N/A. Uau. Um ano inteiro sem atualizar. Nem sei se tenho mais leitores, mas caso ainda tenha, eu tenho uma dívida com vocês de terminar essa fic. Portanto, apesar da longa demora (e, perdão por isso), eu não vou desistir da história. Garanto isso. Vou tentar não demorar tanto para atualizar também.
Quanto ao capítulo... foi muito trabalhoso, reescrito milhões de vezes - tenho mais cinco versões diferentes dele no meu computador, e, não tenho a certeza se fiquei completamente satisfeita... mas acho que estava passando da hora de postar a continuação da vida de Kai, Boris, Tala e Kari. Espero que gostem. E que não desistam da fic, assim como eu não irei desistir dela i.i Perdão, pessoas. E boa leitura.
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Capítulo 5. Troca de papeis
Dimitri permanecia indiferente, enquanto observava a garotinha de dez anos e a sua bagagem empilhada no hall de casa.
— É mesmo isso que quer, Yekaterina.
— Sim, papai. Eu quero patinar. Quero ser tão boa quanto o Yuri e o Kai.
Dimitri franziu o cenho e não respondeu. Não tentaria persuadir a filha, até porque preferia que o seu futuro fosse a patinagem e não o ballet, que a tornaria numa cópia da sua falecida esposa. E também não conseguia dizer que lamentava que a filha estivesse saindo de casa. Cada dia mais ela espelhava mais e mais a sua mãe; e aquela imagem começava a assombrá-lo.
O motorista logo apareceu para levar as malas para o carro. Kari observou em silêncio as suas coisas sumindo daquela casa aos poucos e poucos, até que não restasse nada a não ser ela, uma pequena sombra ao lado do frio homem que chamava de pai. Então, pensando duas vezes antes de realizar o que tinha em mente, deu dois passos adiante, virando-se frente a frente a ele.
— Adeus, papai.
— Vejo-te nas férias.
Kari assentiu, embora já soubesse que tudo o que restaria nas férias seria a Dona Marie (que estava entregue as lágrimas, num canto do casarão) e um cartão postal. Ela esticou a mão em direção a de Dimitri, que a apertou. Estava curiosamente quente, e fora o toque mais caloroso e amistoso que Kari recebera do pai. Sorrindo, ela afastou-se, seguindo atrás do velho chofer que, terminando o seu trabalho, chegara para levá-la para junto do seu amado irmão.
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O escritório de Boris Balkov era um espaço amplo, moderno, e indiscutivelmente frio. Não havia fotografias de família ou sequer plantas. A decoração girava em torno da patinagem artística e toda ela tentava homenageá-la, mas, ainda assim, não havia, não possuía alma. A melhor escola da Rússia e uma das melhores academias do mundo, mas o quê exatamente estava, tentando ensinar?
Kari desviou a atenção para o diretor e apertou-lhe a mão. Estava tão fria quanto o olhar dele, embora estivesse tentando ser amistoso. O homem era alto e tudo nele, desde a cor dourada dos seus olhos ao nariz acentuando torto, a existência de rugas e até os cabelos roxos apelavam ao seu rigor.
Mas ainda não tinha alma. A menina recuou e passou a ver o anjo dançarino erguido ao lado de um dos instrutores de ginástica. Acenou-lhe com a cabeça. Boris apresentou os docentes, brevemente, depois disso. Natacha, Maximus. Dois robôs que lhe apertaram as mãos e analisaram-na de forma cirúrgica, considerando se também naquela pequena Hiwatari-Ivanov existia uma ponta de talento. Buscavam domá-la, de alguma maneira, robotizá-la. Kari não lhes disse nada relevante, limitando-se a seguir o protocolo, mas estava ofendida. A sua energia era extrema, efervescente; não podia ser domada. Ou robotizada.
Kari era a droga de um cisne.
— Onde está o Yuri? — a garota perguntou para o primo assim que saíram do escritório.
— Na aula.
— Por que você não está na aula também?
— A professora disse que estaria tudo bem se eu viesse, desde que não demorasse muito.
— Por que ela não deixou o Yuri fazer o mesmo?
Kai encolheu os ombros.
Kari entendeu.
— A gente se vê na hora do jantar — disse o menino, preparando-se para tomar o caminho contrário e interrompendo o silêncio tenso que entretanto se instaurara entre eles. — Estamos sempre na mesma mesa, você vai encontrar a gente.
