Fatos ocorridos na vida de Naomi durante a invasão das Formigas Quimeras na Terra.

...

Uma tragédia horrível em York Shin: um casal havia morrido em um acidente que era suspeito de ter sido planejado. Eram os pais de Naomi. E o plano de vingança de Don foi realizado com sucesso. Vingou o passado de seu clã. A parte do clã Mosli responsável pela tragédia em sua família foi finalizada como se devia. Agora, poderia estar mais próxima dela, imaginando que ela estaria frágil.

Naomi foi amparada aos choros por Eros ao ler o jornal em frente à caixa de correios, onde também pegava o jornal diário. Bem na primeira página, o destaque da notícia trágica. Ao ler os nomes dos pais, ela quase perdeu os sentidos. Caiu no chão sentada e chocada. Se Eros não estivesse ali, ao lado dela enquanto estava verificando se lhe havia chegado alguma coisa pelo correio, ela ficaria ali mesmo chorando sozinha.

– Estou perdida, Eros! – ela chorava, sendo sustentada pelos fortes braços e expostos do rapaz que a abraçava. Ele só vestia uma jaqueta preta de couro e as mesmas calças apertadas.

– Fica calma, estou aqui... vou te ajudar! Não sairei do seu lado!

Eros ficou que nem um irmão ao lado dela. Acompanhou-a até a casa dela no outro lado da cidade, onde ocorreu o enterro dos pais. Don nem se atreveu a ir, não queria reencontrar os poucos parentes de Naomi. Era horrível toda aquela situação. Naomi chorava muito sobre os corpos, inconformada com o acidente. E esses poucos parentes não pareciam tanto de confiança, apenas prestaram as condolências e o respeito a pobre órfã. Olharam Eros com olhares de reprovação, imaginando que ele fosse um "comum", não igual a eles - gente de alta sociedade, mas ele nem se importou – estava mais atento a Naomi. No fim daquele ritual fúnebre, ela voltou para a casa dela ali. Eros ficou impressionado com a riqueza daquele lugar.

– Nossa... com uma casa dessas... você mora naquele lugar ali?

– Sim... quis tentar a vida sozinha. Precisei sair do berço para tentar a vida independente... mas tive tantos obstáculos para enfrentar!

– Mas você ainda vai morar lá ou virá para cá? Afinal, você terá que cuidar da casa que era dos seus pais.

– ...Eros, acho que a vida conspira demais contra mim!

– Olha, feliz de você que ainda teve seus pais... eu nunca tive a oportunidade de conhecer os meus... nem abraçá-los e nem chorar por eles!

– ...entendo. Mas a dor de uma perda brusca igual essa... é horrível! – ela limpava o rosto molhado.

Ele a abraçou. Naomi correspondeu ao abraço amigo dele.

– Só te peço uma coisa, Eros.

– Sim, diga.

– ...nunca traia nossa amizade, por favor...

– Não, por que faria isso?

– Vários já fizeram...

– Esqueça estes... agora, você tem alguém que não é lá essas coisas, mas está aqui para ser seu amigo! – ele terminou com um beijo na nuca dela.

– ...obrigada...

– Naomi... me diz uma coisa? E esse tal namorado que você tem... deveria avisar a ele para que ele também te ampare.

– ...ele... está tão distante de mim... – Naomi se lembrou do Hisoka e voltou a chorar mais ainda.

...

Em uma festinha particular em seu flat, Don celebrava secretamente sua vingança quase concluída. Celebrando com mulheres e amigos mais próximos, ele resolveu esperar antes de partir em missão de reconquistar Naomi. Lembrou-se quando a viu com um outro cara... talvez era aquele o tal namorado que ela tanto falava e era fiel.

– Parece que terei que acabar com outra pessoa... Naomi tem que estar sozinha, dependendo só de mim. – disse ele para si, enquanto degustava do seu vinho.

Eros voltou com Naomi em sua moto para a atual casa deles. Os empregados prometeram cuidar da casa dela enquanto ela ficasse temporariamente morando sozinha. Ele não havia aprovado muito essa decisão de Naomi, pois havia casos de empregados que abusavam da confiança dos donos – mas também não comentou nada sobre.

– É melhor que passe a noite em meu andar, Naomi. Que acha? Vai ficar bem, prometo me comportar!

– Eros... já confio em você, não se preocupe. – disse ela, com ar bucólico.

