Naomi despertava muito bem, até se dar conta que estava sozinha na cama. Pegou nos lençóis e aproximou-os ao seu rosto, aspirando o cheiro de ambos na noite passada. Daquela noite louca. Uma coisa que ela não acreditava que repetisse mais. Depois de um tempo assim, levantou-se, pegou uma camisola e colocou-a. Arrumou as roupas jogadas no chão. Seu quarto agora lhe passava uma imagem de um quarto de suingue. Nunca imaginou ter dois homens em sua cama, se deleitar com eles. Uma noite de despedida de solteiro daquelas!
Indo até a sala, só viu o gatinho recebe-la pulando em seus pés e o tal presente que Hisoka lhe deu lá esquecido.
– Oi, Kuro... já vou colocar sua comida. – pegou o bichano no colo e foi até a cozinha, e quase soltou o gato no chão ao ver o ruivo mexendo no fogão. Por um momento, passou-lhe algo simples na cabeça: alguém está fazendo o café da manhã.
– Hisoka...
– Ah, bom dia! Já está de pé? Ia te fazer uma surpresa.
– Já me surpreendeu agorinha mesmo... – comentou ela, rindo. E observando que este se encontrava nu, apenas de avental – não sabia que você possuía essas habilidades na cozinha.
– E não tenho muito jeito, mesmo... mas não custa tentar, não é?
"E colocar fogo na minha cozinha assim mesmo?" Naomi só pensou, jamais falaria qualquer coisa que fizesse desfeita ao amado. Ela foi pegar as vasilhas de beber e comer do gatinho e colocou Kuro no chão. O cheiro de algum similar a pão assado lhe abria o apetite.
– Vou dar de comer a ele logo, para termos um café da manha sossegado. – disse ela, colocando leite e ração.
– Já estou terminando... ah, você gosta de café?
– Gosto... com leite. Ah, o leite já peguei, está em minha mão.
– Não precisa, já viu a mesa? É só ir lá e se sentar. Já está tudo arrumadinho.
– Ah, nossa! – e indo até lá, a mesa estava arrumada, com talheres, louças e até uma pequena cesta de frutas frescas no meio da mesa. Naomi olhou para trás e depois voltou a olhar a mesa tão arrumada – ...você quem arrumou tudo assim?
– Sim, e o que achou? – ele apareceu por trás dela, perguntando-lhe bem perto do ouvido.
– ...lindo mesmo. – ela agradeceu dando um beijo longo na bochecha, mas ele teve que interromper rapidamente por causa das coisas no forno. Ela foi atrás, tropeçando no gato sem querer – Ai, Kuro! Desculpa, viu? – pegou o bichinho que miou baixo no colo e limpou a boquinha molhadinha de leite. Ainda brincou um pouquinho com ele antes de coloca-lo no chão para lavar as mãos e sentar-se à mesa.
Já na mesa com ele, ela ficou olhando como estava arrumada e caprichada aquela mesa – mesmo com uma parte das panquecas queimadas. Hisoka a servia e ela fazia o mesmo. Pareciam um típico casal que viviam junto há anos.
– E então, Naomi... já decidiu se vem comigo?
– ...e você quer sair logo, não é?
– É... estou ansioso para juntos conhecermos muitos lugares e encontrar nossa casa definitiva.
– Até pensei em fazer da antiga casa dos meus pais nossa moradia... mas não dá. É um lugar que não me faz mais bem nem passar perto. Com o dinheiro, podemos comprar uma outra até melhor. Só com a metade dela.
– Entendi... mas realmente não queria morar lá, também. Tem muitos lugares melhores que York Shin para viver. – olhando para a panqueca torrada que acabou pegando – Muitos mesmo. – comeu-a assim mesmo.
– Mas... posso ao menos manter contato com as amizades mais próximas aqui?
"Aquele Eros..." pensou Hisoka. Mas depois daquela noite onde ele mostrou para ele quem mandava, achou que o ruivo mais moço não olharia Naomi mais tão esperançoso, visto com quem também teria que lidar.
– Sim...e desde que essas também se tornem amizades minhas.
– Isso. Nossos amigos pessoais virando amigos de nós dois. – Naomi teve que concordar mesmo, e até que não seria má ideia.
– E meu Kuro? Ele tem que vir...
Hisoka olhou para o gato. Preto e de olhos amarelados, fofo demais. Parecia dar trabalho, mas era tudo na vida dela, e o gato dependia dos cuidados dela. Decidiu perdoar o gato.
