Capítulo Bônus — Meditação sobre futuros sonhos partidos

A vida na Abadia não devia ser muito diferente da vida de um órfão ou de um condenado. A existência de uma rígida rotina, de um seguimento de dias iguais aos outros e de gente igualmente igual, às vezes dava à Tala a sensação de que não era mais um humano; era um robô. Tinha sido programado para ser inteligente, frio, perspicaz e extremamente bom. Tinha como objetivo ser o melhor entre os melhores. E, como Boris lhe dissera, o melhor dos melhores era duro para valer.

Não que quisesse, desde o início, ser um campeão. Tala nunca quis ser patinador, em primeiro lugar. Mas uma vez naquele colégio, uma vez no ringue, descobriu que não tinha muitas hipóteses senão àquela. Seu pai não se importava consigo e a verdadeira esperança de Voltaire era o Kai, o menino prodígio. Então, sem esperanças, o tão insignificante menino decidiu aceitar o que a vida lhe oferecia. Era mais desesperança, sem dúvida, mas uma desesperança que ao menos no ringue gelado, com música e movimentos, obrigavam-no a sentir-se vivo e, falsamente, alguém.

.

.

.

Durante o longo ano que passara na Abadia, Kai descobriu duas coisas. A primeira é que detestava a patinagem. E a segunda é que também a amava. Tanto no ringue quanto fora dele, aqueles sentimentos paradoxais e extremos juntavam-se, e ele sentia-se a morrer e a renascer enquanto o seu corpo girava confusamente, o mundo tornava-se num vulto obscuro e as suas frustrações desprendiam-se e colavam-se novamente à sua cabeça. Quando patinava existia Voltaire porque ele era o culpado da sua estadia naquele colégio maldito – então abominava aquele esporte estúpido. E, entretanto, no segundo salto, ele expulsava-o do ringue e da sua vida com maestria, libertando-se naquela dança fantástica e ritmada, porque o esporte também simbolizava libertação – e, por consequência, voltava a amá-lo. E era esse amor/ódio tremendo e confuso que o impulsionava, todos os dias, durante os treinos, e eram essas emoções profundas e avassaladoras que emocionavam o público e os treinadores, que arrebatados com tamanha emoção, decretaram o jovem garoto de apenas oito anos como o promissor futuro da patinagem no gelo.

.

.

.

— Ouvi dizer que o seu irmão e o seu primo ganharam o campeonato regional, Ivanov. Você deve estar muito feliz.

A professora Anna sorria muito pouco. Ela era muito magra e toda a sua figura esbanjava elegância e perfeição, como Kari esperava um dia esbanjar ela própria. Ela deu uma estranha palmadinha no ombro da pequena.

— O Kai parece um anjo quando patina — a garota tentou sorrir, sem resultados. Embora o primo fosse uma imagem divina no ringue, era só pisar fora dele para que ela enxergasse toda a tristeza que existia em seu ser. — Professora Anna, você acha que um dia eu poderia parecer com um anjo ao dançar, também?

— Você é a minha dançarina mais promissora, oras. Embora devesse ter mais atenção à perna direita... Um dia, você poderá muito bem interpretar Odette!

Interpretar Odette, como a sua mãe? Os olhos de Kari brilharam esperançosamente, apenas para enevoarem-se com uma profunda tristeza, instantes mais tarde. Não, não interpretaria Odette jamais. Se quisesse permanecer junto da sua família, teria que desistir desses sonhos. E tornar-se numa patinadora.

.

.

.

— Você não é obrigada a tornar-se numa patinadora, Kari.

Kai observava a prima, enquanto ela brincava tristemente com o seu lanche. Os dois estavam nos jardins da mansão de Voltaire, aproveitando o raro sol de Verão.

— Papai não permitiu que Yuri voltasse para casa, Kai. Nem o Yuri nem você — ela olhou-o com os olhos rasos de lágrimas. — E estou cansada de estar sozinha.

— Mas o seu sonho é interpretar a Odette, não é? — o menino insistiu. — Não pode desistir desse sonho.

— O meu sonho é estar com a minha família. E eu fiz uma promessa — ela limpou o rosto úmido com as mãos, fungando logo depois. — Papai disse que só poderei ir para a Abadia quando completasse dez anos, se assim o quisesse. Pois é o que quero. Farei dez anos em Janeiro. Irei para o ano, entendeu? Então espere por mim por mais um tempinho.

O rapazinho não conseguiu contrariá-la outra vez. A verdade é que sentia a falta da prima, e egoisticamente, queria tê-la por perto, nem que para isso, ela tivesse que desistir do ballet e fosse obrigada a treinar desumanamente naquele colégio maldito. Também sabia, por instinto, que Yuri pensava o mesmo.

Ele aproximou o copo de suco dos lábios.

— Esperarei todo o tempo preciso. Afinal, família fica junta, não é?