Era de cortar o coração vê-la assim. Por isso, fez de tudo para que ela se sentisse mais confortável dentro de seu apartamento no primeiro andar. Fez o jantar para ela – embora não soubesse cozinhar direito –, arrumou sua própria cama que vivia em estado de bagunça para ceder a ela, e adotou o sofá como sua nova e temporária cama. Ele mesmo ligou para o trabalho dela e avisou para ela que o chefe lhe cedeu uma semana de folga, para se recuperar do grande abalo emocional que estava enfrentando.

E ela seguiu apática, porém grata pelos cuidados que ele tinha com ela. Ele não saía de casa a não ser para trabalhar naquela boate. Sequer ficava depois do expediente bebendo com os e as colegas de trabalho, que estranharam aquela atitude dele naquela semana. Durante a ausência dele, Naomi saiu do apartamento dele e foi para o seu, apenas para pegar aquele smartphone e retornar. Aquele pedacinho do Hisoka. Certa hora, decidiu ligar para aquele número disponível – Hisoka já não bloqueava mais o número com seu Nen. O telefone tocava do outro lado, ele não atendeu logo. Naomi se indagava por que ainda insistia com ele. Mas qual homem deveria confiar? Ela ainda temia que Eros se tornasse como Don. Estava insegura por dentro.

– Alô, Naomi! – ele abriu um sorriso discreto, pois já sabiam quem era a única que ligava para aquele número.

Sim, ele atendeu.

– Hisoka... – ela começou a chorar.

Ele sentiu algo diferente na voz dela. Fechou a curva do sorriso em seu rosto.

– ...já está quase na hora de nos vermos. Perdi muito tempo em minhas missões frustradas... mas me diga uma coisa, você não está chorando, não é?

– Não... não se preocupe. – ela tentou firmar a voz que tremia um pouco. Apenas queria saber... como estava.

– Naomi... não minta! Assim, sinto-me pior.

– ...tem acontecido coisas horríveis comigo...

– O que foi?

– ...viu os jornais nesses últimos dias?

– Eu nem estou em York Shin... mas me diga o que houve.

– ... – ela não conseguia falar. Hisoka ficou preocupado, mas não quis estender aquele clima.

– Tudo bem, não diga se isso lhe incomodar. Lerei os jornais anteriores e descobrirei.

– Foi o jornal da segunda-feira agora...

– Mas e você? Está se cuidando direitinho?

– Perdi o pouco que tinha, Hisoka... minha família...

Hisoka parou. Então deveria ser isso... o tal jornal... será que foi uma tragédia tão séria? Arrependeu-se por não estar com ela ali mesmo. Nada mais tinha que fazer ali. Sua missão estava terminada ali, tinha feito o que pôde. Sim, Naomi tinha uma família... apesar de morar sozinha ali naquele apartamento simples de dois andares.

– Naomi... fica calma, breve irei para aí!

– Hisoka... não fica preocupado comigo... vou ficar bem.

– Como não vou me preocupar?

– ...te amo. – ela deixou escapulir o que tanto queria lhe dizer pessoalmente.

Ele sorriu. Aquilo lhe reascendia a chama do amor que sentia por ela.

– ...como é bom ouvir isso de você... eu também a amo demais... e mais ainda ao ver precisando de mim.

– Hisoka...

Eros chegava em casa.

– Ei, Naomi! Cheguei! – ele gritou da porta, com algumas compras nas mãos – tinha só passado no supermercado para reabastecer o estoque. Com mais de uma pessoa "morando" em sua casa, as coisas precisavam aumentar.

– Oi! – a morena respondeu, tampando o smartphone e depois voltando a falar com Hisoka.

– ...quem está aí?

– ...é uma pessoa que está comigo, ajudando com os cuidados daqui. Mas é por pouco tempo enquanto reorganizo as coisas na casa dos meus pais e trago o resto para cá.

Hisoka ficou meio confuso. E... quem era aquela pessoa? Antes de um suposto ciúme, veio na cabeça que alguém podia se aproveitar dela sozinha e lhe fazer algo de ruim. Ele olhou para cima, imaginando coisas. Mas voltou a falar quando Naomi lhe falou.

– Hisoka, você está aí?

– Er... estou sim. E quem está aí com você?

Naomi sentiu que ele estava falando meio sério.

– Um amigo. Não há com o que se preocupar. Esse é de confiança. É meu vizinho.

– ...ah. Mas mesmo assim, cuidado em aceitar ajuda de estranhos, hein?!

– Pode deixar, meu querido.

Eros estava na porta aberta do quarto dele, olhando Naomi falar ao telefone.

– Estou falando com meu namorado. – Naomi falou para Eros em mímica com a boca.

– Vê lá, hein?! Vamos nos encontrar breve, vou já para York Shin. – disse o ruivo.

