Capítulo 32

Adeus


A visão do meu quarto voltou ao normal e tudo o que eu queria era não acreditar no que tinha visto. Corri para o sótão, não querendo acreditar. Revirei estante, caixas que sabia estarem contendo apenas coisas velhas, me livrei da magia que escondia a caixa na parede atrás da estante, mas nada encontrei. Senti que as forças queriam me abandonar, porém não permiti. Desci novamente as escadas e abri a porta de casa. Alexey saberia me responder. Talvez ele soubesse como aquilo tinha acontecido, talvez ele mesmo tivesse retirado o punhal para colocá-lo sob uma proteção melhor.

Não me importando que ainda estava de pijamas, saí para a rua e desaparatei em uma ruela lamacenta. A água tornava o chão escorregadio e cheio de lodo, um divertimento que as crianças dali não se furtavam, ainda mais naquele calor. Elas se assustaram quando saí de trás de um amontoado de tijolos que antes era uma casa, mas não me deram muita atenção. Virei para outra rua assim que saí daquele beco e fui na direção da casa ladeada por estreitos terrenos baldios. A porta estava trancada, então bati, chamando por Alexey. Ele não demorou a me atender, e mal abriu a porta, já me dava as costas.

Sua casa estava revirada, como se um vendaval tivesse passado pelas janelas nunca abertas. Ele então jogou o copo que estava em sua mão, estilhaçando-o contra a parede.

— Foi Aimèe — disse em um rosnado. Virou para me olhar e seus olhos estavam vermelhos. Ele tinha chorado.

— O quê?

— Que pegou o punhal para Sebastian. Foi ela!

— Alexey, eu não estou entendendo... Como você sabe?

— Ela me falou. Fui até a casa dela e ela não quis me ver. E então vi Katrina saindo da casa. Ela é a primeira de Sebastian, a mais fiel. E se ela estava junto de Aimèe...

— Por quê?

— Por que você acha? — falou Alexey enjoado. — Ela se cansou de brincar comigo e preferiu alguém que tem algo mais a oferecer a ela. A visita que ela fez a você, usando a morte da mãe como desculpa, foi para procurar o punhal.

— Mas tia Françoise...

— Eu não duvidaria que a própria Aimèe a tenha matado.

Caí sentada no braço do sofá atrás de mim, inteiramente perdida. Senti que o mundo girava mais rápido e meu estômago se embrulhou. Não conseguia acreditar na traição de Aimèe. Mesmo que fosse dito pelo próprio Alexey.

— O que vamos fazer agora?

Alexey não me respondeu de imediato. Ele ficou olhando para o porta-retratos de Aimée, em cima do balcão que separava a sala da cozinha. Baixou-o e finalmente me olhou.

— Você precisa se esconder. Mas sua casa não é mais segura. Você permitiu que Aimèe entrasse e ela o fará de novo. E, dessa vez, tirará você e não apenas o punhal.

Fugir. Mais uma vez.

— E para onde eu vou? Nenhum lugar vai ser seguro, Lex.

— A gente vai dar um jeito.

Eu senti uma louca vontade de rir, e depois de chorar, e por fim simplesmente quis me afundar no chã.

— Precisamos matá-lo — falei, então. E a certeza de que deveríamos fazer aquilo era tamanha que minhas forças voltaram. — Onde ele está?

— Cercado por Katrina, Samantha e Aimèe. Que chance teremos?

Nenhuma. E pouca, se conseguirmos ajuda. Mas a quem eu pediria, sendo que todos os que poderiam me ajudar já lutavam contra uma guerra?

O sol já estava se pondo quando voltei para casa. Caminhei sem muita vontade e não cumprimentei a senhora Fitz quando ela me cumprimentou, do outro lado. Abri o portão no instante em que vi Severus.

— Agora não, Severus — pedi. Não aguentaria olhar para ele quando a traição de Aimèe ainda era um peso em minha alma.

