Capítulo III. A Abadia
.
.
.
Tala tentava não parecer inseguro. A Academia de Patinagem de St. Petersburgo, também vulgarmente chamada de Abadia por questões que só anos mais tarde ele entenderia, era um colégio colossal, moderno e frio. Acostumado ou não com lugares grandes e frígidos, o garotinho não conseguia dispersar o seu nervosismo. Caminhava esfregando as mãos umas nas outras; olhando as coisas com atenção e medo.
— O seu quarto é aqui, senhor Ivanov — disse-lhe a monitora. Era baixinha e gorduchinha como Marie, mas suas semelhanças acabavam aí. Tinha uma voz amarga, semblante duro e feio, aparência de quem não sorria nunca. — Caso precise de alguma coisa, informe-me ou aos meus superiores.
Yuri acenou antes de empurrar a porta e entrar no quarto. Não era muito grande. Tinha duas camas, dois armários, duas secretárias e uma porta que provavelmente daria acesso ao banheiro. Estava ocupado por um menino de olhos grandes e cabelos meio cinzentos, meio lavanda. O ruivinho primeiro estranhou ter companhia e só depois decidiu anunciar sua presença. O garotinho, que parecia tão impertinente quanto, olhou-o com curiosidade e logo com indiferença.
— Oi — Yuri disse por fim, aproximando-se de uma das camas.
— Oi — o desconhecido saudou de volta, desconfiado. — Você é o meu novo colega de quarto?
— Acho que sim. Sou o Yuri Ivanov.
— Meu nome é Boris — ele aproximou-se e esticou a mão em direção do recém-chegado, que a apertou. — Primeira vez aqui? — o garotinho acenou com certa veemência. — É o meu segundo ano. Posso mostrar algumas coisas para você, se quiser.
Apesar de aceitar seu convite, Yuri perguntou:
— Dormia sozinho antes? — e acenou para a cama.
— Mais ou menos. Christopher implorou para voltar para casa alguns meses depois de vir para cá — e vendo a confusão do ruivinho, explicou, num tom solene. — Isso não é um campo de férias. Não é divertido nem fácil. Você está aqui para se tornar um campeão. E um campeão é duro para valer.
O garotinho assentiu com lentidão, tentando assim, despistar o medo que sentia. Não conseguia mentir para si mesmo e dizer que não queria voltar imediatamente para casa. Entretanto, também não conseguia mentir e dizer que caso não se adaptasse, seu pai o aceitaria de volta de braços abertos.
— De qualquer das formas, nós temos quatro refeições por dia. As aulas são de manhã e os treinos à tarde. É expressamente proibido faltar a qualquer um dos dois.
— É, a... monitora, disse-me.
— Ela não estava brincando.
Yuri franziu o cenho, sem responder. Boris falava num tom estranho, obscuro até, impróprio para um garotinho que não devia ter sequer dez anos. Falava e movia-se com a quietude e precisão de um monge. E exalava o sombrio da morte.
— Nós acordamos com uma sirene, às seis da manhã. O café da manhã é às seis e quinze. As aulas começam às sete. E os treinos funcionam durante toda à tarde — ele observou-o longamente. — Você é bom?
Tala sentiu-se intimidado. Sabia responder com convicção que Kai era o melhor patinador que alguma vez vira, mas não tinha grande consciência dos seus próprios feitos. Entendia de patinagem, ponto. Mas isso o tornava bom?
— Não sou ruim.
— Eu sou muito bom — apesar da frase prepotente, não existia arrogância na voz de Boris enquanto ele falava. Ele simplesmente comunicava o que parecia ser um fato. — Já fiquei em primeiro lugar duas vezes consecutivas no torneio individual municipal.
— Nossa... Seus pais devem ter muito orgulho de você.
Boris encolheu de ombros, dando as costas para apanhar alguma coisa no armário — Não sei, não os conheço. Mas provavelmente não. Provavelmente achariam o mesmo que o meu avô... — ele soltou algo parecido com um suspiro — Mas a minha tia me deu os parabéns no outro dia. Algo como eu estava brilhante...
Kai partilhava o quarto com um garoto baixinho e narigudo chamado Ian. Ele era extremamente competitivo no ringue, apesar de não ser o melhor patinador do colégio. Passava longas horas treinando a fio, e era perturbadoramente quieto. Não tinha muitos amigos. Costumava sentar-se numa das muretas no colégio a ver os estudantes indo e vindo, naquela monotonia extrema, aquela calma que não se sabia de onde se originava. Às vezes, ocorria-lhe de contar sobre sua vida familiar ao Kai, detalhes corriqueiros como o tipo de comida que sua mãe fazia ou a forma que seu pai virava a página no jornal. Aparentemente, vivia para observar, era o seu passatempo. Roncava muito, de forma que as primeiras noites foram héticas. Kai, acostumado com a solidão e o silêncio do seu quarto, descobriu o terror da insónia, até que, exausto com a rotina dos treinos, acabava por adormecer apesar da banda sonora barulhenta.
