Capítulo 31
O começo do fim
— Fabian, por favor... Me perdoe.
Finalmente consegui alcançar Fabian e segurar-lhe a mão, mas ele se soltou com facilidade.
— Perdoar o quê, especificamente? Você me abriu os olhos, simples assim. Fez com que eu enxergasse algo que estava tão estampado na minha frente, que me faz questionar o quão imbecil eu fui durante todos esses meses.
— Não fale assim.
— Não preciso de sua pena, Ariadne.
— Eu não sinto pena...
— Ah, é verdade. O que você sente é carinho. Sexo bom. Alívio.
Cada palavra dele era um martelar. Um passo que eu desejava muito dar para trás, fugir. Contudo todo o estrago havia sido feito e a culpa era toda minha. E eu não queria virar as costas para Fabian, não com ele sofrendo.
— Eu gosto de você — disse. E não era mentira. Afinal, Aimèe estava certa. Se eu não sentisse nada por Fabian, não teria ficado com ele todo aquele tempo, não o teria levado para minha cama apenas para preencher um vazio que nunca foi realmente preenchido.
— Mas ama outro — ele falou com amargura. Ele virou-se para voltar para a casa da irmã, e foi então que vimos que os Weasley nos olhavam. Arthur era apenas preocupação, assim como Gideon. As crianças não entendiam o que acontecia e logo Bill e Charlie correram para o outro lado, brincando, e levando Percy junto. Apenas Molly parecia prestes a cuspir fogo com o pequeno Ron em seu colo. Fabian me olhou novamente. — Não precisa voltar. Seria melhor você ir embora. Foi um prazer conhecê-la, Aimèe.
E vendo-o se afastar, não tive outra coisa a fazer que não desaparatar da casa dos Weasley.
As reuniões seguintes, na casa de Jones, foram tão incômodas que eu logo dava um jeito de ir embora. Fabian decidira me ignorar totalmente, enquanto sua irmã simplesmente me lançava aquele olhar que faria qualquer pessoa colocar o rabo entre as pernas e sair chorando. No entanto, o jeito de Molly apenas me dava vontade de mandá-la para um lugar nada bonito. Se fosse Fabian a me acusar daquela maneira, eu teria até aceitado. Mas não a irmã dele. Por sorte, Arthur conseguia conter a esposa para que não precisássemos chegar às vias de fato.
Aimèe começou a se incomodar com a rotina que era minha vida. Pois a programação ou era reunião da Ordem da Fênix ou ficar em casa. Parecia difícil para ela entender que havia uma guerra além dos portões de casa, que não era seguro perambular pelas ruas.
— O que eu sei é que não aguento mais ficar de sua casa para aquele mercado na esquina e depois para sua casa. Qual foi a última vez que nos divertimos, Dina?
Fiz ma careta, deitada sob a sombra de uma das árvores do jardim, tentando me concentrar em um livro que nem lembrava mais o título. Com o fim da primavera, as sombras tornavam-se maiores, embora o ar estivesse mais quente.
— O que você quer fazer? - perguntei, fechando o livro.
Aimèe sorriu abertamente. E uma hora depois, lá estávamos nós andando por um bairro trouxa movimentado e cheio de bares. Passamos por cinco deles antes de Aimèe decidir entrar em um de aparência rústica, mas que prometia servir uma excelente bebida.
No início, qualquer som alto demais me fazia virar na cadeira pronta para tirar a varinha da bolsa em cima da mesa. Aimèe ria de minhas reações, achando-as exageradas.
— Quem você acha que vai entrar nesse bar de não-mágicos para nos atacar, Dina.
— Eu poderia te dar uma lista. Mas você reconheceria apenas o nome de Sebastian.
O riso de Aimèe morreu. Suspirei.
— Alex me disse que ele está quieto, agora.
— Claro que está. A arma que ele precisa para me transformar em sua marionete está bem guardada em minha casa. Mas ele não desistiu. E tenho certeza que nunca vai.
