Aquela noite de jantar de sexta parecia ser formidável. Um clima agradável tomava conta daquela cidade. Mas para Naomi, aquele jantar era apenas para fins de negócios e não era lá essas coisas. Temia qualquer contato mais próximo com Don. Combinou com Eros que ele a buscasse no determinado restaurante depois das onze horas – quando terminaria o jantar de negócios.
No chique restaurante, Don puxou a cadeira para ela sentar, e ela o fez, com um discreto sorriso como um pequeno agradecimento. Ela parecia excelente em um modesto vestido preto justo, mas não muito apertado. Aparentemente, parecia um típico casal que estavam namorando há um tempo. Era a oportunidade de promoção em seu emprego, e ela mantinha a total discrição em relação ao ambiente luxuoso. Os outros participantes daquele jantar – empresários e chefes de suas respectivas empresas - conversavam alegremente junto aos dois. Embora Naomi estivesse nervosa, tudo ocorria bem. Depois, cada um se despediu ao ir embora. Quando chegou a vez de Naomi ir embora, o loiro olhou para ela e sorriu.
– Não quer que eu a leve?
– Não se preocupe, meu vizinho vem me buscar aqui mesmo.
No mesmo instante, Eros aparecia na entrada do restaurante com sua moto. Don olhou aquele homem com certo desdém.
– Eu me lembro deste... mas que bom que está cuidando de você... por mim.
Naomi olhou seriamente para Don, aparentemente zangada com aquela leve provocação.
– Bem, tenho que ir agora. Até mais, Don!
– Ei, espera... deixa eu te dizer algo?
– Sim?
– Eu ainda te amo... apesar de tudo. – ele disse suavemente, querendo aconchegar-se em torno do braço dela. Naomi sentiu a aproximação dele e, discretamente, afastou-se com um leve sorriso nos lábios.
– Tudo bem... esqueça tudo de ruim que já passou. Vemos-nos amanhã! – e ela foi até Eros, que a esperava. Ele deu o capacete para ela por – ele sempre cedia o capacete para ela quando ela ia junto de moto – e ambos foram embora.
– Esse cara quem é? ... ele te olha com tanta fixação... – Eros perguntou enquanto dirigia.
– É meu chefe.
– Hum... mas ele te respeita, não é?
– Sim, claro... e se ele não respeitar, vou contar tudo para você!
– Conta mesmo! Farei questão de quebrar a cara dele em questão de segundos! Ah, tem um tempo para passar comigo esse resto de noite?
– Não tem trabalho hoje?
– Fui dispensado por uns dias. Minhas "miniférias".
– Ah, você tem isso?
– Tenho. Varia de acordo com que o meu patrão determina.
– E quando vai terminar essas miniférias?
– Não sei...
– Não sabe?
– Ele vai ligar para mim para avisar quando quiser meu retorno. Também é tempo de fazer alguns exames médicos para ver como está minha saúde. Você sabe... às vezes... sou contratado para entreter sexualmente minhas clientes.
– Ahh... então, você não é somente um dançarino como também... um garoto de programa?
– Bem... mais ou menos isso. – ele disse meio sem jeito.
– Entendo. Mas é sempre bom checar a saúde da gente de vez em quando, independente do trabalho, não é?
– Exatamente. E eu devo com mais frequência que você...
Chegaram em casa. Naomi topou passar a noite com ele no apartamento do próprio. Enquanto ele ia ver o que tinha pra comer, a morena pediu licença e foi ligar a TV. Deparou-se com uma notícia que relatava ataque de criaturas estranhas na Terra. Eram as Formigas Quimeras.
– Nossa... isso é um telejornal ou um filme? Não pode ser real... – comentou Naomi, horrorizada com a cena.
– O que houve aí, Naomi?
– Vem ver isso aqui...
– Ah, troca de canal! Tenho uns filmes legais aqui para a gente ver depois da janta. – Eros achava que ela estava era vendo filme de terror.
– Que vamos ter para o jantar?
– Gosta de lasanha?
– Claro! – ela se virou para trás e o viu arrumar a mesa. Estava de calças de couro, sem o capuz – revelando os cabelos ruivos assanhados – e sem camisa. Atraentemente belo. Num momento, ele a flagrou olhando para ele, fazendo-a voltar para a realidade e disfarçar aquele flagra com uma pergunta.
– Quer ajuda para arrumar a mesa? – disse ela, se levantando do sofá.
...
