Capítulo IV. O Anjo Dançarino
Kari corria pelos corredores, animada. A Academia era enorme! Ela parou por um momento, analisando melhor o lugar. O espaço era amplo, moderno, com câmaras em praticamente todo o canto. Ela abriu um sorriso maravilhado, voltando à sua desvairada corrida, esquecendo-se de prestar atenção por onde ia. Resultado: acabou por esbarrar em alguém, caindo os dois com a bunda no chão!
— Ai! — a vítima gemeu indisposta, provocando um tremor e encolhimento pela parte da menininha. — Tem cuidado por onde anda!
— Desculpe-me, eu só-
— Desculpe-me, desculpe-me! — Boris Kuznetsov olhou para cima irritado, de repente, travando-se ao deparar-se com um par de olhos azuis muito familiar. A garotinha, de não mais de sete anos, encolheu os ombros, colocando o longo e negro cabelo detrás da orelha. Os pensamentos do menino variaram entre como ela era linda e como era parecida com Ivanov, por algum tempo.
— É que eu estava à procura do meu irmão, eu não conheço aqui. E perdi-me da governanta... — ela explicou constrangida, só que ainda assim, muito rápido. — Não queria derrubar você.
Boris coçou a cabeça. — Ah, o quê, espera. Você disse irmão?
A menina abanou a cabeça com veemência.
— Sim! Yuri Tala Hiwatari Ivanov! Meu irmão. Ele veio para cá no início do ano letivo, em Setembro. Ele vai se apresentar hoje pela primeira vez!
Ah, então ela era mesmo a irmãzinha que o colega de quarto sempre falava! O garoto levantou-se, oferecendo a mão para ajudar a menor.
— Você é a Kari?
Ela voltou a acenar, parando por um minuto para encará-lo, surpresa.
— Como sabe o meu nome?
— Eu sou o colega de quarto do seu irmão, Boris. Ele falou-me de você — mentalmente acrescentou que ele «só fala de você» e quase riu. A garotinha ao seu lado parecia que ia ter um ataque de felicidade.
— É mesmo? — ela questionou com os olhos brilhando. — Eu sinto tanto a falta dele, sabe? Eu implorei pro papai desistir de ideias e deixar que ele ficasse em casa, mas... Olhe, você estuda aqui há muito tempo?
Boris hesitou em acenar, percebendo que, afinal, estava errado. Aquela agitada menina não tinha como ser irmã do quieto Ivanov.
— Hã... É o meu segundo ano.
— Legal! Você gosta daqui?
— Bem, acho que sim — disse, incapaz de reclamar fosse o que fosse para aquela assustadora criança. — Bem, hã, Kari, por que não vem comigo? Eu te levo até o Yuri...
— Legal! Obrigada, Bryan.
O garoto respirou fundo, tentando não perder a escassa paciência que tinha. — É Boris.
— Ah é, desculpa. Então... Você sempre quis patinar? Eu sempre quis fazer ballet, sabe? Estou matriculada numa escola desde os quatro anos, e...
Boris suspirou. Para o bem da sua saúde mental – e para o bem estar daquela coisa pequena – esperava encontrar Yuri muito depressa.
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Yuri observava o primo rodopiando pelo ringue com pouco interesse. Kai estava desobedecendo ao seu treinador uma vez mais, patinando horas antes do grande campeonato. O que era algo muito comum. Kai não tinha medo dos técnicos ou dos professores, como a maioria. De fato, adorava quebrar regras; tornara-se conhecido à custa tanto da sua rebeldia quanto do seu talento ridiculamente alto e palpável – sendo que o último vivia para pô-lo num alto pedestal e livrá-lo de castigos. Os professores absolviam-no das maiores barbaridades e a maior parte dos estudantes, irritados com o tratamento diferencial, desprezava o garoto.
Não que Kai se importasse. Não se importava com nada. Como naquele momento, girando sobre si mesmo, não parecia minimamente incomodado com o fato de que em pouco tempo estaria se apresentando a um júri pela primeira vez. Se fosse castigado, também não se incomodaria. Era a própria indiferença encarnada.
Suspirando, o ruivinho notou que queria ser assim. Ele espremeu suas mãos umas nas outras com nervosismo, sentindo um bolo estranho na garganta toda a vez que se recordava da apresentação. Temia esquecer-se da coreografia, temia cair. Temia ser um fracasso. A voz murmurada e pouco amigável do seu pai ordenando-lhe que não o decepcionasse, amedrontava-o. E unida com a voz, existia a imagem de um monstro gigante e horripilante.