— Você colocou feitiços protetores, não foi?
— Sim. Tem ao redor da casa e também o colar. — Retirei de dentro da blusa o pingente morno, que mostrava que eu estava fora de perigo. Parecia que eu tinha feito aquele feitiço, junto de Lily e Severus, há muito mais tempo, e não dois anos atrás. — Há também os antigos feitiços que já a cercavam, então os reforcei.
— Mas se ele entrar na casa...
— Ele não vai conseguir.
Aimèe respondeu ao meu sorriso e voltou a beber. Acabamos nos divertindo e ela ainda me fez conhecer um pequeno grupo de rapazes que se sentou ao nosso lado. Se minha cabeça não estivesse longe, se a culpa pelo que tinha feito a Fabian não tivesse deixado resquícios e se um deles não se parecesse tanto com Sirius, talvez eu tivesse ficado mais tempo no bar.
O verão finalmente veio, logo trazendo um calor infernal. E também mais mortes no obituário do Profeta Diário. Abrir aquele periódico era o mesmo que mexer em feridas mal-cicatrizadas, mas eu o fazia todos os dias. Precisava ter certeza que ninguém que eu amava estava naquela lista. Julho trouxe uma carta de Lily, também: Encontre-se com Sirius no BD.
Franzi a testa, revirando o papel, tentando fazer com que supostas palavras invisíveis se revelassem. Mas não havia mais nada. Olhei por mais alguns segundos para aquelas siglas até entender que elas se referiam ao Beco Diagonal e me perguntei quando esse encontro deveria acontecer. Suspirei e queimei o bilhete para depois sair do quarto e ir até o de Aimèe. Que estava totalmente vazio.
— Aimèe? — chamei, mas ela não estava no banheiro. Nem nos quartos adjacentes, nem em nenhum lugar. Voltei novamente para seu quarto e abri o guarda-roupa que ela usava parcialmente e que também estava vazio. — Aimèe! — gritei novamente e mais alto. Então um pedaço de papel em cima da cama arrumada me chamou a atenção.
Precisei ir embora, resolver alguns assuntos
que ficaram pendentes depois que mamãe se foi.
Obrigada por tudo, Dina. E me desculpe.
Aimèe.
Pelo visto aquela manhã seria de bilhetes estranhos e sem muitas explicações. Coloquei o bilhete de Aimèe em cima da mesa de cabeceira e decidi ir logo ao Beco Diagonal. Assim que aparatei nas ruas quase desertas, segui para a sorveteria de Florean Fortescue. E não precisei esperar por muito tempo para ter Sirius sentado à minha frente.
— Lily pediu para te chamar para o aniversário do Harry — ele disse assim, sem mais nem menos, sem sequer um cumprimento simples, como se já estivéssemos conversando há um bom tempo. E, como nas tantas outras vezes, eu não conseguia culpar Sirius. Era a maneira que ele havia encontrado de me tratar depois do abismo que eu insistia em aumentar entre nós. Por vezes eu me perguntava se conseguiria tê-lo de volta quando matasse Sebastian e me visse livre do vampiro. Isso, claro, se conseguíssemos sobreviver à guerra de Voldemort.
— Onde vai ser? — perguntei, então.
— Eles estão escondidos em Essex.
— Essex? Tão perto...
— Estão na casa de Benjy Fenwick.
— E quem sabe onde eles estão?
— Por que quer saber?
— Por causa do traidor — e que Severus me dissera ser real. Mas isso eu não poderia dizer a Sirius. Seria como jogar inflamáveis no fogo.
— Alguns membros da Ordem, não todos.
O silêncio que nos tomou foi tão pesado que era difícil olhar para Sirius. Tentei interrompê-lo por duas vezes, mas as palavras não saíam de minha boca. E, ao erguer os olhos, buscando coragem, vi mais do que deveria. Fabian nos encarava a alguns metros longe e sua expressão não era das melhores. Então ele simplesmente deu as costas para nós e aparatou. Suspirei.