– Sério?! – foi a única coisa que fez Naomi sorrir depois de toda aquela tragédia.

– Sim, e mantenha esse aparelho perto de você, ligarei mais algumas vezes.

– Não sabe a alegria que me deu agora, apesar de tudo o que me aconteceu! – Naomi pôs a mão na boca, emocionada.

– É... vejo que precisa de mim bastante...

– Sempre precisei!

Hisoka sentiu algo aquecer seu coração. Em suas palavras, Naomi parecia sincera. Talvez, ela estivesse sendo realmente ajudada por esse vizinho. Vizinho? ...

– Estava falando com seu namorado?

– Sim, breve ele virá me ver.

Ele ficou olhando Naomi sem falar nada.

– Hum? O que foi? Por que me olha assim?

– Nada... nada demais... bom, eu fiz algumas compras pra melhorar o jantar. Afinal, você deve estar acostumada com as coisas mais refinada.

– Como de tudo, Eros! Não existe comida refinada e eu tampouco sei fazer comida refinada.

– Ah, que alívio. Mas mesmo assim, vem ver o que te comprei!

– Ah... espero que não tenha gastado demais...

– Nada, foi necessário mesmo!

...

Naomi estava pensando em voltar a viver em sua casa antiga, onde moravam seus pais. Mas não queria perder a sua independência e... não queria ficar tão longe do seu vizinho. Achava ele melhor companhia que os empregados de seus pais. Ela tinha algumas ideias para quando revesse Hisoka. Não queria ficar muito tempo como hóspede na casa de Eros. Apenas ficaria um tempo até que se sentisse melhor. E logo Hisoka apareceria, e pegaria mal ela vivendo com esse vizinho.

Os dias foram se passando. Já melhor, resolveu avisar a Eros sua decisão.

– Mas ainda não completou uma semana... e estou gostando de sua companhia aqui.

– Mas sempre podemos nos visitar, se quiser! Só quero que volte a dormir na sua cama. Não é justo que você durma naquele sofá pequeno, todo torto, por minha causa!

– Não é nada, minha querida...

Ele acariciou-lhe a face gentilmente.

– Realmente, sinto um pouco por você já ser comprometida. Você daria uma excelente companheira!

– ...entendo. Digo o mesmo de você...

– É?

– Sim. Tem sido tão atencioso comigo, sendo apenas um vizinho...

– Mas somos amigos, também! – bateu de leve no ombro dela, sacudindo da mesma forma, como se ela fosse outro homem conversando com ele.

– Claro! – Naomi teve um sorriso tímido arrancado com aquele jeito dele.

Sem discutir mais, Eros aceitou, mas ambos estavam sempre juntos fazendo compras. Somente nas compras. No fundo, Naomi esperava que Hisoka estivesse ali no lugar dele e que ele arranjasse outra garota para que vivesse com ele. Eros era bacana demais para viver assim que ela... tão solitariamente.

Mal sabiam que eram espionados. Disfarçado, Don rondava a casa dela, observando aquele vizinho todo vestido de couro sempre acompanhado por ela. Esperou pacientemente em falar com ela até que ela voltasse ao trabalho.

– Como está? – o homem de cabelos loiros e cortados quase raspados lhe dirigiu a palavra.

– Estou bem, Don. Quer dizer, um pouco melhor.

– Eu soube do que aconteceu, sinto muito. Seus pais eram simpáticos demais. Também fiquei chocado... saiba que estou aqui para qualquer coisa que precisar.

– Obrigada, Don. – ela não tirava os olhos dos papéis em cima de sua mesa no escritório.

– Naomi... – ele foi até a mesa dele e pôs sua mão adornada em anéis caros sobre a dela, fazendo-a parar de mexer nos papéis – não precisa agir mais assim comigo... sabe que compartilho com você as mesmas experiências ruins em relação aos meus pais...e gostaria que voltássemos a ser amigos como antes éramos!

– Mas nunca disse que não era sua amiga... mesmo depois daquele dia...

– Ah, por favor! Esqueça aquilo... desde aquele dia não pus uma bebida alcoólica na boca!

Naomi percebeu que ele mentiu, até porque o viu com um copo de bebida na mão no dia em que foi descobrir onde e como trabalhava Eros. Mas nada mencionou sobre.

– Que bom, que bom... agora, vamos continuar nosso trabalho com esses documentos, no final a gente pode conversar mais um pouco.

– ...promete?

– ...prometo. – ela tirou sua mão debaixo da mão dele e começou a mexer no computador ao lado, na mesa.

