A felicidade e a insegurança de Naomi andavam juntas naquele momento em que Hisoka revelou tal proposta. Não que ela fosse uma pessoa de ter inseguranças e angustias, mas ela não queria que ele controlasse a vida dela – embora quisesse ser dele para sempre. Tudo estava sendo planejado muito rápido, mesmo que fosse apenas a comentários.

– Hisoka.

– Sim?

– Promete que... vamos decidir nossos planos juntos?

– Claro, minha querida... desculpa, não queria te assustar com isso. Não precisamos nos casar se você não quiser!

Ela sorriu.

– Bem... não foi bem essa impressão que quis passar... mas... gostaria que todas as nossas decisões tivessem uma mesma resposta.

Hisoka acariciou a cabeça dela, beijando a testa longamente. De forma carinhosa e venenosa ao mesmo tempo. Naomi recebeu o beijo olhando apaixonada para ele. E insegura ainda. Mas era essa mistura boa, de conforto e medo, de amor e tesão, que os faziam se comunicar e entender por fora e por dentro.

Passando os minutos, Naomi estava mais relaxada, conversando sobre outras coisas aleatórias, até estava bebendo. Até que começava novamente a apresentação de alguns dançarinos – incluindo Eros, que voltava mais lindo e tentador que nunca, conduzido duas dançarinas que dançavam eroticamente juntas com ele. A música¹ que tocava ao fundo parecia acompanhar os movimentos sensuais que os três dançavam. Imediatamente, Naomi reconheceu quem dançava ao seu lado esquerdo, em um dos palcos. Hisoka olhou para onde ela olhou.

– Humm... aquele me parece familiar. – ele parecia forçar a vista para ter certeza de que já viu aquela cara em uma outra ocasião.

– ...

– Você o conhece?

– ...não dá para você reconhecer, Hisoka? – perguntou Naomi, com os braços cruzados.

– Ahhh... – ele voltava a postura normal – então aquele seu vizinho é...

– Um dançarino de boate. Stripper também. – Naomi resolveu não fingir que desconhecia aquele belo dançarino.

– Oh... – deu uma longa bebericada e colocou o copo em cima – então já sabia disso?

– Ele me contou isso antes de saber por conta própria.

Ficaram os dois olhando a desempenho dos três dançarinos. As dançarinas arrancaram a túnica que Eros vestia ali, exibindo o majestoso corpo coberto com leve camada de purpurina – como muitos outros dançarinos faziam ali. Naomi sempre se sentia atraída por aquela linda figura – por mais que amasse Hisoka e achasse que ele também arrasaria ali se também fosse stripper. Manteve sua atenção também em Hisoka, que parecia apreciar aquela performance, mas poderia se enciumar – e com razão. Ele olha para Naomi, que estava olhando naquele exato momento para o ruivo mais velho.

– Por que está me olhando? Não vá ficar com ciúmes... são apenas dançarinas... apenas aprecio a dança delas.

– Sei... – disse ela, disfarçando aquele quase flagra.

– Você também pode apreciar os dançarinos... não me importo com isso. – Hisoka jogou uma carta em sua provocação. Era inevitável aquilo, para ele.

– ...tudo bem. Vamos apenas apreciar os dançarinos... e... já se imaginou ali dançando e tirando a roupa para um público?

– Será que minha Naomizinha permitiria?

– ... você me permitiria se eu quisesse fazer isso?

Hisoka parou de olhar a apresentação para olhá-la com uma cara de quem ia dar risada.

– Você?

– Isso é só suposição, querido.

– Ah! ...hahahaha...

– Mas se ambos se permitissem um ao outro, não veria mal algum.

– Vejo que gosta de um equilíbrio entre nós dois. – ele ofereceu o copo para ela bebericar um pouco.

– Qual parceiro não gostaria disso? – disse, compartilhando do mesmo copo.

– Nem todos, exatamente...

– Falo dos casais de verdade... e não de aventureiros.

Ele olhou-a com um sorriso torto nos lábios e retornou a assistir. Naomi também voltou seus olhos para ver Eros dançando sensualmente, deslizando as mãos por aquelas coxas grossas e bem feitas.

– ...aprecia seu vizinho assim?

