No dia seguinte, Don saía da casa dela, trancando. Lá fora, dois seguranças contratados por ele estavam de plantão à porta da bela mansão. Pegou seu carro e saiu para o trabalho. Atrás de duas árvores, distantes da mansão, encontrava-se Hisoka em uma e Eros em outra.

– Então a casa está cheia de seguranças em volta?

– Talvez não tenha um número o suficiente para guardar a refém aí...

– Temos que infiltrar dentro daquela mansão!

Hisoka olhou para o ruivo maior com uma cara de desdém.

– ...não é assim tão fácil, rapaz... principalmente para você!

– Eu sei, eu sei, eu sei! – repetiu impaciente.

– ...bom, entrar na mansão já está nos planos... mas primeiro, vamos desfazer aqueles seguranças... com calma! Ouviu? – Hisoka advertiu apontando o indicador para ele.

– ...certo.

Eros só se aquietava por saber que estava diante e alguém mais experiente e mais forte. Mas se irritava um pouco com aquela pose tão convencida que via no mágico. Só se controlava por Naomi e sabia que, sozinho, jamais daria conta daquelas espécies marginais.

– Esse cara quem é? ... ele te olha com tanta fixação... – Eros perguntou enquanto dirigia a moto.

– É meu chefe. – disse Naomi.

– Hum... mas ele te respeita, não é?

– Sim, claro... e se ele não respeitar, vou contar tudo para você!

– Conta mesmo! Farei questão de quebrar a cara dele em questão de segundos! Ah, tem um tempo para passar comigo esse resto de noite?

Eros se lembrou da vez em que viu a figura do tal chefe. Parecia querer ser íntimo com ela quando a viu se despedir dele. Mas ela nunca contou se ele já havia feito algo. Talvez, ela não quisesse causar nenhum incômodo a ele e guardasse tudo para si. Ele sacudia a cabeça sozinho, pensativo, e Hisoka observou aquilo.

– O que houve?

– ...esse chefe dela...

– O que é que você sabe dele?

– Nada... quer dizer, já o vi uma vez.

Hisoka estava se fazendo de ignorante, para ver o que ele tinha a dizer sobre Don.

– Mas você o conhece, não é? Se foi contratado por ela para raptá-la. – questionou o ruivo encapuzado.

– Só sei o superficial... mas estou traindo ele por causa da garota.

– E quem é ele? Qual é o nome dele?

– Se chama Don.

– Don... – ele pronunciou com voz baixa, irritado.

...

– Ué... a Srta. Naomi não veio hoje? – uma funcionária alta e de longos cabelos negros aproximou-se do gabinete de Don.

– Não sei o porquê... depois ligarei para ela. – disse o loiro cinicamente e bem calmo, mexendo no computador na sua mesa.

– Estranho... ela raramente falta... – saiu a voluptuosa morena, com um bloco enorme de papéis na mão.

Don trabalhou o resto do dia tranquilamente e ainda passou em um café para comer um lanche sofisticado. Voltou tranquilo para a mansão de Naomi. Agora, só Hisoka estava de plantão entre os galhos das árvores, enquanto Eros saiu daquela área apenas para ir ao local de trabalho dar uma desculpe e pedir uns dias de folga.

– Folga? Ora, Eros... teve folga demais para fazer tudo! – reclamou o chefe do clube.

– Estou lidando com problemas familiares...

– Familiares? Desde quando você tem uma família?

– ...não precisamente um parente, mas uma pessoa próxima.

O homem apertou o charuto entre os dentes e riu.

– Então... é uma namoradinha?

– Não tenho relacionamentos assim, chefe.

– Sabe que não pode!

Eros estava louco para pedir socorro para aquele clube todo para ajudar a Naomi que estava sequestrada, mas sentia que deveria deixar isso com Hisoka.

– Então... quantos dias você quer de folga?

– Uma semana tudo bem?

– Uma semana?! – exclamou o homem de pele bem morena e olhos tão negros e vivazes.

– ...sim. Pode descontar no pagamento, não importo. Só preciso de mais um tempo.

– Ah... assim não é bom, Eros! – o chefe se levantou e ficou rodando a mesa, fumando nervoso seu charuto – logo você que é dos melhores aqui... certeza que não está envolvido com mulheres?

– Não ainda. – ele olhou para o chefe.

– Hum... vou aceitar a proposta, mas deverá então trabalhar ainda hoje. Nem que seja em algum "encontro" – o home se referia aos programas, que também eram controlados pelo chefe.

Logo o que ele não queria e nem tinha humor para isso naquele momento.

– Prefiro dançar, não estou de muito humor para "encontros".

O homem deu uns tapinhas no ombro largo do ruivo encapuzado.