Em seu flat, Don já planejava em eliminar Eros do caminho de Naomi. Foi um péssimo azar ter entrado alguém que pudesse ficar amigo dela. Ela deveria estar totalmente sozinha para ficar carente e dependente de alguém – dele, Don. Precisava de outro mandante para ajudar a eliminar o vizinho ruivo de Naomi. Dessa vez, contrataria um outro Hunter. Checou no site exclusivo dos Hunters – ele tinha esse privilégio por ser um – e viu a lista dos Hunters de Lista Negra. Reconheceu o nome daquele lutador que tinha lhe dado uma surra em resposta a sua provocação: Hisoka. Ele era um homem extremamente forte e eficaz em eliminar quem quisesse. A lista de serviço dele era praticamente vazia. Resolveu então conectá-lo em busca de um serviço. Ao checar seu smartphone, Hisoka recebeu uma chamada direto do tal site e viu que alguém queria o serviço dele como Hunter de Lista Negra.
– Nossa... não achava que alguém me procuraria para isso! – comentou ele para si mesmo, checando a mensagem.
"Não sei se lembra de mim, mas desde já peço que deixemos de lado aquela nossa casual luta que tivemos no passado. Preciso que me faça um favor em sua habilidade como Hunter. Será muito bem recompensado." Don enfatizou a lembrança, não havia necessidade de se esconder. Hisoka não era de se lembrar precisamente das pessoas que não lhe significavam nada, mas lembrou-se quando viu a ficha e reconheceu a foto daquele loiro que quis desafiá-lo na Torre Celestial. Vendo que não tinha nenhuma tarefa em especial para fazer – somente ficar investigando Naomi –, aceitou o pedido e se surpreendeu terrivelmente com ele. Pediu para investigar os moradores daquele mesmo apartamento antigo onde viviam Eros e Naomi, até que Don decida quando matar definitivamente ele. Hisoka ficou surpreso, pois ele estava fazendo isso – menos planejando algo contra Eros, quem sequer conhecia detalhadamente. Agora, mais um motivo para aceitar aquele trabalho como Hunter: o que ele poderia querer (também) com Naomi?
...
Naomi quase não comeu muito no jantar, pois já tinha comido antes. Quem gostou foi Eros, que se deleitou na lasanha – era "adorador de massas", como ele mesmo se referia. Ela o ajudou a lavar as louças antes de partirem para o sofá e assistir os filmes sugeridos pelo ruivo – todos eróticos.
– Só assiste a esses filmes? – ela perguntou, olhando a prateleira abaixo da televisão e os tipos de filmes.
– São os melhores... – disse ele, colocando o DVD e o controle remoto.
Naomi sentou no sofá enquanto ele programava o filme pelo menu. Depois, sentou-se ao lado dela. Juntos, apreciaram os tais filmes, um mais quente que o outro. Viram normalmente, sem se empolgarem um para o outro. Por fora... pois por dentro, a chama de cada um estava acesa e só não permitiam aquecer-se um ao outro por suas limitações. Mas foi uma noite descontraída e quente. Naomi chegou a dormir ao lado dele, encostada em seu braço. Ele deixou a jovem dormir, até que ele se cansasse de ver o resto do filme. Ao acabar, ele a ajeitou no sofá como se fosse uma criança em sua cama, e foi dormir na sua. Fez um pequeno cafuné na cabeça dela antes de ir dormir.
– Boa noite, Naomi. – ele disse bem baixinho, um pouco perto do ouvido dela.
Naquela manhã de sábado, Naomi acordou depois da hora típica que acordava sempre. Já não trabalhava mais aos sábados pela mudança de horários em seu expediente. Nunca teve uma noite tão gostosa e um amanhecer tão agradável. Era nostálgico aquele momento no sofá, despertando aos poucos. Lembrou-se de sua casa e de quando morava com os pais. Eros apareceu em sua frente com um sorriso nos lábios.
– E aí, vida boa? Como dormiu no sofá? – disse o ruivo, descontraidamente.
– Ah, nossa! Desculpa, acabei dormindo aqui! Desculpa meu abuso!
– Hahaha... estou brincando, não foi abuso nenhum! – disse ele, sentando no sofá ao lado dela – o que vai querer comer no café da manhã?
– Ah, deixa-me pagar um café delicioso na padaria aqui perto? Não tenha o trabalho de cozinhar para mim!
– Trabalho em cozinhar? Naomi... não é trabalho nenhum, até porque só como comida pronta, hahaha... mas olha, aceito seu convite hoje. Será uma honra em vê-la me pagar um pequeno almoço. – disse ele.
Arrumando-se rapidamente, Naomi só esperou Eros colocar roupas para sair e foram até a tal padaria. Naquele lugar, o assunto não era outro a não ser sobre as Formigas Quimeras, que eram extremamente perigosas e estavam exterminando muitos humanos pelo mundo.
– Nossa, então não era filme? – Eros perguntou, com a boca cheia.
– Não, Eros! Espero que não venham por essas bandas!
– E estão perto de virem! – comentou uma mulher toda vestida como um típico detetive que estava em uma mesa perto da que eles estavam.
– Como sabe? – Eros perguntou.