— O que aconteceu?

Novamente senti vontade de rir. Eu devia estar enlouquecendo. Porém permiti que Severus entrasse, fechasse o portão atrás de si e me seguisse para dentro de casa. E contei a ele o que estava acontecendo. Severus sabia de Sebastian, então não precisei entrar em detalhes com ele.

— Mas ele está mais perto, agora. Aimèe pode entrar aqui a qualquer momento, com certeza com seu poder de Vrykolakes desperto. E se ela me pegar com a guarda baixa, pode me tirar daqui para que Sebastian faça o que tanto quer.

— Há algo que eu possa fazer, Dina?

— Não. — Suspirei, recostando-me no sofá. Perguntei-me se, caso fechasse os olhos, poderia me esquecer do mundo, mesmo que por um curto momento. Mas acho que seria pedir demais.

Senti Severus remexer-se no sofá quando o silêncio caiu sobre nós. Olhei-o.

— Procurei Dumbledore, como você disse.

— Quando?

— Faz alguns meses. Não te contei antes, porque achei melhor assim.

— E como você está fazendo para não ser descoberto?

— Sou bom no que faço, Dina. Sempre fui.

— Obrigada, Sev — peguei a mão dele na minha e o abracei. — Estou orgulhosa de você.

— O que você pretende fazer sobre Sebastian? — ele perguntou novamente quando nos separamos.

— Não sei, ainda. Vou ficar aqui por enquanto. Alexey disse que seria melhor se eu fugisse. Mas Sebastian me encontraria, não tenho dúvidas.

— E se você o matasse de uma vez?

— Pensamos nisso também. Vai precisar de planejamento, só que apenas eu e Alexey não será o bastante.

— Você tem a mim.

— Sim — senti que estava prestes a chorar, mas me contive. — Eu ainda tenho você, Sev.

Precisei insistir muito e prometer que reforçaria o feitiço ao redor da casa para que Severus fosse embora. E nunca me senti tão sozinha como naquela noite, tendo a enorme casa de meus pais apenas para mim, com suas paredes que seriam uma prisão durante um bom tempo. Houve duas reuniões da Ordem que não pude ir, pois, assim que coloquei os pés na rua, senti o amuleto esfriar. Um sinal que Sebastian estava por perto. Severus tentava passar em casa todos os dias para ver como eu estava, tão impotente quanto eu. Ele parecia mais magro, também, e percebei que fazer o jogo de duas pessoas não era fácil. Mas ele não reclamava. Ao menos não para mim.

Eu estava tentando cozinhar alguma coisa, procurando não enlouquecer enclausurada em minha própria casa, quando bateram na porta. Imaginei que fosse Severus – afinal, Alexey entraria de uma vez, assim como Aimèe, enquanto Lily estava escondida; os únicos que tinham permissão de passar pelos meus portões e poderiam me visitar –, mas era Sirius. E a expressão dele não era das melhores.

— O que aconteceu? — perguntei, tentando não colocar todos os meus medos naquela pergunta.

— Está tudo bem. Posso entrar?

Dei espaço para Sirius e fechei a porta em seguida. Ele não se sentou, apenas encostando-se ao sofá, as mãos cuidadosamente nos bolsos da calça.

— Lily quer ver você.

— Ela está bem?

— Sim. Mas Dumbledore tem um plano e eles ficarão incomunicáveis por um tempo. — Franzi a testa, não entendendo o que ele queria dizer com aquilo. — Os Potter vão fazer o feitiço Fiel do Segredo. É a única maneira de mantê-los realmente seguros.

— E eles aceitaram?

Sirius deu de ombros.

— Não lhes dei muitas alternativas.

— Você?

— Eu vou ser o fiel do segredo. James não gostou muito no início. Ele nunca se colocaria protegido tendo a cabeça de alguém como preço.

— E o que você vai fazer, depois de realizar o feitiço?