– Pode ir fazer o que quiser lá no salão... mas lembra-se: estou de olho em você, agora. Sem me contar o real motivo, só me faz ficar desconfiado.

– ...é até um assunto sério. Mas não sei se devo me abrir.

– Se é sério, deveria se justificar... e voltar a ter minha confiança.

Eros respirou fundo, cabisbaixo. Olhava para suas mãos grossas enluvadas. Ele não fazia o tipo fofoqueiro e nem traidor, mas quando pensava naquele homem... e o que ele faria quando resgatasse a Naomi? Se ela confirmasse que ele era o tal namorado distante dela, provavelmente seria morto por Hisoka. Apertou seus joelhos com as mãos, pensando na melhor decisão que poderia ter.

– ...estou ajudando uma amiga que foi raptada.

– O quê?! Sério isso?

– Sim. E eu quero pessoalmente ajudar no resgate dela.

– Mas isso é coisa séria! Por que não denuncia a polícia? Acha que pode bancar o herói assim do nada, sozinho?

– Por que será mais arriscado meter a polícia no meio.

– Deixa comigo, garoto... eu posso te ajudar nisso. Arriscado seria você bancar o herói diante de um grupo. E raptores nunca estão em grupos pequenos...

Eros se virou na cadeira, olhando preocupado para o chefe.

– O que quer fazer? – a voz grossa ficou levemente mais rouca. Ele tinha combinado com Hisoka que seria uma missão entre eles. Mas acabou não resistindo em falar para o chefe que conhecia há um bom tempo, pela pouca confiança no outro. E agora? O que é que seu chefe poderia fazer que ele sozinho não poderia?

Depois de prometer confiança no chefe, teve que mais uma vez se preparar em seu camarim para se apresentar. Foi tão sério e concentrado em Naomi e no risco dela ser até morta que as colegas de trabalho estranharam aquele semblante de poucos amigos.

– Nossa, meu querido! Cadê aquele belo sorriso de sempre no rosto?

– Hein, amor? Que está pegando?

– Quer beber alguma coisa para relaxar?

– Que aconteceu nessas férias temporárias?

– Que bicho te mordeu, cara?!

Ele respondia educadamente todas as perguntas com uma falsa aparência de tranquilo. E mesmo tenso e sem inspiração nenhuma, subiu em um dos palanques e fez sua apresentação, mudando realmente sua fisionomia preocupada para a mesma ousada e atrevida de sempre. Afinal, era o trabalho dele. Aos poucos, ele ia se soltando mais, esquecendo um pouco de sua preocupação enquanto dançava no poledance enquanto fazia o strip tease. As colegas estimulavam-no em gritos e assobios, ainda comentando entre elas sobre aquele mal humor que Eros trouxe no rosto quando entrou no camarim.

Sim, por fora aquele era o menino dos olhos da casa. Por dentro, era um jovem preocupado com a garota que amava, mesmo sabendo que ela tinha um namorado bem esquisito.

...

– Ele disse que não demoraria... – disse Hisoka para si mesmo, enquanto esperava o retorno dele. Uma hora depois de resmungar, viu Eros aparecer na mesma árvore em que Hisoka estava em cima. O rapaz parecia procurar o mágico em volta e o próprio sinalizou jogando uma frutinha que arrancou do ganho na cabeça dele. Eros virou-se rapidamente para cima e percebeu o homem que parecia ainda mais sinistro contra a luz da Lua. Sem falar nada, Eros se encostou à árvore e começou a mexer no bolso, como quem estivesse procurando algo. Perto da mansão e desconfiados que houvesse seguranças mais próximos a eles, ambos agiam dessa forma. Hisoka olhou em volta e, vendo que a área estava "limpa", desceu da árvore num pulo rápido, parando diante dele que acendia um cigarro.

– Demorou bem... – disse Hisoka, calmamente.

– Não foi fácil convencer o chefão.

– Sei... e então? Podemos agir agora?

– Sim, estou ansioso por isso.

– Siga as instruções que te passei! Não atua de forma impulsiva, faça o que está combinado entre nós.

– Certo. – ele apagou o cigarro no chão com o pé e seguiu com o mágico assassino.

Don ainda não havia chegado, atravessava a cidade em seu carro que, apesar de não ser uma limusine, era luxuoso. Três seguranças estavam na frente da casa, sem armas nas mãos. Em questão de segundos, foram golpeados na nuca por Hisoka. Cuidadosamente, o ruivo mais velho apenas tirou a consciência silenciosamente dos seguranças. Eros seguiu Hisoka após os homens caírem no chão, apenas procurava em volta se tinha outros homens. Mas Hisoka ainda oferecia cobertura, pois sabia que ele ainda era fraco demais para lidar com essas coisas.

– Será que tem mais lá dentro?

