Passaram-se dois dias.
Dias de descontração e de novas histórias contadas por ele sobre aquele lugar. Mas nunca sobre suas origens. Naomi nem perguntava mais nada sobre as origens do ruivo. Até porque precisava despistar aquela sua curiosidade pelas cartas.
Em uma tarde, Hisoka resolveu sair e chamou Naomi, mas esta inventou que queria ficar um pouco em casa, mas que "permitia" que ele saísse.
– Vou ver se conecto com Eros para saber do Kuro. – disse ela. Ela não escondia que conectava com ele para saber sobre o gato e Hisoka confiava nela. Afinal, ela fazia isso mesmo.
Ele concordou e disse que traria uma surpresa para ela. Foi quando ela esperou ele sair para Naomi ativar sua invisibilidade – mesmo ele fora da suíte, apenas para ocultar suas intenções – e ir até o local onde ele escondeu as cartas. Elas estavam bem seladas.
– Ah, não dá para abrir...
De repente, uma das cartas que pegou caiu e, pela sua lateral aberta, saiu o conteúdo do envelope. Ela pegou com cuidado e abriu. O pequeno papel tinha um cheiro misto de mofo e perfume feminino. Uma linda letra, apesar de estar com manchas de tinta prejudicando a leitura da carta.
"Meteor City, xx/xx/xxxx
Querido W.
Preciso lhe contar as novas por aqui. Nós estaremos em uma grande turnê e viajaremos dentro de três semanas. Seu filho passa bem, está sendo muito bem cuidado por nós. Gostaria muito que pudesse vê-lo novamente, está cada vez mais parecido com você...
Sinto tanto por não poder assumir nosso amor e nosso filho juntos... mas sei que, de onde está, poderá reencontrá-lo logo! Gostaria que pensasse na minha proposta, meu amor. Larga essa vida de andarilho aventureiro e vem viver conosco! Aqui, pode trabalhar e se sustentar, inclusive participar mais da vida do seu filho. Com isso, não serei mais proibida de me envolve com você. Eu sinto muito sua falta. Lembra-se de quando disse uma vez que havia interesse em trabalhar como um artista desse circo? Acredito que disse isso mais para ficar perto de mim (risos), e é por isso mesmo que quero muito seu retorno e que fique aqui para sempre.
Hisoka é um menino maravilhoso demais para crescer longe de você! Ela sempre pergunta por você e eu sempre dou a desculpa de sempre: que trabalha muito longe! Já mostra muita esperteza para tão tenra idade!
Vou retornar aqui daqui há uns dois meses. Vamos nos encontrar naquele mesmo lugar. Levarei Hisoka comigo neste dia, para que ele finalmente possa conhecer o pai. Por favor, não deixe de vê-lo. Não fuja de nós. Precisamos de você.
Com amor, K."
Naomi estava incrédula que havia lido aquilo. Uma informação poderosa. Já sabia um pouco daquela infância que Hisoka escondia. Era a mãe dele, que escrevia aquela carta para o pai. Parece que viviam distantes um do outro. Como Hisoka havia confirmado, o pai não era daquele meio. Pelo visto, Hisoka havia crescido longe do pai que nem dá para saber se chegou a vê-lo ou não.
Começou a mexer nas outras cartas, mas estavam todas lacradas. Só aquela que tinha a lateral aberta, sendo notada no momento que caiu no chão. Ela guardou o bilhete no envelope e organizava as outras em suas mãos para deixar tudo dentro da caixa como se ninguém tivesse mexido ali, até que...
– Naomi!
Uma voz familiar, firme e séria a fez soltar as cartas no chão.
– Pode se tornar invisível. Sei que está aí mexendo onde não deve! – ordenou a tal voz.
Ela arregalou os olhos. Atrás dela, aquela voz em um tom terrivelmente zangado. Não tinha escapatória e nem queria mentir mais ali. Ela deveria ter tornado os objetos que mexia invisíveis também, mas não achou necessário. Jamais imaginou que Hisoka entraria ali, quando mal saiu da suíte. Tornou-se visível e virou-se para ele, que olhava zangado para ela.
