A mulher ruiva teve esta outra como sua protetora dentro do grupo. A mais velha cuidou da jovem até nascer a criancinha que quase perderia a chance de nascer. A morena tinha acompanhado a gestação como se fosse o pai. E era uma correspondente fiel que levava as cartas escritas pela mãe do garotinho até o verdadeiro pai, e trazendo as cartas deste para ruiva.
Hisoka foi ganhando afeição dos outros depois que nasceu. Era então a única criança naquele meio. Sua mãe se apresentava com mais disposição e alegria depois de ter seu filho são e salvo ao seu lado, embora sofresse por dentro por causa da ausência do homem que amava. E o tal homem sequer se preocupou tanto com o fato que tinha um filho, sempre vivendo a vida de vagabundo que vivia em jogos de azares e bebidas. Curiosamente, tinha o perfil de um homem que vivia praticando esportes – embora nem sonhasse em fazer isso. Era um sedutor folgado, mas no fundo amava aquela bela ruiva.
Certo dia, sentiu uma saudade enorme de sua amada e queria ver muito seu filho. Após quatro anos do nascimento do menino, ele reapareceu às escondidas naquele circo, com a ajuda da amiga de sua amada. Ficou diante do garotinho que tinha bem as suas feições, com exceção da cor dos cabelos.
– E esse é o meu filho?
– Sim... – disse a ruiva, às lágrimas.
– Venha cá! – ele agarrou o garotinho no colo, abraçando-o forte. Hisoka pareceu se sentir incomodado com aquele aperto, desfazendo-se do abraço – Ué? Mas por que reage assim?
– Cadê minha mãe? – perguntou o ruivinho.
– Deixa... com o tempo ele se acostumará. – disse a mãe, pegando o garoto e colocando no chão. Mas Hisoka ainda ficou ali fitando o pai que conhecera naquele momento.
– Vai mesmo... até porque vou seguir seu conselho, mulher!
– Então... você vem viver comigo aqui?
– O circo tem mais espaço para mais um artista? Ou um empreendedor?
Ela pulou nos braços dele, enchendo-o de beijos. A morena ficou olhando feliz para o casal, enquanto acariciava os cabelos do pequeno Hisoka, que só observava sua mamãe nos braços daquele tal homem.
Foi intenso o encontro do pai do Hisoka com o dono do circo.
– Então... ela me escondeu esse tempo todo... que o filho era de um dos membros desse lugar insano... – concluiu o chefe, dando uma baforada longa no charuto.
– Eu não sou originário daqui! Perdi minha família e me acolheram neste lugar. – mentiu o loiro – E desde então, sou um "deles". E sabe como é, não? Tudo que acolhemos aqui, aceitamos como nosso. E não aceitamos que nos peçam de volta. É o lema desse lugar.
– Hunf! – resmungou o senhor de meia idade.
– Além do mais... sou filho de um bom empresário e já trabalhei com ele em alguns casos. Deixa-me promover e engrandecer seu circo, cara!
– Te darei uma oportunidade. Se nos prejudicar... escuta bem: você e sua linhagem serão exterminados! – disse com o dedo apontado bem no nariz do homem loiro.
– Garanto ao senhor que não precisará nos matar! Confia em mim! – disse tranquilamente, com um sorriso familiar em seu rosto.
O pai de Hisoka havia mudado seu estilo boêmio de vida, virando um bom empresário. Era perspicaz e ardiloso. Sabia tratar os assuntos comerciais tanto de forma justa como corrupta, com isso conquistando a confiança do chefe do circo.
A vida não poderia ser melhor para a mãe do Hisoka. Tendo o homem que amava ao seu lado e vendo o filho crescer. E ele parecia ter herdado a esperteza do pai. Aos poucos, afeiçoava-se ao pai da mesma forma que a mãe. Antes dos oito anos, já havia aprendido com a mãe truques de mágica. E outras habilidades dos outros integrantes da caravana, que o paparicavam.
Tudo seguia melhor que se esperava. Até que os pais de Hisoka resolveram viajar e levaram o filho junto. A mãe teve uma interessante vontade de levar consigo suas cartas e recordações em um pequeno cofre. O pai havia interesses em morar num lugar fora de Meteor City e com o dinheiro que havia ganhado durante aqueles anos no circo, comprou uma simples casa em uma cidade perto de York Shin. Viveram por lá alguns meses, voltando para o circo após firmar sua posse daquela casa.