— Yuri! — uma voz aguda e calorosa junto de um toque suave salvou-o da aparição. Surpreso, Yuri voltou-se para encontrar as mãos conhecidas da sua irmã mais nova.
— Kari?
— Maninho! — ela lançou-se aos seus braços, apertando-o a ponto de esmagar-lhe os ossos. — Você está bem? Eu estava com tantas saudades!
— Er, eu também, mas por que você está aqui?
Kari afastou-se, jogando seus longos cabelos para trás.
— Papai deixou-me ver a sua apresentação, óbvio!
— Ele também veio? — Tala não queria parecer tão esperançoso, mas não conseguiu evitá-lo. Percebendo isso, Kari encolheu os ombros, sorrindo triste e sentindo-se culpada por ter que abanar a cabeça em sinal de não.
— Não, mas… mas… a dona Marie veio! E ela trouxe o bolo gostoso da senhora Arina para você!
— É mesmo... — Yuri suspirou, mal conseguindo disfarçar sua decepção. Já devia estar acostumado. Seu pai era muito ocupado, especialmente, ocupado para ele. Ele virou-se para a irmã, distraída com alguma coisa no ringue, e desviou outra vez o olhar para o primo. Aparentemente, ele ainda não tinha notado a visita inesperada, pois continuava dançando como se não houvesse amanhã.
Kari observava o ringue sem piscar. O garotinho que patinava tinha uma aura, um brilho esplendoroso, que a impedia de retirar a atenção daquele dançarino nato. Ele deu um salto, seguidamente rodopiando sobre seu próprio corpo; foi quando ela notou que aquele anjo dançarino era seu primo: Kai. Kari continuou ainda embarbascada com aquela presença divina até que ele parou de dançar e, arfando, decidiu olhar para as arquibancadas. Ela finalmente recuperou poder do próprio corpo e acenou para ele.
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— Então, pirralha — Kai sentou-se nas arquibancadas, ainda sem fôlego. — Está conseguindo dormir sozinha?
— Não me chame de pirralha! — ela reclamou tão brava que Kai podia jurar que sairiam chamas dos seus olhos. Ele sorriu. — No início foi difícil me acostumar, mas agora quase não tenho pesadelos.
— Quer dizer que você estava tendo pesadelos? — Yuri interrompeu, um pouquinho preocupado. Mesmo depois do discurso do Boris, ainda sentia-se imensamente culpado por ter deixado a irmã sozinha naquele casarão. Ela deu um sorrisinho, de repente, querendo parecer forte.
— Mas agora já não tenho quase nenhuns! — repetiu. — Além de que estou usando um truque que dona Marie me ensinou! Todas as noites, antes de dormir, eu digo para a minha cama: "Cama! Faz com que eu sonhe com o Yuri e com o Kai!" Nem sempre resulta, mas pelo menos, eu me sinto muito mais feliz.
Os dois garotos entreolharam-se.
— Bem, se não está resultando sempre é porque você não está acreditando o bastante. Essas coisas só funcionam quando você tem fé — Kai cutucou o primo, piscando-lhe discretamente o olho.
— Ah… É, Kari. Eu sonho com você sempre que peço à minha cama.
Kari abriu um sorriso animado, à despeito que os dois garotos mal conseguiam controlar a vontade de rir.
— Sério? Então prometo que vou me esforçar muito mais agora. Como vocês estão se esforçando aqui. Vocês estão comendo direitinho, não estão? E fazendo os trabalhos de casa?
— Eu quem devia estar perguntando isso... Quem está ajudando você com os seus deveres?
— A Marie. Kai... Tala… vocês… estão felizes, não estão?
Os dois meninos ficaram em silêncio por algum tempo. A vida naquele lugar não era fácil; mas nenhum dos dois queria preocupar a mais nova.
— Sim — Yuri finalmente respondeu, sem encará-la. — Nós estamos dando o nosso melhor. Nós vamos ganhar o campeonato, Kari, você vai ver!
— Hm. E nós seremos os melhores patinadores do mundo — Kai acrescentou, passando a mão pela cabeça da prima. — Então tenha a certeza de pedir para a sua cama nos dar muita sorte, certo?
O ruivo mandou um olhar de esguelha para o primo.
— Certo!
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Kari permaneceu com o irmão e com o primo pouco menos de meia hora, antes que os treinadores dos meninos chegassem e dessem a ordem de irem se aprontar. Dona Marie também não demorou a encontrar a Ivanov caçula; vinha suada e louca de preocupação com um dos seguranças atrás, armada com um longo discurso sobre afastar-se sem avisar, etc., etc. No fim, condenou Kari a permanecer ao seu lado o tempo inteiro.
