Mais uma vez... ela seguia aquela mesmo caminho. Estava com a resposta na ponta da língua. Trazia no bolso aquelas cartas enroladas em uma fita nova e grande, preta. Vez em quando, Naomi olhava para o bolso fechado e analisava tudo que havia se passado desde o reencontro físico dos dois. Era mais uma vez que se disponha a ele. Mas agora, a resposta era definitiva. Não queria mais enrolar seu relacionamento com passado ou intrigas. Tudo já foi o suficiente para conhecer Hisoka como nunca antes havia conhecido.

Diante dele, Naomi ficou parada. No mesmo parque, embaixo da mesma árvore.

– Sabia que viria. E então... vamos acertar nossas contas aqui?

– Vamos. – disse Naomi, abrindo a bolsa e lhe entregando as cartas bem organizadas e amarradas naquela fita.

– Mas... o que é isso?

– Você sabe o que é isso... e estou te devolvendo, pois a mim elas não me pertencem. – disse a morena calmamente.

– Bem... achei que ficaria melhor com você, Naomi... isso perto de mim me incomoda um pouco sabe.

– Mas isso ainda é seu. E não foi você quem me disse que devíamos encarar o passado e as más lembranças de cabeça erguida, por mais difícil que fossem elas?

Hisoka suspirou, curvando os lábios em um sorriso conformado. Ele recebeu as cartas e as fez desaparecer em um dos seus truques de mágica corriqueiros.

– Você... destruiu elas?

– Não, vou só guarda-las. – ele puxou-a pela mão e a pôs mais perto dele – e outra coisa... ainda me falta dizer... se eu estou perdoado.

Naomi permitiu-se ser puxada daquela forma, mas ainda estava aparentemente apática.

– ...olha para mim. Para meus olhos.

– Mas ainda quero ouvir de você...

– Eu já estou dando a resposta... Hisoka.

Os olhos da mulher brilhavam contra a luz fraca do local. Os lábios dela entreabertos pareciam pedir por um beijo. A mão menor apertou a maior delicadamente, como se estivesse acolhendo-a.

Ele não exigiu mais nada. Puxou-a para um abraço que foi bem correspondido. Para Naomi, pode ouvir as batidas do peito do amado era a coisa mais deliciosa do mundo. Ele estar vivo e ainda por cima com ela. Tinha como não perdoá-lo depois de tudo?

– Vamos esquecer o passado... e construir nosso futuro! – disse ela, com a boca encostada ao peito coberto pela típica blusa com os símbolos do baralho estampados.

– ...mas está consciente que... ainda teremos muitos desafios pela frente. Ainda sou um homem cheio de caprichos e desejos... e de defeitos. – ele sempre dizia isso, testando a mulher que amava. E vê-la desligar-se de tudo para viver uma vida romântica como um cara como ele... dava a mesma sensação de quando se ganha um presente maravilhoso.

– E eu sou perfeita, por acaso? – ela desencostou apenas a cabeça para olhá-lo.

– Sim, você é perfeita demais... Naomi. – disse ele, acariciando o nariz da parceira da base até a ponta. Aquela unha pontuda fez Naomi ficar levemente vesga. Passava nela certa aflição, mas não medo mais.

Ambos saíram dali, abraçados como um casal que era. Mas ambos sabiam que nunca seriam um casal tão comum assim. Mas para Naomi, aquilo era o de menos.

...

Passaram-se bons meses. Devido à insistência de Naomi, Hisoka resolveu viver naquele apartamento com ela. Não era ruim compartilhar uma moradia com uma pessoa, ainda mais no caso Naomi. Mas foram tantos anos vivendo solitariamente... e não era tão ruim assim, quando se tinha uma vizinhança de rua meio louca e um vizinho para provocar levemente.

Naomi trabalhava em mais um livro após descartar outros que havia em planos. Ganhava bom dinheiro como escritora e como funcionária da famosa empresa de jornal de York Shin. Certo dia, uma certa empresa de livros decidiu patrociná-la, mas deveria antes sair do local atual de trabalho. Foram muitos comentários vindos dos colegas, alguns contra, alguns a favor. Naomi ganha muito bem e essa tal empresa interessada não parecia ficar tão atrás.

– Que tal arriscar? – perguntou Hisoka – Afinal, você vai continuar ganhando bem e pelo que me mostrou nesses documentos... eles parecem ser de confiança.

– É... e dar a vez para outros escritores iniciantes. Acho que farei isso.