Muitas vezes, durante aquelas horrendas noites, pensava na prima. Preocupava-se com ela; era um bebé chorão, muito apegada à ele e ao irmão. Provavelmente estaria também passando a noite em claro, agarrada ao enorme Husky Siberiano que Tala intitulara de Wolborg sabe-se lá por que. Possivelmente também estaria chorando.
Ocorreu-lhe, certa noite, que, a três quartos de distância, Yuri também estivesse com insónia. Ocorreu-lhe que até estivesse segurando as lágrimas. O primo era um idiota. Vivia dizendo que tinha que proteger a irmã... Mas quem protegia quem, afinal?
— Qualquer dia, terei que os proteger aos dois — pensou em voz alta, à custo tapando o ouvido com a almofada. — Como no esconde-esconde... Sempre sobra para mim.
Tala e Kai nunca mais tiveram a oportunidade de brincar de esconde-esconde. A abadia era cheia de regras e horários; restava-lhes pouquíssimo tempo para fazer fosse o que fosse. Existiam, entretanto, brincadeiras em comum, jogadas, geralmente, aos fins-de-semana. Era o exemplo do xadrez, em que Boris era extraordinariamente bom. O garoto, que passava cada vez mais tempo com Tala e com o Kai (ou era o contrário, ninguém sabia identificar a diferença), divertia-se em ganhar aos dois novatos. Aliás, como os dois meninos rapidamente descobriram, o jogo favorito de todos da Abadia era vencer. Era uma verdadeira obsessão.
— Você tem que ser sempre melhor — Boris disse para Yuri, enquanto tranquilamente comia-lhe uma peça, — porque se você não for, o teu adversário será e você será facilmente destruído. Ora, xeque-mate.
— Jogar com você não tem graça, Boris — o garoto bufou, cruzando os braços em nervosismo. Era a terceira vez consecutiva que perdia.
— A diversão é só para os vencedores, Tala. Aprenda isso.
Kai, que estava ocupado com um livro, franziu o cenho. Lembrava-se de ter ouvido aquela mesmíssima frase naquela manhã dita pelo Ian, no dia anterior pelo Spencer, toda a hora pelo seu treinador...
Kari encostou a porta sem um ruído, engatinhando até o tapete do quarto. Conseguia sentir o cheiro do Yuri ali, um cheiro engraçado de neve e baunilha. Ela esparramou-se no tapetinho, esticando as mãos e os braços feito estrela do mar, e fixando o olhar no teto escuro. Silenciosamente desejou que seu irmão e Kai estivessem ali, com ela. Aquela casa era tão grande... e sentia-se tão sozinha...
Já sentia as lágrimas formarem-se no seu rosto quando o quarto se iluminou. Ela sentou-se rapidamente, observando a porta com medo. Seu pai não gostava que ela ficasse no quarto do irmão, e os empregados já tinham sido avisados que caso ela continuasse a desobedecê-lo, que devia ficar imediatamente de castigo. Para seu alívio, ao invés de um corpo gorducho, tudo o que viu foi uma enorme bola de pelo branco e cinzenta se aproximando e deitando-se ao seu lado.
— Você também sente a falta do Yuri, Wolborg? — Kari enroscou-se ao lado do cachorro, coçando suas enormes orelhas. — Queria saber o que ele está aprontando...
— Então, você tem uma irmã?
Boris calçava os patins com habilidade. Era Sábado, nove da manhã. Os alunos do quarto ano que não tinham ido passar o fim-de-semana à casa (pouquíssimos eram aqueles que o faziam), preparavam-se para mais uma dose de duro treino.
Yuri acenou.
— Tenho. O nome dela é Kari. É um bebê chorão, então estou preocupado com ela.
— Devia estar mais preocupado com a velocidade do seu Spin — Boris revirou os olhos com impaciência. Embora acostumado com aquele tipo de comentários, Tala não conseguiu evitar o seu embaraço. Aprendera a admirar Boris, durante aquele tempo. Ele parecia tão confiante e bom em tudo. Secretamente, alimentava o desejo de ser como ele um dia, descolado e um campeão.
Ao ver que o ruivo se encolhera, o garoto de cabelos exoticamente lavanda completou, num tom incomum de desculpa:
— Não é que você seja mau, sabe — Tala olhou-o, surpreso. Vindo do Boris aquilo era quase um elogio. — Mas você pode ser muito melhor. Aliás, você pode ser quase tão bom quanto o teu primo.