— Você é impossível, menina Kari. Impossível! — reclamou, ajeitando-se no assento pouco confortável e vermelho da arquibancada. — O que está à espera para sentar-se, hein? Vamos, venha aqui.
— Quero ir ao banheiro.
— Oras, por que não disse antes que eu me sentasse?
— Não precisa vir comigo. É melhor que não venha. Olhe, muita gente está chegando. Se vier, perderemos o lugar. Vou e volto, prometo.
Senhora Marie franziu o cenho. Conhecia aquela fala como ninguém. Mas a garota estava certa quando dizia que perderiam os lugares. Ela soltou um longo suspiro.
— Está certo. Mas não se demore. Eu irei buscá-la caso se demore, menina Kari, está me ouvindo?
Kari não estava ouvindo, mas ainda assim acenou, mais por costume do que por outra coisa. Depois, deu as costas e meteu-se num dos corredores infinitos do colégio.
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— Nervoso?
Boris rodeava o ruivinho com um sorriso no rosto. Parecia divertir-se com aquela situação. Tala olhou-o de cima, enquanto esfregava nervosamente as mãos umas nas outras, uma tentativa frustrada de permanecer tranquilo.
— Como consegue estar tão calmo?
O menino de cabelos lavanda sorriu. — Já disse para você. Eu sou muito bom.
— Kai é muito melhor do que você.
Isso provocou uma contorção estranha no rosto do garotinho, mas ele logo a venceu com um sorriso convencido.
— Isso é apenas um sinal que eu terei que me esforçar duas vezes mais no ringue. Só isso. E pare de esfregar essas mãos! — com um gesto impaciente, ele forçou Tala a parar. — Credo! Eu posso ver o fracasso em você, Ivanov, melhore essa cara. Tudo o que eu te disse anteriormente não serviu para nada? Se você pensar que está derrotado...
— Eu serei derrotado de verdade, eu sei — ele soltou um longo suspiro. Queria dizer o que realmente sentia, exteriorizar o seu medo e nervosismo, mas sabia que Boris apenas o ridicularizaria ainda mais. Portanto, desistiu. E pensou no que ele tinha acabado de dizer e nas coisas que lhe tinha dito ao longo da sua estadia no colégio. Pensar como um vencedor, ser um vencedor, rir na cara do medo...
O pequeno Ivanov levantou-se num salto, respirou fundo e forçou um sorriso.
— Você tem razão. Eu não posso agir como um perdedor.
— Recuperou a coragem? — Boris piscou, um pouquinho confuso com a mudança brusca de atitude.
— Só me lembrei de que não sou um patinador ruim...
Em resposta, Boris apenas soltou uma risada deliciada.
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Os participantes do concurso já começavam a juntar-se nas primeiras arquibancadas, quando Kari encontrou o vestuário masculino. Parecia silencioso. Ela até suspeitaria que estivesse vazio, caso as luzes não estivessem ainda acesas. Mordendo o lábio inferior como fazia quando estava prestes a fazer uma estripulia, ela olhou para os lados, assegurando-se que não vinha ninguém e entrou no balneário.
Dois passos depois, entretanto, estava indo contra alguém. Ela segurou a testa, recuando, e encontrando o olhar intrigado e até mesmo censurador do primo.
— Kari! O que faz aqui?
Ele fechou a porta, temendo que mais alguém a visse ali (o que seria, indubitavelmente, problemático).
— Vim desejar-te boa sorte.
— Já desejou — o garoto respondeu, cruzando os braços com descaso.
— Ah, Kai, não seja assim! Não falamos quase nada! O que você vai dançar? Você já está pronto? Essa é a sua roupa?
À medida que falava, Kari dava intimidadores e entusiásticos passos para frente. Quando Kai reparou, os dois já estavam sentados nos bancos do balneário, encostados à parede. Ele olhou da prima para o uniforme do colégio (um fato preto e vermelho com as iniciais da Academia no peito), acenando.
— Que legal! Combina com o cabelo do Tala.
Kai não podia discordar mais. Admitia que não tinha entendido o que era o cabelo do primo e o que era o uniforme, quando o vira. Mas permaneceu calado.
— Onde ele está?
— Já foi para as arquibancadas. E eu também devia- ah, Kari!
A pequena aproximou seu rosto de tal forma que seus narizes colaram-se. Kai corou horrores com aquela proximidade inconveniente, procurando um jeito de se afastar. Mas ele finalmente percebeu o que era estar entre a espada e a parede.
— Kari...
— Você não vai se maquiar?