Foi aí que o chefe do circo quis a ajuda dele para aplicar um golpe sujo num outro circo que estava de passagem por aquelas bandas que considerava ser somente dele. Mas o que não esperavam era a vingança dos responsáveis daquele circo: membros da comunidade da Máfia.
Uma das maiores tragédias de Meteor City, com direito a vingança e inimizade com a Máfia: agentes espiões instalaram bombas mortais que explodiram durante uma noite de shows. E para piorar a situação, mafiosos invadiram o lugar com armas letais, executando praticamente todos ali. Um dos primeiros a serem mortos cruelmente foi o pai de Hisoka, e o próprio, aos onze anos, havia testemunhado junto com algumas pessoas que estavam por perto. Sua mãe estava nos bastidores se preparando para se apresentar. E os mesmos miraram em direção às pessoas que assistiram, fazendo-as correrem desesperadamente. Hisoka foi nesse embalo, conseguindo escapar dos assassinos mafiosos. Estava arrasado, aos choros, querendo encontrar alguém para ser socorrido e poder ajuda-lo a rever sua mãe. Mas tarde demais. A tenda onde estava o camarim havia explodido e estava totalmente em chamas.
– Isso... é um... pesadelo! – gritou o garoto.
Sem saber para onde fugir, só via incêndio tomando conta de toda a área do circo, corpos espalhados pelo chão, muitos já se carbonizando. Não poderia mais salvar seus pais, sentiu apenas a necessidade de fugir. Um espetáculo da dor e da morte. As chamas exalavam uma fumaça negra e tóxica, que foi fazendo o garoto perder a consciência aos poucos. Hisoka caiu no chão, ainda chorava se lembrando do pai sendo atingido e da mãe dentro daquela tenda explodida. Ele não entendia nada. Só queria que tudo aquilo acabasse para ele.
...
A manhã do dia seguinte amanheceu escura, não pelo clima e sim pela fumaça que ainda não tinha cessado. Equipes de resgate de Meteor City resgataram os corpos, mas resolveram se desfazer dos que ainda poderiam estar vivos. Eles entrariam em guerra com a Máfia e com os donos do tal circo que planejaram isso e queriam salvar os (possíveis) nativos de Meteor City. Hisoka foi resgatado e ressuscitado por uma equipe paramédica e jogado em uma cidade qualquer pelo mundo. Foi uma das maiores guerra travadas entre o governo obscuro de Meteor City e a Máfia.
Enviaram-no para Glam Gas Land, jogando o corpo da criança à entrada da cidade, já desacordado apenas. Uma pequena caravana de artistas circenses o encontrou jogado naquela estrada deserta.
– Será que ele está morto? – perguntou um deles.
– É uma criança! ...olha o estado dele! Será que apanhou de bandidos e foi jogado aí? – comentou outro.
– Vamos logo, estamos atrasados para a nossa apresentação!
– Deixa-me ver... – Moritonio aproximou-se do moleque. Usou a bengala para movê-lo. Agachou-se e virou o garoto – está vivo, e já foi socorrido... olhem suas roupas... diria eu que este menino escapou de um incêndio!
– Que vamos fazer?
– Vamos tirá-lo daqui! – decidiu o homem.
– Vejam! Ele está acordando!
O garoto ruivo abria os olhos aos poucos. Viu muitos pares de pés.
– Ei... está consciente?
Nada do garoto responder.
– Eu sou Moritonio, um artista viajante. – disse o homem maduro, sorrindo – e você?
– ...Hisoka.
...
Hisoka apenas conseguia se lembrar do seu nome. Era como se tivesse nascido de novo. Os outros garotos mais velhos perguntavam sobre ele, mas sequer respondia. Moritonio ouviu falar sobre a tragédia de um circo em Meteor City e rumores que estavam se livrando de nativos que fossem encontrados vivos.
– Então... esse deve ser um "daqueles"...
O homem proibiu todos ali que comentassem acerca disso. Um ano depois, Hisoka recobrava as lembranças a partir de um pesadelo, tendo que ser até dopado com um tranquilizante injetável pelo próprio Monitorio (que tinha alguma noção médica) para se tranquilizar. Após recobrar seu equilíbrio, Hisoka foi estimulado pelo próprio a contar sobre o que aconteceu com ele e com sua família. Foram crises de choro e tormenta emocional grande. O ruivo achava que poderia ter, ao menos, salvado seus pais de alguma forma.