E Don saiu dali com ar satisfeito. Esperaria no final do expediente falar com ela, destilar seu veneno naquela que queria para si secretamente. E no final do expediente, a mesma ladainha: ele propondo saídas e mais encontros. Não mencionou mais nada envolvendo os pais dela. Naomi tentou ser mais suave e menos rude, embora fosse difícil voltar a ter confiança nele, desde o dia em que ele a violentou quando estava bêbado.

– Até mais, Don! – ela se despediu, simplesmente seguindo caminho pela rua onde morava. Com as mãos no bolso, ele ria daquela atitude dela. Talvez se arrependesse um pouco de ter feito o que fez – seria mais fácil em ter a confiança dela justamente agora.

"Se eu soubesse esperar como você esperou esse teu noivinho...", ele pensou.

...

Hisoka leu o jornal que Naomi recomendou. Então, o trágico acidente envolviam os pais dela, que eram de um rico clã famoso em York Shin. Mais do que nunca, ele precisava vê-la novamente - não por interesses materiais, e sim por ela. Kuroro teve sua habilidade Nen totalmente destruída, mesmo sem mais a corrente de julgamento que Kurapika tinha colocado no coração dele. Valeu a tentativa de recuperar Kuroro, mesmo que tenha sido em vão. Já de volta a York Shin, não a veria diretamente; investigaria primeiro a vida que ela levava e quem estava por perto dela. Ainda queria confirmar com seus próprios olhos que Naomi não era como Kuroro, um desperdício de tentativas. Esperava que Naomi fosse realmente digna de si.

Primeiro, foi em seu trabalho. Disfarçado como um típico visitante, de terno e cabelos impecavelmente penteados e sem a maquiagem característica. Perguntou por uma escritora novata que trabalhava ali.

– Naomi Mosli? Sim, ele é uma das funcionárias mais conhecidas aqui, ela é uma de nossas redatoras.

– Ah, que bom.

– Quer falar com ela?

– Não, não agora. E por favor, não comenta sobre mim. Apenas queria saber o quanto ela progrediu aqui! – justificou o ruivo.

– Mas gostaria de conhecer nossos estúdios?

– Não ainda. Em um outro dia.

– Ah, não! Faço questão de guiá-lo por aqui e mostrar nossa empresa e como fazemos nosso jornal e revistas! – a jovem secretária de cabelos cinza-escuros o pegou pelo braço e levou-o por todas as partes da empresa que poderia levar.

– Só não posso demorar muito, pois tenho um compromisso em menos de duas horas. – ele mentiu uma desculpa.

– Dá tempo e de sobra! Vem!

Ele andava de cabeça meio baixa, tentando não ser reconhecido por Naomi, se caso ela visse e apenas julgasse pelos cabelos ruivos. E ela já o tinha visto vestido desse jeito em outra ocasião.

Após ter sido praticamente obrigado a conhecer aquela empresa, ele pode sair vivo dali e das mãos daquela mulher que já o convidava para sair. Mas ainda ficou de fora da empresa, sentado em frente a um dos bancos e com um jornal nas mãos, que seria para ele se esconder, caso necessitasse.

Ele viu Naomi saindo da empresa. Linda, bela e tão frágil... e mais madura. Um pouco só, apenas. Resolveu seguir Naomi. Viu-a chegar em casa. No portão do apartamento, viu um homem de capuz e roupas de couro cumprimentando-a com um beijo no rosto, mas de forma amistosa. Ele torceu a boca, meio desconfiado do tipo daquele homem. Ficou apenas espiando.

– Quando passar essa fase de luto, podemos tirar um dia para dar uma saída? – perguntou Eros, checando a moto antes de montar nela.

– Hmm... vamos ver mais para frente... ainda estou sem ânimo.

– Entendo. Mas e aí, quer passar comigo vendo filmes à noite?

– Mas você não vai trabalhar hoje?

– Vou, mas voltarei mais cedo. Aí selecionei uns filmes para ver. Se quiser, depois você passa em casa.

– Pode deixar.

– Vou indo agora. Tchau! – ele disse, montando na moto e colocando o capacete.

Bye bye! Até mais tarde! – Naomi ficou na porta, vendo ele se distanciar na motocicleta. Ficou vendo distraída ele sumir na curva da esquina.

Hisoka ainda estava espiando-a em um poste distante. Viu-a entrar calmamente, subindo a parte visível da escada que dava acesso ao segundo andar. Pelo jeito, aquele homem deve ser o vizinho. Resolveu voltar no dia seguinte, disfarçado também. No momento, só precisava voltar para o hotel onde estava hospedado e tomar um banho frio, pois aquele terno esquentava sua pele de forma meio incômoda.