Por um segundo, Kai não respondeu, a sua expressão limitando-se a uma iminente incógnita.
— Como assim, você enlouqueceu?
— Enlouqueci? Como assim enlouqueci? — e ela afastou-se um pouco, pondo as mãos nas ancas por um momento. — Bem, não importa. Chega aqui. Eu vou maquiar você.
Dito isso, ela retirou um estojo de maquiagem da mochila.
— Quê? Sai para lá! Você não vai me maquiar, sua pirralha maluca! — ele disse, esforçando-se para afastar a menininha de si.
— Como você pretende patinar sem maquiagem? Você nunca viu os profissionais na televisão, não? Eles enchem a cara com brilhantes! Nunca irá ser um profissional se não der um jeito no seu visual!
— Não sabia que precisava virar uma borboleta purpurinada para ser patinador!
Ele deu um jeito de imobilizá-la, sentando-a no banco. Garotinha maluca. Nunca que o pintaria e o ridicularizaria assim, ainda mais em público! Ele respirou fundo, sentindo o corpo que apertava tremer. Aterrorizado, viu que, para seu infortúnio maior, Kari soluçava, chorando tanto que era possível afogá-los naquele balneário com as suas lágrimas.
Kai soltou-a, dando dois passos atrás.
— Eu só queria ajudar você! — a menina gritou, limpando as lágrimas que não paravam de descer com a manga da blusa. — Só queria… só queria… que você fizesse um espetáculo bacana e que… e que impressionasse o júri!
Kai pensou em dizer que ele jamais conseguiria impressionar o júri com o rosto pintado de rosa, mas vendo o estado lastimoso da prima preferiu permanecer em silêncio. Ela cobriu o rosto com as mãos continuando com o berreiro, até que ele, penalizado e culpado, aproximou-se e voltou a sentar-se ao seu lado.
— Kari... Kari... — ele balançou os ombros da priminha. — Tá bom, vai. Eu deixo você me maquiar.
Assim que as palavras saíram da sua boca, ele apercebeu-se da burrada que tinha feito. Não tinha planeado dizer nada daquilo! Pensou logo em voltar atrás, só que antes que tivesse tempo de abrir a boca, já dois olhos azuis ainda chorosos o observavam com curiosidade.
— Sério?
Incapaz de dizer qualquer coisa, Kai acenou a cabeça roboticamente. Como mágica, Kari abria um sorriso gigante, atirando-se aos seus braços.
— Obrigada, Kai! Prometo que o júri vai ficar super impressionado com você!
— Impressionado, com certeza... — o mais velho quase chorou, no momento seguinte sentindo algo macio fazer cócegas em sua bochecha. — Kari. Eu não quero nada cor-de-rosa ou púrpura, entendeu?
— Por que eu te pintaria de rosa, bobinho? — ela gargalhou só com a ideia. Kai tinha cada ideia absurda, de vez em quando!
Ela pintou o lado esquerdo e logo depois o direito. Depois, com um sorriso enorme, esticou o espelhinho na direção do primo. Com muito medo, Kai observou a sua imagem. A prima tinha pintado dois triângulos azuis em cada bochecha. Reparou, surpreso, que não estava, de todo, horrível.
— Ficou legal, não ficou?
— Ah- bem. Não ficou cor-de-rosa — ele entregou o espelho, cruzando os braços. Recusava-se a dar o braço a torcer!
— Acho que você devia usar isso sempre. Como eu ouvi na TV? Coisa de marca... Marca de marca... Espelho de marca? Não, não era nada disso.
Kai sorriu, tocando de leve na pintura. Sem mais nenhuma palavra, levantou-se.
— Hei, aonde você vai?
— Patinar. Caso você não saiba, eu tenho uma apresentação.
A menina soltou uma risada gostosa.
— Kai?
— Hm?
Sem aviso prévio (como habitual), Kari jogou-se nos braços do primo, afastando-se para dizer em seguida:
— Boa sorte!
O rapazinho sorriu, passando a mão pela cabeça da mais nova. — Eu vou ganhar para você, tá certo?
Kai realmente ganhou. Surpreendentemente, Boris ficou em segundo lugar e Yuri em terceiro. Era o nascimento das três futuras estrelas da patinagem artística russa.
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N/A: Gente... Eu amei escrever esse capítulo, do príncipio ao fim. Será que só sou eu que quer apertar as bochechas do Boris até que ele desmaie? Own, que coisinha mais linda *.*
O próximo capítulo será um bónus... Um prelúdio do que está para vir. Espero que tenham gostado deste capítulo... super beijo!
