Por detrás de uma árvore e com uma carta de baralho entre os dedos, Hisoka só esperou agir quando precisasse. Eros pouco conseguia acertar os três homens que o atacavam e ainda acabou caindo no chão, sendo atacado por chutes e socos. O mínimo que Eros poderia fazer era proteger, ao menos, o rosto – já que seu corpo poderia resistir mais aos golpes violentos.
Numa hora, Eros foi covardemente acertado na nuca por um chute, que o deixou meio zonzo e menos rígido no chão. Hisoka observou cuidadosamente o rapaz encapuzado parecer perder a consciência e resolveu agir.
– Acho que já está bom demais para essa noite. – comentou Hisoka, pouco antes de multiplicar a única carta na mão com um truque de mágica – ou nen.
Os três homens foram acertados por cartas de baralho que pareciam mais afiadas que adagas. Eles gritaram, olhando para todos os lados para ver de onde vinham. E Hisoka lançou uma carta em cada nuca, perfurando-os. Eros estava semiconsciente, só conseguiu ouvir gritos de dor vindo dos covardes, que caíram no chão inconscientes, quase mortos. Hisoka aproximou-se tranquilamente deles e se pôs agachado ao lado de Eros, que mantinha seus olhos fechados – até mesmo porque não conseguia abrir de tanta dor devido aos socos naquela região antes de cair ao chão. Hisoka puxou o capuz de Eros para trás para ver o rosto. Hisoka conhecia então quem era esse vizinho tão companheiro de Naomi. Lábios e olhos pintados de cor escura, uma maquiagem de um típico emo. Os cabelos um pouco mais avermelhados que ele. A mesma estrutura corporal que o mágico, porém era maior em estatura e em músculos. "Se Naomi estiver interessada nesse, eu não ficaria tão surpreso!", pensou Hisoka, com um pouco de ciúmes brotando-lhe no peito. Mas aquelas dúvidas não o aborreciam, pelo contrário; A excitação por aventuras e mistérios era sua mais forte característica – ou a segunda, pois seu hobby era lutar e vencer o mais forte oponente que existir.
De longe, Hisoka viu que Eros não era nenhum rival digno de lutar. Era fraco, até – Hisoka analisou –; embora tenha sido atacado por três homens, o ruivo mágico viu que Eros nem era usuário de nen e tampouco sabia lutar. Não era um homem que levava o mesmo tipo de vida que ele. Eros pareceu um homem pacífico para Hisoka.
Hisoka agiu rapidamente antes que aparecessem outras pessoas ali. Pegou Eros e levou-o para um canto da parede daquele beco, deixando-o deitado ali. Por segurança – ou por sadismo -, resolveu ceifar logo a vida daqueles três, aprofundando a carta bem no crânio deles. E sumiu ali. Anonimamente, mandou uma mensagem pedindo socorro e relatando que "uns caras estavam brigando na rua tal...". Em menos de um minuto, ambulâncias e carros de polícia cercavam toda aquela área. Estavam os quatro homens feridos – e os que foram atacados por Hisoka estavam sem as cartas pelo corpo. Eros já tinha perdido a consciência.
Naomi ficou na porta do edifício do local de trabalho esperando por ele. Ligou para ele e não foi atendida. Ficou preocupada, porém não saiu dali.
– Eros! Por que não atende?! – ela ligava pela quinta vez e nessa, foi atendida – Alô? Eros! Onde você está? Estou preocupada por...
– Perdão interromper, mas você é conhecida do dono desse celular? – uma voz doce e afeminada atendeu.
– ...quem é.. você? – Naomi perguntou desconfiada.
– Sou uma enfermeira do hospital principal de York Shin e estou com o dono desse celular hospitalizado. Ele sofreu um ataque de marginais e está internado aqui. Se for parente ou conhecida desse rapaz, gostaria que viesse para cá para que possamos identifica-lo...
Naomi sentiu os pés perderem os sentidos. Mas não se sentiu tão abalada a ponto de não confirmar que era conhecida do paciente e pegar um táxi para ir até o hospital. Sequer imaginou na possibilidade daquilo ser uma possibilidade de engano. A voz de tom calmo e sério não parecia mentir.
...
– Bom trabalho! E então, meus homens falharam, não é? – Don exclamou no seu smartphone, abrindo uma garrafa de tequila.
– Eles pegariam o homem errado se eu não me interferisse. – mentiu Hisoka.