– Eros, engula esse resto na boca... – Naomi comentou baixinho, rindo discretamente.
– Para isso, os Hunters estão trabalhando em prol da humanidade.
– Hunters? – perguntou Naomi – Quem são estes?
– Também nunca ouvi falar... – comentou o ruivo encapuzado.
"Hunters são quaisquer indivíduos que possuem uma elevada habilidade de combate, um senso lógico, um espírito inabalável ou por alguma razão se destacam das demais pessoas. Hunters são essencialmente caçadores aptos que possuem habilidades diversas para diversas situações." [1]
E ela se estendeu além da definição específica. Naomi descobriu o que era isso. Achou tão fascinante... uma vida cheia de aventuras , tudo pela busca pelo bem da humanidade... porém, deveria ser tarefa para os mais fortes, ela imaginava. E de fato, era.
Saíram dali depois do café conversando sobre isso. A detetive deu longa explicação para o jovem casal sobre isso, que os deixaram animados. Nem imaginava que estavam sendo espiados pelo Hisoka, disfarçado novamente naquele paletós que ele não gostava de vestir. Ele estava em um canto, em pé, com um jornal na mão e um celular na outra. Olhando assim, sequer lembraria aquela imagem do mágico que se vestia de roupas únicas e extravagantes.
– Sim, estão juntos. Mas e essa moça que está junto, quem é? – perguntou Hisoka, no outro lado da linha.
– Queria que descobrisse isso para mim. Mas o foco agora é ele. Você tem detalhes melhores dele, já que está mais perto. Como ele é de rosto? – perguntou Don, ao celular.
– Ele parece usar uma maquiagem, tem a boca colorida de um vermelho carmim; Usa um capuz de couro que não deu para saber a cor de cabelo dele. Tem aparência forte.
– Nós precisamos nos encontrar novamente, Hisoka. Quero que esteja de olho principalmente nele. Em relação a ela, tenho outros planos...
O mágico ficou alerta no que ele poderia dizer em relação à Naomi. De certo, ele queria alguma coisa com Naomi. O que era, afinal? Aquele homem não inspirava confiança. Mas aceitou aquela missão principalmente por Naomi. Ele queria eliminar o cara que sempre acompanhava. Deixá-la sozinha ali? Então Hisoka foi associando as coisas. Os interesses nele em Naomi. Eles poderiam ser piores que aquela companhia do vizinho dela...
...
Don e Hisoka se encontraram em uma discreta e simples biblioteca da cidade. Cumprimentaram-se normalmente como se ambos fossem colegas de trabalho. Em um canto reservado, puderam conversar melhor.
– Faz um tempo que não nos vemos hehe... foi uma honra ter tomado aquela surra – comentou isso com tom brincalhão.
– É... se não me tivesse desafiado naquele dia... talvez nem tivéssemos interesses entre nós. – Hisoka respondeu tranquilamente.
– Bom, mas vamos ao que interessa. Fez aquele relatório que te pedi para me dar?
– Aqui está! – entregou um pequeno papel.
– Ah, só isso? – Don olhou confuso para aquele pedaço de papel.
– Não tenho grandes coisas para acrescentar aí. – disse ele – mas aí tem algumas coisas sobre o encontro que vi deles.
– OK.
– Bem... permita-me fazer uma pergunta em relação a ela?
– ...aquela garota?
– Sim. Quem é ela?
– ...minha colega de trabalho. Sou chefe dela.
– Ah, sim.
– Eu tenho certo cuidado com ela. Principalmente desde que perdeu os pais naquele acidente. Mas ela é esquiva demais comigo desde esse dia e... agora, ela acha que todos que se aproximam dela tem interesse apenas pela herança dela.
– ...e você não tem?
– Não... apenas... tenho um amor por ela. Mas não quero forçar Naomi. Não quero assustá-la.
– Naomi... é esse o nome dela? – Hisoka se fez de inocente.
– Sim. E quero que me descubra o nome desse rapaz que anda sempre com ela. Tenho medo que ele seja um verdadeiro interesseiro. Entende?
Hisoka foi novamente juntando as ideias.
– Aceita um café por minha conta, Hisoka?
– Não, obrigado. Vim apenas para falar com você.
– Bom, nosso assunto de hoje se encerra aqui. Quando precisar falar algo que descobriu desse homem, liga-me. Não me deixa ignorante de nenhuma coisa acerca desse homem, está bem?
– Pode deixar.
Despediram-se como se encontraram, e cada um seguiu seu caminho. Menos Hisoka, que deixou o loiro se distanciar para segui-lo. Descobriu que ele morava em um luxuoso flat. Sim, ele era rico. Isso Hisoka já suspeitava. Agora, só precisava descansar um pouco para retornar a rondar a casa de Naomi.
[1] Definição por .