— Está tudo errado — murmurei, remexendo no sorvete intocado.
— Diga algo que não sabemos. — Sirius se levantou. — Você sabe onde é a casa de Benjy?
— Não.
— Então estarei na sua casa às seis horas. Ah, e é dia 31, caso tenha se esquecido.
Então fiquei sozinha.
Àquela noite sonhei com Sebastian.
A lua estava cheia, brilhando no céu limpo carregado de estrelas. Eu estava sob uma fileira de árvores carregadas de folhas que ocultava as duas pessoas sentadas atrás delas, olhando para uma das casas estreitas da rua. O luar tornava seus cabelos quase perolados, mas eu sabia que eram ruivos.
— Algo para você se lembrar — Sebastian falou ao meu lado.
Eu quis acordar, livrar-me daquela visão, mas a única coisa que desapareceu foi Sebastian, me deixando com Fabian e Gideon que simplesmente conversavam. A feição triste de Fabian fez a culpa que eu sentia aumentar. Ele olhou para seu pulso esquerdo, onde eu sempre via um relógio dourado, contudo agora não tinha nada. O relógio de Fabian estava em minha casa, dentro da gaveta do criado-mudo ao lado da cama. Assim como ele não tinha coragem de buscá-lo, eu não tinha coragem de devolver e forçar qualquer conversa entre nós. Eu deveria tê-lo entregado a Gideon.
Por um momento me perguntei o que Sebastian queria ao me ter ali. A resposta não demorou a vir com o som de um farfalhar atrás de mim. Dois comensais aproximavam-se sorrateiramente enquanto Fabian e Gideon conversavam aos sussurros. Escutem, eu quis falar. Cuidado! Mas a voz não saída de meus lábios, eu sequer me mexia. Em seguida vi mais dois se aproximando do outro lado. Foi neste momento que Antonin Dolohov decidiu sair de casa, a veste negra que o marcava como Comensal da Morte batendo contra suas pernas enquanto erguia o capuz que deixava seu rosto coberto de sombras.
Fabian e Gideon se retesaram ao notarem que o homem caminhava justamente ao encontro deles. Tarde demais eles perceberam que estavam cercados.
— Seu namorado estava bem escondido — ouvi a voz de Sebastian em meu ouvido enquanto os comensais atacavam simultaneamente. — Mas foi preciso apenas um sussurro no ouvido de Dolohov para que ele chamasse alguns amigos para a festa.
Luzes de feitiços ricocheteavam em árvores ou nos escudos que Fabian e Gideon conjuravam, atacando de volta com ferocidade. E meus pés continuavam pregados no chão, minha boca estava sem voz, e eu não conseguia acordar em meu quarto para ajudá-los. Senti lágrimas escorrendo por meu rosto quando Gideon caiu, perdendo a varinha. E minhas pernas falharam quando foi Fabian.
Meu grito preencheu o quarto, junto da risada de Sebastian que não deixava minha mente. Levantei da cama aos tropeções, peguei a varinha no criado-mudo e, assim deixei a casa e alcancei a rua, aparatei.
A rua da casa de Dolohov estava silenciosa. Ninguém ouvira ou vira coisa alguma. Ou simplesmente fingiram que não. Minhas pernas me levaram para detrás das árvores e dessa vez elas não falharam. Ao menos não enquanto não estivesse do lado de Fabian. Caí de joelhos ao seu lado e abracei o corpo gelado.
Um a um, eles vão cair. E você vai perder todos, de um jeito ou de outro. Vou deixá-la tão vazia que nada vai restar, a não ser você e eu. E eu estarei te esperando.