— Vou embora. Sempre quis conhecer o Brasil.

— E quando vai ser feito o feitiço?

— No fim da semana. Dumbledore ainda precisa organizar algumas coisas. E eu também.

Meneei a cabeça simplesmente porque não tinha outra coisa para dizer. Então me lembrei do começo de nossa conversa.

— Quando Lily quer que eu vá até a casa dela?

— Hoje, se puder. Só esperar o sol se pôr para que ninguém a veja.

— Estarei lá. Sirius — chamei-o quando ele se virou para, talvez, ir embora. — Há algo mais. O que está acontecendo?

— Por que pergunta?

— Você. — Olhando-o mais atentamente, percebi que a tristeza em seus olhos, desde a última vez que nos encontramos, estava maior. Algo se quebrara dentro de Sirius, o resultado de uma guerra que parecia longe de terminar.

— Estamos em guerra, Ariadne. Como você quer que eu esteja?

— Cansado. Mas determinado e não assim... Tão sem esperança.

Sirius suspirou e passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os.

— Desde que entrei para a Ordem da Fênix, conseguimos prender alguns comensais, enviando-os para Azkaban. Nunca precisei matar ninguém. Mas semana passada... — Ele hesitou e ficou de costas para mim. — Eu estava com Remus no Beco Diagonal quando surpreendemos Francis Travers. Ela era da Ravenclaw, irmã do Ben Travers.

— Sei quem é. — Ambos os irmãos eram Comensais da Morte.

— Eu só vi que ela apontava a varinha para Remus, e sorria. Sorria! Eu sabia que ela iria matá-lo, Ari. Então eu... Eu a matei antes.

— Ela e o irmão são assassinos, Sirius. Ninguém irá julgá-lo por isso.

— Não precisa — ele sorriu, amargurado. — Eu já estou fazendo o bastante. Até mais, Ariadne. — E foi assim que ele se despediu de mim, sem nenhum drama, sem me pedir para ir junto com ele em sua fuga. Sem me pedir para consolá-lo por ter sido obrigado a matar uma pessoa em meio a uma guerra. Eu sabia que dessa maneira seria melhor. Ainda assim, não fazia doer menos.

Godric's Hollow ainda não tinha dormido quando aparatei perto da casa dos Potter. Lily me viu da janela, já esperando por mim, com Harry nos braços, tentando fazê-lo dormir. Ela me abraçou da melhor maneira que conseguiu sem que espremesse o filho entre nós. Ouvi sons vindo da cozinha, e ela disse que era James. Subimos as escadas até o quarto de Harry.

— Sirius disse que você queria conversar comigo — falei baixo enquanto Lily colocava o filho no berço.

— Quero. Ele contou que faremos o Fiel do Segredo?

— Sim.

— E que ele vai ter que se esconder?

— Sim, mas... O que isso tem a ver comigo?

— Você vai se esconder com ele.

Espantada, não consegui ter uma resposta imediata.

— É perfeito, Ari — Lily continuou. — Você não precisa se esconder de Sebastian? Então...

Eu queria aquilo. Fugir já estava nos meus planos, tendo Sirius ao meu lado seria mais fácil suportar tudo. Até que Sebastian me encontrasse e me transformasse em seu monstro, obrigando-me, depois, a matar Sirius.

— Não dá, Lily.

Ela tomou minha resposta como uma afronta.

Tem que dar. Você precisa ir com ele.

— Lily, se Sebastian nos encontra...

— Mas ele não vai! — ela me interrompeu em um grito abafado. Harry se mexeu no berço, mas não acordou. — Ele não pode, simplesmente não pode!

— Lily...

— Quando a gente vai ter alguma paz? — ela finalmente desabou, sentando-se na poltrona que ficava ao lado da cama do filho. — Quando vamos poder andar onde e quando quisermos, não importando se somos bruxos, nascidos trouxas, ou alguém que quer apenas viver?

