Disclaimer: Beyblade pertence, na realidade, à Takafumi Adachi. E, não, essa fic não tem fins lucrativos.
N/A: Esqueci-me de avisar no capítulo anterior, embora vocês certamente já se tenham apercebido... eu utilizo tanto os nomes originais dos personagens quanto os nomes da versão americana. De fato, o nome do Tala (americano: Tala Valkov; japonês: Yuri Ivanov) na fic é, na verdade, Yuri Tala Hiwatari Ivanov. Vocês vão também de se aperceber de algumas outras coisas, à medida que a fic for avançando... enfim. Capítulo 2!
Despedida
— Eu não vou deixar que você vá. Não vou, não vou, não vou!
Kari apertou o pescoço do irmão com força, soluçando desesperadamente. Dimitri tão mal comunicou as novas para os meninos deu as costas e subiu para o seu escritório, pouco se importando com os dramas que surgiriam. As birras que ficassem para as amas e para a governanta, que eram absurdamente bem pagas para isso. Ele desfrutaria de um bom uísque no seu canto confortável, longe daquele choro infernal.
Yuri observou seu pai ir em silêncio. Seu coração estava apertado, e não somente por causa do escândalo que sua irmã armava. Sentia-se pequeno e fracassado. Seu pai estava se desfazendo dele. Estava rejeitando-o... Provavelmente ele não era forte o bastante, bom o bastante para viver ali, com sua irmã e com ele. Ele apertou as mãos num punho, cravando os olhos no chão.
— Ah, Kari... — Sussurrou-lhe, fazendo um esforço sobre-humano para não chorar. — Você vai ter que ser forte. Pare de chorar.
A menina afastou-se, limpando as lágrimas com a manga da blusa. Tinha o coração pequenino e comprimido, que doía imensamente, e parecera doer ainda mais com a aparente frieza do seu irmão.
— Você prometeu que não me deixaria. Que família fica junta!
— É, eu prometi, mas... — Yuri coçou a cabeça ruiva, de súbito, sem saber o que dizer. — O papai... E o vovô...
— Eles não podem ser maiores do que nós, Yuri! — A menina que mal alcançava meio metro disse, determinada. — Olha... eu vou com você, se nada puder ser feito. Vou com você, entendeu? Eu preciso de você.
O ruivinho tirou os olhos do chão. Kari parecia muito crescida de repente, e ele sentiu-se crescido também quando pensou que ela estava errada, e quem precisava, de fato, dela era ele. Ele sentir-se-ia sozinho e perdido distante da irmã.
— Papai não deixará que você vá... — Ele disse enquanto ainda se sentia crescido. Kari, que ainda estava presa num mundo de lógica, perdeu o foco e apercebeu-se que ele tinha razão. Então ficou triste e mordeu o lábio. Só não chorou porque sabia que Yuri brigaria com ela.
— Eu vou insistir todos os dias até que ele não tenha outra opção.
Ela olhou para Yuri e ele olhou para ela de volta. Estavam os dois muito sérios, além de tristes e confundidos. Yuri concordou com a irmã, depois ergueu a mão e apertou-a firme, querendo mesmo não largá-la nunca.
XxX
No Domingo que antecedeu a ida de Kai para a escola interna, Kari e Yuri foram visitá-lo. Um grande e dispendioso almoço fora preparado especialmente para aquela ocasião. Os adultos diziam que estavam celebrando a ida do Kai para o internato; o nascimento de uma estrela. As crianças pensavam que era a celebração por verem-se finalmente livres do garoto.
— Soltarão fogos de artifício, talvez — Kari resmungava, desconsolada. Estavam os três sentados num banco do imenso jardim. — Bastará que demos as costas.
Yuri já estava deprimido, encolheu os ombros.
— Pelo menos, você teve uma festa. Papai jamais faria uma coisa dessas por mim.
— Mas ano passado ele deu uma grande festa — Lembrou o primo.
— Foi o vovô Voltaire, que queria que tivéssemos uma festa conjunta, como sempre, lembra?
Kai assentiu sem empolgação. Na época em que seus pais e sua tia Violetta eram vivos, eles sempre faziam uma grande festa de aniversário para os dois meninos. Logicamente que por motivos diferentes pela qual levaram a Voltaire a fazer o mesmo, naquele ano. Voltaire queria continuar a demonstrar e a afirmar o seu grand status. Prova disso era a quase ausência de crianças no evento. Os convidados foram, sobretudo, chefes políticos e empresários de grande porte.