Quase não compareci ao enterro dos gêmeos Prewett. Contudo, no último momento, decidi ir até o cemitério. Havia poucas pessoas, a maioria da Ordem da Fênix. Um e outro amigo do Ministério da Magia mostravam-se tão inconformados quanto qualquer um ali. Havia mais dois enterros àquele dia. As mortes pelas mãos de Voldemort e seus seguidores aumentavam a ponto de não permitir que nenhum cemitério se visse sem ao menos um enterro por dia. Fora os desaparecimentos. Toda aquela crueldade sufocava e parecia não ter fim.
Quando o caixão de Gideon baixou, pouco depois do de Fabian, decidi me aproximar de Molly. O relógio de Fabian estava em minhas mãos.
— Eu sinto muito, Molly — falei entregando-o. Ela olhou para o relógio e o pegou de minhas mãos. Ao erguer o olhar, havia muita coisa, ali. Mas a raiva se destacava facilmente.
— Ele estava magoado. Ferido — Molly falou enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto, a boca retorcendo-se em raiva.
— Molly — pediu Arthur, mas ela simplesmente me olhava como se nada mais importava.
— Gideon disse para ele ficar em casa, àquela noite, que outros fariam a vigia na casa de Dolohov. Mas Fabian estava obstinado. Tenebrosamente obstinado. Eu disse que você não gostaria de me ter como inimiga, Ariadne. Nunca mais se aproxime de nenhum membro da minha família. Entendeu? Nunca mais!
Por fim ela se afastou com Arthur, puxando Bill por uma mão e sendo seguida pelos filhos menores.
A festa de aniversário de Harry não aconteceu. Um dia antes, chegou a notícia de que a casa de Fenwick havia sido atacada. E, de acordo com Alastor Moody, seu corpo havia sido despedaçado e apenas algumas partes foram encontradas. O círculo começava a se fechar sobre o traidor, mas muitos ainda sabiam da localização dos Potter, então Dumbledore precisava restringir o círculo ainda mais. Enquanto isso, pessoas continuariam a morrer até que Voldemort fosse destruído.
Soube que os Potter estavam bem uma semana depois. Mas, daquela vez, Dumbledore não disse onde eles estavam. E ninguém sentado à mesa, na reunião da Ordem da Fênix, teve coragem de perguntar. A confiança minguava cada vez mais, e as acusações vinham à medida que as ausências eram percebidas, as evasivas aumentavam e o medo crescia.
Foi difícil contar os dias e semanas que se seguiram. Eles sempre começavam com mortes listadas no Profeta Diário. A cada vez que a coruja marrom deixava o jornal em minha casa, eu tinha medo de abri-lo. Mas eu insistia, tentando ver se havia mais ou menos mortes do que o dia anterior. E torcia para que, no dia seguinte, houvesse menos. Porém nada disso adiantava.
Com a chegada do outono, recebi novamente uma carta de Lily. E consegui sorrir com as palavras de minha amiga, embora elas me soassem imprudentes. Lily pedia que fosse visitá-la, pois James estava inquieto demais e queria ver os amigos – eu sabia, porém, que eu não seria a primeira pessoa que ele desejava ver. Haveria mais gente. Talvez Sirius, Remus e Pettigrew. Mas a saudade que eu sentia de Lily era tanta que não pude dizer não a essa insensatez.
Eles estavam escondidos na casa que pertencera à família de Dumbledore, em Godric's Hollow. Não foi difícil encontrá-la, mesmo que tivesse aparatado à noite. Subi o capuz, ocultando-me nas sombras, e por sorte a rua estava deserta e ninguém me viu se aproximar.
O abraço que Lily me recepcionou fez com que a saudade diminuísse, mas não a angústia. Porém não falamos sobre nossos medos, preferindo nos focar em Harry, que estava grande e ameaçava alguns passos mais certos, segurando-se na pequena vassoura que Sirius havia lhe dado de aniversário.
— James diz que ele será o melhor jogador de Quadribol de todos os tempos — falou Lily com um sorriso. Vi que seus olhos lacrimejaram, mas ela não chorou. Tomou um gole da taça de vinho, em vez disso.