A menina concordou, embora estivesse com um nó gordo na garganta.
— Tchau.
— Tchau.
Ela observou enquanto ele voltava a pôr as mãos nos bolsos, de um jeito todo acanhado, e se afastava. Enfim, voltou a seguir a monitora pelos corredores em silêncio. A Abadia exalava a um terror e solidão que não notara em suas visitas. Ali parecia fazer frio o tempo inteiro.
— Esse será o seu quarto — a monitora abriu uma porta rangente, largando a mala de mão num canto. — Por enquanto não precisará de se preocupar com colegas de quarto. Será só a senhorita.
Kari olhou das camas para ela, assentindo. A senhora pediu licença e saiu.
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Um burburinho incessante e recadinhos de papel fofocavam sobre a nova aluna da Abadia. É uma bailarina; ouvi dizer que fez uma participação especial num recital de verdade; e, principalmente é prima de Hiwatari eram os fuxicos fundamentais que não demoraram a chegar ao ouvido da própria Kari. Por onde quer que fosse os olhares dos alunos a seguiam, intensos a ponto de perfurá-la… juntamente com aqueles murmurinhos incómodos de fundo. Os seus colegas de classe – e, sobretudo, as meninas – não demoraram a taxá-la de metida e nem sequer lhe deram uma chance de aproximação. Durante a tarde, assim que ela meteu o pé dentro do ringue, uma menina de cabelos azuis a fez tropeçar e cair.
— Nossa, que descuidada — a menina olhou-a sem uma ponta de dó. — Nem parece que é prima do Hiwatari.
O que o seu primo tinha a ver com toda aquela história, Kari não entendeu. Ela apoiou-se na mureta a fim de levantar-se, já que ninguém tinha sido simpático a ponto de ajudá-la, e reuniu-se com os restantes alunos ao redor da treinadora. Era a Natacha, e ela prontamente explicou os tipos de exercícios que fariam naquele dia. De caras, Kari entendeu os seus lemas – disciplina, trabalho árduo e foco, além de uma exagerada obsessão pela perfeição que a própria professora não tinha ainda alcançado e provavelmente não alcançaria nunca. Ela era fria de paixão e elegância. Kari não demorou a decidir que alguém assim jamais chegaria aos pés da sua antiga tutora.
Na hora do jantar, como combinado, Kari procurou pela mesa de Kai e Yuri. O refeitório da Abadia era particularmente grande, e ela demorou bastante tempo. Por fim, quando estava prestes a desistir, encontrou uma excêntrica, mas familiar, cabeleira lilácea. Ela parou para observar.
— Kari — era Kai. Kari sorriu, aproximando-se.
— Aqui estão vocês — ela pousou o tabuleiro ao lado do primo. Yuri estava comendo e não lhe deu muita atenção, ao contrário do seu amigo, o dono dos cabelos lilases, que a ficou observando o tempo todo. — Você se chama Boris, não é?
— Pensei que fosse me chamar de Bryan outra vez — caçoou ele. — Senta aí. Bem-vinda, Ivanov.
— Obrigada.
Enquanto sentava-se e preparava-se para efetivamente comer, Kari não pode evitar, mas esperar que Yuri dissesse alguma coisa. O rapaz mal tinha olhado para cima do seu prato e permanecia indiferente ao que lhe acontecia ao redor. Ela aclarou a garganta.
— Eu senti a sua falta hoje, Yuri. O Kai veio ver-me no escritório, mas você não apareceu.
— Eu tinha coisas mais importantes para fazer.
A resposta fria veio-lhe tal e qual um tapa. A jovenzinha encolheu-se toda, pensando em algo para dizer, sem sucesso. Até Boris e Kai tinham ficado sem graça.
— O seu dia, Kari… — interveio Kai, entretanto mandando um olhar censurador na direção do ruivo. — Como foi?
— Ah… foi… diferente. Mas acho que dou conta.
Boris olhou para ela por um momento. Aquela sensação de que aquela garota não podia ser irmã do Ivanov tinha voltado.
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Naquela mesma noite, enquanto se preparavam para ir dormir, Boris virou-se para Yuri.
— Então… essa coisa de ter coisas mais importantes para fazer, hein?
— O que quer dizer?
— Cara, o que deu em você? Você esteve me alugando o mês inteiro com a chegada da sua irmã. E depois trata a pirralha desse jeito? Ela está assustada, sabe. Ouvi dizer que o dia dela não foi dos melhores.