– Eu já imaginava... desde que chegamos aqui, alias... desde um bom tempo, noto você diferente... não vejo mais tanta confiança em você como via antes... Naomi.
A mulher nem sabia como respirar diante dele. Seus olhos castanhos pareciam quere rolhar para todos os lados, menos para os orbes dourados e frios que a encaravam decepcionados.
– Soube camuflar bem sua curiosidade até agora. Achou que não tinha percebido essa sua curiosidade sobre meu passado?
– ...
– Só não esperava esse tipo de invasão secreta, algo que considero quase como uma traição. Seria muito melhor se me enchesse o saco, se me pressionasse a falar... que ficar se escondendo e invadindo meus segredos sem minha permissão!
– Eu... achei que se irritaria mais desse outro jeito...
– Mas me irritei da pior forma. – ele nem a deixou terminar de falar totalmente.
– Hisoka... desculpa. Eu... realmente fui bisbilhoteira... mas tive receio de...
– De me pressionar a falar de minhas origens?
– ...sim. – ela ergueu os olhos para Hisoka. Mas estava sem jeito diante dele.
– Isso é uma forma errada de se esconder. Esconde também uma tendência a me apunhalar pelas costas!
– Não, isso não faria...
– Quem faz dessas coisas, também faz isso!
Ela fechou os olhos e suspirou longamente. O ruivo mantinha-se na mesma posição, sólido diante dela. Se ele se incomodava em revirar coisas de suas origens, imagina se não se incomodava em outros fazerem isso. Nem Abaki havia feito isso. Naomi voltou a pegar o tal envelope que já estava com a lateral aberta e mostrou para ele.
– Sim, eu mexi nessas cartas, mas não abri nenhuma delas. Essa já estava aberta quando deixei cair no chão e então...
Hisoka tomou à força o envelope da mão dela, sem ouvir o resto das palavras que ela tinha que ouvir. Aquilo fez Naomi se preocupar.
– Eu a amo, mas sinto que devo puni-la por isso.
Naomi deu uma pequena recuada.
– Eu... já pedi desculpas.
– É pouco... pode voltar a fazer novamente.
– ...não precisa exagerar, Hisoka. Jamais sairia falando o que sei para qualquer um e sem sua permissão!
Ele avançou em passos, fazendo a criatura bem menor recuar mais um pouco. Naomi só esperava uma punição simplesmente sanguinária ou até mesma mortal. Se fugisse, seria pior.
Ele parou e depois voltou para as outras cartas, recolhendo-as e guardando dentro do baú.
– Creio que devemos dar um tempo depois disso.
"Dar um tempo? Então... não vai me matar ainda?", pensou esta.
– Vai querer terminar comigo por causa de uma simples falha?
– Uma falha pior que uma traição amorosa. Nem eu gosto de remexer nas minhas coisas particulares, não é porque te amo que te permito dessas invasões secretas. Sinto muito, mas hoje você me decepcionou bem.
Naomi pôs a ponta dos dedos no meio da testa. Estava confusa ali, mas voltou a olhar para ele, diretamente nos olhos.
– Mas vou te deixar em sua casa, em York Shin. Não se preocupe em voltar sozinha.
– Então... você realmente vai terminar tudo entre nós sem me deixar explicar? – ela resolveu por o ruivo para explicar melhor aquilo.
– Explicar o quê, Naomi? Já sei que você queria se meter em meus segredos sem eu saber. Não há mais nada que você possa se justificar.
– Mas...
– Reconheça isso, garota! Para de fingir! – ele alterou um pouco a voz.
– Não precisa gritar... eu ouço muito bem!
Agora Naomi era quem estava chateada com ele. Ela parou de falar, indo pegar suas coisas e começou a arrumar sua mala. Hisoka sentou-se à beira da cama. Ele também estava confuso em suas atitudes. Mas ainda estava aborrecido com ela. Agora, era ele que conhecia outra forma da Naomi: uma chateada, decepcionada, furiosa. E teimosa.
