Naomi abriu os olhos lentamente. Não se lembrava onde estava antes, mas com certeza reconhecia o teto daquela sala. Era a casa antiga onde vivia seus pais. Esfregando os olhos com as mãos, chegava à conclusão que aquilo não era sonho: era a casa dela antes de morar sozinha. Olhou para os móveis, os porta-retratos... de repente, sentiu um vazio profundo dentro de si. O retrato dos pais, sorridentes e recém-casados... do padrinho Majorano com ela no colo quando bebê...
– O que... estou fazendo aqui?!
– Ah, então acordou! – uma voz soou bem ali na sala. Naomi se virou para ver quem era. Não era possível.
– Don? ...o... que está fazendo aqui? ...aliás, o que eu estou fazendo aqui?
– Você veio junto comigo para morar novamente em nossa casa!
Naomi franziu a testa confusa.
– Isso é um sonho...
– Não é não, Naomizinha... olha, belisca-me para ver se isso é ilusão. – ele ofereceu o braço para ela tocar – ou beliscar.
Então ela se lembrava aos poucos que, antes de acordar ali, estava na calçada esperando por Eros.
– Ah, nossa! Eros deve está me esperando! – disse ela andando pela sala, em busca de sua bolsa – ah, cadê minha bolsa...
Don só a observava.
– Eros... – ele resolveu confirmar quem era esse – quem é esse cara mesmo?
Naomi passava a mão na testa preocupada, mas com uma leve dor na nuca.
– Don. Quero voltar para minha casa!
– Mas a nossa casa agora é essa...
– Essa é minha casa! E apenas só mantenho aqui até acertar as coisas... porque quero vender e sair desse lugar.
– Ah não, isso é um crime! – ele sacudia a cabeça enquanto se aproximava dela – você não pode continuar vivendo naquele lugarzinho... tendo uma casa como esta para morar!
– A vida é minha e a minha vontade também! Para com isso e vamos embora daqui! Aliás... como eu vim parar aqui?
Don rodopiava as chaves da casa nos dedos.
– A partir de agora, nós dois vamos viver aqui juntos. Como marido e mulher.
– E por que quer isso, agora? Aliás, que direito você tem em controlar minha vida e as coisas que faço, hã?! – ela estava alterada, ao mesmo tempo temerosa com tudo aquilo.
– Como oficial e futuro marido seu... tenho esse direito.
Agora Naomi é quem sacudia a cabeça.
– Você está louco, chefinho? – ela ironizou.
– Não... estou falando sério. – ele falava calmamente.
– Vou sair daqui! – ela se direcionou a porta, mas lembrou-se de que ele tem as chaves. Começou a gritar pelas empregadas.
– Não há mais ninguém aqui... dispensei todas elas. Vamos juntos escolher outras.
Naomi voltou a ficar frente a frente com ele, que a olhava com as mãos no bolso agora. A chave estava com ele ainda.
– Posso fugir a qualquer hora! E vou te denunciar!
– Se insistir nisso, terei que amarrá-la.
– Idiota! Como um dia pude achar que você é meu amigo?!
– ...mas eu sou seu amigo. – disse ele com um sorriso cínico.
– Hipócrita!
– Meça as palavras antes de dizê-las... – ele adquiriu um tom sério ao alertá-la – sabe que eu tenho um débito com você, não? E... para compensar o mal que fiz no passado, decidi que servirei a ti como um devoto marido. Não quero ficar na sua vida eternamente com aquela imagem de um estuprador embriagado.
– E quer mudar a imagem para um covarde raptor? Será pior! Serão então dois débitos comigo.
– Chega, já me justifiquei demais! – ele gritou, ajeitando os óculos escuros. Naomi estava furiosa e indefesa diante daquela situação.