– Não foi mal em tê-los executados. Se era para fazer besteira, era melhor que estivessem mortos antes. – comentou Don friamente, achando que os homens que mandou para golpear Eros haviam feito o tal engano que Hisoka mentiu sobre.
– Bom, e agora... que devo eu fazer? – comentou o ruivo, do outro lado do telefone.
– Agora, vamos para a Naomi.
Hisoka fechou o sorriso. Curiosamente, sentiu uma leve tensão por dentro, mas tratou de se dominar rapidamente.
– Nada será feito agora... está muito recente o nosso trabalho, não é? – disse Don.
– ...também acho.
– Mas vamos ter que pegar a Naomi, agora. Não, não vamos machuca-la em nada! É algo que quero destacar. Apenas vamos raptá-la e deixa-la comigo. Quero tirá-la daquele ninho de pássaros onde ela mora. Assim, até posso poupar a vida desse garoto que você deu uma lição.
– E... se alguém quiser resgatar a Naomi? – Hisoka jogou sua carta para ver a resposta do loiro.
– Heh... simples. Se aquele homem não aprender com a surra, aí você acaba com ele de uma vez!
– Entendi.
Hisoka ia montando as ideias que vinham na mente. Seu instinto perceptivo lhe dizia que Naomi corria um sério risco nas mãos de Don. Definitivamente, era hora de revê-la mesmo... e para salvá-la. Já sabia quem era Eros, embora não sabia ainda se este e Naomi eram envolvidos. E independente disso, ele a salvaria. Mesmo que ela não tivesse mais interesse nele. No fundo, sabia o quanto ela sofreu nesse período.
...
Eros abriu os olhos, vendo a morena ao seu lado, sentada em uma cadeira.
– Eros... desperta com calma, meu querido... – ela beijou a fronte com carinho e cuidado, pois estava machucada.
– Na...omi...
– Estou bem, Eros! Agora, deixa-me cuidar de você... como você fez quando me resgatou da rua naquele dia...
Ele sorriu.
– Bom vê-la assim... cuidando de mim.
– E vou cuidar...
Ele levou a mão até a dela, querendo pegá-la. Naomi pegou, acolhendo a mão grossa e forte entre as suas tão delicadas e menores.
– Fui avisada pela enfermeira pelo seu celular. Sorte que temos os telefones um do outro.
– É...
– Não fala muito agora, não... descansa... eu vou ficar aqui, deram-me autorização para ficar com você todo esse tempo.
– Que bom... ah, dói tudo em mim... aqueles infelizes! – a voz ficou rouca ao se lembrar do que passou.
– Está tudo bem, Eros... você venceu eles!
– ...venci, é? – ele riu um pouco do que ela lhe dizia.
– Sim... fui informada de tudo... e você atacou três de uma vez só!
– ...então... eu sou um herói, não é?
– É o meu herói!
– Naomi... – ele puxou a mão dela até seu peito – quero descansar assim... está tudo bem?
– Está bem!
Eros não se estendeu ali, até mesmo porque precisava descansar bem. Lembrou-se de um vulto que provavelmente foi quem o socorreu. Ele não causou aqueles gritos nos homens que o atacaram. Percebeu que eles haviam sido atacados por trás, quando ele havia levado o chute na cabeça. Sua duvida ali era quem o havia salvado. Seria tão grato a essa pessoa como nunca.
Naomi pediu licença no trabalho para ficar uns dias de folga. Ela deu a desculpa de que não estava bem por ter amanhecido com febre, mas Don sabia direitinho o porquê; ia ficar com aquele homem encapuzado no hospital. Mas Don nada falou acerca disso e concordou em dar a licença como se fosse inocente de tudo. Com isso, a mulher poderia ficar mais tempo com ele, ao mesmo tempo em que tinha que passar em casa para ver como estava o gatinho, que agora estava mais crescidinho e independente – porém, nunca saía de casa. Nem pulava pelas janelas ou escapava pela porta. Um ponto positivo para Naomi, que podia deixa-lo sozinho.
Don já estava elaborando o sequestro de Naomi. Faria a moça ficar em seu flat até que pudesse morar com ela na casa dela no outro lado da cidade. Planejava outras situações para que fizesse Naomi ser dele para sempre. Teria ela e a sua herança. Livre para si, longe daquele meio "ralé" onde vivia.