O chefe de Naomi acatou a decisão dela sem pronunciar uma opinião sua, e ainda pediu para ela recomendações de pessoas que quisessem trabalhar ali, mesmo que fossem nas menores tarefas. Lembrou-se de Eros e foi comentar com o ruivo. Após ser notificado sobre isso, ele topou na hora e ainda quis ir pessoalmente lá. Embora gostasse de seu trabalho na boate, achou que poderia levar uma vida mais decente.

Com um visual diferente de sempre – paletó, sapatos lustrando e cabelos arrumados, bem penteados para trás e com um rabo de cavalo baixo – o rapaz foi acompanhado de Naomi, que o apresentou para o chefe. Eros foi aceito como estagiário remunerado e comemorou bastante na porta do edifício, jogando Naomi para o alto.

– Calma, Eros! Estou ficando tonta...

– Desculpa! – ele a desceu no chão – Mas eu devo muito a você, Naomizinha!

– Não falei que conseguiria? E ainda mais assim... bem arrumado.

– Humm... aquele meu outro visual espantava muito?

– Nada! Só não era apropriado para uma recomendação de emprego, não é?

– Ah, bom!

– Fora isso, pode se vestir como quiser.

Ambos chegaram à frente da entrada do edifício antigo e meio que em ruínas onde moravam, onde se separaram apenas para entrarem em seus apartamentos. Antes de entrar, Eros agradeceu beijando as mãos dela. Naomi ficou sem jeito, até porque não queria ser flagrada assim e começarem a fofocar uma situação falsa entre eles por aí. Quando Naomi entrou, tirou os sapatos altos e jogou a bolsa em cima do sofá.

– Cheguei!

Hisoka apareceu na porta da cozinha.

– Chegou a tempo. Quer dividir uma coisa de comer comigo?

– Lógico! – ela foi até ele.

O cheiro de comida quase queimando não era dos melhores, mas Naomi nada falou.

– Escuta, Naomi... aquele cara de paletó que saiu lá fora mais cedo era aquele moleque?

– ...era. – comentou com um rápido riso.

Hisoka fez uma careta, demonstrando certo sarcasmo em ver a diferença.

– Ele foi para uma entrevista de emprego, e eu o recomendei ao meu ex-patrão.

– Conseguiu? – ele serviu uma comida que parecia uma macarronada cheia de condimentos que, para a morena, não estava agradando muito em comer.

– Conseguiu! – comentando ela, evitando ser menos indiscreta o possível.

Hisoka terminou de montar o prato dele e sentou-se à mesa com Naomi, que tentou não se concentrar naquela comida que estava lhe dando certo receio de comer.

– Está bom? Olha que não sou tão bom em cozinhar, mas... – ele fez uma careta indecifrável reconhecendo que não estava algo sequer cheirando apetitoso. Foi o primeiro a comer e... tentou disfarçar a vontade de beber água por cima. Quando olhou Naomi, viu que ela já tinha comido.

– Está uma delícia! – disse ela.

– ...está tudo bem? Não achou temperado demais?

– Não... quero dizer, sim... mas está bom! Nossa... – comeu e repetiu a dose. Hisoka coçou o queixo e só comeu mesmo aquele prato.

Curiosamente, Naomi havia apreciado aquele excesso de tempero. Não imaginava que gostaria assim, logo de cara.

– Eu... não achei que gostaria quando senti o cheiro forte... mas... não sei... – ela falava enquanto mastigava.

– ...bem... que bom que gostou. – uma gota de suor desceu pela testa do ruivo.

Uma noite tensa para Naomi. Durante o sono noturno, teve que se levantar para botar tudo que havia comido para fora. Fez tudo discretamente, usando sua habilidade Nen de ocultação própria para não acordar seu amado que parecia dormir profundamente. Após colocar boa quantidade para fora, ela respirou profundamente, tentando pegar fôlego. Nada adiantou, voltou a vomitar.

– Naomi! – a voz do outro pareceu ecoar sinistramente no banheiro, mas era somente um Hisoka preocupado e já consciente que aquilo tinha sido a comida.

Naomi limpou os cantos da boca e olhou para trás.

– Desculpa... não queria acordá-lo.

Ele foi até ela e ajudou-a a levantar, pegando-a pela cintura e segurando-a em uma das mãos.

– Naomi... eu avisei que estava muito forte o tempero. – disse o ruivo, calmamente.

– ...não imaginava que isso... aconteceria... – ela falava meio fraca, sendo guiada pelo outro até a cama, onde se sentou. Estava meio envergonhada também, perante Hisoka. Ele sentou-se ao lado dela, ainda segurando-a pela mão, afastando a longa franja que caía nos olhos de sua mulher.