– Bem... não vou dizer que não aprecio... é um belo dançarino. – disse ela, meio sem jeito, mas seria pior bancar a totalmente inocente ali.

– Talvez você ficasse com ele se não me visse nunca mais.

– ...ficaria.

– Sim?

– Provavelmente, como podia ser com outra pessoa que eu conhecesse e me interessasse. Mas... nenhum destes é para mim... eu já sou de um homem só. – olhou para ele, firme.

– Gosto desse olhar... e dessas palavras sinceras. Talvez... eu esteja em um débito com você.

Por um momento, ambos se olharam e pensaram em suas suspeitas, ambas a mesma coisa: será que no momento em que tiveram longe um do outro, tiveram um outro corpo para se aliviar? Ficaram em silêncio se olhando por breves segundos, como se estivesse confessando e perdoando suas respectivas quedas.

– ...todos temos débitos... mas o que já passou, passou. – segurou na mão dele. Ele correspondeu segurando-a firme. Sorriram um para o outro.

– Tudo ainda é perdoável antes de começarmos definitivamente nossa longa jornada... e vamos nos permitir essa noite também

– ... vamos. – por um momento, Naomi até sentiu uma leve vontade de chorar, mas passou logo, quando ambos voltaram juntos a assistir os três tais dançarinos. Mas no fundo, Naomi não queria que Eros a percebesse ali. Até que, no fundo, agradecia aos céus por Hisoka vir tão diferente do que costumava vestir. Ainda sentia uma pequena raiva daquelas dançarinas que sempre tiravam uma boa casquinha do seu amigo. Ali, ela deduziu que sentia um amor pelo Eros diferente ao que sentia pelo Hisoka; a atenção pelo ruivo dançarino era uma coisa mais amistosa e física, enquanto pelo mágico era um amor maior, um amor que a fazia deseja-lo não só fisicamente como também afetivamente. Ela também achou que, com o tempo, olharia Eros com um amor mais amistoso que atração física – porque realmente, ele não devia nada ao Hisoka nesses termos.

Foi então que Eros observou o casal mais próximo a ele. Aquele homem... com uma Naomi tão elegante, tão linda... ele foi capaz de leva-la até ali por que quis, ou foi a pedido dela? Pensava enquanto uma das dançarinas se jogava nas pernas dele e começava a puxar a sunga preta aos pouquinhos. Quando Naomi percebeu que alguém olhava para aquele lado do balcão, ela abaixou os olhos. E Hisoka começou sua doce e afiada provocação, vendo-a desviar os olhos novamente. Começou a olhar para a apresentação enquanto lambia o lóbulo do ouvido da jovem – olhando mesmo para Eros, que se manteve concentrado na sua dança, e ainda sorriu meio erótico e meio debochado para aquele homem que o provocava, acariciando a Naomi que não conseguia olhar novamente para a dança. Estava sem jeito diante de Eros e ainda mais do que Hisoka fazia. Ela já imaginava que Hisoka o provocaria na frente dela, mas não tinha tanta certeza que o faria.

– Eu... quero ir ao banheiro. – Naomi foi saindo de fininho dos braços do Hisoka, deixando o presente no colo dele – Volto logo.

E ela saiu correndo, deixando Hisoka sem entender. Eros acompanhou com os olhos Naomi desaparecer em uma das lacunas do local. E voltou a olhar para Hisoka, que mantinha os olhos fixos no jovem ruivo, como se estivesse passando alguma mensagem.

No banheiro, Naomi lavou o rosto e retocou a maquiagem. Sem a base, viu como estava com as bochechas coradas. Respirou fundo, olhando-se em seu reflexo no espelho, procurando mais segurança interior. Voltou mais calma para onde estava Hisoka.

– O que houve?

– Ué, fui ao banheiro fazer pipi.

– Você saiu rapidamente que fiquei preocupado. Se não viesse agora, em alguns segundos eu estaria invadindo aquele banheiro.

– ...como você está protetor, hein? – ela se acomodou ao lado dele, sentando-se coladinha no ruivo.

– ...e como não vou ser se tenho uma bela mulher? – disse ele, acariciando as mechas dos cabelos.

Naomi voltou a olhar para onde estava Eros se apresentando. Tinha outros dançarinos fazendo quase a mesma apresentação vista anteriormente.