Lily não se furtou em chorar, e eu tentei consolá-la. Ela estava cansada, simples assim. Cansada de tudo aquilo que enfrentávamos há tempo demais. Cansada de se segurar, sendo que apenas queria esbravejar a injustiça que nos envolvia. Todos estávamos assim. Ela enfim conseguiu se acalmar quando James as chamou do andar debaixo.

— Não diga a James que chorei — Lily pediu ao deixarem o quarto.

No entanto, não havia como esconder aquilo. Os olhos de Lily ainda estavam vermelhos e eu percebia que ela queria chorar ainda mais. E, ao ver o marido, ela simplesmente não se segurou. E as lágrimas vieram no momento em que James perguntou o que estava acontecendo.

Ele a levou para o sofá, tentando acalmá-la. E foi quando percebi que Sirius também estava ali. Tudo o que eu queria era ir até ele, abraçá-lo, tentar tirar de seus ombros o cansaço que ele carregava. E queria que ele também me livrasse dos meus próprios. Porém era impossível, sabia disso. Então, quando ele começou a vir em minha direção, achei melhor sair da sala. Lily ainda chorava, porém estava mais calma.

— Vou fazer um chá — falei com a voz engasgada, e logo passando pela porta que dava acesso à cozinha.

O barulho que eu ouvira mais cedo de James era que ele mesmo estava fazendo o chá. A água já estava quente e não demorou a ferver mais uma vez. Fui até o armário de Lily para pegar mais uma xícara e ouvi a porta da cozinha se abrir.

— Precisa de ajuda? — Sirius perguntou.

— Não — quase cuspi a palavra. Não soube por que falei assim. — Tenho inteligência necessária para fazer um chá.

Levei a xícara até a bandeja e também o bule. Achei melhor dar um tempo para Sirius sair da cozinha. Preferi ajeitar as xícaras em vez de olhar para ele. Contudo ele não saiu. E senti sua presença atrás de mim. Próxima demais.

Senti sua respiração em minha nuca antes que ele afastasse a trança de meus cabelos, dando espaço para seus lábios tocarem meu pescoço. Agarrei a bandeja mais firmemente, tentando buscar forças para afastá-lo de mim. Entretanto, a necessidade de tê-lo, de fugir com ele, ainda me atormentava, como um martelar constante, e uma pergunta de "Por que não?". Mas eu sabia por que não iria com ele. Eu sabia por que o mantinha distante, mesmo que essa luta entre nós já se tornasse cansativa e quase ridícula. Então, quando senti os braços dele me envolvendo, sentindo que logo eu cederia, me recompus. Rapidamente saí da cozinha, tentando segurar a bandeja com minhas mãos trêmulas. Agradeci quando nem Lily nem James disseram nada.

Lily estava mais calma e o chá fez o efeito esperado. Então achei melhor ir embora.

O portão de minha casa foi como um bálsamo. As paredes que me enclausuravam nunca foram tão bem-vindas. Arrastei os pés pela grama cheia de folhas que o outono derrubara e logo alcancei a porta. Quando tentei fechá-la, não consegui. Imediatamente pensei em Aimèe, mas não era ela. Porém meu coração não parou de bater forte demais.

— O q-que você está fazendo aqui?

Droga. Eu não deveria gaguejar. Entretanto, eu mal conseguira me livrar das sensações de minutos atrás, mal enxotara de minha mente um plano que não poderia acontecer, e lá estava Sirius, olhando-me de uma maneira que me perturbava. E fazia tanto tempo que ele não me olhava daquela maneira, que eu não permitia que ele olhasse, que não consegui reagir ao vê-lo ali, parado, na porta de minha casa.

Sirius abriu a porta sem resistência alguma e entrou. E em nenhum momento desviou seus olhos dos meus. Definitivamente meu coração sairia pela boca, não havia dúvidas. Minha respiração já estava irregular. E a dele também.