Naomi saiu dali e ele a puxou pelo braço. Naomi se debatia, querendo sair dali e gritando por socorro, o que fê-lo se irritar e dar uma bofetada nela, derrubando-a no chão. Mas os escândalos não acabaram, pois Naomi, bem mais frágil e menor que ele, partiu para cima, porém ele travou-a segurando pelos pulsos e a jogando no sofá. Rapidamente, pegou uma pequena corda e amarrou-a pelos pulsos e depois pelas pernas.
– Quando eu quero uma coisa, eu tenho. – disse ele, estendendo o corpo dela deitado no sofá.
– Maldito!
– Ainda vai me agradecer por isso! – ele foi até o bar e preparou um drink para si, enquanto vigiava a pobre moça amarrada.
Aquilo lhe soava tão repetitivo... ser sequestrada mais uma vez... e ela só esperava o pior. Pensou em Hisoka... no Eros, que devia estar preocupado com ela, e então começou a chorar baixinho. A morena achava que a vida era injusta demais com ela. Todos pareciam cismar com ela à toa. E a mãe sempre dizia: "se sai daqui assim, não terá uma vida tão pacífica.". Naomi sabia que aquilo foi uma praga da mãe controladora, pois a mulher não concordou em ver a jovem filha mal entrar na vida adulta e querer uma vida longe dali e independente. Se não fosse pelo apoio do madrinho Majorano, ela não teria saído de casa. Naomi queria uma vida livre, independente e próspera longe daquela melancolia e controle parental em que vivia. Jamais imaginou que seria raptada por um grupo de ladrões e tampouco seria refém de um chefe psicopata que havia até violentando-a. Sem contar que sofreu os abusos que sofreu enquanto esteve no Ryodan como refém.
Desde a escola, sempre teve problemas com os colegas sem fazer absolutamente nada para eles. Ao se candidatar para trabalhar como escritora do jornal, foi esnobada pelo antigo Chefe Superior e por alguns outros funcionários mais experientes – só conseguindo uma chance por causa do homem alto e loiro que havia visto e que teve pena dela – Don. Naquela época, nunca imaginaria que estaria passando por isso naquela hora. Tudo parecia conspirar contra ela. Das pessoas que havia conhecido, o único que não havia lhe decepcionado em absolutamente nada era Eros. E mesmo assim, o que é que ainda lhe prendia a Hisoka? Se ele estivesse ali... certeza que nada daquilo estaria acontecendo. E curioso que ele também queria tirá-la de onde estava morando. Naomi comparou Hisoka com Don em ambas as vontades. Será que era por causa do Eros? Tanto um como o outro estariam espionando-a entrar e sair daquele apartamento antigo com ele?
E Eros? O que aconteceria com ele? Naomi imaginou logo uma cilada onde ele seria atacado e morto. Não, não e NÃO! Eros não merecia morrer!
...
Enquanto Naomi e Don estavam discutindo, no local onde trabalhavam ambos, Eros estava em sua moto, esperando por Naomi. Ligou para o celular dela, que não atendia. Sentiu uma leve pressão no peito, pensando no pior. Ela demorava muito. Ele saiu dali e entrou no local de trabalho dela, procurando alguém que pudesse informar se Naomi já havia saído dali.
– Faz bom tempo. Ela saiu e estava à porta parada. Depois, não a vi mais. – disse a recepcionista – e recomendo o senhor sair agora porque vamos fechar todo o estabelecimento.
– Tudo bem, obrigado pela informação! – disse ele, voltando para sua moto e indo diretamente para a casa, talvez Naomi havia se cansado de espera-lo e foi embora. Ah, mas ela ouviria uma pequena bronca dele se ela realmente fez isso – ele jurou para si mesmo. Estava muito preocupado com sua amada.
Ao chegar em casa, foi direto ao segundo andar e bateu a porta. Bateu seguidamente, e nada dela responder. Tomou impulso e, com uma pesada forte, Eros arrombou a porta. Vasculhou a casa toda. Kuro apareceu chiando na porta em tom de agressividade para Eros.
– Não se preocupa, gatinho! Estou justamente preocupado com sua dona que desapareceu misteriosamente!