— E daí?
O liláceo suspirou.
— Nada não. Eu só acho que deve ser uma droga, sabe? Desistir de fazer as coisas que você quer fazer por alguém e, depois, esse alguém nem se importar com você. Ou fingir que não se importa, que é mais idiota ainda. Eu te ouvi ontem a noite, sabe? Como era mesmo? "Cama, faz com que eu sonhe"?
Yuri sentiu as suas bochechas pinicando. No dia anterior, ocorreu-lhe fazer algo incrivelmente irracional. Ele já tinha onze anos, e como a maior parte dos garotos crescidos num ambiente repressor, ele não era a pessoa mais crente do mundo, ou alguém dado a grandes ilusões, destas que costumam seguir crianças por um bom tempo. Mas naquela noite ele estava cansado, ansioso e até assustado. Então, quando notou que Boris estava dormindo, ele ajoelhou-se ao lado da cama e repetiu, sussurrando e sentindo-se o maior idiota da face da terra, as palavras mágicas que Kari lhe dissera anos antes: "Cama faça com que eu sonhe". O mundo pareceu maior e mais escuro enquanto ele pronunciava os seus desejos.
— Faça com que eu sonhe e que no sonho tudo esteja bem — murmurava. — Que no meu sonho, o papai me ame, e a mamãe esteja viva, e a Kari não tenha que vir para cá e desistir de quem ela quer ser. Faça que isso aconteça pelo menos no sonho, porque eu sei que a realidade não pode ser assim. Porque a realidade é uma droga, e mamãe está morta, e eu estou condenado a ser o segundo melhor, e a Kari não pode ser a Odette, e o Kai tem que obedecer só ao vovô, e o papai me odeia. Então, faça com que eu sonhe, pelo menos, esta noite, porque amanhã tudo vai mudar de novo e desta vez a Kari vai mudar junto e eu não posso evitar isso.
Depois que acabou com o seu pedido, o ruivo voltou a deitar-se na cama e cobriu-se até ao nariz. Perguntou-se se era suposto sentir-se desse jeito – suspeitava que aquela droga de feitiço fosse para sentir-se melhor. Mas ele só sentia a garganta entalada com a vontade de chorar. Ele mordeu o lábio e tentou ficar quieto.
Provavelmente, não tinha ficado quieto o suficiente. Yuri cutucou o já deitado colega.
— Hei, Boris… o que exatamente você ouviu ontem?
— Quer mesmo que eu repita? "Ó cama, faça com que eu sonhe e que Kari não tenha que desistir de ser quem ela quer ser". Que droga foi essa, cara? Que você anda tomando?
— Isso foi… bem… er… argh.
Era isso. A sua vida estava oficialmente acabada.
— Sabe, eu não sei como é isso — Boris disse depois de um tempo, interrompendo o ruivo enquanto ele batia com a cabeça na parede. Yuri olhou para ele. — Ter uma irmã. Mas quando você veio para cá, eu sei que você se importava muito com ela.
— E você vivia tirando uma com a minha cara, por conta disso.
— É, mas era bem engraçado — o liláceo riu, para a frustração de Ivanov. — Você se lembra do que eu disse para você?
— Sim. Que eu era ridículo.
— Isso também, mas… eu estava falando de você ser um motivo de preocupação. Lembra? Quando te disse que você tinha que se preocupar mais com o seu spin…? Essa pessoa, motivo de preocupação, assustada, insegura e que não faz ideia de onde ela se meteu… nesse momento, essa pessoa é a sua irmã e não você. Nesse momento, você está tomando chocolate quente e vendo televisão. Nem sei por que eu estou te dizendo isso, mas… é por isso que você não precisa ser duro com ela. A escola e a situação já estão dando conta do recado. Além de que é muito ridículo, considerando a tua figura ontem.
Tala esperava por esse final.
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Três dias mais tarde, assim que Kari saiu do ringue, reparou que tinha alguém esperando por ela. A menina logo imaginou que fosse mais um para chacoteá-la, então não se deu ao trabalho nem de olhar para cima nem de esperar pelas provocações que eventualmente surgiriam. Só parou porque o indivíduo pegou-lhe no braço. Ela surpreendeu-se ao reconhecer a figura de Kai.
— Eu não acho que Yuri esteja agindo assim por mal — o mais velho comentou, depois de se acomodarem nas arquibancadas vazias. Ele retirou uma maçã da mochila.