– Ele pode vir, mas você não tem outros animais por aí não, não é?
– Só ele. Mas dele eu assumo toda a responsabilidade, não se preocupe! – jurou ela com as mãos juntinhas.
E ambos concordaram com os seus acertos. E terminaram o café da manhã comentando mais sobre esses planos típicos de um futuro casal.
– Eu vou recolher as louças. – disse ela, levantando-se e pegando seu prato.
– Nada disso! – ele segurou as mãos ela e olhava-a com aquela doce malícia – além do mais, parece que você ignorou o meu presente lá na sala, não é?
Naomi concordou com a cabeça que sim e sem jeito diante daquilo.
– Mas já vou ver agora mesmo o que é. – entrega o prato a ele.
– Deixa tudo comigo hoje. Depois eu vou até a sala.
E ele reorganizou todos os objetos da mesa, guardando as frutas e os outros mantimentos que sobraram e limpou as louças. Para ele, era ainda pouco depois de todo esse tempo que ela ainda esperou por ele. Amaldiçoava Kuroro e a frustração pela luta que queria ter com ele. Naomi foi até o pacote e sentou-se no sofá, colocando o embrulho no colo. Abriu ansiosa e surpreendeu-se novamente, sem entender aquele pacote cheio de objetos... desconhecidos ainda para ela. Hisoka vinha atrás e se sentou ao lado dela.
– O que são esses objetos?
– Advinha. Uma coisa particular nossa para a gente brincar de vez em quando.
Naomi foi tirando as peças. Foi entendendo aos poucos e quase caia na risada com aquilo tudo.
– Eu... nunca usei essas coisas...
– Nem eu tinha interesse nessas coisas, mas agora que tenho minha parceira, podemos descobrir juntos o que cada um desses brinquedinhos servem, não é?
Brinquedos eróticos. No que mais o ruivo poderia surpreendê-la? Será que aquilo era para evitar possíveis aventuras fora daquela relação? Se for com essa intenção que ele lhe deu aquela discreta cesta erótica, ela aplaudia de pé, pois serviria tanto para ela como para ele também. Naomi entendeu aquilo assim e curtiu. Até que seria divertido ter alguém para se divertir sexualmente assim. Uma pessoa única.
– Mas já tinha alguma curiosidade, não é? Para me dar de presente?
– Curiosidade sim... mas nunca coloquei em prática. Vamos descobrir tudo isso juntos?
– ...certo. – concordou com as faces levemente ruborizadas.
...
Poucos dias se passaram. Agora, ela estava mais segura das decisões que havia tomado. O ruivo fez convicto a proposta de sair de York Shin com ela, seguindo-o. Então, ela aceitou. E de repente, algo lhe veio à cabeça: essa coisa de "Nen". De tudo que já ouviu, ainda tinha curiosidade sobre. E perguntou a ele.
– Por que está interessada?
– Porque sim.
– ... é uma história longa.
– Adoro. Conte-me mais. – disse ela, animada.
Hisoka fez uma cara meio sarcástica, negando com a cabeça.
– É algo muito complicado e secreto. Talvez um dia você saiba melhor... se realmente se tornar uma Hunter profissional.
– ...e você é?
– Sim.
– Desde que nos conhecemos?
– Hmmm sim. – mentiu. Mas já conhecia o Nen antes de se tornar um Hunter.
– Entendo... e se eu quisesse me tornar uma Hunter?
Hisoka riu com a mão na boca, disfarçando a graça. Nada adiantou, a outra percebeu.
– E por que achou graça?
– Nossa... você nem imagina o tanto que se exige para se tornar um Hunter, Naomi. O tanto que é...
Não que a ideia fosse ruim. Mas no fundo, não queria ver Naomi se meter nisso tão cedo. Talvez um dia... bem distante daquele momento...
...
Naomi já estava decidida a colocar a casa onde morava com os pais em leilão, e assim o fez. Ela também pesquisava pelas páginas da internet sobre diversas moradias, muitas delas em York Shin mesmo. Por que diabos Hisoka não queria ficar ali mesmo? Mas também não contestou em nada. Colocou em um site específico sua casa nos sites de leilões confiáveis com a ajuda de Hisoka, que usou suas vantagens como Hunter para ter o acesso a sites mais restritos e de confiança. Mas já sabia o que fazer com a metade do dinheiro arrecadado.