Não me privei do que ele veio fazer em minha casa. Era um adeus o que ele queria. Um adeus que eu também precisava dar e receber. E, depois daquilo, nossos caminhos se separariam.

XXX

A rua estava enfeitada, e minha casa era a única que não tinha sequer uma abóbora com caretas. A chegada do Dia das Bruxas trouxe risos infantis. Apoiei-me na janela do quarto, vendo as crianças já se movimentando pela rua quando o sol começou a se pôr. Tinha uma tigela de doces no portão de casa com um recado de "Peguem o que quiserem, mas deixe para os outros". Eu não queria participar da alegria deles. Seria um risco ficar o tempo todo com aquele portão aberto, facilitando para Sebastian aparecer e acabar com tudo.

E ainda havia Alexey. Ele tinha partido há algumas horas com notícias que em nada me ajudavam. Assim que chegou, contou que tinha descoberto que a Arma de Belial estava no castelo em Strigoi, guardado por Sebastian, Aimèe, Katrina e Samantha. E também por outra mulher que ele transformara em vampira. Quatro deles contra dois de nós. Mesmo que Severus nos ajudasse, nunca teríamos chance de reaver o punhal. E eu não poderia pedir ajuda a Sirius, que estava escondido depois de ter feito o feitiço Fiel do Segredo, nem a Lily e James. Mas, talvez, quando a guerra acabasse... Sim, talvez ainda tivesse alguma esperança.

Aquela notícia, porém, me fez reagir de uma maneira inesperada. Senti meu estômago embrulhar e não consegui segurar o vômito. Mal pedi desculpas a Alexey por aquilo, ele já vinha com um copo d'água. Com um simples aceno da varinha, limpei o chão. O cheiro estava me embrulhando o estômago novamente.

— Dina, você está bem?

— Sim. Obrigada — bebi um gole d'água, que caiu pesado em meu estômago vazio. — Eu não tenho comido direito esses dias. Acho que toda essa preocupação está me deixando doente.

Com a testa franzida, Alexey aproximou-se de mim e tocou meu rosto. Suas mãos desceram por meus braços até meus pulsos, e depois pousaram em meu estômago. Eu não sabia o que ele estava fazendo e quis recuar quando a mão dele desceu ainda mais.

— Não é preocupação o que está te deixando doente, Dina.

— Como assim?

— A magia que faz parte de nós nos permite encontrar um Vrykolakes, ainda mais quando os tocamos.

— E daí? Você já sabe o que eu sou.

— Sim, eu sei. Mas consegui sentir outro dentro de você. Você está grávida, Dina.

Ele não precisava ter completado. Eu tinha entendido um segundo antes. Senti vontade de negar, entretanto. E de gritar. E correr para Sirius para contar que ele seria pai. Mas Sirius estava escondido em algum lugar que eu não fazia ideia. Então, mais uma vez, percebi que deveria esperar aquela guerra terminar.

Então decidi ficar em casa, com feitiços de proteção a reforçando, que acusariam se alguém, qualquer um, passasse pelos portões de minha casa. Assim seria melhor. Eu sabia disso. E embora não pudesse, permiti-me adormecer e sonhar com um futuro ao lado de Sirius, com nosso filho.

Despertei no meio da noite, apoiada no parapeito acolchoado da janela do quarto, com uma coruja que batia insistentemente em minha janela. Abri-a e a ave entrou, empoleirando-se em minha cama. Mas não fui imediatamente para ela. Franzindo a testa, olhei para o céu. Mais corujas voavam em todas as direções, luzes brilhavam como se fossem fogos. Eram feitiços, sabia disso. Mas o que os bruxos de meu bairro tanto festejavam em meio à guerra?

Aproximei-me da coruja e percebi que a asa dela estava levemente queimada. Talvez pega no meio daqueles fogos atirados ao céu. Peguei o pedaço de pergaminho preso à pata e percebi que a carta não era para mim. Minha casa tinha sido apenas um refúgio para a ave. Mas as palavras me sufocaram por um instante e depois fizeram meu corpo todo tremer.