Queria ligar para a polícia logo, mas resolveu procura-la em seu andar – mesmo sabendo que estava trancado por ele e que ele nunca deu sua chave para ela. Tampouco naquele dia. Levantando a porte e colocando-a encostada na entrada arrombada, Eros foi até lá fora e viu se tinha alguma casa vizinha ocupada. Quis perguntar casa por casa se haviam visto Naomi e seguiu correndo pela calçada.
– Onde vai?
Eros ouviu a voz grave de tom levemente sedutor por trás de si. Ele se virou e se deparou com uma criatura exótica.
– Quem é você? – perguntou o ruivo encapuzado.
– Quem sou não é algo interessante... o interessante aqui é a vida de uma certa moça que mora aqui.
Eros sentiu o sangue ferver, pondo-se diante de tal ser com os punhos fechados. O outro era aproximadamente quatorze centímetros menor que ele, com uma excelente estrutura corporal.
– O que quer saber sobre a moça que mora aqui?!
– Acalme-se... apenas tenho que lhe contar o que está acontecendo. Mas prometa que vai ficar calmo, sim?
– Eu não sou homem de joguinhos! Só acho que grandalhões devem procurar gente do seu tamanho! – respondeu Eros irritado.
– Exatamente! E por isso mesmo, quero que me ajude a salvar a moça que mora aqui.
– ... o que aconteceu com ela?
– Ela está agora com o hefe dela lá na casa dela no outro lado da cidade. A área onde mora os ricaços, sabe?
– Vai logo direto ao assunto ou não? – Eros avançou sem atacar o tal cara vestido exoticamente.
– Shhh... não devemos perder tempo. Quero que você e eu juntos salvemos a Naomi das garras daquele chefinho dela. – os olhos dourados brilharam no escuro da rua.
Eros respirava profundamente, controlando-se. De repente, uma coisa lhe passou pela cabeça. E decidiu confirmar logo ali.
– É você... o tal do namorado da Naomi?
– Namorado... – o homem riu baixinho.
– Ela tem esse carinha que nunca apareceu por aqui... só me confirma... se você é esse envolvido com a Naomi.
– .. sou.
Impulsivamente, Eros partiu para cima de Hisoka e pegou-o desprevenido com um soco. Hisoka ficou surpreso, conseguindo se apoiar no muro e com a mão no nariz. Não teve como desviar daquele golpe. Ele sequer era um usuário de Nen... como isso pode acontecer assim?
– Você é bem canalha mesmo! – vociferou Eros – ela tanto fala de você e sente sua falta! Ela perdeu os pais e sequer você esteve aqui para apoiá-la! Eu estava louco mesmo para saber quem era! Só uma pena que ela ainda é uma boba apaixonada por você!
Hisoka ouviu aquilo tudo sério. Tudo o que podia sentir por Eros era confiança. Sorrindo de um modo meio sádico, ele lambeu o sangue que descia do nariz com a língua. Eros não arredou os pés dali, encarando-o. Algo lhe dizia que o misterioso ruivo de cabelos espetados e de roupas exóticas era muito mais forte que ele, mas mesmo assim não recuou.
– Onde está Naomi? – perguntou Eros.
– Já disse... eu vou te levar até ela... mas quero que saiba ser um parceiro meu.
– Eu não quero ser seu parceiro, só me diz onde ela está!
– Não seja tão ingênuo, rapaz... o homem que está com ela não é tão bonzinho e tão fácil de deter. E quero ver se realmente é digno de cuidar dela por mim.
– Seu miserável! – Eros quis atacar de novo, mas viu-se cercado por Hisoka em questão de segundos, com uma carta apontada no pescoço musculoso. Grudou a ponta afiadíssima dela na pele do outro. Eros parou.
– Sou eu quem vou dar as cartas nesse jogo... você vai apenas fazer as coisas sob minha orientação.
– Quero ver Naomi e saber se ela está bem. – disse o ruivo mais jovem, frio.
– Ela não está tão bem...