— Ele vai ser profissional — James falou, do outro lado da sala, segurando o filho para que ele não caísse da vassoura enquanto ria e batia palmas, voando na direção de um pomo de ouro que planava sobre a cabeça de Sirius, sentado no sofá.
— Desculpe o atraso — falou Pettigrew ao passar pela porta, sendo saudado de maneira efusiva por James e Sirius.
— E Remus? — Lily perguntou.
— Não sei dele. Dei o recado, como vocês pediram, e ele prometeu que viria. — Pettigrew deu de ombros. — Talvez esteja espionando os lobisomens para Dumbledore.
Olhei para Lily enquanto Sirius e James também trocavam olhares preocupados. Não foi fácil relaxar e rir no resto da noite. Mas tentávamos.
Quando o relógio bateu meia-noite, Harry se mexeu em meu colo e sorri. Ele havia adormecido em meus braços, não me estranhando ou se incomodando com o fato de mal me conhecer. Foi bom envolvê-lo, como se a guerra fosse insignificante, e apenas aquela pequena criança importasse.
— Vou colocá-lo na cama — Lily falou, tirando-o com delicadeza de mim. Vi-a subir as escadas devagar, cantando uma melodia baixinho para que Harry voltasse a dormir.
— James — o chamei quando Lily desapareceu no andar superior. — Quem mais sabe que vocês estão aqui?
— Somente Dumbledore. Ele achou que assim fosse melhor até... — Até encontrar o traidor, era que o James com certeza falaria. Em vez disso, ele apenas se levantou e disse que iria ver porque Lily estava demorando em pôr Harry para dormir.
— Alguém quer mais torta? — Pettigrew perguntou. Uma vez que nem Sirius nem eu respondemos, ele foi até a cozinha com o prato vazio.
— Você está bem? — perguntei, então, para Sirius. Eu o notei estranho a noite toda, contudo não quis questioná-lo na frente dos outros. Havia um pesar em seus olhos que eu não tinha visto anteriormente. As mortes finalmente pareciam ter começado a pesar em seus ombros, embora ninguém ali fosse o culpado por elas.
Sirius deu de ombros, brincando como pomo de ouro. Deixava-o voar alguns centímetros apenas para agarrá-lo novamente, e então repetia aquele gesto.
— Estou preocupada com Remus.
— Ele está bem. Como o Peter disse, deve estar espionando os lobisomens.
— Talvez... Você está assim por causa da Marlene?
Sirius pegou o pomo de ouro e me olhou com as sobrancelhas erguidas.
— O quê?
— Você ficou muito abalado com a morte dela e...
— E você está assim pela morte de Fabian? — Antes que eu falasse qualquer coisa, Sirius se ergueu. — Não estou a fim de conversar com você, Ariadne.
— Eu só pensei...
— Pensou o quê? — ele retorquiu quando hesitei, surpresa por sua reação agressiva.
— Que você quisesse conversar ou até desabafar. Sei que não deve ter sido fácil perder Marlene.
— Marlene? — E riu, amargo. — Não, não foi nada fácil.
— Imagino. Perder alguém que gostamos...
— Você é realmente uma pessoa engraçada, Ariadne.
— Por que você diz isso?
— Por quê? Que conversa é essa que estamos tendo? Simplesmente você acha que eu estou triste pela morte da Marlene e está aqui, como se fôssemos grandes amigos, prontos para apoiar o outro em qualquer droga que apareça, e pedindo para eu desabafar?!
— Mas eu pensei que fôssemos amigos, Sirius.
— Pois não somos. — A agressividade em sua voz era algo que eu não esperava.
— Desculpe por ter pensado errado — disse com despeito. Levantei do sofá e fui em direção às escadas. Talvez seria melhor se eu tivesse subido com Lily.
Ouvi Sirius rosnar, com muita raiva, e logo estava na minha frente, apontando o dedo para mim.
— E não venha agir como se você fosse um tipo de vítima, pois não é! Você não é uma vítima, Ariadne. O que está acontecendo é por escolha sua, e não uma consequência ingrata.