– E a apresentação? – perguntou a morena.

– Aquela? Acabou.

– Hmm... vamos para a casa?

– Mas já?

– Sim... quero ficar mas a sós com você.

– E... se eu te dissesse que tenho uma surpresinha para você?

Naomi mal ouviu aquilo e já começou a dar um risinho.

– ... o que você vai aprontar?

– Mais uma dessas aventuras que você gosta... – terminou de falar pegando em seu queixo e puxando para dar um longo beijo na bochecha, perto do ouvido.

...

– O que quer comigo, agora? – perguntou Eros, sendo puxado pelo Hisoka quando saia do palco – E a Naomi, para onde ela foi?

– Ela foi ao toalete, voltará logo. Quero um favorzinho seu. Depois, não o incomodarei mais, juro!

– ...espero que não seja nada de mais absurdo!

– Até pago, se achar necessário. Mas preciso muito que faça algo para mim.

Eros olhou Hisoka de lado. Já tinha ouvido propostas assim em relação aos programas que fazia.

– ...pode até ser que eu cobre mesmo, se é algo que estou imaginando aqui. – disse Eros, em um tom de riso.

– Então, é o seguinte: ...

Lembrou-se do que Hisoka havia pedido. Achou aquilo meio louco, da parte dele. Nunca tinha feito aquilo antes. E nem imaginava que isso estaria envolvendo Naomi. Era uma grana imensurável para ele, que Hisoka pagaria. Foi difícil recusar. Pediu para que pudesse sair mais cedo do trabalho. Concedido, ele se arrumou e foi até sua moto, esperar pelo Hisoka.

Enquanto isso, o casal ia embora do clube.

– Tem um ponto de táxi perto, e deixa-me ao menos pagar a volta! – pedia Naomi.

– Não é necessário, alguém vai nos dar carona até a casa.

– Hein? – ela perguntou confusa.

– O que foi?

– Quem vai nos dar carona?

– Já deve estar chegando, marquei que viesse aqui na entrada nos buscar. – ele olhou o relógio que tinha embaixo da manga do terno social.

Naomi olhou o ruivo calada. Não entendia nada. Já viu que ele estava aprontando uma com ela. Talvez... uma aventura bem "quente". Ela preferia pensar assim que ficar preocupada com alguma atitude perigosamente louca dele.

– Bem... e a tal surpresa que me prometeu?

– Estamos quase lá.

Depois de alguns segundos, um vulto caminhava em direção aos dois. Ao se aproximar, Naomi reconheceu quem era. Piscou confusa, mas viu quem realmente era e quem levaria os dois para a casa.

– Eros?! – ela perguntou surpresa.

– Cheguei atrasado?

– Não muito, somente dois segundos apenas... – disse Hisoka, com sua amistosa ironia de sempre.

– Parece que os fiz esperar bastante... – respondeu o homem encapuzado, da mesma forma irônica que o ruivo mais velho.

– Vamos, então.

E os três foram andando. Eros ia um pouco mais à frente.

– Cabem três na moto? – perguntou a mulher.

– Cabe... acho que sim. – respondeu Eros.

– Ela vai à sua frente. – sugeriu Hisoka.

– Só temos um capacete... – lembrou Naomi.

– E ele é exclusivamente seu, Naomi. – afirmou o ruivo mais jovem.

Naomi achava aquilo estranho... mas ao mesmo tempo curioso. Eros ali, perguntando se havia chegado em ponto? Eles marcaram alguma coisa? Realmente, aquilo era alguma surpresa que Hisoka estava aprontando, só esperava que tudo desse certo...

...

Chegando à entrada do apartamento, os três pararam ali. Naomi estava com o capacete e o tal presente na mão.

– Eu tiro o capacete. – Hisoka se ofereceu para tirar o capacete, mas sem saber que ele estava preso a cabeça dela com um cinto, ficou puxando a cabeça dela sem saber, tendo que Eros se intrometer, antes que o outro arrancasse a cabeça da jovem.

– Não viu o cinto aqui em baixo do queixo dela? – Eros apontou o lugar, mostrando ao Hisoka, que ficou totalmente sem graça.

– ...desculpa, Naomi. – e se desculpou com uma gota fina de suor descendo pela testa.