– Mas não foi isso... – e Naomi continuou a justificar, desculpando-o pela aquela gororoba – é que depois... comi mais algumas coisas já com a barriga cheia.

– Comilona! – disse ele, beijando-a a mão – é melhor que descanse. Amanhã, se quiser, posso leva-la ao médico.

– Exagero... – Naomi afirmou, sacudindo a mão livre negativamente – isso passa. É só fazer um chá de boldo ou erva doce... ou camomila... que passa. Eu vou lá fazer!

Naomi se levantou mas o ruivo a pôs deitada que nem uma criança.

– Fica aí!

– Vai querer fazer o chá?

Hisoka ficou em silêncio, tinha medo de fazer outra besteira. Nada sabia sobre chás e estava com medo de dar alguma coisa que piorasse o enjoo dela.

– Fica aí, sei o que vou fazer!

– O que vai fazer?

Foi até a cozinha e encheu copo de água, retornando a Naomi.

– Beba água limpa. Vou trazer outro copo, vai bebendo aí!

– Mas... e se eu ficar enjoada de novo?

– Você põe para fora. É seu corpo se repurificado depois de tanta coisa ingerida.

– ...tudo bem. – e obedeceu ao ruivo, que acabou trazendo uns três copos no total. Naomi não sentiu mais nada e resolveu dormir novamente.

– Viu só? E eu não sou de adoecer fácil! – afirmou ela antes de (tentar) pegar no sono.

Quando tudo parecia voltar ao normal, eis que algo preocupa ambos: ao levantar-se da cama, outra seção de vômitos e ainda uma zonzeira que a fez sentar-se automaticamente no chão ao sentir que desmaiaria.

– Você ainda não está bem! – disse o ruivo.

– Bem... eu só não entendi essa... tontura. – disse ela, passando a mão na testa que parecia arder. Será que Hisoka havia colocado algo tóxico na comida sem saber?

Inconscientemente, Naomi havia pensado em uma coisa. Mas estava óbvio que era uma suposta intoxicação. Justo quando tudo na vida estava dando certo, iria morrer?

Assim como havia dito, e como tinha certos privilégios como um Hunter, Hisoka a levou no hospital mais famoso e bem eficiente de York Shin. Naomi nunca havia entrado em um hospital por necessidade própria – não que se lembrasse. Sim, ela já tinha estado internada, quando Eros a socorreu da noite em que foi encontrada na rua jogada após ser estuprada pelo falecido Don, mas ela não se lembrou disso. E por causa de uma intoxicação, aquela realmente era uma primeira vez. Submeteu-se a alguns exames, que foram longos a ponto de durarem quase duas horas. A médica que havia atendido Naomi veio de sua sala até Hisoka, que estava de costas a porta do consultório desta.

– Com licença, o senhor está acompanhando essa moça que estava com intoxicação?

– Sim, sou eu. – ele deu atenção à médica, uma mulher bem baixinha, até mais baixa que Naomi, corpulenta e de fisionomia empática.

– Nós temos uma notícia boa. Ela não está com nenhuma intoxicação e está fora de perigo!

– Isso é bom

– Mas... – ela alongou bem a única vogal da palavra.

Hisoka olhou-a desconfiado.

– ...mas o quê?

– Ela tem que estar sob nossa supervisão. A saúde dela se encontra bem sensível... até mesmo porque está esperando um bebê.

– ...quê?

– Sim, ela está quase no segundo mês! Não sei como só agora, por causa de um enjoo causado por uma comida extremamente condimentada, pudemos descobrir isso. Bom, foi o que ela falou. Disse que não havia sentido sequer uma dor, um enjoo ou outra reação... a pressão dela foi o que mais me preocupou, abaixou bem. Mas isso está sendo por causa da evolução do feto dentro do corpo dela.

Hisoka ouvia tudo sem saber como reagir. A primeira coisa que pensou foi em seu Bungee Gum usado como uma camisinha. Sempre foi cuidadoso até mesmo nesses últimos meses. Eles ainda não planejavam ter um filho.

– Eu...

– Você é o esposo dela?

– Er, sim, sou. – respondeu quase gaguejando.

– Meus parabéns! E daqui a um mês, já poderemos fazer o exame do sexo do bebê! – a medicazinha esticou o braço para bater amistosamente no braço do ruivo.

– Er...

– Ah! Ela ainda não sabe, pois está dormindo por causa do sedativo, fizemos uma ultrassonografia longa e completa dela toda. Quer você contar para ela?

– Hmm... bom, por mim tudo bem! – afirmou coçando a parte detrás do pescoço.