— Escolha minha? Eu não escolhi que você se envolvesse com Marlene Mckinnon, Sirius. Não escolhi ficar dois anos longe de todos que eu gosto, não escolhi simplesmente deixar tudo para trás por um capricho!
— Ah, sim, seus motivos são inteiramente razoáveis. Uma pena que eu não saiba quais são eles. Caso contrário, eu poderia te apoiar como bons amigos que somos.
Seu sarcasmo estava me tirando do sério.
— Você sabe por que eu tive que ir embora.
— Sim, eu sei. Sua covardia não é novidade para mim.
— Então é covardia proteger sua vida em vez de comprometê-la? Sabia que o que houve com Fabian, apenas aconteceu por minha causa?
— Fabian foi morto por Comensais da Morte, Ariadne.
— E eu assisti a tudo, sem poder fazer nada! — gritei, sem me conter. Aquela visão vinha me corroendo mais a cada dia. Sufocava, queimava, drenava todas as minhas forças. E ainda havia as palavras de Molly, tão verdadeiras que ela nem fazia ideia. Eu era culpada também pela morte de Fabian. — Esqueceu que essa guerra não é meu único problema, Sirius? Eu tenho outros, e que envolvem a minha vida e a vida de pessoas que eu amo.
— Então me dê a chance de poder fazer algo a respeito, droga!
Vi refletido nos olhos de Sirius o mesmo desespero que me consumia. A mesma vontade de acabar com tudo aquilo. O mesmo amor que apenas crescia em meu peito, em minha alma.
— Você não pode fazer nada — lamentei. — Tudo só está piorando.
— Mas não dizem que antes das coisas melhorarem, elas sempre atingem seu pior ápice? — Meneei a cabeça negativamente, e Sirius me fez olhá-lo. — Tudo vai ficar bem. Acredite em mim.
Eu queria acreditar. Muito. E, por mais que eu sentisse que o mundo estava se desintegrando, olhar para Sirius fez uma ponta de esperança brotar em meu peito. Ergui minha mão, acariciando seu rosto como há muito tempo eu não me permitia fazer. Era um gesto de agradecimento, apenas, mas a saudade que eu sentia dele e a solidão que tantas mortes nos traziam transformaram aquele gesto em algo diferente. A tristeza que eu sentia pela morte de Fabian ainda era latente, uma dor quase física, e talvez fosse até por isso que eu precisava tanto de Sirius. Não era algo sensato ou digno, e provavelmente eu me sentiria envergonhada e mesquinha depois de tudo. Mesmo assim ergui-me na ponta dos pés e o beijei.
— Ariadne… — ele se afastou, mas eu me prendi a Sirius como uma pessoa prestes a se afogar se agarra em um bote salva-vidas.
— Eu sinto sua falta. Sinto o tempo todo.
— E amanhã, Ariadne? — ele perguntou, havia medo em sua voz. Eu não podia culpá-lo.
— Eu só preciso do hoje, Sirius. Agora, só preciso do hoje. De você. Por favor.
Os segundos que Sirius demorou em dar sua resposta me pareceram uma eternidade. Mas, finalmente, ele a deu. E meu coração estava em casa.
Despertei na manhã seguinte com o lado de minha cama vazio. Eu só preciso de hoje, havia dito a ele. E Sirius levou aquela sentença tão ao pé da letra que preferiu me deixar ali sozinha, dormindo, em vez de ouvir que ele deveria ir embora. Mas me perguntei se eu realmente o expulsaria dali se acordasse com ele ao meu lado.
Levantei-me, decidida a não lamentar na cama. Subitamente, senti o chão me faltar, e eu caía. Caía como se estivesse em um fosso sem fim, escuro, e sozinha. A risada de Sebastian ecoou em minha mente, alegre e forte, e sua imagem, segurando a Arma de Belial, invadiu minha mente.
— Você será minha, Ariadne.