– Se estivesse com ela, não correria tantos riscos assim! – disse ironicamente.
Hisoka tirou a carta do pescoço.
– Eu a veria antes se não tivesse alguns problemas para resolver... mas isso deixaremos para depois. Primeiro, quero que me ouça: ...
...
Naomi estava dormindo amarrada naquele sofá, enquanto Don estava no outro sofá observando-a, enquanto ligava para Hisoka.
– Oi, Hisoka! Eu tinha dispensado você quando me entregou a Naomi, mas é que preciso de um favorzinho seu...
– Estou ouvindo. – disse Hisoka, que falava ao celular ao lado de Eros, que esfregava um punho contra a palma da mão.
– Verificou se o tal vizinho a seguiu?
– Não.
– Fica de olho nele. Se ele tentar ir até a delegacia ou descobrir algo por conta e vir em direção a nós aqui, você o mata. E some com o corpo!
– Lógico. É só as coisas se confirmarem... e eu acertarei as contas definitivamente! – disse Hisoka, sorrindo e apertando o lábio inferior com os dentes.
Eros só suspirava, esperando aquilo andar logo. Hisoka encerrou a conversa e Eros voltou a lhe falar.
– Então você é um Hunter?
– Sou. E fui contratado por esse cara para ser um dos responsáveis pelo rapto dela. Mas eu não ajudei em nada ainda – havia mentido.
– Assim espero!
– É como eu disse: estou traindo o meu cliente para salvar Naomi. Vendo que é protetor legítimo dela, resolvi te chamar para me ajudar a recuperá-la.
– Eu vou acabar com esse homem se ela realmente estiver nas mãos dele!
– Deixe-o comigo... ele é um Hunter tão poderoso como eu... quero que apenas cuide de Naomi para mim.
– E confia assim em mim? ...logo ela vai te esquecer, cara! E se ela pensar que eu estou sozinho nessa missão para salvá-la... ai que ela vai esquecer mesmo de você! Um namorado tão negligente!
– ...gosta dela, não é? – Hisoka perguntou com um sorriso torto.
– Gosto sim, e daí? Apenas respeito porque não sou tão animalesco como pareço. – disse seriamente. – No momento em que ela me confirmou isso, soube respeitar. Ma suma garota como ela... jamais deveria sofrer o que sofreu sozinha. Encontrei-a jogada na rua, machucada, de um jeito que parecia ter sido violentada ali mesmo. Se não fosse por mim ali, jamais teria alguém para leva-la para o hospital naquela noite.
– Hehe... gostei de saber disso
– Gostou?
– De saber que sempre a protegeu desde que a viu assim.
– ...bom, vamos logo atrás dela!
– ...é claro! Como quiser!
Naquela madrugada, partiram para onde estava Naomi.
Don brincava com a chave que havia mandado fazer das portas que davam acesso à rua. Naomi não deveria ter deixado a casa sozinha por tanto tempo. O loiro havia mandado especialistas em falsificar chaves para fazer as cópias a partir das fechaduras. E ao entrar, colocou todas as empregadas para fora sob muitas ameaças.
Don tinha a habilidade Nen similar à Textura Enganosa de Hisoka. Ele criava texturas baseadas em cópias e modificava-as como quisesse. Já tinha feito uma cópia de uma certidão de casamento e de um atestado médico onde afirmava que Naomi possuía problemas mentais e que dependia do falso marido. Só apresentaria para ela a certidão de casamento falsa. A do atestado só usaria se precisasse mantê-la presa, caso quisesse fugir e entrega-lo à polícia.
Com isso, ambos formavam uma família bem rica e poderosa. Ela teria direito aos bens dele e vice versa. Mas com ele no controle de tudo.
Hisoka orientou Eros como proceder sem impulsos para conseguir recuperar Naomi. Secretamente, queria testar a força daquele jovem apaixonado. Quem sabe se, um dia, seria um rival ainda melhor para lidar que Don? Mas por enquanto, era um fruto verde... destacando-se pela coragem e determinação.