Contar para a própria ainda por cima? Bom, ele seria o pai. Nada demais. Mas estava tão surpreso com aquela notícia que nem sabia como falar para ela.

– Aqui estão os exames. – a médica entregou um envelope grande para ele, que recebeu – Ela vai acordar daqui a alguns minutos, se quiser pode entrar!

Ele entrou silencioso e já deparou com Naomi acordada, deitada no leito com uma fisionomia melhor.

– Hisoka...

– Oi...

– Vou deixa-los a sós, com licença. – disse a médica, saindo.

Naomi notou um semblante indiferente no ruivo. Olhou para o envelope nas mãos dele, imaginando que fossem seus exames.

– ...eu achei que morreria... mas é bom poder acordar e vê-lo... o que são esses exames?

– ...são seus, Naomi. Vamos abri-lo juntos, agora.

– Claro!

Ele decidiu nada falar. Sentando-se ao lado dela na maca, faria de conta que saberia do resultado junto com ela. Naomi acariciou o rosto pálido do amado e observou-lhe o semblante.

– Parece preocupado... é algo grave?

– Não! Nada disso... acho que é medo de abrir esse envelope e...

– Vai dar tudo certo! Vamos, abra-o.

Ele fez o que ela lhe disse e folheou os exames. Foi dando as folhas que havia verificado. Viu a folha do exame de urina e as indicações escritas. Deu para ela esta mesma folha. Naomi leu. Um sorriso brotou nos lábios dela. Lembrou-se de quando pediu um filho a ele quando achou que ele não retornaria mais.

– Hisoka... aqui fala que... estou grávida, é isso?

– Parece que sim. – ele pôs um sorriso discreto na própria cara, mas voltou a ficar sério ao querer explicar uma coisa – Mas... sabe que fui cuidadoso... eu não quis fazer isso de propósito...

Naomi se moveu no leito para abraça-lo bem forte. Hisoka soltou as outras duas folhas que ainda não tinha lido e sentiu aquele abraço sem envolver seus braços nela, por cinco segundos. Logo, acolheu-a em seus braços fortes.

– Eu estou muito feliz com isso! – Naomi estava se emocionando aos poucos e deixou mesmo as lágrimas descerem pelos olhos. Isso aliviava Hisoka, que ainda temia por uma reação negativa da Naomi.

– Não está... zangada por eu ter sido descuidado?

– Mas como ficaria? Eu queria mesmo que isso acontecesse... – saiu do abraço para olhá-lo nos olhos – você... não está feliz com isso?

– Estou... mas... eu não havia planejado nada assim... não agora.

Naomi se empatizou com a reação dele. Parecia que os homens eram os mais surpresos e inexperientes quando descobriam a paternidade.

– Tudo bem... vamos ter esse filho. Não vai faltar nada para ele.

– Não... – curvou-se para beijá-la nos lábios brevemente – nada faltará.

...

Naomi resolveu nada comentar com outra pessoa sobre a gravidez até completar o terceiro mês. No caminho do hospital para a casa, havia falado em demasia sobre o bebê e que tinha alguns planos envolvendo o futuro filho. Hisoka ia concordando e até compartilhou algumas coisas que queria para o filho. Voltou a focar o cuidado que ela deveria ter durante os meses de gravidez.

Em relação ao gato, nada mudaria. Kuro obviamente já era como um "irmão mais velho" para o pequeno que estava chegando, como dizia Naomi. A partir daquele dia, Hisoka decidiu encomendar refeições ou deixar a própria fazer, desde que não se esforçasse muito. Durante a madrugada, o ruivo não conseguiu dormir. Estava inquieto dentro daquele quarto e resolveu sair dali. Tinha ido até a entrada do edifício e ficou ali na grade da porta, observando a rua deserta. De repente, uma luz brilhou forte em suas vistas, fazendo sair dos pensamentos e olhar para a moto que se aproximava. Eros chegava do trabalho no clube.

Eros desmontou da moto e tirou o capacete, revelando seu cabelo ruivo e assanhado de sempre. Hisoka quase riu, lembrando-se de como havia visto o homem naquele dia em que foi tentar um novo emprego.

– O que faz aí sozinho? – perguntou Eros, em frente à porta.

– Tentando chamar o sono... – disse o ruivo mais velho, olhando para a moto do outro.

– E a Naomi, como está?

– Agora, dormindo.

– Humm... bom, será que posso entrar?

Pardon. – Hisoka saiu da frente do portão, deixando Eros entrar. Antes de permiti-lo entrar em casa, Hisoka o chamou.

– ...ei!

– Hum? O que foi? – Eros se virou para lhe dar atenção.

– Posso perguntar algumas coisas a você?