– Talvez... vamos entrar pelos fundos.

Ao entrar pelos fundos, surpreenderam-se com o número maior de seguranças, que perceberam a presença de estranhos pelos dois vultos e apontaram suas armas para eles, atirando. Eros se jogou no chão, enquanto Hisoka habilidosamente usou sua aura em forma de goma – bungee gum – e capturou as balas e jogou contra os homens, que se jogaram no chão. Uns foram acertados, e os outros que se safaram tentaram dar mais tiros e novamente Hisoka usou a mesma técnica. Eros esfregou os olhos deitado no chão, sem entender nada. Para ele, Hisoka parava as balas no ar e jogava de volta. Realmente, ele não podia ver a aura do homem de saltos altos.

De dentro do quarto de Naomi, a mesma já estava acordada e tinha ouvido barulho de tiros. Engoliu seco. E a primeira pessoa que veio na cabeça era Hisoka.

– Como seria bom se ele viesse me salvar... mas ele deve ter me esquecido! Mais fácil o Eros tentar me...

Parou chocada. E se... não... não podia ser. Com os pulsos e tornozelos já soltos, ela foi até a janela do quarto que estava trancado. Como tinha vista para frente, ela apenas viu dois homens jogados no chão. Naomi ficou andando pelo quarto, nervosa. Temendo por Eros. Será que ele seria capaz... de ir até lá e tentar salvá-la? Ele que estava recém-recuperado do ataque que sofreu... será que ele faria a loucura de se arriscar? Pensou o dia todo nele, até cair no sono, o que a tranquilizou.

Antes de sair, Don fez a gentileza de soltá-la mas deixa-la trancada no quarto que era dela.

– Farei a gentileza de permitir que fique à vontade... e nem adianta ligar para a emergência, os telefones estão grampeados. Internet cortada, também. Até que eu possa confiar em você... Naomi. Então, descansa bem... voltarei depois do trabalho direto para cá!

E saiu do quarto. Naomi não falava nada com ele. Resolveu ficar muda para ele. Mentalmente, pedia forças para os céus e para os pais, se estivessem olhando por ela lá. Não acreditava em teorias espíritas, mas queria sentir a proteção deles novamente, pois se sentia como uma criança indefesa.

Ao acabar com os seguranças, Hisoka procurou pelos fundos algum atalho que pudesse entrar em casa sem deixar vestígios de arrombamento.

– Sei não... parece que aqui está muito protegido. – comentou Eros, verificando uma das portas dos fundos

– Não tem jeito!

– O que planeja?

Sem explicar nada, Hisoka arrombou uma outra porta com uma pesada.

– Venha logo! – ordenou o Hunter, sendo obedecido com certo repúdio pelo Eros.

– E como vamos deixar essa porta normal de novo? Você quer entrar sem deixar sinais e tem um monte de caras jogado no chão. E a porta, agora? – Eros comentava quase rindo.

– ...antes me responda uma coisa. Há algo impossível para um mágico?

– Mágico? Você também é um mágico? – ele perguntou coçando uma das bochechas.

– Principalmente para você que ainda não conhece as minhas habilidades totalmente.

Eros fez uma leve careta com aquela postura dele.

– Observe... qual seu nome mesmo?

– ...Eros.

– Pois bem, Eros... não existe o termo "sem saída" para nós... os mágicos sempre encontram saída para tudo! Poderia me ajudar a levantar a porta?

Ambos colocaram a porta no lugar. Hisoka disfarçou a ligadura das portas com sua Textura Enganosa rapidamente e pediu ao outro homem.

– Abra a porta normalmente. E veja daqui se tem algum corpo lá fora.

Ainda fazendo careta, Eros fez o pedido e arregalou os olhos que eram similares ao de Hisoka: a porta estava abrindo normalmente e os corpos estavam invisíveis aos seus olhos. Os corpos estavam ali, cobertos com a goma que usou para bloquear as balas. Hisoka usou a própria goma como uma textura invisível.

– Isso... é loucura!

– Eu diria que é mágica, meu amigo... – Hisoka exibia um coração formado pelo Bungee Gum dele na ponta no indicador apontado para cima. Mas somente o próprio Hisoka poderia ver aquilo.

– Mas vamos logo, que precisamos resgatar a Naomi! – Eros foi à frente, desligando-se da surpresa com que viu a "mágica" do outro. Hisoka ficou levemente desapontado, como sempre ficava quando não davam muita importância para suas exibições de truques.