– Tudo bem... – ela massageava embaixo do queixo com uma das mãos, e se virou para Eros – olha, se quiser você pode passar em casa para beber alguma coisa.

– Já o convidei para passar a noite com a gente. – disse Hisoka, calmamente.

Ela olhou para o outro.

– É mesmo?

– Sim.

Ela olhou para Eros, que concordou com a cabeça. Ela foi à frente, abrindo o portão e deixando os dois entrarem. Ambos subiram a escada, seguindo a dona do apartamento do segundo andar. Ao entraram, Naomi deixou o presente em um canto e foi até os dois. Kuro, o gatinho, notou a presença de gente ali e se escondeu.

– Bom, se quiser beber alguma coisa antes de ir... aceita um suco? – disse a morena para Eros.

– Bem... eu pensei que ficaria esta hoje aqui. – disse ele.

– Hum? – ela estranhou ouvir aquilo, ou não entendeu direito até Hisoka explicar.

– Convidei o moço aqui para passar uma noite conosco.

Ela estranhou aquilo novamente. O que é que Hisoka tem agora com Eros para convidá-lo a passar a noite ali?

– Se não se incomodar, Naomi...

– ...tudo bem. – disse ela, saindo do pensamento – eu vou pegar o suco para você beber.

– Que suco! Não se incomoda, Naomi... eu trouxe bebida. – Eros tirou de dentro do casaco de couro uma garrafa média de licor de cereja, ainda lacrada.

– Ah... quer que eu ponha na geladeira?

– Esse licor não se costuma tomar gelado... – Eros riu da inocência da outra.

– Não? – perguntou Hisoka.

– Não, oras! Vocês nunca beberam na vida?

– ...faz um tempo que não bebo... e não sei muito sobre bebidas. – o ruivo mais velho passou a mão na cabeça, se justificando.

Eros abriu a bebida. Naomi foi buscar copos – taças ela não tinha ali no momento. Sem se importar, Eros colocou um pouco nos três copos e promoveu brinde.

– A essa noite!

– Saúde!

Naomi observou os dois brindarem e entrou junto. Também bebeu após ambos beberem aquele licor. Ela ainda achava tudo aquilo estranho... procurou manter o controle interior, procurou confiar neles. Após beberem um pouco em silêncio, Naomi cortou-o com uma pergunta que também era sua dúvida ali.

– E aí... o que planejam para essa noite?

– Diversão. – Hisoka colocou o copo com pouco licor ali e parou em frente a ela, segurando-a pelo ombro e se curvando um pouco para beijá-la no pescoço. Ela arregalou os olhos e curvou os lábios em um sorriso.

– Mas...aqui em frente ao... – ela falou baixinho.

Ela olhou para Eros, que já estava tirando seu casaco de couro, um colete de tecido mais fino e com metade dos botões abertos que deixava parte do tanque bem moldado em músculos exposto. Hisoka pegou-a pelo queixo levemente e fez olhá-lo em seus olhos.

– Está tudo bem... relaxa. – e pousou os lábios finos nos lábios dela, beijando-a com delicadeza e luxúria ao mesmo tempo, fazendo-a sair um pouco de órbita. Como era bom aquele beijo... como nos tempos em que se proibia amá-lo e o amava platonicamente. Ele segurou-a em suas mãos, mantendo-as juntas enquanto isso. Mas algo ainda deixava a jovem com a pulga atrás da orelha.

– Mas... e ele? – ela perguntou em tom de sussurro.

– Vai curtir a noite conosco. – ele respondeu no mesmo tom que ela.

Ela se afastou, ainda segurando as mãos dele. Como assim? E na mesma hora em que procurava entender, uma outra mão passava pela cintura dela e uma boca quente começava a beijá-la pelo pescoço. Ela fechou os olhos no momento em que sentiu o toque do ruivo mais jovem, mas abriu em seguida, olhando para Hisoka ainda sem entender nada. E pelo olhar, Hisoka lhe transmitia confiança e a intenção daquela noite: se divertir. Era ali a despedida de solteiro dos dois e ninguém de mais confiança que Eros para compartilhar aquela noite...

¹ - a música recomendada que usei nesse momento e recomendo escutá-la enquanto lê é essa: /XkKulSH2nNc mas vcs podem imaginar outra música que queiram xD