– Vou embora hoje mesmo. E não quero que me acompanhe!
– Vamos sim, mas permita-me acompanha-la.
– Não! Não quero! – ela teimou, enquanto se arrumava. Ele a deixou ir embora, mas imediatamente se aprontou para segui-la. Ainda tinha que tomar conta dela.
Pegou seu celular e ligou para Abaki.
– Hã? Hisoka... o que deseja?
– Preciso de sua ajuda. Ligarei novamente daqui há algumas horas, mas agora preciso resolver um problema com minha garota, mas por favor fique alerta à minha próxima ligação!
– Tudo bem... mas faça tudo com calma, não importa o que tenha acontecido! – aconselhou Abaki.
...
Naomi foi sozinha ao aeroporto e partiu com destino a sua terra. Desde quando ele alterou sua voz, sentiu que seria pior discutir com ele. Sabia que tinha errado em mexer em algo alheio, foi um risco próprio. Realmente, estava curiosa demais, incomodada demais em querer saber do passado dele, ultrapassando o limite do respeito.
"Você está diferente da Naomi que conheci..."
E estava mesmo. Ou talvez, aquilo fosse uma fase em que ela se encontrava. Estava tão empolgada com as coisas se resolvendo que se esqueceu de manter o equilíbrio entre eles. Sim, ela sentiu que pisou na bola. Por isso mesmo que estava indo embora. Ele mesmo deixou claro isso. Daria um tempo... não, ele queria terminar mesmo. Um homem tão frio e calculista na hora de agir e até matar era tão frágil quando o assunto era seu "ontem"?
Privacidade. Hisoka mantinha isso com garras e dentes. Ele só se mostrava o que queria que outros vissem. Não aceitava invasões sem sua autorização. E se fosse com ela, em vez dele? Será que aceitaria? ...ela não perdoou-lhe suas invasões? Quando resolveu tirar-lhe a virgindade antes que fosse violentada por outros quando foi raptada por ele e pelo Ryodan? Quando ele a fez de marionete sexual junto com aquela Machi, prendendo e violentando as duas, e ainda por cima forçando as duas terem contato sexual? Quando permitiu que Kuroro a violentasse diante dele, apenas para fingir que era obediente ao seu líder na época?
Sim, ela não era a mesma Naomi de antes e ele ainda era o mesmo egoísta caprichoso que só via o lado dele, nada mais. Se foi fácil para ela perdoar por amor as invasões piores que a de "documentos", por que ele não se permitiu perdoá-la por algo que apenas machucou seu interior?
Quando chegou a York Shin, lembrando-se de tudo o que passou com ele no final, começou a chorar baixinho. Droga... por que ainda o amava? Por quê? Por que acreditava nele? Devia ter esfregado isso na cara dele, em vez de ficar se desculpando e justificando à toa. Talvez... pior. Ele a mataria. Ela não sabe como ele não fez essa loucura... claro que não faria... seria um exagero maior e mais injusto. Por isso preferiu se afastar dela. E foi melhor assim. Dessa vez, Naomi sentiu que não teria aquele retorno. E isso doía demais.
Estava tudo confuso. Ambos haviam sido caprichosos e egoístas em seus objetivos. Naomi estava confusa. Ela precisava se acalmar, concentrar e refletir. Ela também não entregou sua vida para ele para as coisas se acabarem desse jeito. Hisoka esteve sempre solitário e sempre assim teve que lidar com muitas coisas. Mas ficou feliz em saber do pouco que descobriu sobre ele. Ele é de Meteor City... e ela sabia quem era daquele lugar não era flor que se cheirasse – pelo menos era o que ouvia e também chegava à conclusão.
Quando chegou ao seu destino, entrou direto em seu apartamento. Precisava tomar um banho e aliviar aquela expressão de arrasada. Tinha que buscar Kuro com a cara mais feliz do mundo. Nem de longe queria envolver Eros nisso. Sentia-se fraca, cansada. Foi uma mudança de humor bem súbita.
...
– Então, você a deixou partir? – perguntou Abaki.