– Não posso aceitar... – disse Eros, meio incrédulo do que ouvia da morena.
– Por favor, aceite. É um presente meu. E eu nunca neguei seus presentes, viu? – ela disse piscando o olho.
– Mas... é uma quantia bem grande...
– Ótimo para você refazer sua vida. Não disse uma vez que pensava em abandonar essa vida de garoto de programa e stripper para seguir uma carreira mais decente? Estudar e tudo?
– ...estava mais animado em fazer por você.
– Então, faça! Faça por mim!
Ele sorriu para ele, pegando na mão dela amistosamente e dando leves tapinhas por cima dela.
– Você é incrível, viu?... e aí? Vai embora mesmo daqui?
– Bem... pintou uma oportunidade de morar em um lugar mais apropriado para quem vai se casar.
– Entendo... o ruim disso é que perderei contato com a melhor vizinha.
– Mas não vai perder uma amiga por isso.
– ...com o tempo, seu noivo lá não vai querer que continue a nossa amizade.
– Claro que vai. Até porque ele te conhece melhor agora, vai me confiar em você.
Eros contorceu os lábios um pouquinho, mas entendeu o que ela queria dizer.
– ...e quando você vai partir?
– Não temos uma data definida. Mas eu mesma quero que tudo ocorra sem interrupções. Forma dois anos e meses de espera!
– É... se ele não tivesse te deixado esse tempo todo, talvez eu já estivesse de babá de um filho de vocês.
Naomi riu daquilo. Poderia der verdade, mesmo – embora a ideia de um filho nem passasse por sua cabeça.
– Então... aceita meu presente?
– Aceito, claro! – ele se levantou- puxando para um abraço apertado. Naomi corresponde da mesma forma – hmmm... vou sentir saudades de te levar para seu trabalho diariamente.
– Também vou sentir falta disso. – disse ela, comovida por dentro.
E assim, ela se despedia dele também. Estava ficando tudo tão estranho. Mas ela aceitou a seguir com Hisoka. E ela não fugiria agora, até porque esperou esse tempo todo por ele. Pesava um pouco a possibilidade de uma mudança radical e a insegurança de uma realidade frustrada. Porém, ficar com aquele homem tão enigmático e tão atraente ao mesmo tempo era muito maior que sua insegurança sobre o futuro. Então, se era para arriscar, que fosse agora. Nada a prendia mais ali. Não era hora de olhar para trás.
...
Hisoka não tinha nenhum plano definitivo de moradia, mas queria tirar Naomi dali e leva-la consigo. Mas nada falou ainda que estava indeciso. Porém, o primeiro lugar que a queria leva-la era a Torre Celestial, onde ela mesma já esteve em outra ocasião junto com outros colegas de trabalho, incluído Don. Ao falar disso para Naomi, surpreendeu-se com a resposta dela.
– Já estive há uns anos atrás lá... mas não me interessa muito aquele lugar...
– ...sério?
– Sim, é uma arena de lutas, não é?
Ele também esteve lá na mesma época. Ficou pensando como eles não se cruzaram ali.
– Sim... e sou um lutador ilustre ali.
– Sério?!
– Exatamente. Não gostaria de me ver lutando um dia?
– Ah... se for para te ver... mas...
– Vai ser divertido! Garanto que se acostumará a gostar...
Naomi coçou a cabeça. Ali também lhe trazia a lembrança de Don, a qual não gostava muito de ter.
– Seria interessante conhecer todo o mundo... mas aquele lugar não me anima tanto, a não ser que esteja comigo.
Ele fez um cafuné na cabeça dela, beijando-lhe a testa.
– Agora tudo vai ser mais interessante para nós dois. – afirmou ele.
Antes de partirem pelo mundo, Naomi pediu ao seu chefe uns longos dias de folga e lhe foi permitido um período de apenas um mês. Não era o que a morena esperava, mas aceitou. Por pedido de Naomi, Hisoka partiu junto dela dali de madrugada, quando todos se encontravam dormindo em sua casa e Eros ainda estava em seu local de trabalho. Não queria despedidas e nem rever ninguém na hora que fosse embora. Com uma pequena mala – apesar dos protestos do outro, ela insistiu em levar certos objetos consigo. E Kuro também, em sua bolsa de gato.