Hisoka sempre se fazia de fiel ajudante de Don, mas já planejava outras coisas que contrariariam os desejos do loiro em relação à Naomi. Olhou aquele smartphone que mantinha contato com ela, e desbloqueou-o com seu nen. Resolveu ligar para ela e viu muitas chamadas perdidas. Fitou seriamente aquilo. Ela ainda o procurava, precisava tanto dele. E pelo jeito daquele homem que viu espancado no beco... talvez eles fossem apenas amigos. E resolveu ligar então, mas o dela estava em casa, guardado na primeira gaveta do criado-mudo. Mais chamadas perdidas. Porém, o smartphone ainda existia. E cheio de chamadas vindas dela.
Naomi voltava do hospital apenas para dar de comer para Kuro. De repente, deu uma vontade de ir até aquela gaveta e verificar o aparelho. Sim, uma chamada dele, apenas. Retornou a ligação e foi atendida.
– Hisoka... venho te ligando há dias!
– Eu vi aqui... por isso, retornei a ligação.
– Precisamos acertar as coisas. E então... ainda estamos juntos? Se estivermos, venha me ver logo!
– Calma, calma, mocinha...
– Calma nada! Senti demais a sua falta!
– Sentiu... não sente mais? – perguntou com certo tom de brincadeira.
– Falo sério. Vamos acertar pessoalmente nosso relacionamento. Não tenho mais disposição para você ficar brincando... – respondeu seriamente e só não terminou porque foi cortada por ele.
– Você está em perigo, Naomi. – Hisoka disse sério.
– O quê?
– Uhum. Por isso estou hesitando em te ver ainda. Mas te digo uma coisa: esse homem que sempre está com você...
A morena abriu os olhos assustada. Como ele sabia do Eros?
– Você está em York Shin, não está?
– Estou.
– Hisoka! – ela se zangou ali. Estava tão perto... e ainda não foi vê-la.
– Eu não disse que vamos nos encontrar? Mas na hora certa. E deixa-me falar mais: tem alguém muito próximo a você que mandou uns caras baterem nele apenas porque lhe vê sempre junto com esse.
– Espero que não seja você o mandante.
– Longe de mim! Até mesmo porque não luto com fracotes... – ele riu, lembrando-se de Eros jogado no chão. Sem chances dele ser um inimigo. Don, sim.
– Então como sabe disso tudo, Hisoka?
– Porque estou observando você, Naomi... de longe... cuidando de você... até que eu possa te tirar daí segura.
Naomi ficou pensativa com o que Hisoka disse. E sair dali... para um lugar desconhecido... com um homem que não era muito confiável, apesar de ser amado por ela.
– Você... quer me tirar daqui? ...e para onde quer me levar?
– Não sei... ainda verei... mas você está pronta para seguir comigo quando nos encontrarmos?
Naomi silenciou na hora de responder. As coisas embaralharam em sua mente.
– E então, Naomi? Responda-me.
– Eu... na verdade... achava que você viveria comigo aqui.
– Aí? Não... nós dois merecemos um lugar muito melhor que esse onde vive...
– ...você... tem ciúmes desse homem que sempre me acompanha quando chego e saio de casa? – Naomi quis saber de algo, já que ele havia mencionado Eros.
– ...um pouco. Mas não é por ele que quero que venha comigo. O mundo está aí para nós, Naomi...
– Eu... não estou pronta para aventuras... ainda estou abalada com fatos que aconteceram... estive nesse tempo sem família, sem ninguém... com exceção desse meu vizinho que conheci há um tempo atrás, que me acolheu nas crises de choro e pânico que tive e que me salvou uma vez quando... – ela resolveu travar aí porque jamais contaria que tinha sido sexualmente abusada por Don.
– Quando o quê?
– ...quando fui atacada e jogada na rua uma vez. – ela explicou assim.
Hisoka silenciou-se dessa vez.
– Quando perdi meus pais no acidente, sequer familiares me auxiliaram. Estive sozinha. Chorava sozinha de noite, na minha cama. Acordava frustrada com tudo. Lido com um chefe irritante o qual não gostaria de ver mais...
Hisoka interessou-se em ouvir aquilo. Só confirmava certas suspeitas.
– ...até que esse vizinho apareceu em minha vida. Foi o companheiro mais fiel que tive. Daria tudo para que você estivesse no lugar dele, Hisoka... porque é você quem eu sempre amei de verdade e confiei esses quase dois anos o seu retorno para vivermos juntos. O consolo de outros não era o que esperava. E jamais recusaria a amizade que tenho por esse vizinho, pois ele me amparava e ampara quando me encontra jogada na porta chorando sozinha.