– Sim. Ela já sabe se virar sozinha melhor que há alguns anos atrás. – disse Hisoka.
– Isso é ruim. Mas olha... – ela apontou as cartas de Nen, estava lendo fatos incógnitos entre Hisoka e Naomi, a pedido do próprio ruivo – vocês estão ligados por um laço forte que vai crescer cada vez mais.
– Que laço é esse?
– Simplesmente um laço. Um acontecimento. Vejo que tiveram muitas turbulências no começo, não?
– ...sim.
– Mas Naomi não apresenta um espírito tão afiado como você, Hisoka. Quando a vi, senti-me tão bem diante dela!
– Mas ela precisava de uma punição.
– Mas você disse para mim, sem explicar muito, que já tinha feito coisas piores com ela e que ela o perdoou. Acabou de falar isso ainda pouco!
Hisoka coçou a testa.
– Acho que você mesmo se deu uma resposta, mas não a interpretou como deveria. Deveriam se resolver ainda naquele momento de discussão, mas cada um se fechou em seu canto e manteve sua postura inatingível, sendo que ambos precisavam conversar melhor e se entenderem.
– Naomi também foi cabeça-dura.
– Então, você também foi... entendo sua postura, mas acredito que, pelo que me contou, ela assumiu tranquilamente o erro.
– E se eu não tivesse flagrado mexendo naquelas cartas? Ela ficaria pior!
– Era você ter pressionado sem exagerar, não é? ...você perde a razão quando toca nesse seu passado. Lembro quando saiu chorando depois que terminou de conversar a sós com Monitorio.
– Ai, ai... foi difícil superar aquilo tudo.
– Nem eu sei o que se passou... mas sinto que... sendo uma coisa que não se resolverá mais, para que continuar guardando revolta dentro de si? E perdendo a chance de ter uma companheira leal ao seu lado. Se ela pode te perdoar, você também pode perdoá-la.
– ...pensei que teria ciúmes dela. – comentou, rindo.
– Ciúmes? Você ainda acha que sou aquela mesma mocinha? Perdão, meu caro amigo. Você já me desconheceu e não sabe. Quer que eu me apresente novamente? – Abaki perguntou, com os braços cruzados.
– Oras! – comentou ele, rindo daquilo – mas... depois daquele "encontro"... nunca mais teve interesse nem por mim e nem por outros?
– ...tenho interesse por aqueles que tenho certeza que vão estar comigo para sempre... sem distâncias longas ou ausências temporárias.
– Hehehe... bom, aqui encerramos a nossa conversa!
– Conversa? – disse ela, balançando a cabeça negativamente – Isso é uma consulta, é meu trabalho. 1500 Jenis!
– Certo! – tirou a quantia do bolso – estou sem meu cheque dessa vez.
– Ah, melhor... prefiro dinheiro vivo. – disse ela, conferindo nota por nota.
– Bom, até um dia, Abaki!
– Hisoka... lembra-se do que te disse, está bem? Senão não te valeu desembolsar essa quantia toda.
– Essa quantia não me é significante como seus conselhos são... – disse, piscando um olho para ela. E retirou-se dali.
...
Naomi foi até a caixa de correio ver se havia chegado algo para si e se surpreendeu com uma caixa. Foi andando com ela até seu apartamento, mas Eros esbarrou em seu caminho, quando saía para trabalhar no clube.
– Humm... chocolates?
– Tomara que seja.
– Ah, seu gatinho agora deu para fugir, é?
– Pois é... parece que ele quer morar com você agora!
– Hahahaha, ele só me aguentou porque foi um período temporário! – disse ele, colocando o capacete – Ah, e como vai o relacionamento?
– Vai bem... estamos ainda procurando uma casa maior. – deu uma desculpa esfarrapada.
– Vai aumentar a família? Chama-me para ser o padrinho de todos os filhos, viu? – deu um levíssimo soco amistoso no ombro dela.
– Hahaha... pode deixar!
– Vou indo, até mais! – e ele foi pegar sua moto.