A surpresa de Tala não demorou a ser substituída pela frustração. Na Abadia, estava condenado a viver sob a sombra de Kai. Estavam ali há pouco menos de três meses, mas o primo já era considerado o patinador mais promissor de toda a Academia, vencendo até o orgulhoso Boris. Ele soltou um suspiro.
— Não posso não. Você não ouviu o que dizem acerca do Kai? Ele é um talento nato. Nem eu, nem você, nem ninguém poderá se igualar a isso um dia.
— Se isso fosse verdade, você não estaria aqui — o garoto disse sem se abalar. — Você não disse que o seu pai mandou-o aqui por que queria que você se tornasse num dos melhores patinadores do mundo?
— Ele não acreditava nisso de verdade... — a lamúria de Tala foi cortada à meio.
— Se acreditava ou não, não importa. Ele traçou o teu destino. O teu destino é ser o melhor. Se você não for de verdade, ao menos terá que morrer lutando. Ou você ainda não entendeu que o teu papaizinho não te aceitará de volta, caso queira regressar?
Tala engoliu em seco. Claro que tinha entendido. Três meses ali preso sem receber uma única carta ou telefonema do pai tinha esclarecido as coisas muito bem. Boris pousou a mão no seu ombro.
— Spins, footwork, saltos... São as coisas com que você deve se preocupar. A sua irmã deve estar tomando chocolate quente em frente à TV, numa hora como essa. O que quer dizer que você é quem está virando motivo de preocupação. Principalmente quando passa a noite inteira chorando e gemendo o nome da sua irmãzinha... — e ele deu um raro e sarcástico sorriso antes de entrar no ringue, facilmente ignorando o rapazinho corado nas arquibancadas.
— Não irá dormir, minha querida? — dona Marie perguntou num tom suave, abrindo a porta após perceber que a menina revirava-se em sua cama inquietamente.
— Não consigo. Sinto a falta do Yuri.
Dona Marie sentou-se na beira da cama, aconchegando a pequena da melhor forma que sabia. E deu um sorriso apaziguador, que fez com que Kari se perguntasse se, caso quem estivesse ali fosse a sua mãe, se ela seria capaz de sorrir com tanta amabilidade quanto a velha senhora. A ruiva acariciou-lhe os cabelos.
— Vocês realmente são dependentes um do outro, não? Pergunto-me se ele consegue dormir também... Bem, bem, pequena Kari. O teu problema é a falta que sente, não? Mas, sabe, tem um truque que a minha avó me ensinou quando pequena que acho que solucionará o teu problema.
— Qual, dona Marie?
— Peça à sua cama que sonhe com o Tala.
— Pedir à minha cama? — a menina juntou as sobrancelhas com descrença.
— Sim. Diga todas as noites à sua cama "Cama! Permita que eu sonhe com o Tala!". Se você pedir com muita fé, você sonhará com ele. E sonhos podem não corresponder à realidade, mas são sempre bons e ajudam a lidar com a saudade, não é mesmo?
Kari ponderou.
— Mas Dona Marie — ela olhou muito séria para a senhora, — as camas não sonham!
Em resposta e contrariamente ao que Kari esperava, a governanta limitou-se a soltar uma risada e beijar-lhe a testa. Não concordou com ela ou a desmentiu. De forma que quando não conseguia ouvir mais passos no corredor, Kari sentiu-se tentada a fazer o que ela tinha dito.
— Mas que bobagem! Claro que camas não sonham! — ela murmurou, rindo da sua ideia disparatada. Mas logo se sentiu incerta. Dona Marie não mentia. E ela parecia saber de tudo. Suspirando, Kari sentou-se na cama e juntou as mãos.
— Er... Cama! — ela sentia-se alguma coisa estúpida ao falar com uma cama, mas prosseguiu — Cama! Por favor! Faça com que eu sonhe com o Tala!
Ditas as palavras mágicas, Kari sentiu-se muito mais segura, até crente. Seus ombros perderam toda a tensão e deixou de se sentir idiota. Então repetiu as mesmas palavras, um pouco mais confiante.
— Cama, faça com que eu sonhe com Tala. E com o Kai também. Faça com que... Pelo menos... Pelo menos no sonho, eles estejam bem e que nós estejamos juntos. Faça com que no sonho, nós sejamos mais corajosos e faça com que o Kai seja mais feliz. Faça com que o Tala coma os brócolis todos. Faça com que... O Voltaire não exista, nem o papá. Só nós os três. Só nós os três...
Nesta noite, Kari teve um sonho bonito onde ela almoçava na companhia do irmão e do Kai, que dançava enquanto Kai tocava o piano e o Tala o violino. Esse sonho se repetiu nos dias seguintes, enquanto ela repetiu fervorosamente à sua cama para sonhar com a sua família.
.
.
.
Continua.
N/A: Explicação do título da fic! ^.^ Fufu