— Eu sei. Ele só está assustado, como sempre. Cedo ou tarde isso passa. Já estamos acostumados, não é?
Eles observaram enquanto o Ice resurfacer aparecia para limpar o ringue.
— Você não está assustada? — a menina deu de ombros, não respondendo. — Você e o Yuri são tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos… Pensava que se tornaria Odette, sabe — mudou de assunto. — Toda essa graciosidade típica de uma bailarina será um desperdício nas Olimpíadas.
— Eu já disse para você, ser Odette é importante, mas estar com a minha família é muito mais. Vocês são tudo o que eu tenho, Kai. Você e o Yuri. Não posso escolher entre vocês e coisa alguma.
— Você é uma idiota.
— Mas eu sou tudo o que você tem.
Kai impediu-se de continuar mordendo a sua maçã. Querendo ou não, as palavras daquela criança irritante o perturbaram, possivelmente porque ela estava certa. A sua família resumia-se mesmo nela e no Yuri; sem eles, era somente um menino órfão, cujo destino era patinar para satisfazer os desejos mesquinhos do interesseiro avô. Sem eles, estaria só.
— Você pode dançar o Lago de Cisnes no gelo.
— Talvez. Mas primeiro tenho outras coisas para fazer. Primeiro eu preciso me tornar a melhor patinadora do mundo, competir nos melhores campeonatos ao lado do meu irmão e do seu lado, Kai. E só depois, quando tiver provado o meu valor, quando Yuri tiver me reconhecido, quando não tiver nenhuma garota para competir comigo, entrarei para uma Companhia de Dança, e serei Odette.
— Uma companhia de dança? Sabe que eles são viajantes errantes, não sabe? Não nos verá quase nunca.
— Lógico que os verei, estarão comigo na companhia! E você, Kai, interpretará o príncipe. Será o meu príncipe, patinando como um anjo pelo ringue, melhor do que qualquer bailarino do mundo…
O rapaz sorriu de lado.
— Isso é algum tipo de promessa?
— Sim — ela confirmou. — É uma promessa.
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Sábado à noite, quando estava se preparando para dormir, Kari ouviu alguma coisa batendo contra a janela. Verificou. Yuri estava do outro lado, encolhido por conta do frio e do próprio acanhamento. Ela abriu a abertura, esperando que ele entrasse.
— Você não tem colega de quarto? — ele finalmente indagou, depois de minutos de silêncio. Kari enfiou-se debaixo dos lençóis.
— Você já sabia disso.
— É, eu sabia.
Uma pausa.
— As coisas estavam finalmente certas, sabe? Eu já conhecia isso daqui, acordar cedo já não fazia diferença, e treinar... treinar tornou-se tudo. Eu conseguia dormir a noite inteira, porque eu não estava mais preocupado, não pensava mais no papai... ou eu você. E eu demorei tanto tempo para conseguir isso, se você soubesse como foi difícil conquistar tudo isso!... Quer dizer, as coisas, eu, o Boris, o Kai... o colégio. O colégio finalmente tornou-se o meu lar. E agora-
— O colégio continua sendo o seu lar, Yuri. A diferença é que agora eu estou aqui — os dois se olharam e Kari voltou a sentar-se. — Eu não quero um atalho para as coisas. Eu não vim para cá pensando que seria um campo de férias. Mas a nossa casa já não era o meu lar. Ela deixou de ser o meu lar quando você saiu de lá.
— Eu não vou facilitar as coisas para você — respondeu, depois de um tempo. Kari assentiu.
— Ok. Eu vou lutar. Eu vou lutar muito. Eu vou me tornar numa patinadora decente. Alguém que você quererá reconhecer.
O ruivo olhou para a irmã. Dez anos, apenas. E um metro e vinte e cinco – a guria era ridiculamente mais baixa que todo mundo da sua idade! Mas por que ela parecia tão maior – tão estupidamente mais velha do que ele?
— Eu acho que devo ir andando... o Wolborg, ele está bem?
— Sim.
— O... papai... ele perguntou por mim?
Kari hesitou. Veio-lhe a memória a sua própria figura perguntando algo muito semelhante para o primo, há poucos dias antes. Sorriu.
— Sim. Sim, ele... perguntou. Disse para você continuar com o bom trabalho.
Ela lutou contra o sentimento contraditório que surgiu assim que viu a expressão radiante que se apossara do rosto do irmão.