— Ele quer mesmo que você patine — Kari disse para Kai num tom pensativo. — O vovô. Ele parece acreditar muito em você.
— E no Tala, aparentemente.
O ruivinho sorriu amarelo. Não se sentia confiado, muito pelo contrário. Sentia-se um órfão mandado para um abrigo. Tinha a certeza que o primo sentia o mesmo.
— Ele acredita mais em você. Isso faz você querer patinar também?
— Não.
Diante do tom seco do rapazinho, Kari só conseguiu dar de ombros e concordar. Devia estar sendo muito difícil para ele, muito mais do que para o Tala. Afinal, seu irmão a tinha para protegê-lo. Mas quem Kai tinha?
Na hora de ir embora, Kari empurrou Kai para um canto da mansão e tirou algo do bolso do vestidinho, entregando-lhe. Era um embrulho bem-feito, vermelho com lacinho branco. Kai abriu-o com cuidado, retirando o pequeno cordão preto com a inicial do seu nome.
— Dona Marie ajudou-me a escolher. É para você lembrar-se de mim, no colégio.
Sem uma palavra, ele colocou o acessório no pescoço.
— Se lá eles forem maus com você... e quando você estiver se sentindo triste e sozinho... pense em mim, tá certo?
Kai observou a prima, pela primeira vez em muito tempo, sentindo vontade de chorar. Mas conseguiu impedir-se, mesmo quando ela aproximou-se e enrascou os braços ao seu redor, num abraço tão confortável que o fez sentir-se verdadeiramente aceito.
XxX
— Kari! Kari! Kari, onde você está?
Yuri soltou um suspiro resignado. Estava quase na hora de ir, e sua irmã decidia desaparecer daquela maneira! Mesmo conhecendo o pai, e sabendo que ele não esperaria por ela... o ruivinho empurrou a porta do seu quarto, olhando em volta pela última vez. Agora viveria noutro lugar... conviveria com outras pessoas... virar-se-ia sozinho. Não tinha como não se sentir amedrontado.
— Kari?
Ele caminhou até a sua cama, ajoelhando-se e revirando os lençóis para ver debaixo dela. Sua irmã estava ali, abafando soluços com a mão, encolhida numa bola. Seus olhos azuis brilhavam mesmo no escuro.
— Com que então você estava aqui... — O garoto disse, franzindo a testa quase que em reprovação.
— Yuri... eu...
— Você pode não me ver por muito tempo, então acho melhor você pelo menos tentar se despedir — Apesar da inexpressividade do irmão, Kari sabia que ele estava magoado. Limpando o rosto com a manga da blusa, ela rolou para fora da cama, esparramando-se tal estrela-do-mar no tapete. E pôs-se a observar o Tala. Ele insistia em parecer forte e invencível, mas seus olhos estavam vermelhos também. Kari ouvira-o chorar a noite inteira, enquanto fingia dormir. Sabia que ele estava tão assustado com aquela separação brusca quanto ela.
— Eu vou com você, se nada puder ser feito, maninho. Se eu não conseguir buscá-lo... eu, sem dúvida, irei ter com você.
Tala não respondeu. Levantou-a do chão e abraçou-a, deixando seus medos e ansiedades serem afogados naquele gesto.
O caminho até a escola foi curto e silencioso. Vinte minutos e a porta estava sendo aberta, Dimitri saindo do carro e observando longamente o edifício sem dar-se ao luxo de tirar os seus óculos escuros, seguido de um acanhado garotinho ruivo que se esforçava por se manter digno e não demonstrar todo o receio que lhe ia ao coração. Não houve abraços ou sequer apertos de mãos. O progenitor soltara um suspiro de descaso, apontara para o edifício com frieza, como se fizesse uma ordem silenciosa, murmurando algo como "não me decepcione" por baixo do fôlego. Tala, temendo ser repreendido caso não fosse rápido o bastante, assentiu com a cabeça, pegando uma das suas malas (que era quase do seu tamanho) e seguindo atrás de um dos empregados que tinha ido junto. Olhou para trás três vezes; na terceira, seu pai já tinha entrado no carro. Com os vidros esfumados, ele estava fora do alcance do seu olhar, e logo Yuri interpretou que também da sua vida.