Ele morreu! Aquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear morreu!

Voldemort morto? Mas então... Lily e James! Eles não precisariam se esconder mais. Sentindo a esperança me preencher como nunca me permiti antes, saí de casa e desaparatei imediatamente em Godric's Hollow. Mas ali não havia festa. Havia alguma coisa errada. Corri para a casa de Lily, imaginando que o feitiço teria sido desfeito com a morte de Voldemort. E quando a vi, minhas forças minguaram. Caí de joelhos, as lágrimas me sufocando, não enxergando as pessoas que a rodeavam com receio de entrarem.

A casa estava destruída. Paredes desabaram, assim como parte do teto. Vi a moto de Sirius estacionada no jardim. Não. Não, ele não os teria entregado. Ele não faria isso! Vi então uma figura imensa deixar a casa de Lily e caminhar para a moto.

— Hagrid! — gritei, avançando. Ele se sentou na moto e vi que carregava junto ao casaco um pequeno embrulho. — Hagrid, o que... Por que você está com o Harry? Onde está Lily e James?

Os olhos de besouro de Hagrid brilharam pelas lágrimas que se perdiam em sua barba espessa.

— Eles estão... — ele soluçou. — James na sala e Lily... Lily no... no quarto.

— Não. — Minha voz saiu fraca embora eu tenha querido gritar.

— Eu preciso... Dumbledore quer o menino.

E sem que eu pudesse impedir, Hagrid deu partida na moto e desapareceu. Eu fui em direção a casa, não querendo acreditar no que Hagrid dissera. Porém, assim que alcancei a porta, vi o corpo de James caído, em uma posição que não restava dúvidas. Não precisava sequer ver seus olhos abertos e opacos para saber que ele estava morto. E Lily no quarto... Talvez tentando salvar Harry e falhando.

Voldemort não tinha simplesmente morrido. Ele enfrentara os Potter, entrara na casa mesmo com o feitiço do Fiel do Segredo. Mas Sirius era o fiel, ele nunca entregaria James. Nunca!

Dos jardins da casa de Lily, aparatei na rua que Sirius morava. Uma casa estreita em uma rua comum, propriedade de um de seus tios que sentira pena do sobrinho ao ser enxotado da família pela mãe. Mas Sirius também não estava ali. Eu não queria acreditar que ele tivesse traído seu próprio amigo, contudo, como Voldemort teria encontrado os Potter sem que ele o dissesse? Talvez Sirius estivesse preso em algum lugar, talvez não tivesse conseguido se esconder. Sim, era isso. Sirius fora torturado pelos Comensais da Morte até falar, não tinha traído, não tinha simplesmente falado onde Lily e James estavam.

A casa de Remus foi meu destino seguinte. Bati apenas duas vezes antes que ele abrisse a porta.

— Onde está Sirius? — perguntei. A feição abatida de Remus transformou-se com a raiva.

— Se eu soubesse, ele já estaria aqui, respondendo ao que fez.

— O quê?

— O que você acha, Ariadne? — Remus explodiu. — Como você acha que Voldemort sempre sabia onde os Potter estavam? Como ele descobria sempre? Sirius era o traidor!

— Não, você está errado.

— Foi por culpa dele que Clair morreu!

— Não, não foi.

Não deveria ser verdade. Não quando eu estava esperando um filho de Sirius. Ele não podia ser traidor, simplesmente não podia!

Não sei como consegui sair da casa de Remus. O desespero, a dor, a solidão...tudo parecia ser tão imenso e forte que era impossível manter tudo no peito. Não sei como consegui chegar em casa, subir as escadas e entrar no meu quarto. Só sabia que eu estava deitada na minha cama, chorando como há muito tempo não chorava.

Tudo estava acabado. E eu desejei estar morta. De novo.