– Escuta uma coisa, meu jovem amigo: você foi dos pouquíssimos que sobreviveram àquela tragédia! Fez muito bem em ter fugido em vez de tentar salvar seus pais. Você não tinha como fazer isso! E mais... seus pais foram mais vitoriosos que nuca! ...pois o legado deles sobreviveu e esse legado pode recomeçar sua vida! Entendeu?
Hisoka conseguiu sorrir um pouco, consolado. Moritonio o ajudou a superar toda aquela tragédia. Foi assim que Hisoka foi crescendo, admirando aquele que havia salvado e que havia protegido ele. Ao mesmo tempo em que queria poder ter as habilidades dele. Diante se sua superação pessoal, seu corpo foi se adaptando as mudanças daquele local. Hisoka adquiriu uma sensibilidade maior, o que o ajudou a desenvolver sua força inconsciente. Foi nessa mesma época que Moritonio resolveu aceitar Hisoka como um dos seus artistas, mesmo com alguns dos membros da caravana contra.
Hisoka mostrou Moritonio um truque de cartas, surpreendendo-o e observando que o menino tinha mais talento do que ele.
– Minha mãe era uma senhora bem habilidosa... – justificou o ruivo.
Moritonio incentivou Hisoka a aprimorar seu talento. Foi também quando conheceu Abaki, que no início tinha certa inveja dele por ser extremamente talentoso e, quando teve o mágico como mestre de Nen, um aprendizado muito mais rápido que ela em todas as técnicas. Mas com o passar do tempo, ficaram mais íntimos e desenvolveram um amor inicialmente platônico.
Após alguns anos, Hisoka confrontou seu (até então) mestre sozinho, acusando Moritonio de ser John Doe, um misterioso assassino em série que rondava aquela área e que chegou até tentar matar Abaki, certa em em que andava sozinha pelas ruas. Ele consegue desvendar como Moritonio se mascarava atrás daquela figura do assassino. E o homem afirmou, explicando que ele gosta de surpreender as pessoas, a tal ponto que ele matou sua irmã mais nova, extasiado em ver a expressão de horror e surpresa no rosto dela. Ele criou um circo de ter a sua apreciação de uma forma humana, mas ainda não conseguiu resistir à tentação de ferir outros. Ele confessou ser John Doe, mas Hisoka apenas queria lutar com ele e superá-lo. Quem sabe, adquirir suas técnicas ali mesmo.
Eles entram em um duelo, com Moritonio revelando como ele trocava os rostos. Durante a luta, Hisoka se sentiu como se estivesse sendo esmagado misteriosamente, e o homem explicou mais um pouco sobre sua habilidade. Hisoka se sente como se estivesse sendo mais e mais esmagado, com isso resolvendo usar o Gyo, técnica do Nen que Moritonio não havia lhe ensinado. Moritonio foi com tudo com seu Hatsu, usando barras magnéticas, mas Hisoka consegue usar seu Hatsu para desviar as barras e esmaga-lo. Ele revela que ele desenvolveu o poder de Transmutação que assume as propriedades da borracha e goma. Com isso, ele usou essa habilidade para fazer as barras voltarem para Moritonio, matando-o com o próprio poder dele.
Hisoka fugiu dali, pois sentiu que seria perseguido mais uma vez e não queria acabar com o resto daquele bando. Lembrando-se daquela casa que o pai havia comprado para eles viverem fora de Meteor City (era o que o pai planejava antes de morrer), resolveu voltar até aquele lugar o qual se lembrava bem.. Foram longos dias de viagem até chegar naquela cidade. Sentiu sua depressão e angústia voltar à tona, mas precisava saber se ainda tinha alguém naquela casa, ou ela estava abandonada. Ao invadi-la, conseguiu reencontrar o pequeno cofre que sua mãe havia guardado e pegou tudo para si, fugindo dali. Antes que aqueles pertences desaparecessem, retornou a Glam Gas Land e teve um encontro às escondidas com Abaki.
– Guarda isso para mim? Até que possamos nos encontrar novamente?
– Não sei, Hisoka! Estão te procurando lá feito doidos, querem se vingar da morte do mestre! Afinal... por que você matou ele?
– Porque ele queria nos matar! Ele era aquele tal John Doe!
Abaki ficou calada, pasmada.
– Não é possível...
– Mas era verdade... então? Guarda isso para mim?
– Mas é um cofre! Tem a chave?
– Chave? Não precisa de chave. Tem que rodar esses números para abrir... mas sei como descobrir a combinação!
