tirou do bolso e jogou no chão. Invocando uma criatura bizarra, ele concentrou-se profundamente, fechando os olhos. O bicho percorreu pelo corpo dele, fazendo-o estremecer um pouco. O corpo em forma de serpente apertou-lhe uma das coxas, a cintura, um dos braços e o pescoço, e começou a apertar ele com um pouco de força, ao mesmo tempo em que roçava a pele gosmenta contra a dele. Aquilo parecia meio erótico, mas não era. Tirando o fato do pescoço estar sendo um pouco estrangulado, aquilo não incomodava tanto o Kuroro, que até se sentiu estranhamente bem com aquilo. Ele fechou os olhos. E aquela criatura exótica ficou assim pressionando-se contra o corpo dele, quando abriu a boca e colou-a no peito de Kuroro, sugando-lhe a Corrente de Julgamento de Kurapika que estava implantada no coração – sem perfurar-lhe nenhum centímetro de sua pele.

– Agora, um novo homem está nascendo! – disse o sacerdote, ainda concentrado profundamente.

– Mas isso não vai fazer que perca o Nen dele? – algo preocupou o mágico assassino diante daquelas palavras.

Ele sequer ouviu. Hisoka ficou sério, preocupado com aquela possibilidade. Kuroro ficou hipnotizado, sem ter controle de suas ações ou de seu próprio juízo. E a criatura bizarra em forma de serpente enroscava-se nele ainda mais, criando mais tentáculos que se enrolaram em outras partes do corpo, inclusive nas partes genitais. A criatura sugava ele todo, sem querer estimulando-o em todas as áreas por onde sugava, apertando. Hisoka ficou confuso ao ver tal acontecimento. Aquilo emitia um poder incrível, embora fosse muito estranho. De repente, imaginou Naomi no lugar do moreno e no lugar da serpente, ele. Ou vice-versa. Essa fantasia que mal vinha em sua mente o fez sorrir ali, mas disfarçou-a. Essas coisas deveriam ser deixadas para depois.

Kuroro sentiu perder todos os sentidos, mas em troca ganhou a sensação de prazer, principalmente ao ter seu sexo tocado. Com isso, os pontos vitais de seu corpo eram abertos e todas as energias negativas eram absorvidas pela criatura. Foi inevitável que ele gozasse sem querer ali, fazendo Hisoka por a mão na boca, controlando a risada ao ver aquela cena tão bizarra quando a criatura que o sugava. Depois de seu trabalho feito, a criatura se soltou do corpo dele aos poucos, desenrolando-se toda dele e caindo desfalecida no chão. Kuroro abriu os olhos, aos poucos, recobrando a normal consciência. O Jonenshi abriu os olhos, olhando para Kuroro, que estava com uma aparência melhor, totalmente diferente do que era minutos atrás. A pele renovada, o corpo com aparência mais forte. Sequer tinha olheiras. Estava como se estivesse novo em folha. Hisoka achou aquilo interessante. E o mais importante: ele estava livre da maldição do Nen de Kurapika. Mas algo ainda lhe martelava na mente: será que ele também perdeu toda a sua habilidade, também? Seus poderes?

Aquilo não podia ter sido em vão... não podia.