Sentiu uma leve vontade de chorar, mas nem ficou com os olhos úmidos. Estava triste e feliz. Era curioso sentir as duas coisas assim, misturadas. Era a expectativa de uma nova vida ao lado do cara que gostava, ao mesmo tempo a insegurança e a nostalgia que mexia com ela por dentro. Nunca havia saído de York Shin para viver em outro lugar. Não quis que Eros a visse partindo dali. Tinha contato por ele por telefone e e-mail, logo manteria sempre contato mesmo distante. Acreditava que, com a boa parte do dinheiro que deu como presente, ele encontrasse uma forma melhor de se viver. Torcia para que ele encontrasse uma pessoa assim como ela encontrou para viver. Mas alguém que não fosse tão louco como o Hisoka.
– Parece pensativa...
– E estou, de fato.
– Calada demais. Vamos conversar?
E começaram a falar sobre diversas coisas até chegar ao aeroporto de York Shin, cheio de dirigíveis chegando e saindo.
– Faz tempo... que não ando em um.
– Agora pode aproveitar. Vamos?
– Vamos!
O destino deles seria justamente a cidade onde ficava a Torre Celestial. Embora Naomi não quisesse ir até lá, aceitou ir com ele ali. Ele explicou as vantagens que tinha como um mestre do andar, ela já tinha ouvido algo a respeito disso por Don. Mas ouviu tudo quieta, como se não soubesse de nada. Incrivelmente, Hisoka era aceito novamente naquele lugar do jeito que saiu. E aquela surpresinha do cadáver da camareira em seu quarto, os funcionários não tiveram? Era como se nada tivesse acontecido. Era notoriamente reconhecido como um dos mestres mais poderosos. Naomi ficou pasmada com o tratamento que ele recebia. E teve direito a ficar no mesmo quarto que ele.
– Vamos ficar provisoriamente aqui, enquanto achamos um lugar ótimo para morarmos.
– Está bem, Hisoka. Confio nosso destino em suas mãos. – disse ela, sendo acariciada no ombro em seguida, por ele.
– Você... vai lutar aqui?
– Para ficar aqui, tenho que fazer isso mesmo. Senão, não terei essa mordomia. – explicava ele, que a ajudava com a mala e o Kuro escondido. Naomi foi alertada que ele teria que ficar sempre ali e jamais sair.
– ...espero não ficar aqui por muito tempo.
– Não vai não... mas te garanto que vai ser divertido esse intervalo de tempo.
Naomi esperava realmente que sim. E nesse mesmo dia, Hisoka levou-a para conhecer todo aquele andar, o mais importante de todos. Era cada tipo estranho de lutador que Naomi não podia evitar o olhar de assustada.
– Não se preocupe. Comigo aqui, não lhe farão mal. – disse ele, emitindo uma aura ameaçadora para alguns que a olhavam de forma maliciosa.
– Já estive aqui, mas foi no 200º andar.
– É? Veio com quem?
– Com um grupo de colegas do meu trabalho, aproveitando umas férias de curto período... Don estava comigo. – ela falou pensativa.
– ...e vocês ficaram juntos em um mesmo quarto?
– Não, não. Eu fiquei com uma colega. Lembro-me que ele comentava o quanto adorava aqui e que tinha um lutador que ele gostava mui...
De repente, ambos pararam e ficaram se olhando. Naomi associou as coisas. Então... será que naquela época... Hisoka também estava ali? Ele chegou a conclusão ainda mais rápido, visto que até tinha confrontado Don que o havia desafiado no corredor do 200º andar.
– Então... já estivemos tão perto um do outro e não nos vimos em nenhum momento? – comentou ele, com os braços musculosos cruzados.
Naomi pôs as mãos em seu rosto e sacudiu a cabeça, rindo baixinho.
– Não pode ser... – comentou ela.
– É... não era a hora mesmo de nos encontrarmos.
– ...por que tudo tem que ser tão difícil e tão tortuoso? – perguntou Naomi, olhando para o enorme teto do lugar.
Ele coçou o queixo, olhando para ela.
– ...o que importa o que já passou. O que importa é que vencemos essas trilhas e conseguimos nos reencontrar. Não acha? – puxava-a pela mão e a beijava nos lábios. Naomi correspondeu da mesma forma, aninhando-se entre os braços dele.
Distantes dele, algumas pessoas olhavam os dois. Hisoka chamava a atenção ali, mas ninguém se atrevia a olhá-lo indiretamente. Mas nada ali incomodava os dois, que pareciam ter se esquecido das etiquetas dos lugares públicos e se beijavam como um típico casal romântico de novelas.