– Como?
Usando a Textura Enganosa, Hisoka copiou o código nos números que deveria usar. Tudo isso na frente da adolescente, que nada entendeu.
– Pronto, vamos abrir o cofre!
Eram cartas e havia uma anotação separada dos envelopes. Lá, a mulher que era amiga de sua mãe e a protegeu durante a gravidez relatava que havia sobrevivido e que era a única que poderia ter acesso aquele cofre. E que queria reencontrá-lo um dia, caso tivesse sobrevivido. Imediatamente, selou os documentos e confiou em Abaki, que mantivesse tudo selado até que ele voltasse e buscasse tudo caso necessitasse. Abaki jurou que manteria guardado aqueles documentos sem violá-lo. E assim Hisoka partiu de vez ali, tentando sobreviver como podia. Uma vida solitária e perdida por mais alguns anos... o que fez cair na vida criminosa. Encontrou o prazer em matar, caçar suas vítimas para descontar o que poderia ter feito aos assassinos de seus pais. Em tempos em que passava fome, chegava até a beber o sangue de suas vítimas. Mas tudo isso mudou um pouco quando descobriu o Exame Hunter...
Naomi leu desde as cartas de amor até as cartas de relatos horríveis sobre a tragédia do seu passado, com lágrimas que desciam automaticamente em seus olhos. Viu as poucas fotos dele e de seus pais. Um menino tão lindo... que não merecia passar por tal desgraça. Naomi se sentiu especial na vida dele agora. Foi a pessoa que teve a verdadeira permissão em abrir todas aquelas cartas que ele mantinha só para si. Assim como ele sabia das tragédias de sua vida, agora ela sabia as dele. Podia entendê-lo melhor. Havia anotações dele também, relatando o desespero de sua depressão e trauma. Lembrou-se do triste passado que Eros lhe contou. E ele que sequer sabia de suas origens? Mas também não teve a dor lancinante em ver os pais morrerem ao vivo, sem poder fazer nada em sua fragilidade de menino.
Ela guardou tudo na caixa e reservou um espaço para esta no armário. Precisava de uma ducha para se refrescar e aliviar, quando aquele smartphone que ambos se comunicavam por ele tocou. Era ele.
– ...Hisoka?
– Naomi... ainda estou sem jeito ao falar com você! Mas... queria confirmar se recebeu ainda hoje algo especial pelo correio.
– ...recebi. E quero muito agradecer por ter confiado todo esse conteúdo comigo. E ter permitido que eu o descobrisse. Sinto muito pela dor que te provoquei ao te fazer relembrar dessa fase que escondia de mim. Mas quero devolvê-lo.
– Não tenho como ficar com ele. A pessoa que guardava isso para mim devolveu e não quer guardar mais!
– Entendi. Mas mesmo assim... venha buscar.
– ...pelo que entendi... não quer ficar com ele para mim, não?
– Não.
– E... então... estamos ainda rompidos?
– Sim. Melhor que fiquemos assim... não me sinto bem desde nossa última discussão.
– ...não me ama mais?
– ...sim, pior que sim!
– Então... eu me arrependi e confiei toda minha vida em você, entregando esses documentos... e mais, brigas acontecem. Nós nunca conhecemos verdadeiramente uma pessoa se não soubermos o que a irrita.
– ...mas eu ainda tenho medo de você... na verdade, quis fugir de qualquer fúria sua... sei que é perigoso e muito mais forte que eu.
Naomi lhe falava com toda a sinceridade e aquilo massageava o ego do ruivo, por mais que ele estivesse preocupado com aquela atitude da morena.
– Ter medo... não deve ter medo. Deve aprender a se arriscar sem olhar para trás. Acabei de dar o exemplo, não? Isso tudo ainda dói em mim... muito. Nunca superarei toda essa dor que você acabou de conhecer por esses registros. Mas ainda devo encará-las, da mesma formo que encaro o mais forte inimigo.
Naomi ouvia de olhos fechados. Era como se absorvesse tudo aquilo para a parte mais profunda de sua memória. Será que ele mesmo estava arrependido, a ponto de nunca mais ser ameaçador daquele jeito?
– É a sua vez agora. Você vai dar sua decisão definitiva.
– ...vamos nos encontrar nesse lugar?
E ela sugeriu um lugar em York Shin para que eles se reencontrassem no dia seguinte. Assim, ela teria uma noite completa para pensar bem na resposta definitiva que daria para ele.