– Mas... por que você está assim, Naomi?
"Ele ainda pergunta isso?!", Naomi pensou.
– ...não sei. – ela achou que nem valia questionar isso – Só sei que superei muita coisa com ele aqui ao meu lado, como um irmão. Então por favor... não faça nada de mal a ele! É o único amigo que tenho aqui, ao meu lado.
– Não vou fazer nada de mal mesmo... principalmente se ele continuar assim, cuidando de você na minha ausência. Mas alerto novamente... falo de outras pessoas próximas a você... que não são de confiança... que fizeram isso com seu amigo vizinho.
– Você sabe quem é?
– Vem do seu local de trabalho. Tenha cuidado com seus colegas de profissão. Vou fechar agora, mas pode me ligar sempre que quiser. Eu atenderei.
– E... até quando devo esperar o reencontro?
– Até eu decidir. Estou ansioso também, você nem imagina.
– ...não acredito muito, não.
– Acredite.
– Tudo bem. Vou desligar também.
– Então, até!
– Até.
Desligaram sem nenhuma despedida melosa. Era a primeira vez que isso acontecia. E ela que não tinha impulso para falar ali que deveriam dar um tempo, ao menos isso. E ele que nem teve coragem de perguntar se ela já tinha ou teve algo a mais com esse vizinho. Temia pela resposta dela. Estavam tão inseguros um do outro... ao mesmo que temiam perder um ao outro.
...
Mal havia acabado de falar com Naomi e recebia outra ligação. Illumi apenas enviou mensagem de texto falando sobre a próxima eleição para o futuro presidente da Associação dos Hunters. Com a morte de Netero, outro deveria substituir seu lugar.
Hisoka não queria sair dali e deixar Naomi nas garras de Don. Mas para sua surpresa, Don, que era um Hunter, também resolveu deixar seus planos com Naomi para depois da eleição, visto que ele também estava concorrendo à presidência. E combinaram acertar tudo quando se encontrassem ali.
Antes de lutar com uma poderosa formiga Quimera, Netero deixou um vídeo anunciando sua aposentadoria e descrevendo a forma como queria que o novo presidente fosse escolhido, deixando os detalhes nas mãos do grupo dos Doze do Zodíaco – os doze Hunters de maior categoria na associação -, e ambos decidem envolver todos os Hunters nessa eleição.
Antes de se encontrar inesperadamente com Illumi, ele voltou a ficar frente a frente com Don. Sempre impecável, com ternos de cor clara e com seus óculos escuros.
– Parece que agora, isso aqui vai virar de cabeça para baixo. Esses caras não parecem ser tão organizados. – comentou Don sobre os Doze do Zodíaco.
– Por mim... só vim mesmo para ver as coisas que preciso fazer. – disse Hisoka.
– Vamos deixar essa fase passar... para finalmente podermos pegar a Naomi e tirá-la dali. Realmente, está recente a conclusão da primeira parte.. vamos dar um tempo. Espero contar com você, Hisoka. Será muito bem recompensado que nem se interessará em lutar na Arena Celestial por fortunas!
– Heh... eu sequer me interesso em voltar para lá. – disse Hisoka, cobrindo parte da boca com uma carta de baralho. – ah, gostaria de saber uma coisinha... se não fosse muito incômodo.
– Pergunta.
– Você quer fazer dessa tal Naomi sua?
– ...se eu contar a verdade, você não se espanta?
– Por que espantaria?
– É... então... eu a quero para mim. Sei que ela tem o namorado dela, ela sempre fala nele desde que nos conhecemos... mas agora, já sabemos quem é e que podemos eliminá-lo quando quisermos.
– E você é o chefe dela, na empresa?
– Sim, por quê? Acho que eu já tinha lhe dito isso, não?
– Curiosidade apenas... e sequer me lembrava mais.
Hisoka ligava os fatos... Naomi não suportava o chefe... Don sabia que ela tinha um namorado e a queria para si sem saber se ela estava de acordo ou não... aquele vizinho. O vizinho que Naomi defendeu como um irmão na mais recente conversa que tiveram. Provavelmente, Don já havia feito algo de ruim com ela – mais um motivo que Hisoka tinha para continuar fingindo que trabalhava para aquele loiro.
A prioridade do ruivo agora era salvar Naomi e deixa-la ser feliz com quem ela quisesse.