Naomi entrou em casa, fechou a porta e foi para seu quarto, colocando a caixa na cama, ao lado do Kuro que dormia folgado em cima dela.
– ... o que será isso? – e foi abrindo. Parou de mexer quando reconheceu aquele conteúdo: as cartas que Hisoka escondia. Estavam embrulhadas em um pacote de plástico e havia um bilhetinho menor preso na abertura do saco: "Tudo que você precisava saber de mim... aceite isso como uma forma de desculpas pela minha atitude egoísta. Aceito nosso retorno apenas se você quiser. Hisoka.".
Naomi não sabia se sorria ou chorava com aquilo. Eram mesmo aquelas cartas. Estavam do mesmo jeito que havia pegado às escondidas dele. Ele estava aceitando que ela soubesse seu passado oculto? Então, ela pegou seus óculos da gaveta do seu criado-mudo e se estendeu naquela cama, preparada para ler todo aquele volume, que não tinha somente cartas escritas da mãe como também do pai e de conhecidos, narrando outros fatos que os pais não puderam narrar em cartas.
Um pouco mais de 28 anos atrás.
Dois jovens se conheciam por acaso em um grande e único circo em Meteor City. Mal haviam se estabelecido ali e uma bela moça de cabelos longos, lisos e ruivos conhecia um nativo daquela cidade. Um homem alto, loiro e de olhos tão vivos e azulados que pareciam hipnotizar a bela ilusionista. Ela não sabia sua origem, foi criada naquele circo que surgiu ali mesmo, mas que viviam viajando pelo mundo afora. A caravana tinham origens diversas, mas costumavam não se envolver com os nativos daquela cidade. Seres que não tinham origens reconhecidas e que eram discriminados pelas diversas partes do mundo.
Mas ambos começaram a se encontrar às escondidas. O grupo em que vivia jamais aceitaria que uma deles se envolvesse com um nativo daquele lugar. O rapaz era um malandro que vivia nos mais profundos subúrbios de Meteor City. A moça era uma hábil mágica ilusionista, dedicada em sua vida dentro do grupo. Certa noite, ela arriscou-se em fugir do circo para se encontrar às escondidas com seu amante em um matagal, embaixo de uma enorme árvore cheia de folhas secas.
– Você está se arriscando muito!
– Eu sei... mas se essa é a última vez que nos veremos... então...
Ela se aproximou bem dele, acariciando-lhe os cabelos louros e levemente ondulados e entregando-se aos braços dele, que a acolheram calorosamente. Foi uma incrível despedida para ambos, mas a mulher carregou consigo um fruto desse encontro e que assumiu sozinha. Não podia dizer quem era o pai.
– Não existe um filho sem um pai! Não pode negar a existência dele! – gritava o chefe da caravana, sacudindo-a.
– Sei o que digo. Esqueçam o pai. O filho é somente meu.
– Não é um "desses" homens, não é?
– Não tem laço nenhum com esse lugar! – mentiu ela, com as mãos no ventre ainda baixo.
– Ahhh... se for um de nós, esse vai ter que assumir o filho e pronto!
– Também não precisa jogar a responsabilidade sobre nenhum dos homens aqui! – disse a ruiva, com seus olhos cor de âmbar firmemente encarando o chefe.
– Então... não tem outra saída. Deve se desfazer dessa criança! Não temos como sustentar uma criança que nem vai aguentar o estilo de vida que vivemos!
– Ela não será criança para sempre! E pode deixar que cuido dele sem ajuda de ninguém!
– Ora... se você não fosse tão importante aqui...
– Desfazia de mim, não é?
– Escuta aqui, sua irresponsável! – o chefe agarrou-a pelo braço e começou a sacudi-la.
– Espere! – uma mulher entrou na conversa, tentando proteger a pobre moça que mal tinha completado vinte anos.
– Você aqui? – perguntou o chefe, soltando a gestante.
– Sim. Não vou admitir que faça nada de mal a ela! Escutei tudo detrás da tenda! – disse a mulher mais velha, de curtos cabelos escuros e olhos de uma cor entre violeta e azul.