Naomi esta ouvindo ruídos. Pôs as mãos no peito, olhando seu reflexo no espelho. De repente, distraiu-se com sua fisionomia. Parecia mais mulher. Lembrou-se do tempo em que brincava com aquele espelho, fingindo ser apresentadora ou atriz em cena. Don aproximava-se da garagem ao ar livre da mansão, quando viu dois seguranças jogados no chão. Hisoka não os tinha coberto com sua goma. Estacionou e foi até os homens com precaução. Estavam desacordados. Pegou o smartphone e ligou para Hisoka, que pôs a mão em seu bolso para abafar o som. Eros virou-se para trás.

– Que ruído é esse?

– Alguém me ligando.

– Atenda, enquanto verifico a sala. – ele saiu em direção a grande sala.

– Fica por perto! – ele atendeu rapidamente – Alô?

– Hisoka, onde está? Acabei de chegar aqui e vi meus seguranças caídos no chão.

Imediatamente, Hisoka usou o In para se ocultar.

– Esperando sua próxima ordem...

– Quero que vigie essa casa por fora. Vou verificar os outros rapazes que estão tomando conta dos fundos. Venha logo para cá!

– Sim, senhor! – Hisoka desligou e foi até Eros.

– Venha comigo, vamos nos esconder agora mesmo!

– Que foi?

– Faça apenas o que digo! Siga-me!

Don abria a porta da mansão com sua chave clonada. Dentro de casa, usou Gyo para detectar a presença de alguém estranho.

– Hummm... vejamos... não há ninguém por perto... agora, vou ver como está a minha princesa! – disse para si mesmo, indo para o quarto de Naomi destrancando o quarto assoviando. Em um canto qualquer da casa, Hisoka se ocultava junto com o outro.

– Olá, Naomi! Como passou a tarde? ... por favor, fala comigo. Preciso ao menos saber se está bem.

– Tranquila demais. – resolveu responder então.

– Hehehe... e então, poderemos jantar juntos?

– Não estou com fome. Comi bem aquela gororoba que me serviu no almoço.

– Mas já tem horas que não come... precisa se alimentar bem. Ah, tenho uma coisa para te mostrar.

Ele se sentou na cama e tirou um papel enrolado de dentro do paletó.

– É só uma cópia, portanto não é o documento original.

Ele ofereceu a ela, que pegou e viu o que era quase rindo incrédula: uma certidão de casamento.

– O que tem mais para me surpreender, Don?

– E não está surpreendida? Estamos oficialmente casados!

– Não acredito em nada que venha de você, Don. Já foi o tempo! – ela entregou o papel para ela, que pegou e deixou ao lado da cama – Mesmo que você queira fazer esquecer meu namorado, não vai funcionar. Isso só piora para o seu lado.

– Piorará para o seu lado, seria o correto dizer... – Don cortou Naomi – justamente pelo seu bem e do seu namorado, deve aceitar nossa condição a partir de agora. Sim, você não ficará presa aqui para sempre e voltará a trabalhar... mas será totalmente obediente a mim. E a primeira coisa que quero... é que se afaste daquele seu namoradinho motoqueiro!

Naomi percebeu que ele achava que Eros era esse tempo todo o "tal" namorado. Mas isso era ruim, pois Eros corria riscos. Ela não queria que o rapaz pensasse que ela estava o evitando. Mas se não poderia falar novamente com ele... mas pela insanidade de Don, ela temia por Eros. O jeito era evitar que ele soubesse dela e que ele não a procurasse mais.

– A vida do seu namoradinho está em minhas mãos. Portanto, posso acabar com ela quando quiser. Se você ainda for inteligente do jeito que sempre foi, saberá evitar uma tragédia.

A morena de olhos castanhos amendoados olhou para a janela, respirou fundo e comentou a verdade.

– Aquele homem... que vinha sempre me buscar... não é o tal namorado que me referia.

– Não precisa mentir para mim... eu pouparei a vida dele e fingirei que nunca nos vimos... mas tudo só depende de você. – ele deu umas levíssimas pontadas no nariz dela com o indicador.

Ela se afastou do alcance da mão dele e continuou.

– O homem o qual me envolvi há dois anos nem vive por aqui... ele era um membro da organização criminosa que me raptou. Foi ele o único que me protegeu ali dentro e me ajudou a suportar os abusos que sofri.

Don ficou calado, apenas tirando seus óculos.

– Sim, eu me envolvi com um dos homens que me raptaram naquela época do ataque naquele evento onde estava com meu padrinho. Não esse vizinho. Ele é apenas um amigo próximo.

– O... Genei Ryodan?

– Isso, eles mesmos. Ele, esse meu namorado, deve estar por lá... nunca mais o vi, apenas mantendo contato pelo telefone.

– Sério?! Você estava envolvida amorosamente com um daqueles bandidos que te machucaram? Tenha dó de si mesma, Naomi! ...agora mesmo que não me arrependo em ter te sequestrado para mim. E deveria ter feito isso antes!